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domingo, 1 de fevereiro de 2009

Episódios da Raia.14

O ”néon” do micro brilhava
a nota do ultramar trocava
o controlo social calava
a sopa do povo era fava.

Fava dura da amargura
escondida em doce ditadura
a carestia abundava fartura
silêncio, trabalho, perdura.

“Faro de Vigo” feito jornal
era notícia internacional
o “status quo” mais tradicional
convinha ao sistema nacional.

“Opus Dei” em seminário
excomungava todo o otário
da catequese paga em moeda
ao infeliz incauto sem queda

O labor na assistência social
fugia do choque laboral
nova missão, nova pastoral
alterava o povo, a moral

Os ventos traziam nova frescura
de ricas terras em noite escura
a mudança era luta social
o povo silenciava contestação
e lentamente – a emigração.

A estratégia do modelo
cristalizou no novelo
embora toda a entrega
não fuja a qualquer regra
de eremita e sacerdócio
de abnegação, sem ócio.
A moderna aldeia do Vaticano
definhava ano a ano!...

Todavia a obra fica:

Salão paroquial, centro de formação feminina,

creche para crianças, fontanários, lavadouros,

correios, assistência a idosos e pobres, posto médico, etc...

sábado, 31 de janeiro de 2009

Episódios da Raia.13

Esvoaçavam as tintas na paisagem
em alegres aguarelas sombrias
em notas musicais de aragem
artista em gaia carruagem.

O movimento expandia-se
em criatividade e idade
e da vila feita cidade
erguia-se grande, dizia-se.

O apodo de capital das artes
no negro impresso em jornais
é pedaço de ti, de tuas partes
dos teus segredos e baluartes

O homem parte
queda-se a arte.
Os vindoiros e seus tesouros
testemunharão teus louros!..

P’ra ti Isidoro
resta um coro.
O coro de artista....

Episódios da Raia.12

"Vim morrer a Gondarém
Pátria de contrabandistas.
A farda dos bandoleiros
Não consinto que ma vistas.
Numa banda a Espanha morta
Noutra Portugal sombrio
Entre ambos galopa um rio
Que não pára à minha porta.
E grito, grito: Acudi-me.
Ganhei dor. Busquei prazer.
E sinto que vou morrer
Na própria pátria do crime.
Vou morrer a Gondarém
Pátria de contrabandistas
A farda dos bandoleiros
Não consinto que ma vistas.
(Amália Rodrigues)

Na rua oblíqua da tua morada
segredava-me em noite cinzenta
que o fado canta e acalenta
destinos fatais em tormenta.

O estoicismo esconjuro
em praga fatal e perjúrio
mas “vim morrer a Gondarém...”
é enigma fadista mais além
escondido em ti, mais ninguém.

(Não sei)-“Pátria de contrabandistas”
da dor e prazer não fatalistas,
correu sonoro pela tua garganta
em enigma que nos espanta.

Nunca desvendou a pitonisa
o segredo, o espanto e o medo
da dança envolta em desterro,
do amor traído em tábua lisa.

“E aceito nas mão da noite
A memória por castigo”
sortilégio dionisíaco em dança
aberto ao mundo em postigo.

A tragédia em transgressão
da “gota” em testamento
deixa a dor e prazer em acção
como lema do teu lamento:
“Ganhei dor. Busquei prazer”
na rua oblíqua da tua morada
calei-me em segredo de dizer.

quarta-feira, 28 de janeiro de 2009

Episódios da Raia.11

Imbuído de acutilante voz
de altaneira fraga ribombava:
“Senatores romani”...romani...
Atónito quedava-se qualquer viandante
por sibilina oratória cantante.
Se Demóstenes na praia treinava,
a urze, o seixo e o pinho adorava
os gorjeios de tal orador iniciante.

O estro poético, em mítica figura,
alastrava-se em utópico devaneio
e a passagem da raia em permeio
deu prisão ao ousado trovador
com um baú de livros ao redor.

A triste sina de ser desertor
esconjurava maldição e dor.
Os ferros gemeram com tal ardor
num mês se abriram ao libertador.

A pátria gemia de saudades
e a língua de Camões sem idade
-“Esta ditosa Pátria amada”-
transitou por outra nacionalidade
a quatro lustros condenada.

“Por aqui não passou Cristo”
tão atrasado estava tudo isto!...
mas o poeta e orador perdura
e gravou sina em sepultura
pois a saudade é cultura
de sonho, amor e tortura.


(Emigrante, cavaleiro andante
de peito guerreiro,
não és o último, nem primeiro.)

domingo, 25 de janeiro de 2009

Episódios da Raia.10

Daquela janela em braço amplexo
Abraçavas as ilhas um tanto perplexo
de um país triste e complexo.

Daquela janela virada para o rio
era eu criança e tu já um tio
de direito, política - patavina
sabia eu, em rumos de sina.

Abraçavas tu a natureza
que fugia de ti em beleza
e nos meandros do teu pensamento
confluíam causas e testamento
“eu sei que morro por querer
a lusitana antiga liberdade”
longe estava eu da tua idade.
Luís – em letra gravada
Carlos de Almeida Braga.

Daquela janela era menino
sem escola nem ensino
hoje revejo-te na tua luta
por ideais ainda em disputa.

Os braços erguiam-se ao céu.
O povo tapado com véu
gemia em premente ignorância
pequeno e pobre na sua infância.

Daquela janela virada para rio
ainda jaz atento um olhar vazio
que a tua presença sempre acalenta
ideais que o tempo afugenta.

Episódios da Raia.9

Não há poema
que resista
à tua beleza, Ipanema.
Mas lá dos confins
se filtra em revista
a epopeia dos “pasquins”.
“Deus havia criado o sexo,
Freud criou a sacanagem”
O público ficava perplexo,
Atónito, partia para outra paragem.

Raramente, os jornais saíam dos comboios. Produto de luxo, o seu preço relembrava o salário de um trabalhador francês, quando eles foram lançados. Todavia a arte e engenho brotava em veia poética e sarcástica nos “Pasquins”.
Panfleto anónimo, sem hora nem dia, ribombava em eco sarcástico, que sedentos prelos sorviam e ouviam em sonoras gargalhadas, embalados em sôfrega audição, não fosse ele um ultraje à tradição.

Alcoviteiro, por excelência,
clamava por digno decoro.
O seu anúncio era urgência,
declamado em riso e coro.

Qualquer escândalo digno de um reconforto moral erguia-se em pluma incandescente, cujo objectivo era despertar a gente. As mais castas e doces donzelas, símbolo de cândida beleza, empalideciam com a esgrima e rima de ávidos e audazes faunos e poetas, que despertavam em poemas despidos de pérfidos cupidos .
Jornal anónimo, emproado em versos de força métrica resplandecia quando ecoava em qualquer voz sonora. Os ouvintes escutavam, gracejavam e uivavam aos secretos noticiários, gemendo os mais perdulários.
O seu conteúdo esvaziou-se no correr do tempo. As memórias longínquas situam-se muito antes dos anos 68, já que o “Pasquim” floriu no Brasil.
(“Pasquim – escrito que se afixa num lugar público e que contém expressões irónicas e curiosas sobre algum “affaire”, pessoa ou corporação”)

domingo, 18 de janeiro de 2009

Episódios da Raia.8

Numa banda a Espanha morta
Noutra Portugal sombrio
Entre ambos galopa um rio
Que não pára à minha porta.
E grito, grito: Acudi-me.
Ganhei dor. Busquei prazer.
E sinto que vou morrer
Na própria pátria do crime.

Vou morrer a Gondarém
Pátria de contrabandistas
A farda dos bandoleiros
Não consinto que ma vistas.
(Pedro Homem de Mello)


Do púlpito, sete núpcias ecoaram ao povo que não era ateu.
Porém, o insulto e desdém venceu :”patego, olha o balão!...”
“Danças bem ...
e apareces na televisão!...”
Poeta - recordo-te nas frias águas marinhas que se sobressaltavam com o teu passo firme, nas finas areias de Afife. A brancura das suas ondas escondiam a trama dos teus versos, em lentos gemidos. Porventura, as musas “gálias” teciam novelos de doce e suave inspiração.
“Povo que levas no rio, que talhas com teu machado,
as tábuas do meu caixão”.
As águas em aspersão entoavam, junto a teus pés, a nostalgia dos teus pensamentos que o vento escondia em secretos devaneios.
Em horas de aflição,
corrias do “Monte da Virgem”,
- que era televisão -
para encobrir saltos de programação.
E o dançarino, “fandangueiro”
que encantava do cume de Mangoeiro
e percorria toda a tropa
até ao fim do povoado – lugar da Mota,
debandava da sua toca
e dançava a “gotha”!...
a "gota" de Gondarém
que tu - poeta - dizias, melhor que ninguém!..
Não fosse meu calvário - Gondarém!...
Pedro!... era o teu nome - Homem de Melo.
Eis, aqui, um pouco do meu prelo!...

EUROPOLITIQUE: Recordando "Platero y Yo" ....Juan Ramón Jiménez

  Na minha tenra idade escutava os poemas de “ Platero y yo” , com uma avidez e candura própria da inocente e singela juventude, que era o ...