A fama não o precedia, nem pela expulsão de demónios, nem pela fama de esconjurar
espíritos maus. No campo desta espiritualidade gozava de um certo ceticismo pela
divina transcendência, que tais ofícios merecem, e, por isso, se destinam aos ascéticos
intervenientes. Ao contrário das coisas transcendentes, conduziam-no as coisas
imanentes, mais nas profundezas da natureza humana, exatamente, no seio oculto da virgindade.
Portanto, nada de deslumbramentos, de escapulários ou águas
bentas, que o demo ou outro ente similar, por vezes, enfeitiça os espíritos mais
fracos, com as suas satânicas artimanhas.
O abade não tinha cara de frade, nem
de sacristão. Era um leigo tornado cristão, do fundo do coração.
Conduzia-o,
sim, a certeza mais hábil e subtil em certos tufos escondidos de sedosos
cabelos, que acoitam segredos, com respeito pela sua natureza. Aliás, se por baixo do monte de Vénus se oculta algum tesouro que a natureza ignora, o
seu desvendamento atinge legítimos prémios de gozo e felicidade; e, o seu capital atesta a
segurança e conforto marital, dando as garantias de primícia de qualquer fruto
virginal.
O atestado desta pureza original sendo um dote, uma prenda, era um recurso
frequente de virgens penitentes, que demandavam por um certificado de virgindade.
Por arte e ofício clerical, o padre exibia os seus dotes no mais consagrado "selo
de virgindade" - garantia que qualquer noivo ansiava. Esta peritagem de
virgindade merecia inconformadas dúvidas naturais, já que de coisas imanentes se
trava, mas subtilmente e de forma celestial tornavam-se transcendentes por obra de um padre, com dotes
sobrenaturais. E, palavra dita, era bendita, não só por função, mas também por
unção. Por isso, o "selo de virgindade" exibia-se com a sua autenticidade.
Destes factos e destas crenças, não pactuava o exímio bailador, fugaz
dançarino, cujo nome era Domingos. Na igreja, por sete vezes, anunciou casamento, e ao sétimo, casou. Se, Deus ao sétimo dia descansou, Domingos casou ao sétimo anúncio
clerical. Não se divorciou, foi fiel e assim morreu. Não pediu nenhum
certificado de virgindade, nem da castidade se lembrou, somente aos céus agradeceu.
Mas, infelizmente, a filha de Domingos, quase uma Madalena arrependida, com a cara escondida, dizia: «sinto-me uma mulher perdida».