O casamento de António Joaquim Fernandes Lima, por azar ou destino, durou pouco tempo, já que a sua consorte faleceu. Entretanto, já D. Rosa Joaquina Pereira Lima, de seu nome de casamento, tinha dado à luz Ana Maria Fernandes de Lima. A futura herdeira daquela que se chama, presentemente, a “quinta do Outeiral”, era neta dos primeiros donos, cuja avó tinha, também, o mesmo prenome - Ana. Mas, a tradição oral ainda se recorda da "quinta do Lima", em pleno século XX, e, de quem carinhosamente tratava por "Aninhas".
Para calar as dores da sua angústia e
sofrimento, o abastado brasileiro decidiu fazer obras de restauro e prolongamento das
iniciadas pelo Cónego de Braga, construindo um autêntico promontório - as varandas do paço. Um novo edifício com um salão
com nobres e altas arcadas enobrecem a casa do senhor ou dono do paço, de onde se desvenda a paisagem que se espelha nas suaves águas do
rio, emoldurado das suas verdes e viçosas margens, onde duas ilhas refulgem na sua serenidade. Tanto hoje como ontem, as rubras cores dos crepúsculos de
Verão, anunciando os seus dias quentes, enfeitiçam aqueles que ousem penetrar na
sua contemplação. Outrora, na sua balaustrada reluzia uma menina, uma jovem e inocente
princesa que encantaria o novato advogado e político, oriundo da cidade dos
arcebispos, cujo nome era Carlos Almeida Braga.
Em pleno século dezoito misturam-se proprietários com caseiros ou feitores de cujas castas e linhagens sobressaiem alguns notáveis. Assim aos vinte e três anos de idade surge nos
Arquivos da Torre do Tombo (1779), João Manuel Guerreiro de Amorim Pereira, como
bacharel de Coimbra, sendo depois Conselheiro e Ministro da Fazenda, desligando-se
da “rica casa de lavoura”, que tinha em Gondarém. Alvitra-se que seus pais
seriam João Amorim Pereira e D. Ana Maria Guerreiro. O nascimento deste filho
dá-se pelo ano de 1756, ao qual também se juntaria Manuel Caetano Guerreiro de
Amorim, chefe das milícias de Cerveira, além do famoso Cónego da Sé de Braga,
João Crisóstomo, mas sem confirmação de tal irmandade. Aponta-se que a filiação
deste agregado familiar teria três homens e duas mulheres. Por outro lado, as
referências a D. João Amorim Pereira apontam para o ano de 1798. Estas datas
não se coadunam com a reconstrução da dita Quinta do Outeiral que se presume
que aconteça no século XVII.
A nível da tradição popular a "quinta do Cónego" passa a ser conhecida como a "quinta do Lima". Os novos senhores da família Lima investiram o suficiente para a requisição deste nome. Mas, a habilidade jurídica do antigo Cónego da Sé de Braga foi essencial no registo definitivo da propriedade, cuja data de óbito é de 5 de Outubro de 1855.
A antiga burguesia rural tinha, nas
suas quintas, a fonte dos seus rendimentos. Nos séculos anteriores à
industrialização, que acontece no século XIX, a riqueza agrícola provinha da exploração da natureza, e, também do trabalho dos seus servos. Nos tempos de António Joaquim Fernandes Lima, a actividade agrícola recaía sobre os seus proprietários, que estavam sempre presentes na quinta. Além disso, a sua posição social tinha sido reconhecida nas funções da direção da Santa Casa da Misericórdia de Vila Nova de Cerveira. Mas, por tradição laboral, desenvolviam-se duas castas ou linhagens de
sucessão: os donos ou proprietários e os caseiros ou feitores, que tratavam das quintas, que se tornavam tão importantes como os seus patrões. A quinta do Lima, essencialmente agrícola, em pleno século XX, virá a sofrer desta dualidade de exploração, por ausência dos seus senhores. A dita "quinta do Outeiral" conserva, através da sua padroeira, o seu nome de Ana, que se reflete na família Lima.