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sábado, 31 de janeiro de 2009

Episódios da Raia.13

Esvoaçavam as tintas na paisagem
em alegres aguarelas sombrias
em notas musicais de aragem
artista em gaia carruagem.

O movimento expandia-se
em criatividade e idade
e da vila feita cidade
erguia-se grande, dizia-se.

O apodo de capital das artes
no negro impresso em jornais
é pedaço de ti, de tuas partes
dos teus segredos e baluartes

O homem parte
queda-se a arte.
Os vindoiros e seus tesouros
testemunharão teus louros!..

P’ra ti Isidoro
resta um coro.
O coro de artista....

Episódios da Raia.12

"Vim morrer a Gondarém
Pátria de contrabandistas.
A farda dos bandoleiros
Não consinto que ma vistas.
Numa banda a Espanha morta
Noutra Portugal sombrio
Entre ambos galopa um rio
Que não pára à minha porta.
E grito, grito: Acudi-me.
Ganhei dor. Busquei prazer.
E sinto que vou morrer
Na própria pátria do crime.
Vou morrer a Gondarém
Pátria de contrabandistas
A farda dos bandoleiros
Não consinto que ma vistas.
(Amália Rodrigues)

Na rua oblíqua da tua morada
segredava-me em noite cinzenta
que o fado canta e acalenta
destinos fatais em tormenta.

O estoicismo esconjuro
em praga fatal e perjúrio
mas “vim morrer a Gondarém...”
é enigma fadista mais além
escondido em ti, mais ninguém.

(Não sei)-“Pátria de contrabandistas”
da dor e prazer não fatalistas,
correu sonoro pela tua garganta
em enigma que nos espanta.

Nunca desvendou a pitonisa
o segredo, o espanto e o medo
da dança envolta em desterro,
do amor traído em tábua lisa.

“E aceito nas mão da noite
A memória por castigo”
sortilégio dionisíaco em dança
aberto ao mundo em postigo.

A tragédia em transgressão
da “gota” em testamento
deixa a dor e prazer em acção
como lema do teu lamento:
“Ganhei dor. Busquei prazer”
na rua oblíqua da tua morada
calei-me em segredo de dizer.

quarta-feira, 28 de janeiro de 2009

Episódios da Raia.11

Imbuído de acutilante voz
de altaneira fraga ribombava:
“Senatores romani”...romani...
Atónito quedava-se qualquer viandante
por sibilina oratória cantante.
Se Demóstenes na praia treinava,
a urze, o seixo e o pinho adorava
os gorjeios de tal orador iniciante.

O estro poético, em mítica figura,
alastrava-se em utópico devaneio
e a passagem da raia em permeio
deu prisão ao ousado trovador
com um baú de livros ao redor.

A triste sina de ser desertor
esconjurava maldição e dor.
Os ferros gemeram com tal ardor
num mês se abriram ao libertador.

A pátria gemia de saudades
e a língua de Camões sem idade
-“Esta ditosa Pátria amada”-
transitou por outra nacionalidade
a quatro lustros condenada.

“Por aqui não passou Cristo”
tão atrasado estava tudo isto!...
mas o poeta e orador perdura
e gravou sina em sepultura
pois a saudade é cultura
de sonho, amor e tortura.


(Emigrante, cavaleiro andante
de peito guerreiro,
não és o último, nem primeiro.)

domingo, 25 de janeiro de 2009

Episódios da Raia.10

Daquela janela em braço amplexo
Abraçavas as ilhas um tanto perplexo
de um país triste e complexo.

Daquela janela virada para o rio
era eu criança e tu já um tio
de direito, política - patavina
sabia eu, em rumos de sina.

Abraçavas tu a natureza
que fugia de ti em beleza
e nos meandros do teu pensamento
confluíam causas e testamento
“eu sei que morro por querer
a lusitana antiga liberdade”
longe estava eu da tua idade.
Luís – em letra gravada
Carlos de Almeida Braga.

Daquela janela era menino
sem escola nem ensino
hoje revejo-te na tua luta
por ideais ainda em disputa.

Os braços erguiam-se ao céu.
O povo tapado com véu
gemia em premente ignorância
pequeno e pobre na sua infância.

Daquela janela virada para rio
ainda jaz atento um olhar vazio
que a tua presença sempre acalenta
ideais que o tempo afugenta.

Episódios da Raia.9

Não há poema
que resista
à tua beleza, Ipanema.
Mas lá dos confins
se filtra em revista
a epopeia dos “pasquins”.
“Deus havia criado o sexo,
Freud criou a sacanagem”
O público ficava perplexo,
Atónito, partia para outra paragem.

Raramente, os jornais saíam dos comboios. Produto de luxo, o seu preço relembrava o salário de um trabalhador francês, quando eles foram lançados. Todavia a arte e engenho brotava em veia poética e sarcástica nos “Pasquins”.
Panfleto anónimo, sem hora nem dia, ribombava em eco sarcástico, que sedentos prelos sorviam e ouviam em sonoras gargalhadas, embalados em sôfrega audição, não fosse ele um ultraje à tradição.

Alcoviteiro, por excelência,
clamava por digno decoro.
O seu anúncio era urgência,
declamado em riso e coro.

Qualquer escândalo digno de um reconforto moral erguia-se em pluma incandescente, cujo objectivo era despertar a gente. As mais castas e doces donzelas, símbolo de cândida beleza, empalideciam com a esgrima e rima de ávidos e audazes faunos e poetas, que despertavam em poemas despidos de pérfidos cupidos .
Jornal anónimo, emproado em versos de força métrica resplandecia quando ecoava em qualquer voz sonora. Os ouvintes escutavam, gracejavam e uivavam aos secretos noticiários, gemendo os mais perdulários.
O seu conteúdo esvaziou-se no correr do tempo. As memórias longínquas situam-se muito antes dos anos 68, já que o “Pasquim” floriu no Brasil.
(“Pasquim – escrito que se afixa num lugar público e que contém expressões irónicas e curiosas sobre algum “affaire”, pessoa ou corporação”)

domingo, 18 de janeiro de 2009

Episódios da Raia.8

Numa banda a Espanha morta
Noutra Portugal sombrio
Entre ambos galopa um rio
Que não pára à minha porta.
E grito, grito: Acudi-me.
Ganhei dor. Busquei prazer.
E sinto que vou morrer
Na própria pátria do crime.

Vou morrer a Gondarém
Pátria de contrabandistas
A farda dos bandoleiros
Não consinto que ma vistas.
(Pedro Homem de Mello)


Do púlpito, sete núpcias ecoaram ao povo que não era ateu.
Porém, o insulto e desdém venceu :”patego, olha o balão!...”
“Danças bem ...
e apareces na televisão!...”
Poeta - recordo-te nas frias águas marinhas que se sobressaltavam com o teu passo firme, nas finas areias de Afife. A brancura das suas ondas escondiam a trama dos teus versos, em lentos gemidos. Porventura, as musas “gálias” teciam novelos de doce e suave inspiração.
“Povo que levas no rio, que talhas com teu machado,
as tábuas do meu caixão”.
As águas em aspersão entoavam, junto a teus pés, a nostalgia dos teus pensamentos que o vento escondia em secretos devaneios.
Em horas de aflição,
corrias do “Monte da Virgem”,
- que era televisão -
para encobrir saltos de programação.
E o dançarino, “fandangueiro”
que encantava do cume de Mangoeiro
e percorria toda a tropa
até ao fim do povoado – lugar da Mota,
debandava da sua toca
e dançava a “gotha”!...
a "gota" de Gondarém
que tu - poeta - dizias, melhor que ninguém!..
Não fosse meu calvário - Gondarém!...
Pedro!... era o teu nome - Homem de Melo.
Eis, aqui, um pouco do meu prelo!...

sábado, 17 de janeiro de 2009

Episódios da Raia.7

Porventura, seria um privilégio ter um passaporte na mão, milagroso exibir uma "licença militar".
O "R8" acelerava na bordejante paisagem, agitado pelos seus cabelos de azeviche, qual poltro ofegante, repleto de avidez da natureza, desnorteado pelos ventos e impacto da sua beleza.
"Après toi..." era melodia cinéfila e marinha
que escondia penedos salgados em plena via.
O batente do portal estremecera com o aviso da GNR, suavemente associado à amizade que é sal da vida. O oficial da Justiça relembrava apuramento e formatura, depois de o "hospital militar" declarar aptidão e candidatura.
Tanto telefone e zelo dava em fartura;
o medo e alvoroço escondiam esconjura.
Mas o Outono pardacento
acenava com novo vento.
A folha branca dobrada no passaporte timbrou-se à sua volta,
deixando um poltro à solta.
"Après toi..." Outono cinzento e punjente
Abril surgiu, libertou a gente
e, o grão de areia eclodiu sobrevivente!...

EUROPOLITIQUE: Recordando "Platero y Yo" ....Juan Ramón Jiménez

  Na minha tenra idade escutava os poemas de “ Platero y yo” , com uma avidez e candura própria da inocente e singela juventude, que era o ...