Sem dúvida que a página mais consultada deste Blogue tem sido a “Mediação Protocolar” de 15.12.2010.
Nem imaginem os leitores deste “blogue” que o autor foi recebido com metralhadora nos jardins do Palácio Cor de Rosa de Lisboa, para audiência no terceiro andar, e perante tal ousadia protocolar somente faltava que fosse recebido no “Quai d’Orsay”, de igual modo.
Por isso, a razão do artigo de 15.12.2010.
Habituado às férias dos pilotos franceses em terras lusitanas, sendo estes habituais conhecedores da força dos “Mirage”, e associado, indirectamente, à "livre circulação" da famosa “moreninha tripartida”, nos círculos militares gauleses, a credibilidade de uma “Mediação Protocolar” reúne condições que qualquer entendido em diplomacia estratégica não menosprezaria.
Todavia as realidades políticas são diferentes. Se por acaso, se publicasse um artigo de imprensa sobre um país africano, o “Quai d’Orsay”, amigavelmente, convidaria o jornalista. Aqui, fundamenta-se internacionalmente a sua defesa, sobretudo em meio americano, porque a livre expressão tem limites, em terras lusitanas.
Todavia não é de armamento que transborda esta questão, é simplesmente de elucidação, e os leitores tem tido a amabilidade da sua compreensão.
A questão é que um pequeno país à beira mar plantado estava suficientemente ilustrado, nas suas altas esferas, da conjuntura de mudanças no Norte de África.
Quando se fala de informação, quer dizer, que estamos um passo avançado em relação aos outros!...
Porém, parece que certa informação e o conhecimento não valem dinheiro!...
Mas como na “guerra do dinheiro”, estamos condenados ao lixo, no sentido de Jean Paul Sartre, entre mortos e vivos, o “blogue” há-de se salvar!... (Porque apoio externo não faltará!...).
Lembrem-se, aqueles franceses se ainda estão vivos, a "Pantera Cor de Rosa", se não faz, pelo menos escreve: "Ça bouge, Quai d'Orsay"!...
"Audaces fortuna iuvat!..."
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quinta-feira, 7 de julho de 2011
Episódios angolanos.5. "Tem granada!....Tem granada!..."
Escondidos nas curvas e por baixo de arbustos, era uma táctica e estratégia comum da força policial, tanto em terras lusas como gaulesas.
“Stop!...”
Penduradas as bouças em saudáveis embondeiros, ou semelhantes árvores de reposteiro, erguiam-se como caixas de “esmola aos santos”, quer dizer, as malas dos agentes de trânsito.
“Stop!...”
O maço de papéis enredava a consulta, portanto, o mais provável era a multa.
Mas saber negociar fazia parte do enleio e do paleio.A nobre função estatal escondia os interesses pessoais, cuja avidez se sobrepunha à função executiva.
Os mais recentes agentes ainda não tinham entrado na engrenagem policial, mas já se tornavam peritos no suborno das mais variadas peripécias, e tudo servia para encontrar “documento” sem ponto nem vírgula, sujeito à detenção.
Vangloriava-se certo chefe policial que qualquer almoço sem a “verde garrafinha” não tinha sabor, nem gracinha.
Portanto, a caça à multa tornava-se imperial.
Estes “nobres agentes” tinham andado no mato, e a sua adaptação à vida citadina implicava mudanças interiores que a rudeza matagal ainda não tinha colmatado. Ao contrário de certa elite militar que se esbanjava em mordomias salariais e sociais, o elo mais fraco tinha de ir para a estrada, para o ...
“Stop”.
Ainda não recomposto das sequelas da mata, José Malungo manda parar o carro.
"Stop".
Soberanamente pergunta:
- O pescoço?!...
- As duas moças ficaram assustadas com a utilização da palavra “pescoço” e ripostaram.
- O que é isso do pescoço!... Mas rapidamente intuíram que era o Bilhete de Identidade e mostraram os respectivos documentos, ao mesmo tempo que sentiram um mão roçando os seus seios, ouviram:
- “Tem granada!... tem granada!.... “
A condutora deu um grito com tanta força, que José Malungo deixou cair os documentos.
Irritadas com tanta prepotência, rapidamente o “stop” transformou-se em “no stop”.
Diz uma amiga para a outra:
“Acelera que é...
- Stop”.
copyright - Luságua.
quarta-feira, 6 de julho de 2011
EURO POLITIQUE 105 . Kadafi e a "Rainha de Inglaterra"
O famoso “guru”, guia e orientador da revolução da Líbia desmentia que não tinha qualquer poder na sua pátria, reassumindo o papel da Rainha de Inglaterra. ("Ipsis verbis", no começo do conflito).
Os factos desmentem que verdadeiramente o poder de Tripoli reside sobre o Coronel Kadafi, o seu séquito ou clã, e a sua resistência reveste contornos políticos, estragégicos e diplomáticos.
Os pragmatistas franceses, "de algibeira bem fornecida", da diplomacia diplomática e estrangeira exibem argumentos que sustentam uma autêntica panóplia de direitos ocidentais que aflige qualquer tipo de visão, não fosse ela repleta de etnocentricismo ocidental.
Ultimamente o “guru” da Revolução Líbia reclama o direito, não só a uma existência tranquila no seu território, como também o acesso às contas monetárias do seu clã.
(Ideia velha velha, gasta e fora de uso!...)
Fica pendente a exigência permanente de um dos seus filhos de gerir um autêntico partido à medida e figura do grande líder da Revolução Líbia.
("Ideia velha, gasta e fora de uso!... )
“Pas d’accord” - diz logo, o Conselho de Transição Líbio.
Infelizmente, Portugal pouco tem a dizer neste intercâmbio de interesses financeiros e políticos. A diplomacia não é simplesmente representação simbólica!...É algo mais que isso!..
Aliás, Portugal sempre comprou petróleo aos líbios, e, nesta altura, fica "a ver navios", ou, a "caravana a passar" no deserto (das ideias e do pragmatismo), pagando, pesadamente, os “demandos” e extravios de tal condução, por um "prato de lentilhas".
Os interesses financeiros e os lucros do petróleo ultrapassam qualquer tipo de direitos e soberania, de forma que a população continua à deriva, face às estratégias menos condizentes. E que dizer do papel da China?!...
Certamente que a perspectiva europeia, ou seja, a sua visão etnocêntrica tem todo o interesse em dialogar com a perspectiva africana, e de outros povos, se quiser encontrar um sentido de direcção.
Até lá, enquanto os cifrões perduraram, Tripoli continuará impávida e serena, se os mantimentos não escassearem. A "guerra do dinheiro" ultrapassa qualquer tipo de valores!...
Entretanto:
"La rébellion avait affirmé dimanche qu'elle se préparait à une double offensive pour reprendre des secteurs perdus et se rapprocher de Tripoli. "Dans les deux prochains jours, de nouveaux développements auront lieu sur cette ligne de front", avait déclaré, le 3 juillet, le porte-parole rebelle, Ahmed Omar Bani, en expliquant qu'ils avaient l'intention de pousser la ligne de front vers le nord, en direction de Tripoli."
Os factos desmentem que verdadeiramente o poder de Tripoli reside sobre o Coronel Kadafi, o seu séquito ou clã, e a sua resistência reveste contornos políticos, estragégicos e diplomáticos.
Os pragmatistas franceses, "de algibeira bem fornecida", da diplomacia diplomática e estrangeira exibem argumentos que sustentam uma autêntica panóplia de direitos ocidentais que aflige qualquer tipo de visão, não fosse ela repleta de etnocentricismo ocidental.
Ultimamente o “guru” da Revolução Líbia reclama o direito, não só a uma existência tranquila no seu território, como também o acesso às contas monetárias do seu clã.
(Ideia velha velha, gasta e fora de uso!...)
Fica pendente a exigência permanente de um dos seus filhos de gerir um autêntico partido à medida e figura do grande líder da Revolução Líbia.
("Ideia velha, gasta e fora de uso!... )
“Pas d’accord” - diz logo, o Conselho de Transição Líbio.
Infelizmente, Portugal pouco tem a dizer neste intercâmbio de interesses financeiros e políticos. A diplomacia não é simplesmente representação simbólica!...É algo mais que isso!..
Aliás, Portugal sempre comprou petróleo aos líbios, e, nesta altura, fica "a ver navios", ou, a "caravana a passar" no deserto (das ideias e do pragmatismo), pagando, pesadamente, os “demandos” e extravios de tal condução, por um "prato de lentilhas".
Os interesses financeiros e os lucros do petróleo ultrapassam qualquer tipo de direitos e soberania, de forma que a população continua à deriva, face às estratégias menos condizentes. E que dizer do papel da China?!...
Certamente que a perspectiva europeia, ou seja, a sua visão etnocêntrica tem todo o interesse em dialogar com a perspectiva africana, e de outros povos, se quiser encontrar um sentido de direcção.
Até lá, enquanto os cifrões perduraram, Tripoli continuará impávida e serena, se os mantimentos não escassearem. A "guerra do dinheiro" ultrapassa qualquer tipo de valores!...
Entretanto:
"La rébellion avait affirmé dimanche qu'elle se préparait à une double offensive pour reprendre des secteurs perdus et se rapprocher de Tripoli. "Dans les deux prochains jours, de nouveaux développements auront lieu sur cette ligne de front", avait déclaré, le 3 juillet, le porte-parole rebelle, Ahmed Omar Bani, en expliquant qu'ils avaient l'intention de pousser la ligne de front vers le nord, en direction de Tripoli."
segunda-feira, 4 de julho de 2011
Episódios angolanos.4. "Ícaro em prisão"
Reluziam os Mercedes prateados conjuntamente com os fatos acetinados de encontro ao edifício envidraçado em plena rua curvilínea, já que tão nobre “embaixada” se vangloriava na sua fachada.
A “task force” policial exibia no colar branco da negritude dos pescoços as elegantes gravatas italianas de recentes quadros, avidamente encaixados na sua arte e ofício.
“Affair” que é “affair” requer tempo e emoção, estudo e caução, quando o “money” é da nação. (Parece, "maning nice".)
A estadia prolongou-se pelo mês em frente, tal era a exaustão e profundidade da problemática envolvente, não fosse a eficácia reduzir a uma semana este imbróglio, cujo novelos entreteciam a sua urdidura.
Ocasionalmente, os desvios tornavam-se uma certa constante, dada a profusão monetária do jorro de petróleo que inundava e ensopava em terra africana.
Existiam algumas somas que dadas a sua exorbitância planeavam pelas folhas dos jornais esfumando-se como nuvens de tabaco, ou, recaíam na alçada de uma esmerada justiça, todavia, este pequeno “affair” tornara-se um verdadeiro “case study”.
Toda a aquisição de aprendizagem nos meandros da sua engrenagem despertava o interesse desta “task force” policial, deslocada propositadamente de uma capital africana para outra capital europeia.
Por isso, o prolongamento da sua estadia não se devia tanto à vil soma monetária, mas tanto à argúcia do seu mentor. Como foi possível que um simples amanuense tivesse a ousadia de disparar, em catadupa, alguns milhões de dólares das contas do erário público?!...
A conta hoteleira dependia da habilidade do sistema de ratoeira. Deste modo, a vileza de tal acto devia-se superar pela nobreza dos fatos acetinados, condizentes com os Mercedes prateados.
Quando a soma é pequena torna-se um roubo; e casa roubada implica trancas na porta, quando a soma é grande torna-se desvio, sumiço ou feitiço.
Várias vezes, Demóstenes consultou o curandeiro, célebre pelas suas “macunbas” no bairro “Roque Santeiro”, na periferia de Luanda. Aspergiu os documentos com uma cândida benzedura para que o seu voo até Lisboa levasse um verdadeiro sumiço e feitiço. Mas como a mercadoria era demasiado pesada, este incauto Ícaro não previu o sol reluzente destes agentes, e, tornou-se num osso e um quebra-cabeças para a “task force” policial que transformou uma semana num mês de aturada e criteriosa investigação.
Mas quem rouba a ladrão, tem sempre cem anos de perdão!...
Copyright - Luságua.
domingo, 3 de julho de 2011
Episódios angolanos.3. "Os cem dólares da Mariquinhas"
O uniforme escolar é uma tradição inglesa que se mantém nos colégios lusitanos, mas que normalmente soa como eco tradicionalista nos países africanos de origem cultural portuguesa.
Todavia mantém-se como princípio de identificação e de segurança das “teenagers.”
O mealheiro familiar ocultava 100 dólares, já que a moeda nacional sofre continuamente as flutuações e variações de câmbios, e, torna-se “chique” o recurso ao papel internacional das terras do tio Sam, a não ser que se exibia um autêntico punhado ou "monte" de notas nacionais superiores, como sinónimo da “moeda mais forte do mundo”.
O fetiche da “nota verde” é mundial, apesar do Irão ter fabricado milhões de exemplares desta moeda, aliás o seu encanto torna-se realidade quando a sua paridade se mantém com o famoso “ouro negro”.
O sumiço dos 100 dólares consumia a paciência da dona de casa, que alvitrava de desconfiança em relação à empregada de serviço, vulgo, de criada.
Várias vezes questionada sobre o desaparecimento do brilho e calor das notas verdes, retorquia negativamente que tal ousadia não se podia imputar aos seus préstimos. Como é normal, o elo mais fraco é sempre alvo de questionamento, inquirição e acusação, de forma que todas as dúvidas pairavam sobre a humilde doméstica. Mas como sem provas, não há acusação, o benefício da dúvida continuava do seu lado, perante a peremptória negação de tal facto.
Densa nuvem pairou sobre o voo dos famosos cem dólares. Aliás, as pardacentas nuvens encobriam um raio de luz e esperança sobre o céu e a terra. Para o céu certamente não voaram, porque as "notas verdes", famosas mundialmente, ainda não tem asas. Para a terra, era o mais provável, porque o seu movimento tinha de ser na horizontal, e não na vertical. Embora, para destampar o famoso bule, ou mealheiro, alguém lhe desse sumiço, sem qualquer magia ou feitiço.
Embora o feitiço seja um elemento cultural da civilização africana nesta questão de moeda conta é o seu peso, a sua materialidade, e, também o seu alcance.
Se as indagações não surtiram efeito na classe empregadora, os alvos recaíam sobre duas “teenagers” que alegremente percorriam os passos da sua juventude em idade escolar.
Tornara-se hábito e tradição, infelizmente, uma certa chantagem da classe de alguns professores na exigência de certos favores, por parte dos discentes em matérias de difícil negociação. Se o meio socio-económico não permitia veleidades na troca de favores de “bens da natureza”, o recurso à “nota verde”, de fama mundial, tornou-se num álibi de recompensa.
Mariquinhas negou à primeira e segunda vez. Mas perante a insistência destemida da mãe resolveu confessar.
“Fui eu, mamã!...” Por quê, insistiu, amarguradamente.
“Foi para passar de ano”.
Copyright - Luságua.
quinta-feira, 30 de junho de 2011
Episódios Angolanos.2 - "O Tapete Voador"
O azeviche acre dos seus cabelos recaía sobre os seios rubicundos que uma pele acetinada de cobre debruava em negritude fugidia. Florêncio Silva deambulava, um pouco atónito, pelos cadeirões do salão de beleza e seus espelhos, que exibiam a recente e esbelta empregada, ciosa e cuidadosa do seu ofício.
Embora sem grande experiência no seu ofício, a sua presença e “glamour” enchiam e preenchiam os requisitos necessários e suficientes para tal função. Se, por acaso, a inveja, a intriga ou o ciúme despontassem no seu alvoroço dentro do meio feminino, certamente que rapidamente seriam abafados pela cortesia e elegância que naturalmente despontavam de tal presença.
Florêncio Silva não andava nas nuvens, simplesmente planava num “tapete voador”. E, para desviar a imagem do seu sonho que saltitava na sua imaginação, lançou-se às encomendas dos produtos de beleza que encomendava de uma capital europeia. Estar na vanguarda do progresso e da inovação na arte dos cabelos e sua estética, impunha-se como sinónimo de ser pioneiro em terras africanas. Nunca, consigo, certo tipo de anátemas de atraso funcionariam por força de estar em África. Sistematicamente ligado aos salões de beleza de Lisboa, encomendava os produtos, perfumes e bálsamo mais modernos e adequados às exigentes clientes africanas. Aliás, a importação dos produtos estéticos sofriam de uma taxa penalizadora que habilmente era amortecida pela troca de remessa e câmbios mais caseiros, oportunos e pessoais.
O salão de beleza regurgitava de uma clientela bastante razoável. Corria de boca em boca que Florêncio vivia confortavelmente, embora esse conforto não se vislumbrasse na simplicidade que o caracterizava. Avesso à política, às questões sociais, somente o seu pequeno negócio reluzia na sua mente como símbolo de bem-estar e tranquilidade pessoal. Convivia tranquilamente com qualquer tipo de pessoas, sem exibir grandes luxos externos. Os lucros do negócio eram aplicados no contínuo melhoramento do seu espaço. Território limpo, asseado e cheiroso, ainda mais quando a mais recente funcionária ilustrava, como um quadro, a paisagem que harmoniosamente compunha o seu ideal de salão de beleza.
Contudo, Florêncio Silva não escapava ao olhar matreiro de certos artistas, amigos do alheio. Como, externamente não exibia grandes traços de luxo, presumia-se que internamente escondia algo de mais precioso. A vigilância entre o espaço comercial e o rumo habitual para sua casa foi marcada e remarcada pela força e urgência de malévolas circunstâncias.
Florêncio Silva acordou, despertou do sono e sonho que continuamente martelava a sua imaginação por causa da recente imagem da nova funcionária, porque empregada é um termo de menor condição, mas sentiu uma linha horizontal que se prolongava um palmo acima da sua cabeça. A cama e o seu complemento, ou seja, o estrado, tinham desaparecido, encontrando-se simplesmente deitado no colchão, ele, Florêncio Silva e a sua ilusão.
“Roubaram-me a cama” – Rosnou, placidamente com a tranquiladade que o caracterizava. Olhou em redor, e, reparou que alguns objectos, também tinham desaparecido.
Levantou-se com tantas outras histórias que já tinha ouvido, e pelas quais passara incólume, mas que nesse dia, recaíram sobre si. Mas toda esta desgraça caseira, que uma certa nudez desvendara, toda ela era preenchida com a beleza que deslumbrava nos seus olhos quando se concentrava no salão de beleza. E, logo de manhã cedo estava a abrir as portas do salão de beleza às suas empregadas, ou melhor dito, às suas funcionárias.
“Dormiu bem, patrão” – questionaram, docemente as empregadas.
“Ora, se dormi. Nem dei conta de acordar, sem a minha a cama” – retorquiu, secamente, Florêncio Silva.
“Não diga que foi roubado, patrão!...” - indagaram, de novo, as empregadas.
“Sim, a cama fugiu!...” – Anui, quase sorridente, Florêncio Silva.
“Se calhar não era cama, era um tapete voador” – Ripostou, uma das empregadas, a quem o entusiasmo e encantamento pela nova funcionária não escapara.
“Tapete voador”.
Copyright - Luságua.
segunda-feira, 27 de junho de 2011
Episódios angolanos.1 - "Olha o fato do morto"
O casamento de mano Joaquim Salavisa impunha uma indumentária condigna perante os mais variados convidados para gáudio da boda: festa garrida e multicolor, com sons de batuque e tambores.
A cerimónia matrimonial estava agenciada para uma pequena e verdejante quinta que Diogo Salomão, hábil comerciante, mandara reconstruir e verdejar, do seu antigo feitiço, após benzedura e aspersão, contra o espantalho de antigos mortos moradores que deambulavam mentalmente na imaginação popular. Mas desde que o ruído frenético dos tambores e batuques ecoava pelo seu verde capim e relvado, a quietude tornou-se apanágio daquele espaço, avidamente disputado para festas casamenteiras. O moderno “green” encantava e deslumbrava com o seu tom florido de acácias, palmeiras e coqueiros, tornando-se num bálsamo para os suaves e delicados pés das noivas ardentes pelo consumo de uma relação oficial.
Na sua simplicidade de recente negociante Diogo Salomão, exclamava:
“não tem preço, este doce chão”.
Ora no chão, na terra está o condimento da nossa condição.
Fortunato Salavisa engendrava um meio de representação condizente com o casamento de seu mano Joaquim, arrais de embarcação e senhor de certas posses. Por isso, sistematicamente sonhava com o velório e enterro daquele “homem branco”, rico benfeitor da terra, e, também muito admirado pelas suas gentes. Recordava-se, continuamente da sua pose hirta, dentro de um caixão, que causava calafrio. Mas, sobretudo rodopiava na sua mente aquele lindo fato que brilhava com esplendor e cor, em contraste com a sumida pele moribunda. Embalsamado em tão rica indumentária a seus olhos, o “homem branco” foi coberto pela terra vermelha, sem tecto nem telha; ou seja, numa simples campa rasa.
Assim, Fortunato, convidado fraterno de Joaquim Salavisa, não podia apresentar-se sem a dignidade que a cerimónia matrimonial impunha. Por isso, após hesitações e decisões, destemidamente enfrentou a rua do cemitério, escavou fundo até ao caixão, pediu graças e perdões, e, retirando a indumentária do “homem branco”, esbracejou de satisfação com o lindo fato, porque "a um morto tudo se perdoa".
A festa de casamento decorria nas suas variadas cerimónias e rituais, enquanto Fortunato se aconchegava ao seu novo fato, que tinha sido alvo de encómios e elogios, tão era bela a sua indumentária!...
Fortunato acalentava um sorriso interior de gozo e satisfação, quando as belas donzelas sorriam nos seus dentes de marfim, ousando, por sua vez, fazer frente ao orgulho da beleza angolana. Já não prestava atenção à variedade de manjares da lauta mesa de casamento, repentinamente para se concentrar nos passos seguintes que a música desenhava nas suas formas de galanteio feminino. E, sem rodeios desata aos convites às belas damas presentes, sem qualquer sucesso ou recompensa. Face a tal vexame e humilhação, humildemente, dirige-se à sua antiga amiga Dina, e desafa:
“Ninguém quer dançar comigo”
Com uma sonora gargalhada, Dina retorquiu:
“Tem macumba, tem macumba, tem...”
Fortunato Salavisa largou rapidamente o espaço da cerimónia, antes que ouvisse qualquer voz infortuna: “Olha o fato do morto”.
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