Seu nome era “Benigno”
e das notas musicais,
- digno.
Os mancebos apurados
não perdiam a concertina
em rancho desbocados
cantavam a sua sina!...
O abade detestava bailes
e as moças em xailes
fugiam da GNR em surdina
com desgosto da concertina.
Somente nas desfolhadas
os seus trinos ecoavam
entre abraços afogadas
peitos gemiam e soltavam
amores e paixões caladas.
Curvado na sua música
o rancho, por vezes, ensaiava
mas a nota soava pudica,
presa porque não voava!...
Estilava em gorjeio
em rápido timbre lamacento
de qualquer copo cheio
sem toldar o livre pensamento
E a concertina
de que “Benigno”
era digno
seguia esta sina
de calar-se e mostrar-se
de alegrar o povo
com riso e desgosto
com aviso de “posto”
pois soltar o seu trino
somente – tu – Benigno.
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sábado, 7 de março de 2009
domingo, 1 de fevereiro de 2009
Episódios da Raia.14
O ”néon” do micro brilhava
a nota do ultramar trocava
o controlo social calava
a sopa do povo era fava.
Fava dura da amargura
escondida em doce ditadura
a carestia abundava fartura
silêncio, trabalho, perdura.
“Faro de Vigo” feito jornal
era notícia internacional
o “status quo” mais tradicional
convinha ao sistema nacional.
“Opus Dei” em seminário
excomungava todo o otário
da catequese paga em moeda
ao infeliz incauto sem queda
O labor na assistência social
fugia do choque laboral
nova missão, nova pastoral
alterava o povo, a moral
Os ventos traziam nova frescura
de ricas terras em noite escura
a mudança era luta social
o povo silenciava contestação
e lentamente – a emigração.
A estratégia do modelo
cristalizou no novelo
embora toda a entrega
não fuja a qualquer regra
de eremita e sacerdócio
de abnegação, sem ócio.
A moderna aldeia do Vaticano
definhava ano a ano!...
a nota do ultramar trocava
o controlo social calava
a sopa do povo era fava.
Fava dura da amargura
escondida em doce ditadura
a carestia abundava fartura
silêncio, trabalho, perdura.
“Faro de Vigo” feito jornal
era notícia internacional
o “status quo” mais tradicional
convinha ao sistema nacional.
“Opus Dei” em seminário
excomungava todo o otário
da catequese paga em moeda
ao infeliz incauto sem queda
O labor na assistência social
fugia do choque laboral
nova missão, nova pastoral
alterava o povo, a moral
Os ventos traziam nova frescura
de ricas terras em noite escura
a mudança era luta social
o povo silenciava contestação
e lentamente – a emigração.
A estratégia do modelo
cristalizou no novelo
embora toda a entrega
não fuja a qualquer regra
de eremita e sacerdócio
de abnegação, sem ócio.
A moderna aldeia do Vaticano
definhava ano a ano!...
Todavia a obra fica:
Salão paroquial, centro de formação feminina,
creche para crianças, fontanários, lavadouros,
correios, assistência a idosos e pobres, posto médico, etc...
sábado, 31 de janeiro de 2009
Episódios da Raia.13
Esvoaçavam as tintas na paisagem
em alegres aguarelas sombrias
em notas musicais de aragem
artista em gaia carruagem.
O movimento expandia-se
em criatividade e idade
e da vila feita cidade
erguia-se grande, dizia-se.
O apodo de capital das artes
no negro impresso em jornais
é pedaço de ti, de tuas partes
dos teus segredos e baluartes
O homem parte
queda-se a arte.
Os vindoiros e seus tesouros
testemunharão teus louros!..
P’ra ti Isidoro
resta um coro.
O coro de artista....
em alegres aguarelas sombrias
em notas musicais de aragem
artista em gaia carruagem.
O movimento expandia-se
em criatividade e idade
e da vila feita cidade
erguia-se grande, dizia-se.
O apodo de capital das artes
no negro impresso em jornais
é pedaço de ti, de tuas partes
dos teus segredos e baluartes
O homem parte
queda-se a arte.
Os vindoiros e seus tesouros
testemunharão teus louros!..
P’ra ti Isidoro
resta um coro.
O coro de artista....
Episódios da Raia.12
"Vim morrer a Gondarém
Pátria de contrabandistas.
A farda dos bandoleiros
Não consinto que ma vistas.
Numa banda a Espanha morta
Noutra Portugal sombrio
Entre ambos galopa um rio
Que não pára à minha porta.
E grito, grito: Acudi-me.
Ganhei dor. Busquei prazer.
E sinto que vou morrer
Na própria pátria do crime.
Vou morrer a Gondarém
Pátria de contrabandistas
A farda dos bandoleiros
Não consinto que ma vistas.
(Amália Rodrigues)
Na rua oblíqua da tua morada
segredava-me em noite cinzenta
que o fado canta e acalenta
destinos fatais em tormenta.
O estoicismo esconjuro
em praga fatal e perjúrio
mas “vim morrer a Gondarém...”
é enigma fadista mais além
escondido em ti, mais ninguém.
(Não sei)-“Pátria de contrabandistas”
da dor e prazer não fatalistas,
correu sonoro pela tua garganta
em enigma que nos espanta.
Nunca desvendou a pitonisa
o segredo, o espanto e o medo
da dança envolta em desterro,
do amor traído em tábua lisa.
“E aceito nas mão da noite
A memória por castigo”
sortilégio dionisíaco em dança
aberto ao mundo em postigo.
A tragédia em transgressão
da “gota” em testamento
deixa a dor e prazer em acção
como lema do teu lamento:
“Ganhei dor. Busquei prazer”
na rua oblíqua da tua morada
calei-me em segredo de dizer.
Pátria de contrabandistas.
A farda dos bandoleiros
Não consinto que ma vistas.
Numa banda a Espanha morta
Noutra Portugal sombrio
Entre ambos galopa um rio
Que não pára à minha porta.
E grito, grito: Acudi-me.
Ganhei dor. Busquei prazer.
E sinto que vou morrer
Na própria pátria do crime.
Vou morrer a Gondarém
Pátria de contrabandistas
A farda dos bandoleiros
Não consinto que ma vistas.
(Amália Rodrigues)
Na rua oblíqua da tua morada
segredava-me em noite cinzenta
que o fado canta e acalenta
destinos fatais em tormenta.
O estoicismo esconjuro
em praga fatal e perjúrio
mas “vim morrer a Gondarém...”
é enigma fadista mais além
escondido em ti, mais ninguém.
(Não sei)-“Pátria de contrabandistas”
da dor e prazer não fatalistas,
correu sonoro pela tua garganta
em enigma que nos espanta.
Nunca desvendou a pitonisa
o segredo, o espanto e o medo
da dança envolta em desterro,
do amor traído em tábua lisa.
“E aceito nas mão da noite
A memória por castigo”
sortilégio dionisíaco em dança
aberto ao mundo em postigo.
A tragédia em transgressão
da “gota” em testamento
deixa a dor e prazer em acção
como lema do teu lamento:
“Ganhei dor. Busquei prazer”
na rua oblíqua da tua morada
calei-me em segredo de dizer.
quarta-feira, 28 de janeiro de 2009
Episódios da Raia.11
Imbuído de acutilante voz
de altaneira fraga ribombava:
“Senatores romani”...romani...
Atónito quedava-se qualquer viandante
por sibilina oratória cantante.
Se Demóstenes na praia treinava,
a urze, o seixo e o pinho adorava
os gorjeios de tal orador iniciante.
O estro poético, em mítica figura,
alastrava-se em utópico devaneio
e a passagem da raia em permeio
deu prisão ao ousado trovador
com um baú de livros ao redor.
A triste sina de ser desertor
esconjurava maldição e dor.
Os ferros gemeram com tal ardor
num mês se abriram ao libertador.
A pátria gemia de saudades
e a língua de Camões sem idade
-“Esta ditosa Pátria amada”-
transitou por outra nacionalidade
a quatro lustros condenada.
“Por aqui não passou Cristo”
tão atrasado estava tudo isto!...
mas o poeta e orador perdura
e gravou sina em sepultura
pois a saudade é cultura
de sonho, amor e tortura.
(Emigrante, cavaleiro andante
de peito guerreiro,
não és o último, nem primeiro.)
de altaneira fraga ribombava:
“Senatores romani”...romani...
Atónito quedava-se qualquer viandante
por sibilina oratória cantante.
Se Demóstenes na praia treinava,
a urze, o seixo e o pinho adorava
os gorjeios de tal orador iniciante.
O estro poético, em mítica figura,
alastrava-se em utópico devaneio
e a passagem da raia em permeio
deu prisão ao ousado trovador
com um baú de livros ao redor.
A triste sina de ser desertor
esconjurava maldição e dor.
Os ferros gemeram com tal ardor
num mês se abriram ao libertador.
A pátria gemia de saudades
e a língua de Camões sem idade
-“Esta ditosa Pátria amada”-
transitou por outra nacionalidade
a quatro lustros condenada.
“Por aqui não passou Cristo”
tão atrasado estava tudo isto!...
mas o poeta e orador perdura
e gravou sina em sepultura
pois a saudade é cultura
de sonho, amor e tortura.
(Emigrante, cavaleiro andante
de peito guerreiro,
não és o último, nem primeiro.)
domingo, 25 de janeiro de 2009
Episódios da Raia.10
Daquela janela em braço amplexo
Abraçavas as ilhas um tanto perplexo
de um país triste e complexo.
Daquela janela virada para o rio
era eu criança e tu já um tio
de direito, política - patavina
sabia eu, em rumos de sina.
Abraçavas tu a natureza
que fugia de ti em beleza
e nos meandros do teu pensamento
confluíam causas e testamento
“eu sei que morro por querer
a lusitana antiga liberdade”
longe estava eu da tua idade.
Luís – em letra gravada
Carlos de Almeida Braga.
Daquela janela era menino
sem escola nem ensino
hoje revejo-te na tua luta
por ideais ainda em disputa.
Os braços erguiam-se ao céu.
O povo tapado com véu
gemia em premente ignorância
pequeno e pobre na sua infância.
Daquela janela virada para rio
ainda jaz atento um olhar vazio
que a tua presença sempre acalenta
ideais que o tempo afugenta.
Abraçavas as ilhas um tanto perplexo
de um país triste e complexo.
Daquela janela virada para o rio
era eu criança e tu já um tio
de direito, política - patavina
sabia eu, em rumos de sina.
Abraçavas tu a natureza
que fugia de ti em beleza
e nos meandros do teu pensamento
confluíam causas e testamento
“eu sei que morro por querer
a lusitana antiga liberdade”
longe estava eu da tua idade.
Luís – em letra gravada
Carlos de Almeida Braga.
Daquela janela era menino
sem escola nem ensino
hoje revejo-te na tua luta
por ideais ainda em disputa.
Os braços erguiam-se ao céu.
O povo tapado com véu
gemia em premente ignorância
pequeno e pobre na sua infância.
Daquela janela virada para rio
ainda jaz atento um olhar vazio
que a tua presença sempre acalenta
ideais que o tempo afugenta.
Episódios da Raia.9
Não há poema
que resista
à tua beleza, Ipanema.
Mas lá dos confins
se filtra em revista
a epopeia dos “pasquins”.
“Deus havia criado o sexo,
Freud criou a sacanagem”
O público ficava perplexo,
Atónito, partia para outra paragem.
Raramente, os jornais saíam dos comboios. Produto de luxo, o seu preço relembrava o salário de um trabalhador francês, quando eles foram lançados. Todavia a arte e engenho brotava em veia poética e sarcástica nos “Pasquins”.
Panfleto anónimo, sem hora nem dia, ribombava em eco sarcástico, que sedentos prelos sorviam e ouviam em sonoras gargalhadas, embalados em sôfrega audição, não fosse ele um ultraje à tradição.
Alcoviteiro, por excelência,
clamava por digno decoro.
O seu anúncio era urgência,
declamado em riso e coro.
Qualquer escândalo digno de um reconforto moral erguia-se em pluma incandescente, cujo objectivo era despertar a gente. As mais castas e doces donzelas, símbolo de cândida beleza, empalideciam com a esgrima e rima de ávidos e audazes faunos e poetas, que despertavam em poemas despidos de pérfidos cupidos .
Jornal anónimo, emproado em versos de força métrica resplandecia quando ecoava em qualquer voz sonora. Os ouvintes escutavam, gracejavam e uivavam aos secretos noticiários, gemendo os mais perdulários.
O seu conteúdo esvaziou-se no correr do tempo. As memórias longínquas situam-se muito antes dos anos 68, já que o “Pasquim” floriu no Brasil.
(“Pasquim – escrito que se afixa num lugar público e que contém expressões irónicas e curiosas sobre algum “affaire”, pessoa ou corporação”)
que resista
à tua beleza, Ipanema.
Mas lá dos confins
se filtra em revista
a epopeia dos “pasquins”.
“Deus havia criado o sexo,
Freud criou a sacanagem”
O público ficava perplexo,
Atónito, partia para outra paragem.
Raramente, os jornais saíam dos comboios. Produto de luxo, o seu preço relembrava o salário de um trabalhador francês, quando eles foram lançados. Todavia a arte e engenho brotava em veia poética e sarcástica nos “Pasquins”.
Panfleto anónimo, sem hora nem dia, ribombava em eco sarcástico, que sedentos prelos sorviam e ouviam em sonoras gargalhadas, embalados em sôfrega audição, não fosse ele um ultraje à tradição.
Alcoviteiro, por excelência,
clamava por digno decoro.
O seu anúncio era urgência,
declamado em riso e coro.
Qualquer escândalo digno de um reconforto moral erguia-se em pluma incandescente, cujo objectivo era despertar a gente. As mais castas e doces donzelas, símbolo de cândida beleza, empalideciam com a esgrima e rima de ávidos e audazes faunos e poetas, que despertavam em poemas despidos de pérfidos cupidos .
Jornal anónimo, emproado em versos de força métrica resplandecia quando ecoava em qualquer voz sonora. Os ouvintes escutavam, gracejavam e uivavam aos secretos noticiários, gemendo os mais perdulários.
O seu conteúdo esvaziou-se no correr do tempo. As memórias longínquas situam-se muito antes dos anos 68, já que o “Pasquim” floriu no Brasil.
(“Pasquim – escrito que se afixa num lugar público e que contém expressões irónicas e curiosas sobre algum “affaire”, pessoa ou corporação”)
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