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domingo, 29 de novembro de 2020

EUROPOLITIQUE: Sentido e significado de cidadania.


O "jovem Demóstenes" (outrora, chamado "boca d'oiro") não treinava a sua "maviosa voz" com os seixos das praias da Grécia, que endureciam e fortaleciam a sua garganta, mas, o mais recente tribuno, do alto do seu espigueiro familiar, em terras minhotas, deixava fluir pelos ecos do outeiral, a célebre proclamação introdutória dos mais famosos discursos latinos : «Senatori romani...  Senatori romani...».

Se não era o Cícero, em primeira pessoa e na sua bela língua latina, com as suas declinações afinadas, era, porventura, o mais veemente tribuno peninsular, que de ousada chama acesa e ventricular, invectivava  os sonolentos senadores romanos, para a mais elaborada sentença discursiva que se desprendia, por todos os tempos pelos vales do Rio Minho.

Noutros tempos, o chamado "rio das areias douradas", por onde se escoava o oiro e a prata, até à cidade eterna de Roma, reclamava que os "senadores romanos" não esquecessem o tributo que estas terras lhe concederam, como legítima parcela do seu império. Era digno e justo recordar que as antigas alianças permitiram aos romanos entesourar os seus cofres com as moedas que espalharam pelo seu império, ao mesmo tempo que estabeleceram as suas vias terestres e marítimas para chegar a estes confins da terra plana. 

"Finis terra", era o último cabo marítimo do Noroeste Peninsular que se erguia na Galiza do Norte, que o "delfim orador" do «Senatori Romani...»reclamava como marca e fronteira do império romano. Mas nas suas costas, corria o rio das "areias douradas", de cuja memória evocavam as lições do seu mestre ou decano, que , através de um sistemático cumprimento pessoal, se debatia com a saudação de "patrício" - "olá, patrício"!... 

Inicialmente, este cumprimento, quase soava a "moeda falsa", de cuja identidade se desconfiava da sua sinceridade. Mas, a «história de um pilar da democracia", por Lourenço Pereira Coutinho, alertou-nos para esta questão da "cidadania".  

«Em Roma, os direitos de cidadania estavam reservados originalmente aos descendentes da cidade, os patrícios. A partir de finais do século V a.C., estenderam-se aos plebeus e depois, com o império, foram sucessivamente alargados aos povos conquistados. Finalmente, no século III d.C., o imperador Caracala assinou um édito que reconheceu a cidadania romana a todos os habitantes livres do império» (Revista Expresso de 27.11.2020).

«...a cidadania social ou, o reconhecimento do direito universal à saúde, à educação e à proteção contra a exclusão».

Por ironia do destino, o eco da voz de "Senatori Romani..." deambulou por terras gaulesas, deixando um rastro de solidão (por exclusão, desta  sua reclamação e própria entoação de "Esta ditosa, Pátria amada"!...). 



quarta-feira, 25 de novembro de 2020

EUROPOLITIQUE: Por uma hermenêutica da heteronímia em Fernando Pessoa

 

 

Regina Olsen está para Sóren Kierkeggard (filósofo dinamarquês), como Ofélia está para Pessoa (poeta português).

Ambos deixaram os seus amores para se dedicaram “de corpo e alma” à produção das suas obras: um, na filosofia, outro, na poesia, ainda que a literatura faça parte dos dois. Mas, ambos são prisioneiros desta catarse operada pelo filtro da heteronímia.

F. Pessoa constrói o seu primeiro heterónimo, quando ele tinha um ano. Não satisfeito com esta precocidade, logo surge outro heterónimo com a idade dos seus três anos. (O processo comunicativo de F. Pessoa parece que procura fugir ao "Conceito de Angústia", que tanto caracteriza Kierkegaard, e que foi publicado, precisamente,  no mesmo ano, em que se inventou o telégrafo). Um indagando o "conceito", e fugindo à selva brasileira; o, outro "encharcando-se" e mergulhando na via poética.

Portanto, antes dos seus três anos de idade, e, antes da manifestação do complexo de Édipo estabelece-se o processo criativo do Poeta. Poder-se-ia dizer que num retorno à sua infância estatuem-se três figuras da sua personalidade que intensamente dialogam entre si, neste processo inicial.

O primeiro é Alberto Caeiro, simples, sereno e  ligado à natureza através da manifestação opulenta da força do inconsciente; o outro, é Álvaro de Campos, engenheiro de profissão, simboliza a razão, a civilização e o progresso, onde a matemática e a contenção que o próprio F. Pessoa, tanto, desdenhava, mas que “durou mais tempo que o próprio” (pg.32)

Eu nunca guardei rebanhos,

Mas é como se os guardasse.

Minha alma é como um pastor,

Conhece o vento e o sol

E anda pela mão das Estacões

A seguir e a olhar.

Toda a paz da Natureza sem gente

Vem sentar-se a meu lado.

Esta trilogia que nasce e se afirma até aos três anos de idade do poeta  é, talvez,  um esboço, procurado através da infância: o nascimento do “eu”, do inconsciente e do superego, ou seja, as três estruturas defendidas pela psicanálise. Mas, o facto de F. Pessoa ter perdido o pai com a idade de 5 anos não parece reunir, sumariamente, as condições necessárias à rejeição do processo analítico do chamado “complexo de Édipo”, tão típico da psicanálise. Parece que o processo de identificação com a figura paternal foi operado, na sua identificação com na masculinidade, e, foi realizado, pelo menos, dentro da sua temporalidade, quer dizer, dentro do seu tempo normal de desenvolvimento.

No entanto, a fixação da data de 1889, como ano do nascimento de Alberto Caeiro, um dos seus primeiros pseudónimos, quando ele tinha somente um ano de idade, remete para um desejo de retorno ou regresso à infância. Aliás, desde a infância ressurgia dentro de si a construção de personagens, segundo afirma o Poeta. Mas, este possível retorno à infância redobra-se com o nascimento de um segundo pseudónimo: Álvaro de Campos.

Ora, este segundo pseudónimo acontece em 15 de outubro de 1891, quando Pessoa atinge os três anos de idade. (Sintomática inscrustação edipiana!...) Embora se situe a nível de uma vinculação do desejo na sua heteronomia, ele incrusta-se numa fase crítica do desenvolvimento da sua personalidade.

Ora, entre os 3 e 5 anos de idade do Poeta, situa-se, normalmente, o seu processo de identificação, formação e assimilação do papel e da figura do masculino ou do feminino. Dado que F. Pessoa nasceu, em 13 de junho de 1888, e, em 13 de julho 1893, faleceu o seu pai, o processo de masculinidade estaria resolvido, ou, completo. Mas, ao remeter para a sua fase de infância dois destes pseudónimos, na sua  idade mais crítica de  desenvolvimento infantil, será plausível aceitar o desdém,que ele sente pela “sexualidade, própria ou alheia”?

«Poucos especialistas seriam capazes de sintetizar tão bem a originalidade da contribuição freudiana à psicologia, e, por extensão, à crítica literária: a descoberta do inconsciente (que Pessoa chama de “subconsciente”), a importância da sexualidade em todas as manifestações humanas e, o que mais interessa a nós, críticos literários, a explicitação dos fenômenos de “translação”, isto é, de metaforização. Sobre a existência do inconsciente, o poeta diz que já tinha chegado, pessoalmente, àquela conclusão. Sobre o segundo tópico, diz que tinha feito “menos observações, dado o pouco que sempre me interessou a sexualidade, própria ou alheia”» (Cf. João Gaspar Simões).

Embora, a crítica à psicanalise seja legítima, como processo totalitário de explicação de todos os sintomas, a teoria da libido, como "energia perversa e polimórfica", é extremamente rica, interessante e estruturante no processo criativo. Esta polarização e plasticidade da libido envolve-se na sua heteronímia, não de forma estrutural, mas, assumidamente, de forma inconsciente que o próprio Poeta procura negar. "Ninguém é observador e observado ao mesmo tempo", por isso, a denegação está implícita ao próprio processo psicanalítico, e, também ao processo criativo. 

Se, Adolfo Casais Monteiro critica este “freudismo” de J. Gaspar Simões, é através de um processo de recalcamento quer do inconsciente, quer da energia da libido que nasce toda a energia para o processo criativo. Deste modo, a natureza nasce com Alberto Caeiro, carecendo de um tampão para o comando desta força incontrolável, que é a força da libido, que surge e aparece em Álvaro de Campos.

 (Ambos, os primeiros heterónimos são  A. C., ou seja, totalmente inseridos na força da natureza)

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terça-feira, 24 de novembro de 2020

EUROPOLITIQUE: Um fingimento que é dor sentida em que o "poeta é um fingidor" - Fernando Pessoa.

 

O poeta é um fingidor

Finge tão completamente

Que chega a fingir que é dor

A dor que deveras sente.

 

E os que lêem o que escreve

Na dor lida sentem bem

Não as duas que ele teve,

Mas só a que eles não têm.

 

E assim nas calhas de roda

Gira, a entreter a razão

Esse comboio de corda

Que se chama o coração.     (1 - 4 - 1931)


«Cada uma das suas quadras representa um conceito» (pg. 51), ou seja, (a conclusão de um hermético silogismo: “o poeta é um fingidor), aliás, como faz referência João Gaspar, e bem, “o poeta não finge”.

Efetivamente, o poeta sofre e sofre demais, que o diga o "agrilhoado" Fernando Pessoa, que parece um Prometeu, roubando aos deuses algum segredo.

«Não basta a etimologia da palavra máscara, para me iludir como pessoa. Como, a sua própria sonoridade não fosse objeto de comunicação. E, no teatro da vida não sofresse esta metamorfose que me angustia». O poeta sofre de tal forma que procura iludir que não há sofrimento.

Não é, por acaso, que F. Pessoa chama o poema de “Autopsicografia”. Psicólogo da sua própria pessoa, ou, máscara, que se afirma como fingidor. Embora, alguém diga: «por isso é legítimo, e simultaneamente errado, afirmar que esta poesia é autobiográfica. Seria mais seguro dizer que reflete e recompõe muita materia autobiográfica» (1)

Exala das suas entranhas uma angústia existencial, que somente o fingimento revela como dor incarnada. Todavia, o poeta é também um ator, que utlizando uma máscara, esconde o seu interior.

Esta minha dor, totalmente minha, pessoal, e, intransmissível aproxima-se daquela dor filosófica: “ this is my pain” de Ludwig Wittgenstein nas suas “Investigações Filosóficas”. O poeta diz: «não as duas que ele teve”, aquela que é comunicada e a outra que é intransmissível; ou seja, aquela que é visível, e a outra que permanece “invisível”.

Objetivamente, o poeta tenta “comunicar esta dor, mas queda-se como fingidor, já que não consegue "relançar no vazio" uma experiência de dor, que os outros nunca tiveram ou não têm.

«Em conclusão "Autopsicografia" encerra, em verdade o pensamento justificativo daquilo a que temos de chamar o «caminho alquímico», através do qual Fernando Pessoa comunica como Absoluto» (pg. 53). Apesar do conteúdo notável da hermenêutica literária de João Gaspar Simões, não relançamos o Absoluto como "porta de saída" do seu poema.

Recentrámos, o poeta, neste jogo do tempo e do mundo, em que o “motor do coração”, como máquina das sensações e dos sentimentos, se afirma através do seu movimento, e, deste modo se desvincula da razão.

Em vez de transcendência, gira-se um imanentismo, tipicamente pessoal e "pessoano " Eu sou um poeta, diria Pessoa, “eu sou um fingidor”, que carrega em si a dor.

É pelo movimento da sua poesia, pelas épocas vindouras que o tempo arrasta que o apreço da sua obra se deve concluir. No centro da dor e do fingimento permanece o coração no seu movimento.

«Os que lêem o escrito/escritor», não sou eu “o que escreve»?

(1) Poesia Ortonónima - Fernando Pessoa, obra essencial por Richard Zenith, ( in prefácio , o drama de ser "eu") pg. 5, Aletheia Editore,  Pub. Expresso, Lisboa  2015

 N.B. (pg. 51 e 53) - SIMÕES, João Gaspar "Fernando PESSOA" - ensaio interpretativo da sua Vida e Obra - Ed. Texto Editores  e Edições Expresso, Lisboa 2011.

segunda-feira, 23 de novembro de 2020

EUROPOLITIQUE: Fernando Pessoa e a gnoseologia da filosofia platónica (contraditória com Eduardo Lourenço)

Neste mundo em que esquecemos

Somos sombras de que somos

E os gestos reais que temos

São aqui esgares e assomos.

Tudo é noturno e confuso


No que entre nós aqui há

Projeções, fumo difuso

Do lume que brilha oclulso

Ao olhar que a vida dá.

Estas duas quintilhas poéticas tendem a demonstrar que Fernando Pessoa conhecia bem a filosofia de Platão. Embora, João Gaspar Simões advogue que “contém em síntese o essencial do pensamento ocultista de Fernando Pessoa” (pg.54).  O poema expressa, poeticamente, a divisão de dois mundos platónicos, cujo pano de fundo é iluminado pelo reflexo de uma luz, imagem, ou seja, a fogueira da “Alegoria da Caverna”.

Na primeira quintilha, Fernando Pessoa destaca o universo platónico na sua dualidade de mundo inteligível e mundo sensível, em que está envolvida a teoria da reminiscência, com a sua ideia de recordação e esquecimento. O obstáculo do corpo, ou seja, o mundo sensível e dos sentidos sobrepõe-se ao mundo da alma e das ideias, de tal modo que nós, somente somos sombras imperfeitas daquilo já contemplámos, e, que agora esquecemos.

Na segunda quintilha evidencia-se a “Alegoria da Caverna” de Platão, em que a condição de agrilhoados ao mundo sensível, somente nos permite visionar a confusão da noite em que estamos imersos. Mas, através da “figura da fogueira”, ou seja, do reflexo da imagem e da sua projeção, algo transparece na pouca luz que nos pretende iluminar. No entanto, navegamos na sua escuridão.

No entanto, Fernando Pessoa não fica preso a estas certezas filosóficas, e demarca-se da mundividência platónica. Procura encontrar ou desvendar um caminho para esta dualidade filosófica, construindo uma estratégia poética ou estética.

Mas um ou outro, um momento

Olhando bem, pode ver

Na sombra o seu movimento

Qual no outro mundo é o intento

 Do gesto que o faz viver.

 

E então encontra o sentido

Do que aqui está a esgarrar;

E volve ao seu corpo ido

Imaginado e entendido

A intuição de um olhar

João Gaspar Simões chama a esta estratégia um «“caminho alquímico” – a via mais segura para a comunicação com o Ente Supremo» (pg.56) ” É consabido, na história da filosofia, que entre Parménides e Heráclito, Platão optou pela essência daquilo do que é, pela permanência do ser. Fernando Pessoa, em vez de se fixar em Parménides procuram ansiosamente o mundo de Heráclito. É preciso” encontrar um sentido” que na “sombra do movimento” nos forneça a “intuição do olhar”. E, aqui, Fernando Pessoa aproxima-se da “porta da eternidade”, que emerge com a figura do “clin d’oiel”” em Kierkegaard. (Aliás, outra figura paradigmática da heteronomia). Abrindo-se ao futuro, imprimindo-se no movimento, procura encontrar um sentido, quase renegando a anterior reminiscência, na tentativa de desvendar o oculto que a “intuição de um olhar”, tende a revelar, na sua possível inteligibilidade. Na nossa opinião, João Gaspar Simões fecha-se exclusivamente num ocultismo estético, próprio do seu “instinto de poeta”.

Achamos que o poeta deseja lançarmo-nos no movimento do mundo, do encontro ao «chão do tempo e do espaço», para destrinçarmos a mentira e a verdade como descoberta (como Alêtheia).

Sombra do corpo saudosa

Mentira que sente o laço

Que liga à maravilhosa

Verdade que a lança, ansiosa,

No chão do tempo e do espaço.

 O corpo enlaçado sente-se rodeado da mentira, mas está ligado neste processo contínuo da procura da verdade. O corpo e o espírito (a alma) não se arrastam nem dualismo platónico, nem cartesiano. O movimento dá-nos aquilo em que consiste e mentira e a verdade. Talvez, face de uma mesma moeda, que rola e se desenrola no seu movimento; e, que graciosamente nos lança através do mundo, no tempo e no espaço.

A verdade está no movimento do “chão do tempo e do espaço” e, sobretudo, está no mundo da tua mão.


 N.B. (pg. 54 e 56) - SIMÕES, João Gapar "Fernando PESSOA" - ensaio interpretativo da sua Vida e Obra - Ed. Texto Editores  e Edições Expresso, Lisboa 2011.

P.S. Nas suas reflexões de Agosto-Setembro de 1973, em Luchon - Nice, Eduardo Lourenço afirma que este poema "é de 1934" (Cf. pg. 191). Na esteira de João Gaspar Simões, Ed.Lourenço prossegue na «visão oculta» e no «drama de gente», dentro da estrita linha da hermenêutica literária, caminhando na aposta de "duas almas" e no  seu "laço dialético". Assim, deste modo, quase finaliza Ed.Lourenço,  «...neste poema e em todos onde a visão ocultista está presente se oferece um espaço de paz imaginário e de transcendente salvação» (Cf. pg. 192). A nossa perspectiva é bastante diferente e procura afirmar que a gnoseologia de Platão está imanente à poesia de Fernando Pessoa, com outra "porta de saída" (o movimento).

LOURENÇO, Eduardio, "Pessoa Revisitado", Edições Gradiva, 3.º Ed. (cf. 1.º Edição), Lisboa 2000.

domingo, 1 de novembro de 2020

EUROPOLITIQUE: "...uma pátria que não nos larga." - José Tolentino Mendonça. (Ref. 02.11.2020)


«…esse vazio, que depois se descobre não ser só vazio, mas também excedência, também companhia, pois a memória dos nossos mortos é uma pátria sagrada que não nos larga. A ela vamos buscar a força, o entendimento de nós mesmos, a palavra que nos disseram, o gesto com que nos surpreenderam, o rastro do coração que neles bateu tão forte e do qual nos sentimos para sempre herdeiros». (1)

No seu introito, José Tolentino Mendonça faz referência a São Francisco, orando na pequena capela, ou, pequena igreja, chamada de Porciúncula. 

Um “pedaço de terra” reclamado para o seu oratório, em  “Santa Maria degli Angeli”, em Assis,  que  deu origem, em terras da Califórnia,  ao nome de "El Pueblo de Nuestra Señora la Reina los Ângeles del Rio Porciúncula”. Agora, mundialmente conhecida, como L.A. - Los Angeles. 

(Em 1781, viviam nesta localidade 44 pessoas, distribuídas por 14 famílias, quando adquire este nome pomposo, de origem e referência franciscana, atribuído por Felipe Neve: «El Pueblo de Nuestra Señora la Reina los Ângeles del Rio Porciúncula» -  Ref. in"GunderedoAngop" / António José Rocha).

Por lá passamos, e não sei se fiz uma pequena oração nesta “Porciúncula”, pequena capela dentro da Basílica de Santa Maria dos Anjos, em Assis. Todavia, não posso ficar indiferente ao estro de Tolentino, (certamente, como antecipando o dia dos fiéis defuntos), quando reclama “a pátria sagrada que não nos larga”.

Obs: “A morte é uma flor”, José Tolentino Mendonça, Expresso Revista, (E-90), Jornal Expresso  de 31.10.2020.

quarta-feira, 28 de outubro de 2020

EUROPOLITIQUE: Por terras e meandros dos rios e florestas de Moçambique (De um jovem sonhador a Mia Couro))


“Eu sou, simplesmente, um contador de histórias”, diria, Mia Couto.

A narração de histórias é uma atividade do escritor moçambicano que de forma natural e implícita, ou seja, de uma forma muito intimamente ligada a si, exprime, na terceira pessoa ou como seu intermediário, as descrições de um tecido rural e social, em que habilmente se move, através da incarnação narrativa nos seus processos culturais.

O animalismo, a magia do feitiço e suas senhas de incorporação expressam-se através de um canal de transmissão, que se torna meio e mensagem em crenças, sortilégios, ou, processos de identificação dos seus encantos naturais, reforçando o seu conteúdo narrativo.

As suas narrativas culturais encontram a sua força em “seres sobrenaturais ou animalistas” que têm mais poder e conhecimento que os simples mortais. É, através desta "memória externa", ou seja, das suas palavras e da sua escrita, que se desvendam, anunciam ou publicitam "estados mentais primórdios", cujo enredo se nutre de histórias e da sua identificação, numa riqueza rural e social, que se une intimamente com a natureza.

À falta de grandes mitos ou crenças religiosas, desenvolvem-se processos de convicções que nas suas histórias tentam induzir e envolver certos percursos individuais ou coletivos, cuja senda visa satisfazer as diversas ansiedades humanas.

Contrariamente ao processo de escrita de Mia Couto, mas tocado neste fervor moçambicano, que aos “macondes” bafeja na sua veia artística, reaparece a faceta de um jovem que gloriosamente se afirma como "artista".

Extremamente descomprometido com a realidade social ou política divagava através das suas narrativas num projeto individual indefinido, cuja afirmação se soltava alegremente nesta exaltação: “eu sou um artista”.

E, assim, todo o seu ser se inclinava para uma mente de pensamento simbólico, ainda que isento de qualquer forma de representação pictórica, e, se reduzisse simplesmente à expressão de um desenho ou tatuagem, que marcasse de forma efémera qualquer corpo. Mas, a expressão isolada dessa demonstração incorria na ânsia e no desejo de se assumir definitivamente como "artista". A sua rebeldia abria-se como uma senda inovadora de um indefinido percurso à procura de uma forma e de um modo de expressão. Oxalá, o seu caminho se abra como processo de identificação criativa. E, como afirma António Damásio:

«O eu rebelde depende da capacidade do cérebro de comunicar estados mentais, em especial estados de sentimento, através do gesto do corpo e das mãos, bem como da voz, sob a forma de tons musicais e de linguagem verbal». (Cf. António Damásio,”O Livro da Consciência”, pg. 355, Ed. Circulo de Leitores, Lx.2010).

terça-feira, 27 de outubro de 2020

EUROPOLITIQUE: Contra golpe emocional - pontapé na pedreira

 


A dependência de drogas: pressão da homeostase

 1)  «Ao longo de um dia normal acabamos por deparar com frustrações, ansiedades e dificuldades que desequilibram a homeostase e que consequentemente nos fazem sentir mal, talvez angustiados, desencorajados ou tristes».

2) «O estado homeostático desequilibrado é representado a nível neural como uma paisagem corporal obstruída e problemática».

3)«Um dos efeitos dessas substâncias (ou, drogas) é a recuperação rápida, e, é claro, efémera, do equilíbrio perdido».

4)«Após determinadas doses de certas drogas, o cérebro representa um organismo a funcionar de modo mais satisfatório».

 Conclusão:

5)«Como o fazem? Julgo que (as drogas ou as substâncias ) alterem a imagem sentida que o cérebro estará a formar do corpo». (Cf. António Damásio)

Obs: "O professor de ginástica, (em vez de educação física), corria com o aluno na floresta, desferindo fortes pontapés contra as rochas da mata". (Oxalá a serra de Sintra permaneça intata!...)


Obs: Cf. e consultar António Damásio, "O Livro da Consciência" - Construção do Cérebro Consciente", Pg. 346, Ed. Circulo de Leitores, Lx 2010. 

EUROPOLITIQUE: Recordando "Platero y Yo" ....Juan Ramón Jiménez

  Na minha tenra idade escutava os poemas de “ Platero y yo” , com uma avidez e candura própria da inocente e singela juventude, que era o ...