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domingo, 17 de novembro de 2019

EUROPOLITIQUE: Breve comentário sobre a justiça, através de Mia Couto


«O sentido da justiça é uma janela que cedo se abre para a construção da nossa relação com os outros». (1)

E, os “outros” começam com a nossa infância, nessa fase de construção lógica, que se atinge por volta dos sete anos. O reconhecimento que o nosso “ego” se relaciona com outros “egos” desenvolve-se anteriormente, (numa fase resolvida por volta por cinco anos), em que o processo de identificação atinge a sua maturidade (masculina ou feminina, assumida psicologicamente). A perceção do outro como entidade diferente, mas semelhante a nós, eleva-nos à categoria de pessoa. Ao assumirmos o nosso corpo exprimimos a nossa existência. Olhámos e vemos que existem outros corpos com a mesma dignidade que a nossa. O corpo não é um simples objeto, mas um sujeito de dignidade e identificação.

Por isso, «a justiça é o primeiro momento do encontro com o sentimento social». (2)

 Este elemento básico da justiça implica o respeito pelo outro, a identificação da sua existência, e, origina que se criem as bases da luta contra a violência própria ou alheia. Os limites básicos interiores e exteriores interiorizam-se como meta que está traçada conscientemente. Uma linha vermelha extrapola-se como ação comportamental que nos permite a identificação com o outro. Todavia, este processo não é simples intuição. É assimilação de regras de satisfação de convivência que socialmente se interiorizam e expressamos como norma social. Ontologicamente as noções de bem e mal, de certo e errado, são fruto da nossa educação.


N.B. Couto, Mia, “O Universo Num Grão de Areia” pg. 135, Ed. Caminho, Lx. 2019.

quinta-feira, 7 de novembro de 2019

EUROPOLITIQUE: O "Terrorista Elegante" nascimento e acção na escrita de Mia Couto e José Eduardo Agualusa (N.B. Segundo a "Livraria Cultura" - considerado "Crítica "- no Brasil)


Objetivo: procura-se angolano assimilado, que fala com os pássaros, “mestre em  espíritos, domador de demónios e dragões”, cuja base de treino se situa nos “scriptoria” do rio Umbeluzi; e, que se tornou um “terrorista elegante”, depois de sair da Síria, e atuar  nos palcos e nas ruas das terras do Ocidente, espalhando o terror dos seus feitiços.
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Saímos numa canoa de vela triangular, em direção à foz do rio Umbeluzi, na baía de Maputo. Deixamos o exíguo cais desta baía, que se encontra encastrado num edifício ministerial, que dizem que foi construído por presos chineses. Mais à frente, e, em plena e tranquila enseada, reluz a mais recente joia de Maputo, a ponte de Katembe, que do reino dos “tembes” faz parte da sua história.
A ponte suspensa, grandiosa obra chinesa, que se não é dádiva e resgate do seu investimento, ou, qualquer consórcio afim da China, alimenta-se como fruto de um outro consórcio de bancos de Moçambique, para orgulho nacional. A baía do Espírito Santo tem quatro rios: Matola, Infulene, Umbeluzi e Tembe, esquecido fica o rio de Maputo, junto ao mar. Mas, Katembe, diariamente, enamora-se com a sua luzidia ponte, que de noite acena com as suas duas torres ou pilares, assinalando aos visitantes, que nas suas imensas praias estão extensos areais.
Se, a economia do estado moçambicano ronda o “produto interno alentejano”, segundo certas análises pouco credíveis, da mesma forma se sublinha que outros “indígenas” tenham dificuldades em construir um cais marítimo, em Sines. Todavia, qualquer leigo em economia dirá que a grandiosidade desta imponente ponte, cujo custo ronda os 700 milhões de dólares, é um brilharete para gáudio de Maputo, digno cartão de visitas da sua geométrica capital. 
As longas ruas, “a régua e esquadro”, de Maputo não configuram as curvas e meandros da sua baía, que se espraia por terra e mar, e, calmamente se serpenteiam pelas águas quentes do Índico. Mas, na sua imensidão navega uma pequena noz, com a sua branca vela triangular, perdida e acariciada pelos ventos e marés de tranquila bonomia, ruma em direcção à base de treino do "Terrorista Elegante".

A "canoa de vela erguida" navega em direção ao estuário do rio Umbeluzi, ao fundo da baía de Maputo, esquecendo-se destas maravilhas diplomáticas chinesas, para ancorar na estreita e apertada curva do bairro “Belo Horizonte”, avistando o “famoso alpendre”, cujo negro colmo cobre o seu teto e abafa a alvura da casa, rodeada de suaves tons de verde-escuro. Os verdes bambus e muros impedem qualquer passagem para o seu interior. Se não é um fortim, é uma forte em cujas ameias se avista a doce curvatura do rio Umbeluzi.
O rio corre em suaves meandros. É, lá que queremos encontrar o “Terrorista Elegante”, que dois célebres escritores ocultaram numa caverna, gruta, ou, mansão; durante quinze dias. Enclausurados no silêncio da escrita encontraram a solidão necessária para tão explosiva violência. Manipularam as suas mãos, que em vez de quatro mãos são duas, que sendo dois autores é só um terceiro – ou seja, talvez, um terrorista - e, que dizendo ser um único autor foram dois escritores, ao mesmo tempo.
Tal duplicidade de ação e profissão, embora faça lembrar o “Homem Duplicado” de Saramago, implica que não aconteça algum trocadilho que transforme o T. E. (Terrorista Elegante) em E.T. (Extra Terrestre), vindo da selva africana, e fugindo da sua territorialidade. Já que foi lá, naquele fatídico lugar, que nasceu o terrível “Terrorista Elegante”, cujo local de nascimento teve como parto duas parteiras de quatro mãos. 
Para logro público dizem que ele é angolano, que fala com os pássaros, gosta de gravatas e coisas caras, sobretudo, mulheres, mas não passa de um inocente charlatão. Até à Síria viajou, comeu e copulou, e seu passaporte corre risco de morte. Morte ao Ocidente. Morte aos pagãos, cristãos ou ateus. Pois Alá está do lado de cá, dos bons e perfeitos, pois ele é grande; e não a América. Da riqueza nasce a ganância, cuja mãe virtuosa é Africa, e, Angola faz parte. O Ocidente que se cure da sua própria doença, porque quem manda é o salvífico Oriente. O estado de terror alia-se ao terror de Estado, mas exibir em palco esta tragédia é fazer comédia com os americanos. Que venha um rambo para desbaratar esta triste figura de “terrorista elegante” da sua paranóia. Por isso, talvez, não convenha espalhar esta história cómica na angústia e tragédia da humanidade.

Subitamente dos meandros do rio Umbeluzi, que serpenteiam Belo Horizonte, uma chuva de aves e pássaros abeiram-se da canoa e dizem: “vade retro satana”, porque este peixe, não é para a tua cana. 

A nuvem espalhou-se pelas encostas e suas ilhas verdes evocando os rápidos e velozes "raids" dos "Homens do Norte" que ainda persistem e perduram nos estuários dos rios e no assalto aos conventos, enquanto no coro dos copistas medievais ecoa em oração: “Livrai-nos, Senhor, do terror...” – gritam monges. Ao mesmo tempo, esconjuram os invasores dos seus escritórios (scriptoria), esses vândalos que invadem os nossos territórios - "Livrai-nos..."

«Livrai-nos, Senhor, do terror destes autores»

«Livrai-nos, Senhor, do pecado da sua escrita»
«Livrai-nos, Senhor, da escrita pedante e do “terrorista elegante”».

segunda-feira, 4 de novembro de 2019

EUROPOLITIQUE: Releitura, expansão e simbologia de "sua anta"


“Sua anta” era dito com grande menosprezo pelo erudito que não percebendo grande coisa de arqueologia, menires ou antiguidade evocava tal termo, como sinónimo, de pouca ou nenhuma sabedoria. “Calhau” teria um sentido de aproximação para tal lexiologia, em que a falta ou dureza de neurónios não transmite a circulação devida na sua necessária vitalidade comunicativa. Mas, ainda uma palavra também se inseria noutra parte de um léxico aproximativo, com e através da evocação de “toupeira”. “Sua anta e toupeira” juntavam-se numa harmonia de arremesso contra os incautos, infelizes e pouco dotados de alguma inteligência. Claro que “toupeira” surgia como animal mais hábil na rapina de raízes que sustinha um qualquer sulco de alguma esperteza. Se não tinha a dureza de “anta”, tinha a habilidade sensitiva de toupeira. Portanto, qualquer destas palavras emergiam como sinal de repúdio ou falta de clarividência para o arguto orador que habilmente manipulava ou imprimia as suas palavras através de um adequado sentido pejorativo: “sua anta”, “sua toupeira”.  


Os pasquins circulavam clandestinamente com denúncias de escândalos locais que não davam qualquer importância à eminência erudita de “anta” ou “toupeira”. Denunciavam furtivos amores que tinham de ser pagos com licores. A sua forma e estrutura poética reacendeu-se em terras brasileiras. E, as telenovelas, do outro lado do Atlântico, evocam saudosamente a palavra “anta”.

domingo, 3 de novembro de 2019

EUROPOLITIQUE: No dia dos Finados, ou, 02 de Novembro.

Este “clin d’oeil” que nos permite dizer que estamos vivos, ou, esta “janela aberta para o mundo” que é a nossa existência, enquanto sujeito dos objetos que nos circundam, e, que nos permite afirmar que o mundo existe hoje e amanhã não sei, realça o nosso pensamento sobre a nossa finitude. Um dos meus amigos contratou uma agência funerária com “passaporte para o além” com tudo pago. O local da sepultura encontra-se engalanado, mas ainda não chegou o dia do finado. Nesta altura deve estar um pouco esquecido da fatura, que não sei se tem iva, já que foi paga no estrangeiro. Claro que ele estava atento à qualidade e duração da vida, mas nunca se sabe como age a violência da natureza, e contra ela resta-nos o tal “clin d’oeil” que era a sigla do “instante” em Kierkegaard; com cujo anúncio testemunhou a sua própria morte.  Agarrado ao “instante” panfleto ou jornal, expressão de uma “adeus existencialista”, esta atitude permanece como sinónimo da notícia ou do anúncio de que também estamos vivos ou não, ou, que a vida preenche cada momento. “My pain” era a experiência única e individual de Wittgenstein acerca da dor, do sofrimento na sua própria dimensão emocional. E, a morte acarreta este adeus, este momento "dolorido", esta experiência do instante final que nos resta, sendo a morte única. É o momento de passagem para o crente, é o fim da linha para o descrente, é a saudade para o amigo ou para o familiar.                                                    

quarta-feira, 30 de outubro de 2019

EUROPOLITIQUE: São Bento de Seixas e o seu Padre SEXY na pastoral do Correio da Manhã (35)

Padre Ricardo Esteves é sex symbol na paróquia


“Então como é que vou à praia? Vou de batina?”. Foi a resposta pronta do padre Ricardo Esteves a Manuel Luís Goucha quando o apresentador lhe disse – em tom brincalhão – que se tinha “posto a jeito” após ter tirado uma foto em tronco nu à beira-mar.


Frente à dupla notícia, aliás, em dias diferentes, publicitada pelo “Le Parisien Libéré” português, ou seja, o C.M. , comentava-se o seguinte: «mas a manchete (texto + foto) mais interessante para noviças e freiras mal amadas é o Padre Sexy de Seixas que já leva duas páginas de anúncio eclesiástico».

«Do you play football? - Yes. I do.»


Nenhuma palavra para o seu múnus eclesiástico, para a sua pastoral, para a sua missão catequética entre os fiéis, ou, conterrâneos. Algum castigo ou anátema caiu sobre o Padre Sexy de Seixas do Minho, que não sendo nenhum monge nem frade do antanho “ora et labora” desta antiga, fértil e agrícola abadia, se tornou objeto estético da humana vaidade que atrai olhares sensitivos de camuflada voragem. E, nesta, voracidade da notícia, simplesmente mundana e eivada de sortilégios carnosos, evidencia-se à saciedade que a humanidade está distante da divindade, do seu sopro, da sua convivência, da sua salutar comunicação. Ao arauto do divino, do simples pastoreio do seu rebanho acrescenta-se a multitude das ovelhas sem destino, ("a multidão é a mentira", segundo S. Kierkegaard), que carecem de um sentido e que precisam de um caminho. 

Um caminho ou uma senda que oriente, também, os propósitos e objetivos do Correio da Manhã, deixando a negritude da notícia, para os princípios de qualquer salutar conexão ou religião, na expressão e na jovialidade de qualquer cristão convertido na sua ação, que queira exercer o seu múnus sacerdotal

(Posteriormente na TVI) .

“Então como é que vou à praia? Vou de batina?”. Foi a resposta pronta do padre Ricardo Esteves a Manuel Luís Goucha quando o apresentador lhe disse – em tom brincalhão – que se tinha “posto a jeito” após ter tirado uma foto em tronco nu à beira-mar.

segunda-feira, 28 de outubro de 2019

EUROPOLITIQUE: A noção de propriedade no desenvolvimento da infância e no contexto familiar

Segundo certos autores “não nascemos com um conhecimento de propriedade”.                                                                                 Portanto, é na infância que nos identificamos ou inculcamos (introjetamos), no que consiste a propriedade. Mas existe uma diferença entre identificação e introjeção.    
                                    A identificação conduz aos princípios voluntários de aceitação, (neste caso, em que é a propriedade), na qual se desenvolvem comportamentos de “cidadão cumpridor da lei”, aceitação pela sociedade e reconhecimento social. 
Embora ostensivamente estas análises corroborem a teoria psicanalítica, encontramos perspectivas interessantes.              
Já dizia Aristóteles, “o homem é uma animal racional, social e político”. Portanto, viver em sociedade, é viver na pólis, é aceitar pagar impostos, tendo como lema que, qualquer senhor  é proprietário.                                                                           
 A introjeção, ou, simplesmente, a inculcação destes valores conduz a um processo em que a criança, sobretudo antes dos 5 anos, é incapaz de perceber um princípio, regra ou lei, quedando-se num estado em que não perceciona as consequências daquilo que lhe pertence ou não, presentemente ou até num futuro próximo.             As noções de propriedade agudizam-se no contexto familiar de uma forma que parece que as pessoas retornam à sua infância. Além do lado afetivo e sentimental dados às coisas ou à propriedade, existe quase como um regresso às origens, ao seio maternal, em que o sentido de pertença gera conflitos.              
 Se, “os valores são as regras que usamos para decidir o certo e errado, o bom e o mau, o que é real e verdadeiro” porque, então, temos dificuldade em distinguir o que é o roubo do que é a propriedade, no contexto familiar? Ou, ainda, por que confundimos as partes com o todo, o todo e as suas quotas, os direitos com deveres e vice-versa, ou, a diferença dos seus atores  com  valores que lhes são contraditórios?                            
Será um retorno à infância, ou, será a pura ganância?

sábado, 26 de outubro de 2019

EUROPOLITIQUE: O Grande Mestre da Cantaria na Quinta do Outeiral - freguesia de Gondarém -VNC. (Cantaria = pedra talhada para colocação em obra)

Autoria do Grande Mestre de Cantaria José Abreu

«"Pedra"!... é comigo», dizia-me o jovem e inocente pedreiro na sua sabedoria, longe do mestre, no tempo e na arte da cantaria: 

O último “canteiro” de régua, lápis e esquadro que desenhava e esculpia as lindas fachadas, portões, vasos e fontes da bela Quinta do Outeiral desapareceu de forma incógnita, cujo nome recordámos como José Abreu. Era o chefe dos pedreiros que diligentemente embelezavam os cantos e formas graníticas desta propriedade. Pertencia ao grupo de agnósticos que liam os jornais que o comboio trazia para as suaves encostas desta freguesia. E, se não bastassem as notícias que chegavam, refrescavam-se com uma viagem até à capital para actualização dos mais recentes acontecimentos. Este grupo de agnósticos era marginalizado como bando de ateus, a quem o chefe religioso negava os seus ofícios. Mas, a arte ou ofício de cinzel e martelo endureciam as mãos calejadas deste "mestre da cantaria", que ainda que não fosse escultor ou artista, era artesão de mão firme, cujos pergaminhos se encrustavam no desenho e na pedra, que se revelam nas suas linhas e formas exteriores. 

Se, quase de metade das obras de cantaria, não passaram pelas mãos e crivo deste artesão, autêntico mestre da cantaria,  é por que não é possível dar um nome ou batizar todos os seus objetos estéticos, que sendo de pedra ilustram e enobrecem este local, em cujo traço permanece incógnito. José Abreu continua aberto no nosso céu e firmamento; por isso, lhe dedicamos este singelo documento.

Se os egípcios foram os grandes mestres na técnica e na arte da cantaria com os seus túmulos e pirâmides, os romanos não deixaram por mãos alheias a orgânica e regularização do ofício de “mestre canteiro”, de cuja língua lhe provém a sua etimologia. A cantaria enquanto arte e ofício manual entrou em declínio dos anos 60 a 70 do século XX. A cantaria portuguesa expandiu-se por terras brasileiras deixando autênticas obras de arte, sobretudo em Ouro Preto. Perdurou durante os anos 30 a 50 deste século, mas os autênticos mestres da cantaria, desde a pedreira até à oficina da pedra, estavam em via de extinção. Como afirma Luísa Martins “"na essência da cantaria está muita da simbologia maçónica, como o esquadro, o compasso, porque a filosofia da pedra significa que perdura nos tempos e que é pura”. Ou seja, o desejo de construir para a eternidade é marca do “mestre da cantaria”. 

EUROPOLITIQUE: Recordando "Platero y Yo" ....Juan Ramón Jiménez

  Na minha tenra idade escutava os poemas de “ Platero y yo” , com uma avidez e candura própria da inocente e singela juventude, que era o ...