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sexta-feira, 20 de março de 2020

EUROPOLITIQUE:" Nem tudo o que reluz é oiro", mas o seu brilho é glamour - nos Almeida Braga (family)

Bafejados pelo rio, onde outrora corria “ouro e cobre”, os “Almeida Braga”, continuam a espalhar o seu “dedo de Midas” naquilo que tocam, por terras brasileiras, segundo dizem certos cronistas das revistas cor-de-rosa. Não será o perfume das rubras camélias ou brancas da quinta do Outeiral, que inebriam o seu frenesim pelo vil metal, mas a “arte e engenho” que os seus dedos tecem nas teias das malhas que tocam.

«Há quem procure e não encontre.

 Há quem ache e não guarde.

Há quem guarde e não desperdice».

Saber "guardar e não desperdiçar", se não for avareza, pressupõe “alma para o negócio”. Ora, este espírito de negociante (não de "merceeiro") é uma técnica que se aprende, ou, até pode ser congénita. Quando ela percorre várias gerações é sinal de eficiência, de brilho, de glamour, que se adapta a cada momento e a cada situação. Porque nos tempos modernos não se respeitam linhagens ou castas, embora o seu conservadorismo teime a conservá-lo.

Saber “achar e guardar” é o instinto, a intuição para o negócio, ao qual certo “farejar” está implícito. Encontrar o rastro de um negócio, é encontrar um trilho, que se abre como caminho e se transforma em estrada, para nela caminhar.  "O caminho faz-se caminhando".



Saber “procurar e encontrar” é o primeiro passo para saber andar no mundo dos negócios. “Quem tem dinheiro, faz dinheiro”, se souber procurar o negócio, e, se encontrou o negócio certo. O incerto não faz parte do negócio, porque a certeza faz parte de uma certa esperteza. A "esperteza" é o filão inicial do desenvolvimento da capacidade e habilidade do negócio. Uma dose de esperteza liga-se a esta capacidade de saber negociar. Saber tocar. Saber tanger os bois, porque o gado é símbolo de pecúnia.

ADRIANA GALISTEU
P.S. Ora, contra estes mandamentos na "troca dos trocos", em vez de quinhentos escudos de "bandeirada", embardam-se ou enfardam-se cinco notas de cinco mil escudos, como prova de correcção e honestidade para taxista honrado, gratificando-o 50 vezes. Só, pode ser  à "Almeida Braga"!... Faz relembrar os 50 escudos do óbolo paroquial de seu pai.

segunda-feira, 16 de março de 2020

(5) Pelos caminhos da Boega - Etimologia de BOEGA HOTEL - (Quinta do Outeiral)



Século e meio separam a chegada ao Baixo Minho da terceira invasão viking, comandada por Gunderedo (ano de 966), quando luzia no Noroeste Peninsular, o "luzeiro" de Santiago (ano de 813). Cristãos, árabes e normandos lutavam pela posse do território. Nesta encruzilhada de povos encontra-se a "quinta do Outeiral" sofrendo as suas vicissitudes históricas, entre uma Galiza do Norte e o Condado Portucalense. Metaforicamente, sem Gunderedo não existia a "Boega".


É, em pleno século X, que o nome desta freguesia começa a fixar-se e a radicar-se na palavra – Gundarem ou Gondarém – fazendo jus à chegada de “jarl” Gunderedo, na Primavera do ano de 966. A sua permanência nestas terras dura entre dois a três anos, mas cuja fama o perseguia desde o Ducado da Normandia. Os cronistas árabes descrevem-no como “Rey Gunderedo” («navegaron bajo el mando  de su rey Gunderedo»), conforme relata a “Primera Crónica General de Afonso X, el Sabio", (ed. Ramón Menéndez Pidal, Madrid 1906).



Após a expedição de Décimo Júnio Bruto (128 A. C.) ao rio Minho, que no Noroeste Peninsular não tinha ecoado tão alto, este nome de origem hispânica – Gunderedo. As suas façanhas remetem-no para os célebres ataques a Santiago de Compostela, partindo do Baixo Minho, mas a sua fama remonta às terras francas. O seu famigerado “castelo” confunde-se com o nome de “Boega” – ou seja, a maior ilha do rio Minho, em face à Quinta do Outeiral. Estes relatos devem-se ao famoso geógrafo Al Idrisi (cronista árabe), no seu livro “Descripción de España”. Aliás, o cronista Al Idrisi relata que existia um “castelo de difícil acesso”.

 

Para estes “homens do Norte”, o rio era uma estrada, graças à tecnologia dos seus barcos. Mas o rio Minho já não era a “estrada do ouro e do estanho”, segundo Plínio, mas uma “porta de entrada” nas riquezas do Apóstolo de Santiago. Melhor abrigo, ou, ponte de ataque não existia que não fosse uma ilha que se confundia com um castelo, segundo Al Idrisi. Não consta que Gunderedo tenha atacado Tuy - a “civitas tudensis.” Por isso, certamente que beneficiou dos conflitos e rixas entre senhores galegos e portucalenses. O atraso na indústria e técnica naval da Galiza facilitou o êxito inicial de Gunderedo que dominou a Galiza durante dois anos. A fama de Gunderedo ficou célebre nos seus ataques a Santiago de Compostela, pelos anos de 970, correndo a “ferro e fogo” a Galiza do Norte.



A etimologia da Boega é indissociável das façanhas de Gunderedo. Seja a quinta do “Mosteiro de Santa Maria de Oia”, seja a quinta dos “Pereira”, seja a quinta do “Cónego da Sé de Braga”, seja a quinta do” Lima”, ou, finalmente seja a quinta dos “Almeida Braga”, a radicação e reivindicação de “Boega Hotel” remete-nos para os primórdios das suas origens, quer como “couto”, quer como estadia de Viking Gunderedo.

domingo, 15 de março de 2020

(4) Pelos Caminhos do Hotel Boega - A "quinta dos "Almeida Braga" - Século XX


Nos anos de 50 a 60 do século XX, a modernização da quinta dos "Almeida Braga" sofre obras de enorme beneficiação. Dois novos portões são erguidos, a casa dos caseiros é aumentada e modernizada com novas instalações em pedra, um espaço novo de jardim é desenhado e comprado. Nos seus trilhos, a quinta reluz fisicamente com a nova maquinaria de exploração agrícola. Os tratores e as modernas alfaias agrícolas regurgitam de um modernismo que se opõe ao atraso dos pequenos agricultores, com os seus carros de bois, cujo maior expoente é a exploração agrícola da ilha da Boega.

 

Num cenário idílico, um pavão com o seu leque florido, juntamente com dois cisnes brancos e um preto, debicam no verde e recente jardim, que ultimamente tinha sido adjudicado, para maior espaço da quinta. No lado nascente, um novo portão de alvo granito, construído por mãos do mestre em cantaria José Abreu, surgia como fechamento e aterro do antigo “caminho número um” da rua da Igreja, que ligava a EN 13 à paróquia, construído em calçada portuguesa, por volta dos anos trinta do século XX. Deste modo, quatro portões, como outros quatro pontos cardeais, fechavam o espaço da quinta, e no seu lado poente, um destes funcionava como entrada, na sequência dos Caminhos de Santiago. Em frente, à casa do Paço emergia um espaçoso jardim francês, com a sua típica piscina dos anos 30, em que floriam vistosas camélias de aroma primaveril. Na janela, frente ao jardim, o dr. Luís de Almeida Braga advogado e político, deliciava-se com o panorama da paisagem.


Ao Portugal “cinzento e triste ”, refulgia nas suas vestes brancas da nova burguesia canarinha, a quinta do “glamour” luso-brasileiro, que “alegremente” se deleitava nos seus verdes jardins e graníticas escadarias. Ao seu brilho e festividades não faltaram “presidentes” das terras do Brasil, e, várias figuras distintas.


A quinta dos “Almeida Braga”, símbolo de riqueza e ostentação, resulta do casamento de Carlos de Almeida Braga (1858-1918)  e Ana Fernandes Lima , sua legítima proprietária.

 

A ilustre família dos “Almeida Braga” enalteceu esta localidade, não só, economicamente (quer em Portugal, quer no Brasil), mas também, de uma forma intelectual. A sua estirpe e grandeza intelectual camuflavam-se neste recôndito reduto, para desferir os seus ataques intelectuais ao regime vigente.


A riqueza económica despontará, sobretudo, em terras brasileiras através do seu expoente máximo, o famoso “Braguinha” – António Carlos de Almeida Braga, banqueiro, nascido em São Paulo, em 02 de Julho de 1926, filho de Lucon Quirino Pereira Bueno e de António de Lima de Almeida Braga, irmão do famoso “advogado de Braga”. 


Luís Carlos de Almeida Braga é o expoente máximo da família, a nível intelectual, sendo um insigne advogado, escritor, jornalista e político, com várias obras publicadas; das quais, não carecem análises, teses e dissertações. Mais conhecido por Luís Almeida Braga, nasceu a 20 de Novembro de 1886, na freguesia de São João do Souto, em Braga, e, faleceu em 2 de Março de 1970, em Lisboa.

 


Após os anos 70, a quinta “Almeida Braga” perde o seu fulgor que brilhou, durante um século, no Baixo Minho ou no Noroeste Peninsular, já que o Brasil se tornou na sua continuidade, apesar do seu reduto em Sintra, pelo ano de 1977.


P.S. Obras de Luís de Alameida Braga

  • A Questão Ibérica - A lição dos Factos, 1916
  • O Culto da Tradição, 1916.
  • Mar Tenebroso, 1918.
  • O significado nacional da obra de Camilo, 1923.
  • Paixão e Graça da Terra, 1932.
  • Sob o Pendão Real, 1942.
  • Posição de António Sardinha, 1943.
  • A Revolta da Inteligência, 1944.
  • Nuvens sobre o Deserto, 1954.
  • Espada ao Sol, 1969.

sexta-feira, 13 de março de 2020

(3) - Pelos caminhos do Hotel Boega - A "Quinta do Lima" no século XIX.

 O casamento de António Joaquim Fernandes Lima, por azar ou destino, durou pouco tempo, já que a sua consorte faleceu. Entretanto, já D. Rosa Joaquina Pereira Lima, de seu nome de casamento, tinha dado à luz Ana Maria Fernandes de Lima.       A futura herdeira daquela que se chama, presentemente, a “quinta do Outeiral”, era neta dos primeiros donos, cuja avó tinha, também, o mesmo prenome - Ana. Mas, a tradição oral ainda se recorda da "quinta do Lima", em pleno século XX, e, de quem carinhosamente tratava por "Aninhas".


Para calar as dores da sua angústia e sofrimento, o abastado brasileiro decidiu fazer obras de restauro e prolongamento das iniciadas pelo Cónego de Braga, construindo um autêntico promontório - as varandas do paço. Um novo edifício com um salão com nobres e altas arcadas enobrecem a casa do senhor ou dono do paço,  de onde se desvenda a paisagem que se espelha nas suaves águas do rio, emoldurado das suas verdes e viçosas margens, onde duas ilhas refulgem na sua serenidade. Tanto hoje como ontem, as rubras cores dos crepúsculos de Verão, anunciando os seus dias quentes, enfeitiçam aqueles que ousem penetrar na sua contemplação. Outrora, na sua balaustrada reluzia uma menina, uma jovem e inocente princesa que encantaria o novato advogado e político, oriundo da cidade dos arcebispos, cujo nome era Carlos Almeida Braga.


Em pleno século dezoito misturam-se proprietários com caseiros ou feitores de cujas castas e linhagens sobressaiem alguns notáveis. Assim aos vinte e três anos de idade surge nos Arquivos da Torre do Tombo (1779), João Manuel Guerreiro de Amorim Pereira, como bacharel de Coimbra, sendo depois Conselheiro e Ministro da Fazenda, desligando-se da “rica casa de lavoura”, que tinha em Gondarém. Alvitra-se que seus pais seriam João Amorim Pereira e D. Ana Maria Guerreiro. O nascimento deste filho dá-se pelo ano de 1756, ao qual também se juntaria Manuel Caetano Guerreiro de Amorim, chefe das milícias de Cerveira, além do famoso Cónego da Sé de Braga, João Crisóstomo, mas sem confirmação de tal irmandade. Aponta-se que a filiação deste agregado familiar teria três homens e duas mulheres. Por outro lado, as referências a D. João Amorim Pereira apontam para o ano de 1798. Estas datas não se coadunam com a reconstrução da dita Quinta do Outeiral que se presume que aconteça no século XVII.


A nível da tradição popular a "quinta do Cónego" passa a ser conhecida como a "quinta do Lima". Os novos senhores da família Lima investiram o suficiente para a requisição deste nome. Mas, a habilidade jurídica do antigo Cónego da Sé de Braga foi essencial no registo definitivo da propriedade, cuja data de óbito é de 5 de Outubro de 1855.


A antiga burguesia rural tinha, nas suas quintas, a fonte dos seus rendimentos. Nos séculos anteriores à industrialização, que acontece no século XIX, a riqueza agrícola provinha da exploração da natureza, e, também do trabalho dos seus servos. Nos tempos de António Joaquim Fernandes Lima, a actividade agrícola recaía sobre os seus proprietários, que estavam sempre presentes na quinta. Além disso, a sua posição social tinha sido reconhecida nas funções da direção da Santa Casa da Misericórdia de Vila Nova de Cerveira. Mas, por tradição laboral, desenvolviam-se duas castas ou linhagens de sucessão: os donos ou proprietários e  os caseiros ou feitores, que tratavam das quintas, que se tornavam tão importantes como os seus patrões. A quinta do Lima, essencialmente agrícola, em pleno século XX, virá a sofrer desta dualidade de exploração, por ausência dos seus senhores. A dita "quinta do Outeiral" conserva, através da sua padroeira, o seu nome de Ana, que se reflete na  família Lima.

quinta-feira, 12 de março de 2020

(2) - Pelos caminhos do Hotel Boega - A quinta do Cónego - século XVIII - (Um papagaio e duas cotovias)


Em 1580, São Pedro de Mangoeiro encontrava-se “partido em duas partes, a sem cura hé do arcebispo e a com cura de padroeiros leiguos”.Embora o texto não seja explícito, a divisão do território paroquial põe em evidência a isenção do “couto de Mangoeiro”, que alberga a “quinta do Outeiral”. A capela de "Santi Petri Manghoeiro" existe, pelo menos, desde o ano de 1258, zona de pastoreio e criação de gado.

 

 

A propriedade torna-se objeto de disputa entre o poder religioso e o poder civil, ou seja, entre o Mosteiro de Oia e Vila Nova. Assim, já desde 1350, o fidalgo Ruy Lopes de Cerveira aparece como «senhor do “Couto de Mangoeiro” (hoje chamado de Gondarém) e padrinho de S. Pedro Gundarem», (Arquivo do Tombo, 21 de Abril de 1944). Pai do alcaide-mor de Vila Nova, Lopo Rodrigues Cerveira, e casado com Maria Pereira (Cerveira) dá origem às ligações familiares com Fernão Pereira (1540), senhor da quinta de Bertiandos.

 

 

Entre 1444 e 1546 (segundo o censo da diocese de Braga), apesar da expansão dos casais, a quinta ainda não está sob custódia deste arcebispo. Longe estão as disputas entre as dioceses de Braga, Santiago e Toledo. Todavia, o Mosteiro de Oía, continua com as suas prerrogativas, embora, no século XIV, as suas propriedades em Portugal fossem arrebatadas por D.Dinis. Neste interregno de uso e posse da propriedade, a família Pereira, como sócio civil,  insere-se na sua titularidade. Eclesiàsticamente, a margem esquerda do rio Minho permaneceu dependente de Tuy, até ao século XV, ou seja, da sua capital do Baixo Minho -"civitas tudensis".

 

Em pleno século XVII, o fidalgo Francisco Pereira da Siva, casado com Joana de Noronha, senhor da casa de Bertiandos, torna-se padroeiro da Igreja de São Pedro de Gondarém, segundo referência do Arquivo Distrital de Braga (01-04-1648). O padroado abrange um conjunto de privilégios, entre os quais cobrar dízimos (poder económico) e interferir na nomeação do abade (poder eclesiástico), que exerce o citado fidalgo ou deão da quinta de Bertiandos e dos Biscainhos (Braga). Ora, São Pedro de Gondarém era igreja e abadia, e, como tal tinha um “padroeiro leigo”, responsável pela sua administração. Ainda, nesta família, no século XVI, aparece o monge Francisco Pereira, pai de uma filha e senhor do Morgado de Bertiandos. Também, entre 1704 e 1715, o bispo de Faro era António Pereira da Silva, filho de Francisco Perira da Silva, senhor de Bertiandos. Em 1723, a paróquia de Gondarém continua como igreja e abadia, conforme Arq. de Braga (10-12-1738). Somente em 1802 surge uma carta de encomendação da Diocese de Braga, a favor de um serviço de quatro meses pelo pároco vizinho, Costa Pereira (Arq. Distrital de Braga, em 08-11-1802).


Os padroados são criados, sobretudo, a partir do ano de 1532, por intervenção D. João III. Apesar dos seus terrenos e rendimentos, com o seu passal, o padroado da Igreja de Gondarém associa-se a “senhores leigos” que o protegem, e estão conotados com a Quinta do Outeiral. Os senhores (donos das terras) tinham vassalos e camponeses ou servos. Na Idade Média, a instituição mais rica da Europa era a Igreja, detentora de 2/3 das terras. 


É, sobretudo, a partir de 1385, com o conflito entre a diocese de Tui e a Colegiada de Valença, que as freguesias são incorporadas na diocese de Braga, e, retificadas em 1512. Todavia, por sentença, o Padroado de São Pedro de Gondarém queda-se em favor do fidalgo Francisco Pereira da Silva, em 01.04.1648, como já foi referido. Em 1758, esta abadia está ligada, secularmente, a Damião Pereira, senhor da casa de Bertiandos, segundo "Memórias Paroquiais". Por outro lado, é, a partir do século XVII, que na comarca de Valença, começam a surgir os primeiros “registos prediais” das terras destes habitantes com o pagamento das respetivas taxas, e, se prolongam pelo século XVIII.



Portanto, desde o século XVI até 1834, que a estrutura da "arquidiocese de Braga" abrangia a "comarca de Valença" (aliás, nessa época, eram cinco comarcas), o "arcediago de Vila Nova de Cerveira" e o "Padroado/Abadia de São Pedro de Gondarém". «No século XIX, aparecem os primeiros indícios de pagamento de impostos, a nível geral da sua população. A freguesia de Gondarém, em termos administrativos, aparece na comarca de Monção em 1839 e, posteriormente, na comarca de Valença, em 1852. Por decreto de 12 de Julho de 1895, a freguesia foi anexada ao concelho de Caminha, regressando ao de Vila Nova de Cerveira, depois da sua restauração, feita por decreto de 13 de Janeiro de 1898».


Os tempos conturbados prolongam-se sobre a posse e uso da quinta, até à história de "um papagaio e duas cotovias", em cuja narrativa surge um cónego de Braga, como  dono e senhor desta propriedade, no século XIX.. Parece que, posteriormente, em pleno século XX, esta saga causará inspiração ao poeta Pedro Homem de Melo, após dois séculos: 

“por mor de aprender o vira

Fui traído...  “ 

(Mas por fim sei hoje que é mentira) - diz o poeta.

  

"Por mor de casar um sobrinha..."  

"Fui enganado..."-  saga do Cónego da Sé de Braga.                                                         

Por mor de bem casar a sobrinha, o cónego da Sé de Braga, João Crisóstomo Guerreiro de Amorim Pereira, engenhou comprar uma quinta, como dote. O cónego de Braga tinha conhecimento de que um rico “brasileiro” de São Mamede de Ferreira, Paredes de Coura, carecia de uma esposa prendada. Assim, unindo a sabedoria à astúcia, acalentou a melhor forma de constituir um “sacrossanto casamento”, prendado e ornamentado, que de mundano pouco tinha de consagrado. Movia-o, evidentemente, o comum interesse dos mortais, que nos últimos da sua vida, alguém cuida-se de si. 

 

Posto isto, deitou mãos à obra e inicia a reconstrução e remodelação da atual chamada “Casa do Presidente”, onde outrora se erguia um albergue que aos peregrinos do Caminho de Santiago dava guarida. Os alicerces de granito e grossas paredes apresentam uma estrutura pesada e fortificada. Para maior solidez de compromisso, uma doação em vida seria a chave de entrada de um dote anunciado.


Quis o destino que o infortúnio ou azar, caísse sobre o caridoso cónego de Braga, sendo relegado dos seus bens e propriedade, por conflitos com o feliz venturoso António Joaquim Fernandes Lima. Os motivos de tal discórdia estão longe de ser esclarecidos. Mas, a morte prematura de sua consorte ditaram este desfecho infeliz, rapidamente colmatado por outro casamento.

O retorno do Cónego da Sé de Braga, homem da Igreja e do poder eclesiástico, às suas terras não se resumiu a uma "reforma dourada", como tinha habilmente planeado, mas a um exílio penoso. Um "triste papagaio, preso na sua gaiola", ou, melhor dito, vítima da sua ambição. Sem a sua rica propriedade e seus recursos, foi amigavelmente acolhido pelas suas duas irmãs, que por caridade e compaixão, lhe deram guarida, na vizinha freguesia de Loivo. 

 

 A narrativa de um "papagaio e duas cotovias" desenrola-se no papel das alegres viúvas, suas irmãs, que desafiavam a actividade canora do antigo célebre orador, caído em desgraça. Entretanto, o novo senhor da quinta, António Joaquim Fernandes Lima, reconfortava-se na voz popular, esconjurando as pragas e lamúrias que o Cónego de Braga lhe sentenciava em silencioso sofrimento. Para gáudio pessoal e popular avançava com novas obras na quinta.  O paço ou a "casa do senhor" será o melhor dote que sua filha devia ter, como homenagem da capela e da sua padroeira - D. Ana.




domingo, 8 de março de 2020

(1) - Pelos caminhos do Hotel BOEGA - O "Couto de Mangoeiro" ou a Quinta do Outeiral

Os contornos históricos desta propriedade, aliás, como da constituição da própria freguesia, advêm das demarcações do seu espaço e território, objeto de disputas entre terras da Galiza e o Condado de Portugal. Antes da criação da fronteira política do século XII, com o nascimento de Portugal, até ao século XIV, o Couto de Mangoeiro, ou seja, a atual Quinta do Outeiral, que mais tarde vai dar origem a Gondarém, pagava os seus “impostos ou taxas” ao mosteiro de Santa Maria de Oia. O exercício do poder e o sentido de propriedade era objeto de disputa entre o poder régio e o poder eclesiástico, por vezes, sob tutela do bispado de Tui. Ao longo da história, o poder civil, após o reinado de D. Dinis, começa a emancipar-se da tutela religiosa, apesar de grandes dificuldades e confrontos. No início do Condado Portucalense, esta união salutar com a Igreja tinha vários objetivos políticos.


Os coutos eram áreas privilegiadas, “consentidas” pelo rei, a mosteiros ou igrejas. Na esteira e independência da esfera civil, no reinado de D. Dinis (1279-1325), aplica-se uma taxa de 75 libras à Igreja de S. Pedro de Mangoeiro, que atinge os 70 mil reis, em 1546, com exclusão do seu "couto". A terra dos Cerveiras, originários de Coimbra, que se tornou “Vila Nova” por Carta Foral de Dinis, no ano de 1321, demonstra ter alguma pretensão ao senhorio do Couto de Mangoeiro, mas esta propriedade continua dependente do Mosteiro de Oia.


As terras, cuja administração era entregue aos clérigos, com a cancela de couto, advêm da iniciativa de D. Teresa e D. Henrique, desde o ano de 1097. O primeiro rei de Portugal continuou esta tarefa de registo de terras, ou, forais. Os amores de D. Afonso Henrique com Châmoa Gomes do Condado de Toronho e a sua ligação ao Mosteiro de Oia, onde perdeu dois barcos, permitem afirmar que a “segunda carta de couto” possa ser referenciada a esta propriedade, já que a primeira foi concedida à diocese de Braga. O seu romance terminou aos 39 anos de idade, mas as querelas sobre estas terras duraram até ao reinado de Afonso IV. 


Atualmente, a freguesia de Gondarém tem um lugar, chamado de Couto, precisamente, ao lado da dita Quinta do Outeiral. Sem menção de infanções ou conde, é possível que este lugar, onde existia uma antiga construção, cujos muros são de grossas paredes, permanecesse isenta de qualquer imposição régia. Os caminhos de Santiago desenvolvem-se um século após o luzeiro de 813. Alvitra-se que a dita Quinta do Outeiral detenha uma função de "albergaria" ou "pousada de peregrinos", com os seus privilégios inerentes, ou, seja terreno reservado a um couto. A dádiva (no valor de 12.000 libras), do abade da paróquia de Mangoeiro para a renovação do "hospital de peregrinos" em Cerveira, nos finais do ano de 1473, deixa algumas lacunas.


Na Idade Média era normal os senhores leigos, ou,  as autoridades eclesiásticas nomearem os seus vassalos, caseiros ou camponeses; aliás, tradição que esta quinta conservou até ao século XX. Todavia, é, no século X, com a introdução do moinho e novos cereais, que se dá o desenvolvimento das quintas, e, o aumento das populações. As alfaias agrícolas, juntamente com o celeiro, o forno, a adega, o estábulo, em que pontificava o paço e a capela, tinham ao seu redor, os casais, que cultivavam as quintas. Um contingente de servos ou pessoas  desbravam a terra sob olhar atento de um senhor, abade, ou, homem-bom. No ano de 1320 surge o arcediago de Vila Nova de Cerveira.


No início do ano de 1318, D. Dinis, com os seus 39 anos, ruma em peregrinação a Santiago de Compostela, em cuja passagem se situava a albergaria. Ora, fazia parte da intenção do seu médico Mestre Pedro construir uma capela em honra de Santa Ana para seu eterno repouso. (Em 1 de Março de 1320 surge um grande conflito sobre a extensão das paróquia entre Lisboa e a Ordem de Santiago). Após a sua morte constitui-se o morgado de Mestre Pedro, que mais tarde fica sob administração de D. Afonso Nogueira, por volta de 1453, cujos bens projetaram estes famílias, ou, os viscondes de Vila Nova, cujo primeiro título surge a 4 de Março de 1476. Os bens deste padroado incluíam propriedades, rendas, foros, privilégios, bulas e alvarás dos morgados, segundo a sua relação. Ora, seja por herança ou testamento de alguns bens de Mestre Pedro, ora, seja pela apropriação dos bens pertencentes ao Mosteiro de Santa Maria de Oia; esta exibição de riqueza de familiares junto dos viscondes de Cerveira revela alguns indícios de acumulação incerta.

Se, por um lado, já em 1296, se referencia que Mestre Pedro fundava na colegiada de São Lourenço uma capela dedicada a Santa Ana; por outro lado,  na história administrativa, relata-se que “o morgado de Santa Ana ou de São Lourenço foi instituído por Mestre Pedro Nogueira. Entrou na casa dos Viscondes de Vila Nova de Cerveira pelo casamento de D. Inês de Lima, filha do 5.º Visconde...» (Torre do Tombo, Viscondes de VNC). Ainda que se fosse criada uma colegiada, alguns bens de Mestre Pedro entram na posse dos senhores de Vila Nova, mantendo-se a dedicação a Santa Ana- orago desta propriedade.


A partir do reinado D. Dinis, “os bens de Mestre Pedro”, ou, o dito “Couto de Mangoeiro”, associam-se ao senhorio da família dos Pereira. Na sua peregrinação a Santiago, na Primavera de 1385, apesar do alcaide de Vila Nova de Cerveira ser a favor de Castela, o Condestável Nuno Álvares Pereira encetou negociações com este senhor, através de “homens-bons” do Baixo Minho , obtendo a sua submissão e demais terras e castelos ao rei D. João I (1385-1433).  A crise de 1383 a 1385 marca uma lenta passagem do Couto de Mangoeiro dos senhores eclesiásticos para os senhores leigos, através da família Pereira.


Fazendo fé na inscrição de "caza dobrigação para passageiros e mendigos que nela quiser dormir", que se inscreve nas famosas albergarias dos Caminhos de Santiago, com referência ao ano de 1592, segundo Carlos A. Brochado de Almeida; no entanto, as suas ameias remetem para algum castelo desmoronado, que ao longo do tempo foi recurso para novas construções. Quis o destino, ou, a tradição oral que o seu vizinho território mantenha o nome de lugar do "couto", na toponímia da freguesia Tal como consta, no século XIX, que D.Afonso Henriques "coutou" um povoado de origem normanda, junto a um estuário de um rio.


 


quinta-feira, 5 de março de 2020

Pelos caminhos do Hotel Boega - Apêndice - 1 - "Navegando na ilha da Boega"

  A ILHA DA BOEGA

Boega - há quem associe às ervas daninhas e à morraça que espontaneamente desponta nesta ilha, o nome de “Morraceira do Cónego”, este espaço plano em forma de barco. Com um comprimento da ordem dos 1400 metros, cuja largura no seu bojo é de 400 metros, encontra-se bordejado de árvores e arbustos ao seu redor. Popularmente dita e chamada - a ilha da Boega - confirmada também, em documentos oficiais, tornou-se “propriedade privada” em 5 de Fevereiro de 1952, por iniciativa, aquisição ou provável compra da família Almeida Braga, segundo reza o “Diário da República de 18 de Março de 1952”


Até à construção das barragens da Galiza, anualmente, as águas do rio Minho transbordavam as suas margens, nos invernos rigorosos, originando um imenso lago. Nesses tempos, uma “larga barca” recolhia o contingente de animais da ilha, para não se afogarem. Tal, como outrora, uma antiga barca servia no cais de Ligo de passagem para a outra margem, ou seja, para a anterior “ilha do povo”, já que os seus “talhões de terra” estavam distribuídos por vários agricultores. Ainda, sem qualquer registo de propriedade, somente em 1952 surge a sua reivindicação. Após a sua compra e com o pagamento de taxas, no registo predial, a ilha beneficia de um regime especial de “propriedade privada” entre o domínio público e privado, ou seja, segundo certas regras estatais.


 “A barca do povo”, que morreu afogada no seu lugar, jazia no lugar do Ligo, em linha reta com a atual rua Coutinho, que parte da E.N. 13 em direção ao rio. Os cabos ou tirantes permitiam à chamada “barca do povo”, que fosse puxada por arrastamento, nos seus quase cinquenta metros de largura. Durante anos ficaram visíveis os vestígios ferrugentos deste andarilho, autentica geringonça que se perdeu com os anos. O seu afundamento e desinteresse coletivo originaram o interesse particular. Deste modo, os pequenos lotes da rendilhada ilha foram vendidos à família Almeida Braga.


É, a partir de 1952, que se inicia o aproveitamento agrícola da ilha, através de um moderna mecanização da lavoura. A construção de um grande estábulo para criação de gado e uma nova agricultura dão uso aos tratores, aos silos, às ceifeiras mecânicas, aos serviços de rega, contrastando com o antiquado aproveitamento da terra, de economia doméstica.



Entre os anos de 1950 a 1970, a ilustre família Almeida Braga, como legítimos proprietários de uma ilha em domínio público, nunca proibiram o seu acesso. A parte sul da ilha funcionava como praia fluvial popular com o seu areal verdejante; enquanto no extremo norte, corvejam os mensageiros de Odin com o seu poder e magia, anunciando que o território - bold - e os ovos - eggs - desta ilha, grasnam "Boega".

EUROPOLITIQUE: Recordando "Platero y Yo" ....Juan Ramón Jiménez

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