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segunda-feira, 18 de janeiro de 2021

EUROPOLITIQUE: "São Sebastião" e o seu "Notário Apostólico" - Gondarém - V.N.C.

Em 1603, Pero de Guimarães Pereira, exercendo o ofício de “notário apostólico”, decide contruir uma Capela em honra de S. Sebastião, na sua igreja, ou, abadia, melhor dizendo, “padroado” de São Pedro de Gondarém. Após designação episcopal, a sua função consistia em documentar os assuntos eclesiásticos, relativos ao património imóvel, tais como: terras ou casas, escrituras de arrendamento, foros de igrejas anexas, rendas, doações, prazos de vida, dízimos ou testamentos.

Já que, a terra era a principal fonte de riqueza na Idade Média, a Igreja afirmava-se como a instituição mais rica, quer na Europa, quer no Noroeste Peninsular, usufruindo de um conjunto de rendas dos seus domínios e terras, embora, por vezes, dependente da vontade dos “senhores leigos”, em que transitavam "títulos e benefícios", aos quais estava sujeito este padroado. Os padroados foram criados por intervenção de D. João III, a partir de 1532.

Em 1648, o “Padroado” da Igreja de São Pedro de Gondarém perde uma sentença a favor do fidalgo Francisco Pereira da Silva, (terceiro "morgado" da casa de Bertiandos), na Comarca de Valença, que se torna o seu padroeiro. (Por afinidades familiares, desde 1540, estabelecem-se ligações entre as terras da quinta da Boega e a casa de Bertiandos). O padroado consistia numa espécie de fundação familiar, que tinha o direito de apresentar o abade ou pároco ao bispo episcopal, cobrar dízimos e aplicar as rendas segundo a vontade do seu fundador (Cf. Arq. Distrital de Braga, 01.04.1648).

São Pedro de Gondarém permaneceu, com a designação de “igreja e abadia sem cura”, até ao século XIX, apesar dos seus padres, abades, ou, párocos; e, das várias escrituras de “foreiros”. Presume-se que a atual igreja de Gondarém derive da extensão, ou, prolongamento das terras dos antigos “senhores leigos” da Quinta do Lima, ou, da Boega.

Como “senhor eclesiástico”, eleito “notário apostólico", Pero Guimarães Pereira quis assinalar o seu “direito e múnus” apostólico, através da construção da Capela de São Sebastião. Seja, por simples reivindicação de autonomia eclesiástica, ou seja, por mero desejo de afirmação pessoal, eis que nasce a obra, ou, capela. Junto de uma nascente de água, e, face a um frondoso vale, ergue-se a dita capela, cuja construção de granito assinala o limite das águas do rio Minho, que antigamente atingem o seu sopé. No fundo do Monte de Góios, no encalço dos caminhos de Santiago, e, em frente da ilha dos Amores reaparece esta capela devido aos «papeis pertencentes a ermida da São Sebastião, sito na freguesia de São Pedro de Gondarém, a qual erigiu Pero de Guimarães Pereira, morador na dita freguesia», (Arq. Distrital de Braga, 24.02.1603).

Nesta ermida ou capela de granito e cal caiada, com a sua pequena torre sineira, e, o seu limitado adro, celebra-se a festa em honra de São Sebastião, no dia de 24 de maio, graças ao “notário apostólico”, Pero de Guimarães Pereira, morador desta freguesia de Gondarém, "senhor" da “respetiva provisão”. (Cf. Arq. Distrital de Braga, em 12.08.1603).

domingo, 17 de janeiro de 2021

Europolitique: A “Escola de latim” na Casa de Gouvim - Gondarém (V:N:C:)


Caminho de Santiago na Casa de Gouvim em Gondarém

“Seduziu e engravidou, o Abade..." não era qualquer título ou capítulo das "novelas" de  Camilo Castelo Branco, mas um fato concreto de uma querela na "Comarca do Tribunal de Caminha" que decorria contra um eclesiástico das redondezas, nos tempos em que se preparavam os noviços, ou, os candidatos para as funções eclesiásticas, (junto aos caminhos de Santiago), para as quais era imprescindível a língua latina.

Se, Camilo Castelo Branco, nas suas “Novelas do Minho”, se deleita na descrição destes candidatos da Igreja a uma “barriga farta”, numa “aldeia com recursos”; assim como , assinala o ensino desta língua latina por ilustres mestres, em casas abastadas de ricos lavradores, para a qual nem todos tinham aptidão, a casa de Gouvim, pertencente à família "Guerreiro", exercia uma função benemérita neste múnus.

Por volta do início do século XIX, um morador de S. Pedro de Gondarém candidata-se a “capelão”, cuja origem se deve a uma  abastada casa de lavoura em São Pedro de Gondarém, no lugar de Gouvim, que, juntamente com "Linhares" surge em algumas referências dos "Caminhos de Santiago".

Assim reza, o texto: «requerimento do padre Manuel João Lourenço Guerreiro, morador na freguesia de São Pedro de Gondarém, solicitando a confirmação da sua nomeação como capelão, efectuado pelo abade, o D. Prior-mor de Avis» (Arquivo Torre do Tombo, 1811). Antes deste pedido surge um "processo necessário para a ordenação de pároco", com o nome deste clérigo, ainda com data do século anterior. (Cf. Arq. Distrital de Braga em 02.20.1783). 

Ainda que apareça pedido idêntico para João Manuel Guerreiro, (Cf. reza o Arq. Distrital de Braga, em 30.05.1787); e, também, para Bernardo José Guerreiro, em 22.02.1809, (Cf. Arq. Distrital de Braga).

Mais tarde, em 1819, surge outro pedido de confirmação para possível ordenação em padre, com o nome de João Crisóstomo Guerreiro Amorim, (Cf. Arq. Distrital de Braga, em 23.11.1819). Rezam os "autos de visita ao oratório do Padre João Crisóstomo Guerreiro de Amorim, assistente na freguesia de São Pedro de Gondarém, em casas de seu irmão, João Manuel Guerreiro de Amorim Pereira, desembargador da Suplicação, que ele obteve breve apostólico, para ter oratório particular, tanto no Patriarcado de Lisboa, como neste Arcebispado, cuja graça estendeu também ao suplicante, como se vê no despacho junto». (Cf. Arq. Distrital de Braga, 23.11.1819).

Ora, todos estes eclesiásticos, presume-se que pertenciam à família Guerreiro, sendo os proprietários da Casa Gouvim, casa farta, e, de lavoura. Além de padres na família, com funções privadas ou públicas, como abades ou párocos, exerciam funções de secretariado, como acontece numa visita de trabalho nas freguesias de Braga, no ano de 1758, (Cf. Arq. Distrital de Braga, 1795). O "alforge" destas vocações suscitou o ensino da língua latina para candidatos a funções na Igreja Católica. Alfredo José Martins Guerreiro (15.01.1889) e Inocêncio Carmo Martins Guerreiro (28.02.1889) surgem como candidatos a funções religiosas, conforme o Arq. Distrital de Braga (1889).

Implantada numa encosta do Monte de Góios, e, paralela aos Caminhos de Santiago, a quinta do Gouvim floresceu pela sua riqueza material e espiritual, até finais do século XVIII. Nessa época, já não existia o “chamado baixo clero” da Idade Média, rude e inculto; nem tinham nascido os seminários diocesanos do século XIX, como relata Camilo Castelo Branco. De forma que, à semelhança dos velhos tempos medievais, os discípulos aprendiam na “casa dos mestres”, quer dizer, faziam parte integral da família. Esta tradição manteve-se na memória de muitos patrícios, que ainda nos anos sessenta do século XX, diziam que Gondarém tinha tido oito padres. Deste autêntico “alforge” clerical saíram genuínas vocações para esplendor da Igreja Católica.

É graças, a esta pequena escola de latim, que nascem os vários candidatos às profissões religiosas. Mas, remonta ao ano de 1524, a origem desta casa, que após a sua consolidação como casa agrícola, reuniu uma geração familiar suficientemente abastada e religiosa, para instaurar e prolongar o seu múnus pedagógico do ensino do latim, já que esta função estava reservada aos mosteiros e conventos.

Somente, em 1563, através do Concílio de Trento surge a recomendação da criação de seminários em cada diocese. Ainda que, desde o ano de 1215, pelo Concílio de Latrão IV se ditasse a obrigação da "missa dominical, da confissão e comunhão anual" («mandamentos da igreja»); do mesmo modo, que cada catedral tivesse o seu mestre de ensino religioso. É, em 1288, que D. Dinis pede autorização papal para erguer a Universidade de Coimbra. E, desde 1498, por decisão da Corte, todos os fidalgos portugueses tinham obrigação de ensinar os seus filhos a "ler e escrever", em suas casas. A carência de mestres públicos e de meios para pagar a sua função originou que pessoas mais dedicadas e preocupadas com o ensino do latim exercessem este múnus. Por isso, durante quase dois séculos a família Guerreiro foi uma escola de latim, neste lugar de Gouvim.

Na vizinha freguesia de Santa Marinha de Loivo, também desponta a família "Costa" com a sua "geração de padres",  que, por vezes, rendem serviços religiosos a São Pedro de Gondarém, como é o caso de Padre Manuel António da Costa, em 11.08.1802, (e, outros);  (Cf. Arq. Distrital de Braga).

Mas, antes da primeira escola pública no lugar do Calvário”, cuja origem é do século XIX, e da central escola do "Estado Novo", a freguesia de Gondarém beneficiou desta obra particular e exemplar e destes mestres, durante quase dois séculos, e, que coabitaram na Quinta do Gouvim.

N.B. As pessoas citadas foram objeto de "Inquirições de género":

«Processos necessários para a ordenação dos párocos. Consistem na inquirição de testemunhas para comprovar a filiação, reputação, bom nome ou "limpeza de sangue" do requerente. Incluem os seguintes documentos: requerimento inicial, carta de comissão, inquirições de genere a testemunhas e declarações dos párocos. Estão incluídos nesta série processos de Justificação de Fraternidade que são requeridos quando há, na família, alguém ordenado e com inquirição de genere elaborada e concluída». (Arquivo Distrital de Braga)

1783 - Manuel João Lourenço Guerreiro

1787 - João Manuel Guerreiro

1809 – Bernardo José Guerreiro 

1819 - João Crisóstomo Guerreiro Amorim

1889 – Inocêncio Carmo Martins Guerreiro

1889 – Alfredo José Martins Guerreiro





segunda-feira, 11 de janeiro de 2021

EUROPOLITIQUE: O Cercal do Alentejo transformado em Hollywood.

A “Casa dos Espíritos” foi cenário de um filme do livro homónimo de Isabel Allende, a escritora que vendeu mais de 40 milhões de livros, no Cercal do Alentejo. Apesar de ser a escritora que mais vende na América Latina, o filme foi um "fiasco". A arquitetura e fachada da casa era feita de material reciclável, mas que alguém estava disposto a comprar por um milhão de dólares. Em fevereiro de 1993, descia-se da estrada ao lado e subia-se até à pequena colina, que repleta de sobreiros, se alongava no seu olhar até ao mar.

«Em 1993, o Cercal do Alentejo viveu um período muito estranho., que marcou para sempre esta vila e os seus residentes. Boa parte das filmagens de “A Casa dos Espíritos”, homónimo da obra de Isabel Allende, decorreu a poucos quilómetros da vila, num espaço cercado de natureza, não muito distante da estrada em direção a Aljezur». (Cf. Revista Expresso). 

Antes de Aljezur e da sua “bela batata doce”, temos Mary Streep, instalada numa vivenda na vila das três mentiras (Vila Nova de Milfontes) que não desmente este “saudoso” relato da Revista Expresso de 08.01.2021.
«Naquele tempo, em 1993, as ruas de Cercal do Alentejo mais pareciam o céu. “Havia mais estrelas por metro quadrado do que em Hollywood”. Era isto tão possível quanto o litoral alentejano passar por andes chilenos. Era o Antonio Banderas, a passear descontraidamente pela vila, a entrar nas tascas, a beber imperiais e a comer tremoços nas esplanadas. Era Glenn Close, com o seu nariz empinado, a desfilar como se abrisse alas entre a plebe, economizando sorrisos. Era o esplendor metafísico de Mery Streep, flutuando por entre os cercalenses, sempre humilde, sempre distante.Era a senhora dona Vanessa Redgrave, deusa britânica dentro de vestimentas Woodstock , espalhando charme e simpatia, estimulando o comércio local, esforçando-se para se expressar na língua autóctone. Era a Winona Ryder, no apogeu da juventude, exercitando os seus poderes, povoando os sonhos secretos da rapaziada, com a concorrência de Maria Conchita Alonso, e a sua beleza caribenha em fase madura, já distante daqueles tempos em que sagrou Miss Teenager of World (1971), ainda com tiques de Miss Mundo Venezuela, versão 1975, desassossegando outras faixas etárias. Era Vincent Gallo a fazer de duplo de si. Era Armin Mueller-Stahl, com o seu estilo de militar prussiano, uma certa frieza, que dizem falsa, e um olhar de raio X. Era Grace Gummer, filha de Mery Streep, ocupadíssima em ser criança (tinha 7 anos). Era Jeremy Irons, com a sua natural pose nobiliárquica e o inconfundível estilo Bristol Old Vic Theatre School.
E, era Julieta Correia (natural de Alcácer do Sal, mas patrícia assumida do Cercal do Alentejo…), que foi “mãe de Banderas”.

 N.B. 
(Cf.) Texto de Luís Pedro Cabral, "O meu filme dava uma vida", Revista Expresso de 08.01.2021

sábado, 9 de janeiro de 2021

EUROPOLITIQUE: O "Chafariz de San Payo" da Quinta ou Solar da Loureira - VNC.


O "Chafariz de San Payo", no largo da Quinta ou Solar da Loureira

A autoria desta obra (chafariz, fonte, ou, fontanário) deve-se aos famosos mestres canteiros da família Lopes, que durante os séculos XVI e XVII, espalharam a sua arte por estas redondezas. 
Este chafariz insere-se na “montra de fontanários” que rodeiam as praças de Caminha e Viana do Castelo, fruto do trabalho destes mestres de cantaria, que deixaram um marca indelével em terras minhotas, e, na vizinha Galiza (Pontevedra). 
A convite dos monges franciscanos, o pequeno claustro do convento de Sam Payo foi enobrecido com este fontanário, ou, objeto estético, que além de obra de arte, tinha a função prática de refrescar o  espaço quadricular, em que estava inserido.  Uma fonte de água que abastecia o convento, deu origem à construção deste fontanário, que através de obras de encanamento em estrutura granítica, servindo de canalização, permitia levar a água até ao claustro. Pela sua simplicidade, ou seja, pela construção de uma única taça, tal como uma corola de uma flor, alvitra-se que tenha sido um exemplar inicial destes grandes mestres de cantaria. A água encanada desde a sua nascente demonstra que este convento de Sam Payo atingiu o auge da sua administração em pleno final do século XVI, tornando-se um modelo arquitetónico para outras fontes. Pelo seu "prestígio espiritual", alguns conventos serviram de modelos decorativos e arquitetónicos que irradiaram outras construções civis.
A estrutura do chafariz obedece a um equilíbrio dinâmico, em que no centro do tanque, emerso na água, assenta o pilar, que suporta uma grande taça, ligeiramente decorada por pequenos frisos, de onde jorra a água sobre o pequeno lago, ou tanque. A coluna,  por onde passa a água, e, inserida no meio da água, está trabalhada na sua base até ao nível da concha, ou, taça, e continua, na mesma proporção, com ornamentos até à sua parte superior.
No final do século XIX, procedeu-se ao desmantelamento deste chafariz que estava no pequeno claustro do Convento de Sam Payo para a Quinta ou Solar da Loureira, em Gondarém. Segundo, informações orais, um documento de "registo de obra" acompanhou a mudança desta obra de arte; outros, falam de uma oferta.


O Chafariz do Terreiro de Caminha

Do Convento Sam Payo até à Quinta da Loureira

O Mestre de Cantaria

Corriam os anos sessenta do século XX, quando se espalhavam boatos acerca de uma disputa entre dois senhores de Gondarém. Um vangloriava-se de ser um grande latifundiário. O outro, que lhe “cobria as terras com notas de mil escudos”. De facto, o primeiro tinha muito mais terras que o segundo; mas, o segundo tinha muito mais dinheiro que o primeiro, já que criara um banco em terras brasileiras, além de ter uma grande quinta. Acresce-se, ainda, que não muito longe destas terras, um “abastado lavrador” tinha o hábito de “lavar as notas de mil”, “passá-las a ferro”, e “estendê-las na sua eira”, para fazer pirraça aos seus vizinhos. Se, não eram as “Novelas do Minho” de Camilo Castelo Branco que estavam em causa, as disputas destes senhores de Gondarém encaixavam-se nos relatos dos “novos ricos brasileiros”,(sedentos de “brasões e portais de armas”), que a pena deste escritor descrevia com grande mestria, ainda que estes não ficassem isentos de tais descrições, em tempos passados.

Indiferente a estas disputas materiais, laborava no seu “atelier” o mestre de cantaria, os últimos retoques no desenho da nova frontaria do portão de entrada da “quinta brasileira”, em pedra de granito. Uma entrada monumental que se abria sobre o edifício da quinta, emoldurada na bela paisagem do rio Minho. O mestre de cantaria chegava a subir à serra para escolher a melhor pedra de granito, assim como dava instruções aos seus pedreiros para manusearem os "veios" de melhor corte. Atarefado com esta obra, longe estava de pensar, que seria convidado para desmantelar um fontanário, lá no alto da serra, no convento dos antigos monges franciscanos de Sam Payo. Por coincidência, a estátua do santo já tinha sido recolhida pelos seus patrícios, em tempos anteriores, dos quais se recordava por causa da grande festa em honra deste santo festivaleiro. Aliás, era com grande amargura e tristeza, que recordava os velhos tempos de convívio com aquelas espanholas, que tanto gostavam de bailar com os jovens portugueses. Mas, o enigma de desvendar o modo de construção da fonte suscitava-lhe grande entusiasmo. Por isso, aceitou de bom grado a tarefa para a qual foi incumbido.

Agnóstico, e, sem qualquer preconceito religioso, o mestre em cantaria procedeu ao desmantelamento da fonte de Sam Payo, que estava dentro de um pequeno claustro, onde os monges rezavam e se refrescavam, quer da sede, quer dos seus pecados, benzendo-se em nome do seu santo padroeiro. Habilmente, o mestre em cantaria, enumerava as pedras ao ritmo do seu desmantelamento, com certos códigos pessoais, enquanto rabiscava o seu número, no pequeno caderno de apontamentos. Os segredos profissionais acompanhavam sempre esta arte de “maçon”, não fosse ele entendido na matéria. Mais tímido e supersticioso estava o “homem do frete” que devia transportar as pesadas e duras pedras de granito. Após receber os conselhos do mestre de cantaria, o “homem do frete” ponderou os baloiços e sobressaltos que tal mercadoria lhe causaria, procurando sair incólume e ileso desta dura tarefa.

 As escarpas e o "Homem do frete"                                    

Gemiam os carros de bois, com as pesadas pedras de granito, que firmes e ruidosos eixos de madeira transportavam, enquanto os ternos olhos azuis do “homem do frete” se enterneciam na placidez da natureza e na fortaleza da sua junta de bois. Todavia, um frémito gelado de um certo temor religioso irradiava-se daquelas pedras que, tantas vezes, foram afagadas pelo carinho das mãos dos dedicados monges, cuja devoção gerava alguma superstição. Benzia-se e afastava do seu coração qualquer tipo de maldição. Os seus olhos preocupavam-se com o extenso e acidentado caminho, repleto de rochas e fragas esguias, cujo desnível ou deslize era um campo propício para secas pancadas sobre os frágeis pedaços de “granito trabalhado”. Por isso, nada de saltos bruscos, nem pancadas secas, já que a mercadoria devia chegar intata ao seu destino, apesar das escarpas e das rochas deslizantes. De novo, se benzera e pedira desculpas ao santo, sem ensejo de fazer qualquer oração desmedida, pois se alguma afronta houvesse, não recaía sobre os seus ombros, mas sobre quem teve tal intenção. Por isso, de novo, descansava o seu olhar na profundeza do rio que no fundo do verde vale alegremente caminhava, sem qualquer dor ou arrependimento. Talvez, o santo não gostasse de quem lhe roubasse o seu instrumento, por onde a água cantava, em alegres orações e cânticos que as vozes dos monges entoavam, quer de dia , quer ao luar, naquele tão recôndito lugar. Porventura, sofriam mais as pedras na hora da despedida do que o vazio daquele claustro; já que sempre algum raio de sol aqueceria a frieza e o abandono destas  pedras seculares. E, despedindo-se do seu trofeu, dizendo adeus ao santo lá no céu, aconchegavam-se naquele andarilho, que chiava em cada encosta, em cada outeiro, em cada trilho, ou, carreiro. E, também, na hora da despedida, o "homem do frete" deu a tarefa concluída, quando viu a fonte erguida.


O Chafariz da Praça de Viana do Castelo   

N.B. Como relata este documento, outros chafarizes precederam a construção deste grandioso fontanário em Viana do Castelo: «A 12 de julho de 1553, em ata de reunião da Câmara, [os vereadores] acordaram chamar o pedreiro João Lopes, 'por ser o melhor oficial que agora há nesta terra e experimentado por ter feito outros muitos chafarizes e por saber trazer as águas de onde é necessário'; acordaram que fizesse um chafariz novo como fez o de Caminha, 'e melhor se melhor se puder fazer', tirasse todos os canos rotos e quebrados até à 'arca' existente no Campo de Valverde »



</ N.B. "Segundo, dizem seria uma oferta do senhor Faria da Bagoada
 "Homems do frete, ou, transporte" - Pai do senhor João Gouvim (testemunho, em 28.01.2021), e João Manuel de Abreu Guerrerio

quarta-feira, 6 de janeiro de 2021

Monografia sobre o Solar da Loureira

 


 Introdução

A quinta ou solar da Loureira revela várias fases de construção e várias gerações de ocupação, através dos seus tempos e épocas, na sua lenta e profícua edificação. Desde o século XVI até ao século XIX, sofre várias metamorfoses, que se desenvolvem, inicialmente, a partir das ameias de uma estrutura militar, (com o seu improvisado castelo de defesa), até à consagrada transformação de uma casa nobre, barroca e palaciana.

O desenvolvimento desta casa senhorial culmina, já, no início do século XIX, em que várias gerações interferem na sua imagem final. Várias famílias ilustram este solar com as suas gerações, tais como: a família Faria e Sousa (carreira militar), a família Ferraz Novaes (classe fidalga e nobre), a família Cadaval (origem galega e militar), a família Queiróz Ribeiro (intelectual e política) e, finamente, a família Sousa Coutinho (industrial e burguesa). 

É, sobretudo, no início do século XIX, que se consolida a “beleza esteticamente barroca” deste solar com o seu imponente portão e o seu brasão de armas. A casa do Seixo, ou, atual quinta do Mirante, foi, certamente, a antecâmara da construção deste belo edifício, que exibe na sua face exterior uma capela, em honra de Santa Maria Madalena. "Brasão de armas, portão e capela" juntam-se a um belo fontenário, cuja origem remete para o claustro do Convento de Sampaio, em Loivo, Vila Nova de Cerveira. Sobretudo, três gerações enobrecem os pergaminhos das famílias desta casa, solar ou quinta: os primeiros através no ingresso na carreira militar e civil, os segundos pelo acesso à filiação na classe da nobreza, e, os terceiros pelo trabalho e empenho na indústria e burguesia. 

Portanto, durante três séculos, esta quinta agrícola teve, na produção de vinho e criação de gado, a sua principal fonte de riqueza. Devastadas as vinhas e perdido o grande armazém da quinta, erguem-se os campos na sua verde nudez, salpicados pelas brancas casas dos antigos servos e feitores. Presentemente, encontra-se aberta às atividades turísticas, nas quais se inserem as antigas casas de apoio à lavoura, nas zonas circundantes, das quais se recorda a casa do Pascoal, do Agostinho, do António (antigos caseiros), da Piscina, do Pote, das Batatas I, da Coelha, da Batatas II, e, finalmente da casa do "Mirante", antiga casa Seixo, que deu origem ao solar, ou, à quinta da Loureira. 

 

HISTORIOGRAFIA:

Prólogo 

Implantada em pleno centro da freguesia de Gondarém, a Quinta da Loureira é um expoente da arquitetura barroca, que engrandece, de forma eclética, o património arquitetónico desta localidade. O edifício granítico, de cal branca rebocado, em forma estrutural de “L”, constitui a casa residencial, que se prolonga, no muro do seu “portão e brasão de armas”, até à torre do seu altaneiro castelo, que domina a paisagem em direção à beira rio.

Quase ninguém fica insensível ao seu esplendor, quando obrigatoriamente, atravessa a curva da estrada local, que ladeia esta extensa propriedade, visivelmente exposta ao seu exterior, através do seu pequeno jardim, embelezado com um belo fontanário, cuja origem se deve ao Convento San Payo. Esconde-se, no seu interior, o recheio familiar, através de um pesado portal de ferro forjado, cuja abertura dá para o átrio de acesso à casa senhorial, onde se avista uma escadaria, em granito lavrado. 

A propriedade, dividida em quatro grandes parcelas, é um símbolo do latifúndio, numa zona típica de minifúndio, em que se ergue um mirante numa extremidade, em forma circular, apesar de apresentar sinais de ruína, ou, abandono. (Ainda que este miradoiro se confunda com a vizinha "casa do Mirante", que era a "Casa do Seixo"). As sucessivas imagens de fornos, adegas, espigueiros, aviários, pocilgas, juntas de bois, liteiras, parelhas de machos e matilha de cães simbolizam as diversas épocas, que atravessaram esta propriedade e sua exploração agrícola. Todavia, apesar das diversas vicissitudes temporais, a conservação deste património material e arquitetónico é fruto do trabalho e da riqueza, que várias gerações lhe consagraram.

 Século XVII

Reza em algumas publicações que «o Solar dos Cadavais, ou seja, a Casa da Loureira, esteve sempre nas mãos da mesma família que o construiu entre os finais do século XVI e início do século XVII até aos dias de hoje». (Cf. Jornal do "Diário do Minho", in Património, 22.02.2015). A atribuição desta data de construção e a filiação reclamada aos "Cadavais" não coincide com a historiografia, que nos apraz desenvolver, ainda que a sua antiguidade possa ser remetida para este século. (Aliás, o primeiro título de "cadaval", em terras portuguesas, foi conferido em 1648, na zona do Alentejo. A origem deste termo, em relação ao Solar da Loureira, advém da influência familiar dos ilustres galegos: “cadavaes”).

 Século XVIII

O sargento-mor de Vila Nova de Cerveira aparece como senhor das "Casas do Seixo e da Loureira", sobretudo, a partir de 1740.

Em 1737, a quinta do Seixo pertencia à viúva Maria da Silva, que pretendia construir uma capela, em honra de São José, de cujo edifício resta a sua fachada. A capela inacabada, ainda hoje exibe o seu frontão e pórtico principal, como emblema de uma promessa não cumprida. Entre este pedido eclesiástico, (com o respetivo registo de papéis), e a aquisição da Casa do Seixo, pelo Sargento-Mor de Vila Nova de Cerveira, transcorre um quarto de século, ou seja, vinte e cinco anos. Durante o século XVIII, a freguesia de São Pedro de Gondarém dependia da Comarca de Valença, apesar disso, afigura-se que a estrutura militar do atual edifício da torre da Quinta da Loureira tivesse sido edificada entre os anos de 1740 a 1760, por influência deste sargento-mor.

Em 1762, José António de Faria e Sousa, Sargento Mor de Vila Nova Cerveira, casou-se com D. Maria Teresa de Novaes Ferraz de Gouveia, na igreja de Remelhe, em Barcelos, exibindo o título de Senhor das Casas do Seixo e da Loureira, em Gondarém, Vila Nova de Cerveira. Certamente que a construção do pequeno castelo de estrutura militar que se ergue altaneiro em relação à Casa da Loureira, se deve a este Sargento que se tornou Capitão-Mor das milícias de Cerveira.

Em 1794, o filho do Senhor das “Casas do Seixo e da Loureira”, António de Sousa Ferraz de Novais de Almeida aparece como Provedor da Santa Casa de Misericórdia de Vila Nova de Cerveira, sendo filho de José António de Faria Sousa, Capitão-Mor de Vila Nova de Cerveira e de D. Maria Teresa de Novaes Ferraz de Gouveia, natural de Barcelos. Na senda da carreira do seu pai, em 1821, António de Sousa de Novais Ferraz de Almeida, torna-se Major de Milícias dos Arcos, exercendo funções militares. Todavia, a carreira militar carecia de laços nobres e pergaminhos distintos para a história da família.

 Século XIX

 Em 1824, como Major das milícias dos Arcos, António de Sousa de Novais Ferraz de Almeida pede a “Carta de Filiação” à nobreza, concedida pelo Rei D. João VI, em 22 de março, segundo relata José Leal Diogo (cf. Inventário da Heráldica Concelhia, Ed. V.N. C., 1981,29). Com esta autorização, constrói-se o brasão de armas e o seu imponente portão. Símbolo de várias gerações, o brasão da Quinta da Loureira, com ornatos “rocaille”, engloba várias armas de famílias nobres, tais como: Ferraz de Novais, Silveira e Sousa.

Em 1825, António de Sousa Ferraz de Novais de Almeida contrai matrimónio com D. Maria Jozefa Cadaval Correa, filha de José Maria Cadaval Correa e de D. Maria do Carmo Correa, senhores da Casa de Goyan, que foi inspetor e marechal de campo no exército espanhol, onde ingressou em 1800. Aliás, na sua monografia sobre “Portugal Antigo e Moderno”, Pinho Leal descreve esta quinta como “solar dos Cadavaes”, por causa da sua ligação a ilustres famílias galegas.

Em 1830, António de Sousa de Novais Ferraz de Almeida é eleito Provedor da Santa Casa de Misericórdia de Vila Nova de Cerveira. 

Em 1785, são concedidos “benefícios” de rendimento de terras, «na freguesia de Santa Maria de Ferreiros», «pelo prazo de três vidas», no lugar de Laboreiro, a favor de António de Sousa Ferraz, da freguesia de São Pedro de Gondarém. (Cf. Arq. Distrital de Braga, 1785-02-08). Interpreta-se como “foro dependente” de diocese de Braga, ou seja, «foreiro a coraria de Santa Sé Primaz». 

Em 1860, nasce Gaspar de Queiróz Ribeiro de Almeida Vasconcelos, natural da Guarda, foragido em Espanha, que contraiu matrimónio com Maria Josefa de Sousa Cadaval Novais Ferraz Ribeiro de Faria. Insigne poeta e ilustre deputado, faleceu em 1928.

Em 1874, fazendo jus à sua descendência e aos "fidalgos oriundos da Galiza" surge como proprietário da Quinta da Loureira, Francisco de Sousa Cadaval, segundo atesta a descrição de Pinho Leal, que na sua monografia sobre Gondarém, a menciona como "Solar dos Cadavaes". (Cf. Leal, Pinho, "Portugal Antigo e Moderno" Cap.III pg. 302, 1874).

 Século XX

Em 1900, nasce D. Emília Carolina Cadaval Queiroz Ribeiro (de Sousa Coutinho), filha do poeta e deputado Queiróz Ribeiro, que mais tarde se casa com Delfim de Sousa Pinto Machado Coutinho. Desta união resultam vários filhos que compõem esta ilustre geração, modernamente, formada e emancipada, cuja alegria e jovialidade contagia a mocidade local. Por causa do seu falecimento, e, por causa da existência de filhos menores, em 1949, entra um "processo de inventário" no Tribunal Judicial de Caminha, segundo registos do Arquivo Distrital de Viana do Castelo. Quinta agrícola, com boa produção de milho, batatas e suas "40 pipas de vinho", salientava-se em boas colheitas, numa zona de minifúndio. Em Gondarém, da rua de Pepim até ao ancoradouro do Cais de Ligo, estende-se, em direção à beira rio, como testemunho e memória, a Avenida Engenheiro Delfim de Sousa Coutinho.

Século XXI

Os atuais proprietários da Quinta da Loureira são Emília Carolina Martins Cadaval de Sousa Coutinho, na figura paterna do Dr. Joaquim Cadaval Queiroz Ribeiro de Sousa Coutinho, casado com D. Áurea Pereira Martins de Sousa Coutinho, que zelam, carinhosamente, pelo património arquitetónico deste "solar". Presentemente, as casas adicionais à Quinta da Loureira, abrem as suas portas ao turismo, nas suas zonas circundantes. (Vide, "Casas da Loureira").

 Apêndice


Em 13.12.1869, nasceu na freguesia de Santa Eulália, concelho de Seia, na cidade” fria, farta e forte” da Guarda, Gaspar de Queiroz Ribeiro de Almeida Vasconcelos - célebre poeta, talentoso tribuno, deputado e escritor. Deambulou por terras de Espanha por causa do Movimento Monárquico do Norte, sendo deputado da Assembleia Constituinte. Por causa das suas andanças por terras galegas, descobriu em terras de Gondarém, D. Maria Josefa de Sousa Cadaval Novais Ferraz Ribeiro Faria, com quem contraiu matrimónio, inserindo-se na quinta da Loureira, de quem deixou uma filha. Segundo outras fontes passou a sua infância em Ponte de Lima, morou na quinta da Boavista e morreu em Marco de Canavezes, em 17.02.1928.A ele se deve, a restauração do Concelho de Vila Nova de Cerveira em 12 de julho de 1895, apesar de algumas peripécias, que se concretizou definitivamente três anos após, ou seja, em 1898. Destaca-se a grande defesa pela introdução da “Cartilha Maternal” de João de Deus como método do ensino da língua portuguesa nas escolas primárias. 

Principais obras publicadas:

Tardes de Primavera - 1889

Cinzas - 1896

Pedras Falsas - 1903

Caminho do Céu - 1906

Folhas Mortas - 1916

Imitação de Cristo - 1925




quarta-feira, 30 de dezembro de 2020

EUROPOLITIQUE: Sam Payo - O Santo que veio de um convento até ao "Bom Jesus" de Gondarém

 


Desde o século XVIII, que a estátua de Sam Payo tinha tido acolhimento na capela do  Bom Jesus de Gondarém, com "altar e digno reposteiro", tornando-se num santo de grande devoção, ocupando um lugar de padroeiro. A festa, que estava dedicada ao “Bom Jesus”, e, que tinha como "símbolo a cruz" (via crucis), perdeu lentamente o seu brilho e fulgor, por causa deste santo intrometido e adotivo, que, furtivamente tinha entrado na capela do Senhor. Paulatinamente e sem pedir licença, também, por causa da sua ousadia, que a devoção popular lhe devia, (de tal forma que não deixava ninguém indiferente ao seu olhar), este santo, rapidamente, iluminou o seu lugar. Santo festivaleiro, que misturava a oração e a romaria, só encontrava descanso em corações cheios de alegria. Daí, que a nível popular, a festividade tenha trocado de nome, por imposição e virtude deste santo, vindo das terras de Santiago, vestido de peregrino e romeiro. 


Os "tempos de peregrinação", que, outrora pertenceram a Santiago, pelos seus caminhos e atalhos, transpuseram-se para este pequeno embaixador de "Matamouros", que a devoção popular conservava, através deste santo na tradição que o tempo transformara, após a ruína, desleixo e abandono da sua casa, ou, convento, lá no alto daquele monte.


Este santo de "rezar e folgar", em algum sítio tinha de ter lugar. Os seus devotos já não podiam subir ao monte e celebrar aqueles bons tempos em que a sua festa tinha lugar. Por isso, albergaram-no nesta capela do "Bom Jesus", pouca habitada e de pouco uso. A festa do santo começou a brilhar, e a sua festividade atraía toda a vizinhança, quer deste lado ou do outro lado do rio Minho. Se «de Espanha, nem bom vento, nem bom casamento», Sam Payo deixava essas querelas para as dinastias, porque a sua  graça e alegria a todos irradia, quer portugueses, quer galegos, de noite e de dia. Ao invès, aviva-os na sua memória, que este santo fazia parte da sua história, que, por graça de franciscanos tinha vindo com eles, em tempos remotos e arcanos. 


A sua devoção de "santo e padroeiro de romarias" ultrapassara a severa penitência que o “caminho da cruz” impunha com o “Senhor Bom Jesus”. Os severos sermões e as duras ameaças de um Inferno para além desta vida, não se compadeciam com as agruras de cada dia. A vida "difícil e pobre" não suportava quem a cobre com o "fogo eterno", a quem já nesta terra tem as suas labaredas. Se, a vida, por vezes, era um inferno, ter outra vida, com "lume eterno", era demais, para estes pobres mortais. Por isso, por mais amor que se tivese ao Bom Jesus, procurava-se outra luz para o "caminho da cruz", ainda que fosse um pequeno luzeiro neste "santo festivaleiro". E, do seu anterior local de devoção, que também foi de alegre peregrinação, emoldurava-se o "monte sacro" do Bom Jesus com outro santo e outra cruz. Uma cruz mais popular, de "rezar e folgar", tornada em romaria, que irrompia, quer de noite, quer de dia. Recordava-se com remota ternura, os velhos tempos das caminhadas, quer a pé, quer em “carradas”, pelas fragas, pelo mato e pinhais, atravessando densos matagais, onde os lobos famintos faziam os seus arraiais. 


Um dia, o santo apareceu fora da igreja, ao vento e à chuva, fora do seu lugar, parecia um santo a tiritar. Um gélido nicho exterior, na branca parede da capela, deu-lhe um sítio para morar. Mas, o frio do Norte e a sua chuva da noite, moveu  o coração de um devoto do santo que sofreu por tal desgraça, sorte e desdita. Dorido na sua dor e cheio de fervor, este audaz morador colocou no santo um cobertor, de "palha e de pastor", temendo qualquer delator.  

N.B. Aos "tempos de ditadura", juntavam-se os "tempos de tonsura"

segunda-feira, 28 de dezembro de 2020

EUROPOLITIQUE: "O Bom Jesus" de Gondarém, ou , no lugar do Calvário: o seu santo adoptivo S. Paio.

Em 25 de Junho de 1758, segundo relato do arquivo da Diocese de Braga é concedido o «registo de provisão a favor dos moradores da freguesia de Gondarém, termo de Vila Nova de Cerveira, para erigirem a capela do Senhor Bom Jesus do Calvário e o seu Pároco poder benzer a dita capela». (Arq. Distrital de Braga, 26.10.1758)

Deste modo, emerge uma capela retangular, cuja torre sineira tem um campanário com os seus quatro sinos, construída em pedra granítica, com os seus cunhais salientes e rebocada a cal. No seu interior encontra-se o altar do «Bom Jesus», em talha “rocaille”. No seu exterior brilha um cruzeiro, com a imagem de um Cristo, relembrando a “via crucis”, ou, caminho da cruz. Portanto, a partir dos anos sessenta do século XVIII, ressurgem as obras, daquilo que, popularmente, se chama “Calvário”.

Em lugar altaneiro, e, na encosta de uma colina, encontra-se esta capela, cuja vista panorâmica abrange o verde vale, as ilhas da Boega e dos Amores, e o rio Minho. Em seu redor estende-se uma frondosa mata, repleta de carvalhos, pinheiros e oliveiras, emoldurada por uma bela fonte em “granito trabalhado”, cujo limite superior é feito pela “via montis”, ou, estrada da floresta.

Este templo, que mais parece uma pequena igreja, ergue-se por cima de um escadório, ladeado por quatro pequenas capelas. No seu prolongamento inferior estende-se uma simples e longa escadaria, até ao antigo Caminho de Santiago. Deste modo, emerge uma capela retangular, cuja torre sineira tem um campanário com os seus quatro sinos, construída em pedra granítica, com os seus cunhais salientes e rebocada a cal. No seu interior encontra-se o altar do «Bom Jesus», em talha “rocaille”. No seu exterior brilha um cruzeiro, com a imagem de um Cristo, relembrando a “via crucis”, ou, caminho da cruz. Portanto, a partir dos anos sessenta do século XVIII, ressurgem as obras, daquilo que, popularmente, se chama “Calvário”.

Desde o século XVIII, que o dia 2 de agosto estava reservado à grande romaria que animava este local, cujos ecos festivos atraíam toda a redondeza. Associava-se a esta festividade, o culto a um santo popular, cuja origem se deve ao mesmo nome que tinha o vizinho convento franciscano de Sampaio. Por ironia do destino, a estátua de S. Paio foi colocada num nicho exterior da capela, cujo deslocamento não foi do agrado popular, e, tal desdita fez esmorecer a sua romaria.

                         
A consagração de uma colina como “monte sacro”, neste caso, dedicado ao “Bom Jesus”, insere-se na tradição católica a partir do século XVI, que deve a sua influência a São Carlos Borromeu, apologista da Contra Reforma, instituindo-se como local purificador, e, de romaria. Desconhece-se o papel de alguma confraria, muitas vezes, associada a Santa Ana, com capela nesta localidade.

                                 


A amplitude do “Calvário”, ou, do “Bom Jesus” de Gondarém revela que as intenções dos seus fundadores prosseguiam uma grandiosidade que se quedou bastante limitada, embora com espaço livre para a sua realização. O local de ímpar beleza natural congrega, naturalmente, à contemplação e à oração, em memória daqueles que tenham alguma crença.


N.B.

«No início do século XVIII, o convento de São Paio do Monte foi alvo do interesse de uma família abastada da freguesia de Covas, Vila Nova de Cerveira, em cujo concelho usufruíram de grande influência e importância. Embora os direitos de propriedade não sejam muito explícitos nesta ordem religiosa, dado os seus votos de pobreza, a sua aquisição é realizada por Manuel Carlos de Bacelar, ou, Manoel Carlos de Bacelar Malheiro (1705/1758), considerado terceiro administrador da abastada Casa Carboal, na freguesia de Covas, e, com o título de fidalgo escudeiro da Casa Real, em 1737». (Conventos da Vila de V.N.C. by M.F.)

Ora, o pedido dos moradores de Gondarém acontece no ano do falecimento de Manoel Carlos de Bacelar Malheiro, ou seja, em 1758. Será, que o "Bom Jesus" do Monte tinha como intenção "asilar ou albergar" Sam Payo?


EUROPOLITIQUE: Recordando "Platero y Yo" ....Juan Ramón Jiménez

  Na minha tenra idade escutava os poemas de “ Platero y yo” , com uma avidez e candura própria da inocente e singela juventude, que era o ...