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sábado, 9 de janeiro de 2021

EUROPOLITIQUE: O "Chafariz de San Payo" da Quinta ou Solar da Loureira - VNC.


O "Chafariz de San Payo", no largo da Quinta ou Solar da Loureira

A autoria desta obra (chafariz, fonte, ou, fontanário) deve-se aos famosos mestres canteiros da família Lopes, que durante os séculos XVI e XVII, espalharam a sua arte por estas redondezas. 
Este chafariz insere-se na “montra de fontanários” que rodeiam as praças de Caminha e Viana do Castelo, fruto do trabalho destes mestres de cantaria, que deixaram um marca indelével em terras minhotas, e, na vizinha Galiza (Pontevedra). 
A convite dos monges franciscanos, o pequeno claustro do convento de Sam Payo foi enobrecido com este fontanário, ou, objeto estético, que além de obra de arte, tinha a função prática de refrescar o  espaço quadricular, em que estava inserido.  Uma fonte de água que abastecia o convento, deu origem à construção deste fontanário, que através de obras de encanamento em estrutura granítica, servindo de canalização, permitia levar a água até ao claustro. Pela sua simplicidade, ou seja, pela construção de uma única taça, tal como uma corola de uma flor, alvitra-se que tenha sido um exemplar inicial destes grandes mestres de cantaria. A água encanada desde a sua nascente demonstra que este convento de Sam Payo atingiu o auge da sua administração em pleno final do século XVI, tornando-se um modelo arquitetónico para outras fontes. Pelo seu "prestígio espiritual", alguns conventos serviram de modelos decorativos e arquitetónicos que irradiaram outras construções civis.
A estrutura do chafariz obedece a um equilíbrio dinâmico, em que no centro do tanque, emerso na água, assenta o pilar, que suporta uma grande taça, ligeiramente decorada por pequenos frisos, de onde jorra a água sobre o pequeno lago, ou tanque. A coluna,  por onde passa a água, e, inserida no meio da água, está trabalhada na sua base até ao nível da concha, ou, taça, e continua, na mesma proporção, com ornamentos até à sua parte superior.
No final do século XIX, procedeu-se ao desmantelamento deste chafariz que estava no pequeno claustro do Convento de Sam Payo para a Quinta ou Solar da Loureira, em Gondarém. Segundo, informações orais, um documento de "registo de obra" acompanhou a mudança desta obra de arte; outros, falam de uma oferta.


O Chafariz do Terreiro de Caminha

Do Convento Sam Payo até à Quinta da Loureira

O Mestre de Cantaria

Corriam os anos sessenta do século XX, quando se espalhavam boatos acerca de uma disputa entre dois senhores de Gondarém. Um vangloriava-se de ser um grande latifundiário. O outro, que lhe “cobria as terras com notas de mil escudos”. De facto, o primeiro tinha muito mais terras que o segundo; mas, o segundo tinha muito mais dinheiro que o primeiro, já que criara um banco em terras brasileiras, além de ter uma grande quinta. Acresce-se, ainda, que não muito longe destas terras, um “abastado lavrador” tinha o hábito de “lavar as notas de mil”, “passá-las a ferro”, e “estendê-las na sua eira”, para fazer pirraça aos seus vizinhos. Se, não eram as “Novelas do Minho” de Camilo Castelo Branco que estavam em causa, as disputas destes senhores de Gondarém encaixavam-se nos relatos dos “novos ricos brasileiros”,(sedentos de “brasões e portais de armas”), que a pena deste escritor descrevia com grande mestria, ainda que estes não ficassem isentos de tais descrições, em tempos passados.

Indiferente a estas disputas materiais, laborava no seu “atelier” o mestre de cantaria, os últimos retoques no desenho da nova frontaria do portão de entrada da “quinta brasileira”, em pedra de granito. Uma entrada monumental que se abria sobre o edifício da quinta, emoldurada na bela paisagem do rio Minho. O mestre de cantaria chegava a subir à serra para escolher a melhor pedra de granito, assim como dava instruções aos seus pedreiros para manusearem os "veios" de melhor corte. Atarefado com esta obra, longe estava de pensar, que seria convidado para desmantelar um fontanário, lá no alto da serra, no convento dos antigos monges franciscanos de Sam Payo. Por coincidência, a estátua do santo já tinha sido recolhida pelos seus patrícios, em tempos anteriores, dos quais se recordava por causa da grande festa em honra deste santo festivaleiro. Aliás, era com grande amargura e tristeza, que recordava os velhos tempos de convívio com aquelas espanholas, que tanto gostavam de bailar com os jovens portugueses. Mas, o enigma de desvendar o modo de construção da fonte suscitava-lhe grande entusiasmo. Por isso, aceitou de bom grado a tarefa para a qual foi incumbido.

Agnóstico, e, sem qualquer preconceito religioso, o mestre em cantaria procedeu ao desmantelamento da fonte de Sam Payo, que estava dentro de um pequeno claustro, onde os monges rezavam e se refrescavam, quer da sede, quer dos seus pecados, benzendo-se em nome do seu santo padroeiro. Habilmente, o mestre em cantaria, enumerava as pedras ao ritmo do seu desmantelamento, com certos códigos pessoais, enquanto rabiscava o seu número, no pequeno caderno de apontamentos. Os segredos profissionais acompanhavam sempre esta arte de “maçon”, não fosse ele entendido na matéria. Mais tímido e supersticioso estava o “homem do frete” que devia transportar as pesadas e duras pedras de granito. Após receber os conselhos do mestre de cantaria, o “homem do frete” ponderou os baloiços e sobressaltos que tal mercadoria lhe causaria, procurando sair incólume e ileso desta dura tarefa.

 As escarpas e o "Homem do frete"                                    

Gemiam os carros de bois, com as pesadas pedras de granito, que firmes e ruidosos eixos de madeira transportavam, enquanto os ternos olhos azuis do “homem do frete” se enterneciam na placidez da natureza e na fortaleza da sua junta de bois. Todavia, um frémito gelado de um certo temor religioso irradiava-se daquelas pedras que, tantas vezes, foram afagadas pelo carinho das mãos dos dedicados monges, cuja devoção gerava alguma superstição. Benzia-se e afastava do seu coração qualquer tipo de maldição. Os seus olhos preocupavam-se com o extenso e acidentado caminho, repleto de rochas e fragas esguias, cujo desnível ou deslize era um campo propício para secas pancadas sobre os frágeis pedaços de “granito trabalhado”. Por isso, nada de saltos bruscos, nem pancadas secas, já que a mercadoria devia chegar intata ao seu destino, apesar das escarpas e das rochas deslizantes. De novo, se benzera e pedira desculpas ao santo, sem ensejo de fazer qualquer oração desmedida, pois se alguma afronta houvesse, não recaía sobre os seus ombros, mas sobre quem teve tal intenção. Por isso, de novo, descansava o seu olhar na profundeza do rio que no fundo do verde vale alegremente caminhava, sem qualquer dor ou arrependimento. Talvez, o santo não gostasse de quem lhe roubasse o seu instrumento, por onde a água cantava, em alegres orações e cânticos que as vozes dos monges entoavam, quer de dia , quer ao luar, naquele tão recôndito lugar. Porventura, sofriam mais as pedras na hora da despedida do que o vazio daquele claustro; já que sempre algum raio de sol aqueceria a frieza e o abandono destas  pedras seculares. E, despedindo-se do seu trofeu, dizendo adeus ao santo lá no céu, aconchegavam-se naquele andarilho, que chiava em cada encosta, em cada outeiro, em cada trilho, ou, carreiro. E, também, na hora da despedida, o "homem do frete" deu a tarefa concluída, quando viu a fonte erguida.


O Chafariz da Praça de Viana do Castelo   

N.B. Como relata este documento, outros chafarizes precederam a construção deste grandioso fontanário em Viana do Castelo: «A 12 de julho de 1553, em ata de reunião da Câmara, [os vereadores] acordaram chamar o pedreiro João Lopes, 'por ser o melhor oficial que agora há nesta terra e experimentado por ter feito outros muitos chafarizes e por saber trazer as águas de onde é necessário'; acordaram que fizesse um chafariz novo como fez o de Caminha, 'e melhor se melhor se puder fazer', tirasse todos os canos rotos e quebrados até à 'arca' existente no Campo de Valverde »



</ N.B. "Segundo, dizem seria uma oferta do senhor Faria da Bagoada
 "Homems do frete, ou, transporte" - Pai do senhor João Gouvim (testemunho, em 28.01.2021), e João Manuel de Abreu Guerrerio

quarta-feira, 6 de janeiro de 2021

Monografia sobre o Solar da Loureira

 


 Introdução

A quinta ou solar da Loureira revela várias fases de construção e várias gerações de ocupação, através dos seus tempos e épocas, na sua lenta e profícua edificação. Desde o século XVI até ao século XIX, sofre várias metamorfoses, que se desenvolvem, inicialmente, a partir das ameias de uma estrutura militar, (com o seu improvisado castelo de defesa), até à consagrada transformação de uma casa nobre, barroca e palaciana.

O desenvolvimento desta casa senhorial culmina, já, no início do século XIX, em que várias gerações interferem na sua imagem final. Várias famílias ilustram este solar com as suas gerações, tais como: a família Faria e Sousa (carreira militar), a família Ferraz Novaes (classe fidalga e nobre), a família Cadaval (origem galega e militar), a família Queiróz Ribeiro (intelectual e política) e, finamente, a família Sousa Coutinho (industrial e burguesa). 

É, sobretudo, no início do século XIX, que se consolida a “beleza esteticamente barroca” deste solar com o seu imponente portão e o seu brasão de armas. A casa do Seixo, ou, atual quinta do Mirante, foi, certamente, a antecâmara da construção deste belo edifício, que exibe na sua face exterior uma capela, em honra de Santa Maria Madalena. "Brasão de armas, portão e capela" juntam-se a um belo fontenário, cuja origem remete para o claustro do Convento de Sampaio, em Loivo, Vila Nova de Cerveira. Sobretudo, três gerações enobrecem os pergaminhos das famílias desta casa, solar ou quinta: os primeiros através no ingresso na carreira militar e civil, os segundos pelo acesso à filiação na classe da nobreza, e, os terceiros pelo trabalho e empenho na indústria e burguesia. 

Portanto, durante três séculos, esta quinta agrícola teve, na produção de vinho e criação de gado, a sua principal fonte de riqueza. Devastadas as vinhas e perdido o grande armazém da quinta, erguem-se os campos na sua verde nudez, salpicados pelas brancas casas dos antigos servos e feitores. Presentemente, encontra-se aberta às atividades turísticas, nas quais se inserem as antigas casas de apoio à lavoura, nas zonas circundantes, das quais se recorda a casa do Pascoal, do Agostinho, do António (antigos caseiros), da Piscina, do Pote, das Batatas I, da Coelha, da Batatas II, e, finalmente da casa do "Mirante", antiga casa Seixo, que deu origem ao solar, ou, à quinta da Loureira. 

 

HISTORIOGRAFIA:

Prólogo 

Implantada em pleno centro da freguesia de Gondarém, a Quinta da Loureira é um expoente da arquitetura barroca, que engrandece, de forma eclética, o património arquitetónico desta localidade. O edifício granítico, de cal branca rebocado, em forma estrutural de “L”, constitui a casa residencial, que se prolonga, no muro do seu “portão e brasão de armas”, até à torre do seu altaneiro castelo, que domina a paisagem em direção à beira rio.

Quase ninguém fica insensível ao seu esplendor, quando obrigatoriamente, atravessa a curva da estrada local, que ladeia esta extensa propriedade, visivelmente exposta ao seu exterior, através do seu pequeno jardim, embelezado com um belo fontanário, cuja origem se deve ao Convento San Payo. Esconde-se, no seu interior, o recheio familiar, através de um pesado portal de ferro forjado, cuja abertura dá para o átrio de acesso à casa senhorial, onde se avista uma escadaria, em granito lavrado. 

A propriedade, dividida em quatro grandes parcelas, é um símbolo do latifúndio, numa zona típica de minifúndio, em que se ergue um mirante numa extremidade, em forma circular, apesar de apresentar sinais de ruína, ou, abandono. (Ainda que este miradoiro se confunda com a vizinha "casa do Mirante", que era a "Casa do Seixo"). As sucessivas imagens de fornos, adegas, espigueiros, aviários, pocilgas, juntas de bois, liteiras, parelhas de machos e matilha de cães simbolizam as diversas épocas, que atravessaram esta propriedade e sua exploração agrícola. Todavia, apesar das diversas vicissitudes temporais, a conservação deste património material e arquitetónico é fruto do trabalho e da riqueza, que várias gerações lhe consagraram.

 Século XVII

Reza em algumas publicações que «o Solar dos Cadavais, ou seja, a Casa da Loureira, esteve sempre nas mãos da mesma família que o construiu entre os finais do século XVI e início do século XVII até aos dias de hoje». (Cf. Jornal do "Diário do Minho", in Património, 22.02.2015). A atribuição desta data de construção e a filiação reclamada aos "Cadavais" não coincide com a historiografia, que nos apraz desenvolver, ainda que a sua antiguidade possa ser remetida para este século. (Aliás, o primeiro título de "cadaval", em terras portuguesas, foi conferido em 1648, na zona do Alentejo. A origem deste termo, em relação ao Solar da Loureira, advém da influência familiar dos ilustres galegos: “cadavaes”).

 Século XVIII

O sargento-mor de Vila Nova de Cerveira aparece como senhor das "Casas do Seixo e da Loureira", sobretudo, a partir de 1740.

Em 1737, a quinta do Seixo pertencia à viúva Maria da Silva, que pretendia construir uma capela, em honra de São José, de cujo edifício resta a sua fachada. A capela inacabada, ainda hoje exibe o seu frontão e pórtico principal, como emblema de uma promessa não cumprida. Entre este pedido eclesiástico, (com o respetivo registo de papéis), e a aquisição da Casa do Seixo, pelo Sargento-Mor de Vila Nova de Cerveira, transcorre um quarto de século, ou seja, vinte e cinco anos. Durante o século XVIII, a freguesia de São Pedro de Gondarém dependia da Comarca de Valença, apesar disso, afigura-se que a estrutura militar do atual edifício da torre da Quinta da Loureira tivesse sido edificada entre os anos de 1740 a 1760, por influência deste sargento-mor.

Em 1762, José António de Faria e Sousa, Sargento Mor de Vila Nova Cerveira, casou-se com D. Maria Teresa de Novaes Ferraz de Gouveia, na igreja de Remelhe, em Barcelos, exibindo o título de Senhor das Casas do Seixo e da Loureira, em Gondarém, Vila Nova de Cerveira. Certamente que a construção do pequeno castelo de estrutura militar que se ergue altaneiro em relação à Casa da Loureira, se deve a este Sargento que se tornou Capitão-Mor das milícias de Cerveira.

Em 1794, o filho do Senhor das “Casas do Seixo e da Loureira”, António de Sousa Ferraz de Novais de Almeida aparece como Provedor da Santa Casa de Misericórdia de Vila Nova de Cerveira, sendo filho de José António de Faria Sousa, Capitão-Mor de Vila Nova de Cerveira e de D. Maria Teresa de Novaes Ferraz de Gouveia, natural de Barcelos. Na senda da carreira do seu pai, em 1821, António de Sousa de Novais Ferraz de Almeida, torna-se Major de Milícias dos Arcos, exercendo funções militares. Todavia, a carreira militar carecia de laços nobres e pergaminhos distintos para a história da família.

 Século XIX

 Em 1824, como Major das milícias dos Arcos, António de Sousa de Novais Ferraz de Almeida pede a “Carta de Filiação” à nobreza, concedida pelo Rei D. João VI, em 22 de março, segundo relata José Leal Diogo (cf. Inventário da Heráldica Concelhia, Ed. V.N. C., 1981,29). Com esta autorização, constrói-se o brasão de armas e o seu imponente portão. Símbolo de várias gerações, o brasão da Quinta da Loureira, com ornatos “rocaille”, engloba várias armas de famílias nobres, tais como: Ferraz de Novais, Silveira e Sousa.

Em 1825, António de Sousa Ferraz de Novais de Almeida contrai matrimónio com D. Maria Jozefa Cadaval Correa, filha de José Maria Cadaval Correa e de D. Maria do Carmo Correa, senhores da Casa de Goyan, que foi inspetor e marechal de campo no exército espanhol, onde ingressou em 1800. Aliás, na sua monografia sobre “Portugal Antigo e Moderno”, Pinho Leal descreve esta quinta como “solar dos Cadavaes”, por causa da sua ligação a ilustres famílias galegas.

Em 1830, António de Sousa de Novais Ferraz de Almeida é eleito Provedor da Santa Casa de Misericórdia de Vila Nova de Cerveira. 

Em 1785, são concedidos “benefícios” de rendimento de terras, «na freguesia de Santa Maria de Ferreiros», «pelo prazo de três vidas», no lugar de Laboreiro, a favor de António de Sousa Ferraz, da freguesia de São Pedro de Gondarém. (Cf. Arq. Distrital de Braga, 1785-02-08). Interpreta-se como “foro dependente” de diocese de Braga, ou seja, «foreiro a coraria de Santa Sé Primaz». 

Em 1860, nasce Gaspar de Queiróz Ribeiro de Almeida Vasconcelos, natural da Guarda, foragido em Espanha, que contraiu matrimónio com Maria Josefa de Sousa Cadaval Novais Ferraz Ribeiro de Faria. Insigne poeta e ilustre deputado, faleceu em 1928.

Em 1874, fazendo jus à sua descendência e aos "fidalgos oriundos da Galiza" surge como proprietário da Quinta da Loureira, Francisco de Sousa Cadaval, segundo atesta a descrição de Pinho Leal, que na sua monografia sobre Gondarém, a menciona como "Solar dos Cadavaes". (Cf. Leal, Pinho, "Portugal Antigo e Moderno" Cap.III pg. 302, 1874).

 Século XX

Em 1900, nasce D. Emília Carolina Cadaval Queiroz Ribeiro (de Sousa Coutinho), filha do poeta e deputado Queiróz Ribeiro, que mais tarde se casa com Delfim de Sousa Pinto Machado Coutinho. Desta união resultam vários filhos que compõem esta ilustre geração, modernamente, formada e emancipada, cuja alegria e jovialidade contagia a mocidade local. Por causa do seu falecimento, e, por causa da existência de filhos menores, em 1949, entra um "processo de inventário" no Tribunal Judicial de Caminha, segundo registos do Arquivo Distrital de Viana do Castelo. Quinta agrícola, com boa produção de milho, batatas e suas "40 pipas de vinho", salientava-se em boas colheitas, numa zona de minifúndio. Em Gondarém, da rua de Pepim até ao ancoradouro do Cais de Ligo, estende-se, em direção à beira rio, como testemunho e memória, a Avenida Engenheiro Delfim de Sousa Coutinho.

Século XXI

Os atuais proprietários da Quinta da Loureira são Emília Carolina Martins Cadaval de Sousa Coutinho, na figura paterna do Dr. Joaquim Cadaval Queiroz Ribeiro de Sousa Coutinho, casado com D. Áurea Pereira Martins de Sousa Coutinho, que zelam, carinhosamente, pelo património arquitetónico deste "solar". Presentemente, as casas adicionais à Quinta da Loureira, abrem as suas portas ao turismo, nas suas zonas circundantes. (Vide, "Casas da Loureira").

 Apêndice


Em 13.12.1869, nasceu na freguesia de Santa Eulália, concelho de Seia, na cidade” fria, farta e forte” da Guarda, Gaspar de Queiroz Ribeiro de Almeida Vasconcelos - célebre poeta, talentoso tribuno, deputado e escritor. Deambulou por terras de Espanha por causa do Movimento Monárquico do Norte, sendo deputado da Assembleia Constituinte. Por causa das suas andanças por terras galegas, descobriu em terras de Gondarém, D. Maria Josefa de Sousa Cadaval Novais Ferraz Ribeiro Faria, com quem contraiu matrimónio, inserindo-se na quinta da Loureira, de quem deixou uma filha. Segundo outras fontes passou a sua infância em Ponte de Lima, morou na quinta da Boavista e morreu em Marco de Canavezes, em 17.02.1928.A ele se deve, a restauração do Concelho de Vila Nova de Cerveira em 12 de julho de 1895, apesar de algumas peripécias, que se concretizou definitivamente três anos após, ou seja, em 1898. Destaca-se a grande defesa pela introdução da “Cartilha Maternal” de João de Deus como método do ensino da língua portuguesa nas escolas primárias. 

Principais obras publicadas:

Tardes de Primavera - 1889

Cinzas - 1896

Pedras Falsas - 1903

Caminho do Céu - 1906

Folhas Mortas - 1916

Imitação de Cristo - 1925




quarta-feira, 30 de dezembro de 2020

EUROPOLITIQUE: Sam Payo - O Santo que veio de um convento até ao "Bom Jesus" de Gondarém

 


Desde o século XVIII, que a estátua de Sam Payo tinha tido acolhimento na capela do  Bom Jesus de Gondarém, com "altar e digno reposteiro", tornando-se num santo de grande devoção, ocupando um lugar de padroeiro. A festa, que estava dedicada ao “Bom Jesus”, e, que tinha como "símbolo a cruz" (via crucis), perdeu lentamente o seu brilho e fulgor, por causa deste santo intrometido e adotivo, que, furtivamente tinha entrado na capela do Senhor. Paulatinamente e sem pedir licença, também, por causa da sua ousadia, que a devoção popular lhe devia, (de tal forma que não deixava ninguém indiferente ao seu olhar), este santo, rapidamente, iluminou o seu lugar. Santo festivaleiro, que misturava a oração e a romaria, só encontrava descanso em corações cheios de alegria. Daí, que a nível popular, a festividade tenha trocado de nome, por imposição e virtude deste santo, vindo das terras de Santiago, vestido de peregrino e romeiro. 


Os "tempos de peregrinação", que, outrora pertenceram a Santiago, pelos seus caminhos e atalhos, transpuseram-se para este pequeno embaixador de "Matamouros", que a devoção popular conservava, através deste santo na tradição que o tempo transformara, após a ruína, desleixo e abandono da sua casa, ou, convento, lá no alto daquele monte.


Este santo de "rezar e folgar", em algum sítio tinha de ter lugar. Os seus devotos já não podiam subir ao monte e celebrar aqueles bons tempos em que a sua festa tinha lugar. Por isso, albergaram-no nesta capela do "Bom Jesus", pouca habitada e de pouco uso. A festa do santo começou a brilhar, e a sua festividade atraía toda a vizinhança, quer deste lado ou do outro lado do rio Minho. Se «de Espanha, nem bom vento, nem bom casamento», Sam Payo deixava essas querelas para as dinastias, porque a sua  graça e alegria a todos irradia, quer portugueses, quer galegos, de noite e de dia. Ao invès, aviva-os na sua memória, que este santo fazia parte da sua história, que, por graça de franciscanos tinha vindo com eles, em tempos remotos e arcanos. 


A sua devoção de "santo e padroeiro de romarias" ultrapassara a severa penitência que o “caminho da cruz” impunha com o “Senhor Bom Jesus”. Os severos sermões e as duras ameaças de um Inferno para além desta vida, não se compadeciam com as agruras de cada dia. A vida "difícil e pobre" não suportava quem a cobre com o "fogo eterno", a quem já nesta terra tem as suas labaredas. Se, a vida, por vezes, era um inferno, ter outra vida, com "lume eterno", era demais, para estes pobres mortais. Por isso, por mais amor que se tivese ao Bom Jesus, procurava-se outra luz para o "caminho da cruz", ainda que fosse um pequeno luzeiro neste "santo festivaleiro". E, do seu anterior local de devoção, que também foi de alegre peregrinação, emoldurava-se o "monte sacro" do Bom Jesus com outro santo e outra cruz. Uma cruz mais popular, de "rezar e folgar", tornada em romaria, que irrompia, quer de noite, quer de dia. Recordava-se com remota ternura, os velhos tempos das caminhadas, quer a pé, quer em “carradas”, pelas fragas, pelo mato e pinhais, atravessando densos matagais, onde os lobos famintos faziam os seus arraiais. 


Um dia, o santo apareceu fora da igreja, ao vento e à chuva, fora do seu lugar, parecia um santo a tiritar. Um gélido nicho exterior, na branca parede da capela, deu-lhe um sítio para morar. Mas, o frio do Norte e a sua chuva da noite, moveu  o coração de um devoto do santo que sofreu por tal desgraça, sorte e desdita. Dorido na sua dor e cheio de fervor, este audaz morador colocou no santo um cobertor, de "palha e de pastor", temendo qualquer delator.  

N.B. Aos "tempos de ditadura", juntavam-se os "tempos de tonsura"

segunda-feira, 28 de dezembro de 2020

EUROPOLITIQUE: "O Bom Jesus" de Gondarém, ou , no lugar do Calvário: o seu santo adoptivo S. Paio.

Em 25 de Junho de 1758, segundo relato do arquivo da Diocese de Braga é concedido o «registo de provisão a favor dos moradores da freguesia de Gondarém, termo de Vila Nova de Cerveira, para erigirem a capela do Senhor Bom Jesus do Calvário e o seu Pároco poder benzer a dita capela». (Arq. Distrital de Braga, 26.10.1758)

Deste modo, emerge uma capela retangular, cuja torre sineira tem um campanário com os seus quatro sinos, construída em pedra granítica, com os seus cunhais salientes e rebocada a cal. No seu interior encontra-se o altar do «Bom Jesus», em talha “rocaille”. No seu exterior brilha um cruzeiro, com a imagem de um Cristo, relembrando a “via crucis”, ou, caminho da cruz. Portanto, a partir dos anos sessenta do século XVIII, ressurgem as obras, daquilo que, popularmente, se chama “Calvário”.

Em lugar altaneiro, e, na encosta de uma colina, encontra-se esta capela, cuja vista panorâmica abrange o verde vale, as ilhas da Boega e dos Amores, e o rio Minho. Em seu redor estende-se uma frondosa mata, repleta de carvalhos, pinheiros e oliveiras, emoldurada por uma bela fonte em “granito trabalhado”, cujo limite superior é feito pela “via montis”, ou, estrada da floresta.

Este templo, que mais parece uma pequena igreja, ergue-se por cima de um escadório, ladeado por quatro pequenas capelas. No seu prolongamento inferior estende-se uma simples e longa escadaria, até ao antigo Caminho de Santiago. Deste modo, emerge uma capela retangular, cuja torre sineira tem um campanário com os seus quatro sinos, construída em pedra granítica, com os seus cunhais salientes e rebocada a cal. No seu interior encontra-se o altar do «Bom Jesus», em talha “rocaille”. No seu exterior brilha um cruzeiro, com a imagem de um Cristo, relembrando a “via crucis”, ou, caminho da cruz. Portanto, a partir dos anos sessenta do século XVIII, ressurgem as obras, daquilo que, popularmente, se chama “Calvário”.

Desde o século XVIII, que o dia 2 de agosto estava reservado à grande romaria que animava este local, cujos ecos festivos atraíam toda a redondeza. Associava-se a esta festividade, o culto a um santo popular, cuja origem se deve ao mesmo nome que tinha o vizinho convento franciscano de Sampaio. Por ironia do destino, a estátua de S. Paio foi colocada num nicho exterior da capela, cujo deslocamento não foi do agrado popular, e, tal desdita fez esmorecer a sua romaria.

                         
A consagração de uma colina como “monte sacro”, neste caso, dedicado ao “Bom Jesus”, insere-se na tradição católica a partir do século XVI, que deve a sua influência a São Carlos Borromeu, apologista da Contra Reforma, instituindo-se como local purificador, e, de romaria. Desconhece-se o papel de alguma confraria, muitas vezes, associada a Santa Ana, com capela nesta localidade.

                                 


A amplitude do “Calvário”, ou, do “Bom Jesus” de Gondarém revela que as intenções dos seus fundadores prosseguiam uma grandiosidade que se quedou bastante limitada, embora com espaço livre para a sua realização. O local de ímpar beleza natural congrega, naturalmente, à contemplação e à oração, em memória daqueles que tenham alguma crença.


N.B.

«No início do século XVIII, o convento de São Paio do Monte foi alvo do interesse de uma família abastada da freguesia de Covas, Vila Nova de Cerveira, em cujo concelho usufruíram de grande influência e importância. Embora os direitos de propriedade não sejam muito explícitos nesta ordem religiosa, dado os seus votos de pobreza, a sua aquisição é realizada por Manuel Carlos de Bacelar, ou, Manoel Carlos de Bacelar Malheiro (1705/1758), considerado terceiro administrador da abastada Casa Carboal, na freguesia de Covas, e, com o título de fidalgo escudeiro da Casa Real, em 1737». (Conventos da Vila de V.N.C. by M.F.)

Ora, o pedido dos moradores de Gondarém acontece no ano do falecimento de Manoel Carlos de Bacelar Malheiro, ou seja, em 1758. Será, que o "Bom Jesus" do Monte tinha como intenção "asilar ou albergar" Sam Payo?


domingo, 20 de dezembro de 2020

EUROPOLITIQUE: O Jovem Demóstenes das águas do rio "Mínius"

E, do mais profundo mundo soava: ....
«Senatori Romani...Senatori Romani..."

 

E vós, Tágides minhas, pois criado

Tendes em mi um novo engenho ardente

Se sempre, em verso humilde, celebrado

Foi de mi vosso rio alegremente  .......(Camões, Canto 1, Estrofe 4)


 

Remoía-se o poeta em convulsões líricas, cujas musas indecifráveis sopravam no seu espírito atribulado. Não era a pretensão do estro de Camões, que na sua gloriosa epopeia, evocava as suas Tágides, nem eram as mais recentes candidatas a este estatuto - as musas Miníades - que pretendiam instalar-se em renovada força inspiradora deste rio, cujo batismo romano era de "Mínius". Estas mais recentes musas eram escravas de Baco, a quem os Lusitanos também deviam alguma filiação; e, desta tribo também se afastava o jovem Demóstenes, já que pertencia aos “galaicos”. Mas, a cartografia de uma localidade nem sempre coincide necessariamente com a geografia visível, em que as águas do rio Minho tinham devorado três inocentes crianças, por causa do feitiço e do encanto da sua bela “ilha dos Amores”. Por isso, o trio das musas Miníades não podiam implorar a clemência do seu deus com o rapto destas três inocentes criaturas, que as águas lhes ofereceram sem qualquer tributo, e, em forma de angélica oferenda. Neste momento, o trio das inocentes criaturas ascendia,  pela voz do poeta, agora, transformado em tribuno, a uma operação maior que a sua cartografia representava, elevando-se à categoria de uma menção discursiva, somente, auditada pela Cúria Romana.


Esta operação de desmontagem através do tempo e da história, pretendia ultrapassar a relação de espaço geográfico e visível, (ainda que, não longe da sua localidade, se avistasse uma ponte de origem romana), para se incrustar nas fendas imaginárias da sua projeção que a retórica convocatória pressupõe como desígnio reivindicativo de um passado ainda presente. Para além de convocar a assembleia dos distintos tribunos romanos, pretendia-se chamar e reclamar a atenção de um mapa, em que o seu lugar habitual gire em torno de notável mundividência. No alto das suas verdes margens ecoava a mais pura língua latina na sua origem. 

«Senatori Romani...  // Se..na..to..ri...  Ro..ma..ni...»

Esta paisagem que vemos e admiramos, bucolicamente bela na sua exuberante natureza, encobre imprevisíveis eclipses históricos, que a romanização deixou como peugada da sua influência militar e jurídica. Não nos bastou receber a fonte do direito e a técnica da sua engenharia como herança, mas também, o cunho e registo deste rio romano, cujo nome senão é no seu sentido de menoridade, ou, “mínimo”, foi nomeado “mínius”, ou seja, Minho. Caudaloso nos seus invernos, e, temível na força das suas águas somente se deixavam atravessar em suas águas mínimas. Dos mais célebres romanos, que atravessaram as suas águas, ergue-se Decimus Junius Brutus, (180-113 -A.C) cujo nome ficou associado às suas façanhas, como o “Gallaecus”, após duras batalhas com os galaicos. Ainda, hoje, as vias romanas são testemunho das suas campanhas. Mais tarde, Caius Julius Caesar (100-44 a.C.) diria destes “galaicos” que «há nos confins da Ibéria um povo que nem se governa nem se deixa governar». Este orgulho da sua independência teve a sua mestria em Viriato que, por três vezes, derrotou os romanos. Mas ao Império Romano nada escapava e o Noroeste Peninsular tornou-se na mais extrema província romana – a Gallaecia.

 

A “Gallaecia” era a última extremidade do Império Romano, a província do Noroeste Peninsular, onde foi assinalado um promontório como “finis terra”, indicando que o fim do mundo acabava neste plano planisfério. Associado ao cabo de “fim de terra” surgia a fantasmagoria do “fim do mundo” com os seus monstros, as suas bestas negras e os seus mostrengos, (que, mais tarde, também emergiam nos relatos dos escritores árabes, acerca dos perigos deste mar). Ora, no ano de 136 (A.C.), chegando às águas tranquilas e sonolentas do rio do “esquecimento”, ou seja, o rio Lethes (da morte), as tropas romanas, temerosas e assustadas com os fantasmas destes monstros, estancaram aterrorizadas e perplexas, plenas de receios e medos. E, temendo esquecer a sua identidade e pátria com a ousadia de atravessar o rio Lethes, desafiaram o seu chefe a ser o pioneiro desta façanha, que foi obrigado a chamá-los pelos seus nomes, tendo erguido o seu estandarte romano, na outra margem, como símbolo da sua audácia. Mas, os medos e temores surgiram, de igual modo, na aproximação às águas do rio Minho. Somente, após o sono refeito, e, após o acampamento no lugar da Gandra (Valença do Minho), refizeram o seu caminho militar por terras acima, até à futura cidade de Lugo. 


A sua ousadia oratória não recaía naquela paixão de quem o tratava por “patrício”. Nem se atribuía a uma simples afinidade local, mas, por retomada cultura latina, reivindicava alguma suposta descendência das famílias romanas, cujos fundadores de Roma, tinham o direito de participar na Cúria. Apesar de “homem livre”, e, longe da escravidão, ascendia às ilustres clãs romanas, onde o seu  Senado Romano se compunha de um venerado “conselho de anciões”, cuja argúcia e talento, somente podia ser despertada pela voz deste tribuno.

 

Relembrava-se que os autênticos “galaicos” residiram na região da foz do rio Minho, e, que os seus castros, apesar de estarem no cume das montanhas, se distinguiam dos montanheiros “galaicos lucenses” e dos vaqueiros “galaicos brácaros”, cujos povoados se dispersavam em amontoados de tipo “castella”. Nas terras dos autênticos galaicos escondiam-se os verdadeiros monstros que se transformavam em autênticos fantasmas, ou, figuras míticas, aterrorizando as tropas romanas. Por isso, desta longínqua província do Império Romano, soltava-se o mais lancinante grito que jamais tinha ecoado no Noroeste Peninsular.

«Senatori Romani…senatori romani…»

Este digno introito, dirigido aos senadores de Roma, não tinha nada de profético, se não tivesse sido proclamado por Tito Lívio: «vai e anuncia aos Romanos que a vontade dos Deuses é que a minha Roma se torne capital do mundo. Que eles se tornem proficientes na arte militar e passem para os seus filhos que nenhum poder na terra pode resistir às armas romanas» (Cf. Titus Livio, “ab urbe condita”. Liber 1.16).

 

Todavia, a locução de “senatori romani” se não era o retorno de alguma clemência perante a cúria senatorial, tão do agrado da distinta assembleia romana, que dos seus elogios gravitava na sua clemência, tornava-se, agora, uma forma de anátema ou infâmia, que destemperava, no aval judicativo, os mais distintos e credíveis tribunos.

 

Tinha chegado a hora de convocar todos os deuses romanos, todas as forças ditas divindades católicas e apostólicas, todos os “delfos” perdidos pelos vândalos, que através da história, marcaram a terra perdida desta longínqua província romana. Através da língua da “Cidade Eterna” e da nova língua do poeta do Lusíades, ressuscitavam-se dois impérios tão distintos que imbricavam na jurisdição romana do poder, mas a cuja jurisdição a Roma competia. Nem a autoridade papal, nem o sacrossanto império franco, destronavam a língua dos poetas bucólicos romanos, que emergiam como murmúrios nas serenas águas do rio, quiçá, desse rio do esquecimento. A sua natureza poética ressurgia dentro de uma força abissal, que aos antigos mostrengos marítimos fazia relembrar. E, na profundeza oratória arrastava-se pelos ares, num impulso, a palavra do jovem orador. Como movimento de um moinho de vento rodopiava na sua língua romana:

«Senatori romani…senatori romani…»” 

Ouvi, senadores romanos, onde está essa “Espanha cravada de metais, tais como: chumbo, ferro, cobre prata e ouro”, dizíeis, vós, na vossa língua: «Mettalis plumbi, ferri, aeris, argenti, auri, tota ferme Hispania scatet.».

Ouvi, senadores: onde está esse rio, onde corria ouro e prata, que as vossas moedas faziam luzir?

Ouvi, senadores: onde estão os vossos barcos, já que as legiões romanas deixaram vazio o leito deste rio?

Onde está o rasto e percurso da “via per loca marítima”, cuja ponte jaz detrás desta minha montanha?

Onde estão as vossas quintas romanas que se embelezavam com as duas ilhas do meu rio?

«Senatori…romani…senatori…»




segunda-feira, 30 de novembro de 2020

EUROPOLITIQUE: As novas catacumbas do saber, na ansiedade destas renovadas livrarias...


Nos velhos tempos da inquisição ditatorial, procuravam-se os livros de Herbert Marcuse que estavam escondidos por trás dos livros, ditos normais, vendáveis e nacionais. Era, a técnica do livreiro, eficaz e rápida, para a sua compra e deleite da obra estrangeira, de cujo esconderijo se inaugurava uma fuga ao "index" político.
Quase, como obra de leitura obrigatória - "O Homem Unidimensional" - de Herbert Marcuse despontava, na língua francesa, da Livraria Bertrand do Chiado, em Lisboa,  até à sua conferência em "primeira pessoa" na "Université de Nanterre", em Paris, onde discursava com um inglês, repleto de  sotaque  alemão. 
Presentemente não existe "imprimatur", ainda que por debaixo das paredes de um convento se abrigue esta linda livraria.
A sua imagem é uma grata recordação dos tempos, em que na ânsia de novas incursões reflexivas, se revigoravam os pensamentos.

"Alfarrábios, calhamaços e catrapassos" fazem relembrar os antigos "scriptoriae" dos copistas, em que os monges pacientemente copiavam os "livros de horas". E, neste tempo, que nem horas tem, devora-se na fugacidade, aquilo que pertence à cidade!...

Mas na livraria "FERIN" até pode entrar para "saber como vai estar o tempo". O tempo que não tem horas!...

 


domingo, 29 de novembro de 2020

EUROPOLITIQUE: Sentido e significado de cidadania.


O "jovem Demóstenes" (outrora, chamado "boca d'oiro") não treinava a sua "maviosa voz" com os seixos das praias da Grécia, que endureciam e fortaleciam a sua garganta, mas, o mais recente tribuno, do alto do seu espigueiro familiar, em terras minhotas, deixava fluir pelos ecos do outeiral, a célebre proclamação introdutória dos mais famosos discursos latinos : «Senatori romani...  Senatori romani...».

Se não era o Cícero, em primeira pessoa e na sua bela língua latina, com as suas declinações afinadas, era, porventura, o mais veemente tribuno peninsular, que de ousada chama acesa e ventricular, invectivava  os sonolentos senadores romanos, para a mais elaborada sentença discursiva que se desprendia, por todos os tempos pelos vales do Rio Minho.

Noutros tempos, o chamado "rio das areias douradas", por onde se escoava o oiro e a prata, até à cidade eterna de Roma, reclamava que os "senadores romanos" não esquecessem o tributo que estas terras lhe concederam, como legítima parcela do seu império. Era digno e justo recordar que as antigas alianças permitiram aos romanos entesourar os seus cofres com as moedas que espalharam pelo seu império, ao mesmo tempo que estabeleceram as suas vias terestres e marítimas para chegar a estes confins da terra plana. 

"Finis terra", era o último cabo marítimo do Noroeste Peninsular que se erguia na Galiza do Norte, que o "delfim orador" do «Senatori Romani...»reclamava como marca e fronteira do império romano. Mas nas suas costas, corria o rio das "areias douradas", de cuja memória evocavam as lições do seu mestre ou decano, que , através de um sistemático cumprimento pessoal, se debatia com a saudação de "patrício" - "olá, patrício"!... 

Inicialmente, este cumprimento, quase soava a "moeda falsa", de cuja identidade se desconfiava da sua sinceridade. Mas, a «história de um pilar da democracia", por Lourenço Pereira Coutinho, alertou-nos para esta questão da "cidadania".  

«Em Roma, os direitos de cidadania estavam reservados originalmente aos descendentes da cidade, os patrícios. A partir de finais do século V a.C., estenderam-se aos plebeus e depois, com o império, foram sucessivamente alargados aos povos conquistados. Finalmente, no século III d.C., o imperador Caracala assinou um édito que reconheceu a cidadania romana a todos os habitantes livres do império» (Revista Expresso de 27.11.2020).

«...a cidadania social ou, o reconhecimento do direito universal à saúde, à educação e à proteção contra a exclusão».

Por ironia do destino, o eco da voz de "Senatori Romani..." deambulou por terras gaulesas, deixando um rastro de solidão (por exclusão, desta  sua reclamação e própria entoação de "Esta ditosa, Pátria amada"!...). 



EUROPOLITIQUE: Recordando "Platero y Yo" ....Juan Ramón Jiménez

  Na minha tenra idade escutava os poemas de “ Platero y yo” , com uma avidez e candura própria da inocente e singela juventude, que era o ...