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segunda-feira, 21 de setembro de 2020

EUROPOLITIQUE: Recordações da tristeza santiaguina nas ruas de Paris (Luis Sepúlveda)

Um certa tristeza e impotência desprendia-se do seu rosto quando normalmente estendia o seu olhar sobre a relva da “Cité Universitaire”. O tapete verde que circulava ao redor das casas de estudantes esmorecia taciturno quando se avistava “La Maison d’Espagne”. Vedada ao convívio estudantil, permanecia fechada como um “bunker”, que o regime franquista teimava em manter como símbolo da cultura hispânica. Por isso, quando a temática política ressurgia nos seus pensamentos, uma vaga de inconformismo e revolta mergulhavam-na numa certa onda de melancolia e terror. A “Casa de Espanha”, imprimia-lhe um novo e fundo poço de tristeza, que invadia aquela latino-americana, que nada devendo ao antigo processo de colonização, se relembrava da sua longínqua terra, cujas praias, afortunadamente, eram bafejadas pelo Pacífico. E, apesar da distância e da saudade, ecoava dentro do seu coração, aquela canção de Violeta Parra, do seu Santiago do Chile, já do ano de 1966: «Gracias a la vida que me há dado tanto…».

Por cima de todos os infortúnios, tristezas e alegrias, o sentimento de vida desabrochava florido como uma primavera. Os debates políticos, por vezes, eram bastante disputados e acalorados nas salas de tertúlia e nas mesas dos cafés que os chilenos ocupavam na margem esquerda do Sena; cantando, por vezes: «gratias a la vida que me há dado tanto...».

 O “Quartier Latin” rebentava pelas costuras de refugiados políticos, anarquistas, idealistas de todas as fações. Mas, no meio desta turbulência de ideais, surgia uma certa e profunda tristeza, que se aproximava deste personagem: “recorda-se de que uma vez, durante o exílio em Paris, lera um romance de Ramón Diaz Eterovic, intitulado “La ciudad está triste”, e, encostado ao balcão de la Petite Périgourdine, o bar de Saint-Michel onde, sem motivo aparente, iam sempre parar os latino-americanos, tinha chorado com a descrição magistral da tristeza santiaguina feita pelo autor. (Sepúlveda, Luís -  “A sombra do que fomos”, pg.17, 1.ª Ed., Porto Editora, Lisboa, 2009).

Por ironia do destino e aproximação geográfica, ao cântico chileno de “Gratias a la vida que ma ha dado tanto...” juntava-se a melodia do “Funeral de um Lavrador”, que do Brasil ecoava pela voz de Chico Buarco, dois anos mais tarde, em 1968.

«Esta cova em que estás com palmos medida
É a conta menor que tiraste em vida
É a conta menor que tiraste em vida

É de bom tamanho nem largo nem fundo
É a parte que te cabe deste latifúndio
É a parte que te cabe deste latifúndio»


sexta-feira, 18 de setembro de 2020

EUROPOLITIQUE: A figura emblemática do "Zé do Barraco", da gaita de foles e sua comitiva

                                 

As “Portas de Viana” estavam na antiga e íngreme entrada do lado Sul da fortaleza de Vila Nova de Cerveira, cujas pedras desapareceram em novas construções, a partir de 1845. Aliás, a praça de armas de Vila Nova de Cerveira tinha quatro portas de entrada. O «meio baluarte de Santa Cruz tinha como função de defender o lado sul da vila, vigiando a estrada de Viana, aliás, um dos principais acessos à fortaleza de Cerveira» (Cf/ Fortalezas). Poderíamos dizer que dela se estendia o empedramento de uma via, que de Caminha se esquecia, para se relembrar de Viana.

- "A rua que não era direita"

A oeste destas portas ficava outra porta de entrada na fortaleza, que junto das águas do rio Minho constituía o cais de aportação, e, subia um pouco e ladeava a antiga Casa da Alfândega, a chamada “Porta do Cais”, para não dizer “Porta da Traição”. Os movimentos de gente ou mercadorias no cais eram vigiados, na sua parte superior, pela casa dos homens de armas, mais tarde, tornado "posto fiscal" da guarda republicana. Em seu redor da rua e da fortaleza erguiam-se as "casas dos pescadores". Casas encostadas aos muros da fortaleza, lugares de habitação, de amanho e conserto das redes: “porque pescador que se preze não mete mão em corrimão, em arado ou lavoura”. O fruto do seu trabalho, quer de noite quer de dia, era pescar e vender o peixe, e, depois fazer uma permuta pelos produtos dos senhores e abastados lavradores. Honrados lavradores gostavam eles de se intitularem, contra os profissionais do rio. A dura profissão de pescador “de linha ou rede de pesca”, não era ser mareante, nem viajante de mercadorias; era ser “vigilante do rio”, sempre à atalaia das águas e das marés, dos ventos e do bom e mau tempo.

- Os vigilantes do rio

Do empedramento da via das “Portas de Viana”, pouco resta, fosse ela romana, medieval ou ancestral, porque em seu redor rebentavam os verdes tufos  de cebolas, de alhos e de couves, que alimentavam a "Rua dos Pescadores". À sabedoria das mulheres dos pescadores juntava-se o orgulho dos homens no carinho das plantas. Por vezes, confundia-se esta atividade piscícola com a insígnia de “ceboleiros”, epíteto, que em nada dignificava a labuta das varinas ou peixeiras, e cujo maneio às mulheres pertencia na luta pela subsistência dos seus lares. Eles não pertenciam à "Rua Direita", nem à” Porta da Vila” (entrada principal), já que as corporações dos ferreiros, dos funileiros e latoeiros, que batiam forte no latão, encaixaram-se na rua dos chamados “homens bons", e, «se não eram artistas eram hábeis artífices». De ofício e mister firmado, cuja mestria implicava anos de formação, presumiam-se distantes dessa classe de pescadores, cuja bravura, por vezes, ninguém atura. Poi isso, as carvoarias eram abastecidas pelas “Portas de Viana”, em ruas e becos mais sinistros, onde o fumo e cheiro a peixe se misturavam nos seus eflúvios incandescentes.

  - A fanfarra do “Zé do Barraco”

Pelas “Portas de Viana” entrava a comitiva do “Zé do Barraco”. A banda de músicos era pequena, mas o espalhafato era grande, tal era a charanga: música dura, batida forte, apito agudo. O ribombar do bombo acompanhava o latido estridente da gaita de foles, que mestre Zé exibia com ares de galhardia. O acorde subia e descia, num ribombar intenso, conforme o eco dos muros da fortaleza, e a charanga tocava, continuamente, sem perder qualquer fôlego.

Trocavam-se olhares quando o "comandante" vestido com um casaco de peles de lobo, barba de “Pai Natal”. botas e plainas em pele de raposa, soprava, na sua “gaita de foles”. Aqueles acordes agudos de uma melodia intermitente,  desatinavam em qualquer ouvido. Se na Grécia, Dionísio desafiava os gregos com a sua música, as suas bacantes e ditirambos; em terras pacíficas, de cervos e veados, despontavam amanheceres flauteados de música estridente e bombos de batida sonora. O ranger da batida do bombo estoirava com pancada seca e forte, quando os ouvidos pretendiam calar os seus trinos. Insistia-se no ribombar e malhar do bombo, até que o braço caísse lasso de tanto esforço. A frenética e estridente melodia, que da cultura céltica tinha a sua origem, ecoava ondulante e contente pelo ar, despertando toda a gente. Insensível a qualquer plateia, a comitiva seguia firme, enquanto o seu coro permanecia preso no magote de gente que serenamente seguia os seus passos. Não se pretendia qualquer rendição de armas, nem se exibia qualquer estandarte. Somente se queria deixar que a banda passasse em tom estridente, acordando e despertando as mentes.

  - O Fauno Zé do Barraco

O fauno, o artista de música celta, adquiriu o nome de “Zé do Barraco”, cujo batismo o povo conferiu, já que a sua aparição, em incerto dia de nevoeiro, se revelou numa aparição de jangada em cima das águas do rio Minho. Este humilde e aparente chefe de banda de música céltica chefiava um grupo de gaiteiros que desafiam inocentemente as forças da lei, sem que levantasse qualquer intimidação. Escondia-se o simples comandante e flautista na força da música, com que exprimia a sua rebeldia. O seu inconformismo apelava a zero de revoluções, e, a fartura de canções. Era música dura, batida forte, apito agudo, que uma flauta celta despertava com a sua estridente natureza. Se não era “flauta mágica”, ou, “flauta encantadora”, era a força de "gaita de foles" que gritava de forma demolidora. A música da fanfarra fugia ao entendimento popular, afastava-se da música tradicional, e, deambulava em sonoridades celtas, cujos memórias se tinham esquecidas.

 

 - A musa do “Zé do Barraco”

Mas, das “Portas de Viana” vinha o cheirinho do peixe frito que lhe adoçava o olfato, que ele temperava com o pequeno odre ou cabaça de vinho, que fazia parte da bagagem da comitiva. De vez em quando, um pequeno descanso impunha-se como pausa musical, ou, retiro espiritual. A “gaita de foles”, o bombo, a pandeireta, e os ferrinhos, quando muito acelerados no seu movimento, ribombavam com estrondo pelas paredes da fortaleza, cujo eco estrelava sonoro e estridente, despertando qualquer doente ou paciente. Poisava as suas vestimentas, e, qualquer petisco que viesse matar a fome, ou, sofreguidão, deitava-se-lhe a mão. Nestes intervalos musicais, havia uma paragem que se tornava obrigatória. A meio do percurso, na curva da estrada nacional, junto ao nicho das “Alminhas do Pedroso”, de cujo pequeno outeiro se deixava ver o rio, perdia-se sem ninguém saber o coração do “Zé do Barraco”. Enfeitiçado pela musa, que do outro lado da estrada, por vezes, o contemplava, enquanto ele estendia o seu olhar na tentativa de avistá-la. Aqueles lábios vermelhos, mais vermelhos que uma rubra rosa, acendiam-se como uma chama, repleta de pudor. O seu nome era Rosa. Dama, senhora, poetisa, e, sobretudo, mulher do "governador da comarca", guardava-se a distância e o respeito, que ela merecia. Porque quem manda é quem mais governa, e o governador era homem do poder, do qual tanto ele distorcia. Por isso, a poetisa feita musa segredava-lhe:

«Um dia lerás os segredos dos meus olhos
Naquela rosa que ninguém plantou
Dela cresceram versos aos molhos
em música e poemas do que sou».

Alguns conservadores e tradicionalistas, abespinhados pela fanfarra do “Zé do Barraco” queixavam-se junto da Comarca, mas a dama intercedia junto do marido. Um pacto silencioso selava as suas confidências, que escapavam a qualquer burburinho exterior. Somente os corvos que grasnavam no topo das ilha da Boega participavam destas confidências. E, sobretudo, os dois corvos de Odín, cujas voltas ao mundo, a mitologia desvendava nas sagas e seus poemas. Os arcanos segredos que as musas desvendam somente aos músicos e poetas que ousam enfrentar o castigo dos segredos roubados aos deuses. Por isso, aquele sorriso zombeteiro e matreiro deste músico celta, cuja tonalidade ninguém entendia, orgulhava-se de se exibir a pena que em si carregava, em pleno terreiro. Dentro do seu peito conservava os finos sentimentos da sua protetora:

«Os suspiros das “Alminhas do Pedroso”
Nos teus versos, o meu olhar manhoso
Deixa-te sorrisos, na curva da via». 
São lamentos, são "ais" de cotovia»

Obs: Poetisa Rosa Varela: "Alminhas do Pedroso" (+ 26.09.1968)

N.B. «Por vezes, o intelectual notável é o homem comum, aquele que não possui o que  designaríamos como uma voz profissional. Estes homens e estas mulheres podem não ter consciência (habitualmente não têm) do papel que desempenham, são pessoas comuns que se manifestam a partir de um núcleo ético, naturalmente testemunhas críticas do seu tempo» (cf. Alberto Manguel, Revista Expresso, 19.09.2020). 


P.S. Descrição do Zé do Barraco por José Alves:

«Os gemidos de uma Gaita de Foles Galega, o tilintar de ferrinhos, abafados pelo ribombar dos tambores.

E quem haveria de ser? O tio Zé do Barraco, pois já se vê! Lá vinha ele, à frente da sua comitiva, vestido de peles, o rosto bem delineado de feições regulares, favorável ao artista pintor para o retratar coberto por uma espessa barba comprida que lhe caía sobre o peito e que ao mesmo tempo lhe conferia o ar de um verdadeiro ancião. Sobre a nuca sobressaía-lhe a cabeça de um lobo com a boca aberta e que lhe servia de carapuça. Envergava um casacão que lhe caía até aos pés por ele confecionado com a pele daquele animal. (O Tio Zé do Barraco de carácter misterioso e por vezes estranho a avaliar pela sua indumentária para além das várias ocupações que tinha, também era alfaiate). Atrás, pendia-lhe a cauda felpuda do dito predador ibérico, que ele fazia passar para a frente por entre as pernas e a agitava com gestos brincalhões e brejeiros aos que o desafiavam para a folia. Calçava uns tamancos rústicos totalmente em madeira que ele mesmo fabricara. Empunhava sempre que saía para as suas rusgas, um estranho instrumento também por ele engendrado em madeira, munido de uns fios de arame esticados e sobre os quais ele manuseava e fazia roçar em movimentos de trás para diante e vice-versa, um pequeno cordão feito de fios de arame torcidos uns sobre os outros, batendo ao mesmo tempo com ele no solo, produzindo um som tão estranho quanto o era o próprio instrumento».  


Cf. . José Alves -  Cerveira Nova.




terça-feira, 15 de setembro de 2020

EUROPOLITIQUE: Nos meandros da "Rua do Crime" e da "Rua Direita" na Comarca e Vila Nova de Cerveira

 


Em 1768, a Comarca de Vila Nova albergava 212 fogos, dentro das suas muralhas, que se distinguiam das "construções intramuros". No núcleo da fortaleza ou castelo erguiam-se várias construções entre as quais salientámos a Casa do Governador, o Pelourinho e a Cadeia; e. do seu lado esquerdo, além da cisterna, estavam os quartéis, paióis, ou seja, a "força de armas" e sua segurança.

Se, a Rua Direita se ergue como símbolo dos bons costumes, na “rua do crime”, da qual não resta memória, escondiam-se em segredo os ajustes de contas, as quezílias, as desforras e a pancadaria - “in extremis” - a perda de vida. 

Entre os vários crimes de "honra e de sangue", surgiam os pequenos furtos de mercadorias saídas do cais, como aqueles  níveos "grãozinhos de sal" - granum salis - que brilhavam como “ouro branco”, e, que se desfaziam das suas sacas, pela arte de impenitentes navalhistas. Para os crimes graves, o pelourinho luzia como símbolo da espada de justiça; mas, para os pequenos furtos, nas celas da cadeia penitenciavam-se os seus pecados. Por isso, mais tarde, das janelas da cadeia, através das grades exteriores,  desciam pequenas cestinhas para aqueles que, passando na Rua Direita, se lembrassem, que a desgraça nem sempre é alheia.

Por ironia do destino, alguém tracejou uma "Rua Direita", que vindo do exterior do seu castelo atravessava, estoicamente, a fortaleza e caminhava sobre as águas do rio, até se refugiar em Espanha, graças a uma “ponte de barcas”, que outrora se ergueu sobre as águas do rio Minho, na zona do Castelinho. Infelizmente, por ela não passou o Visconde de Cerveira, que em 1758, foi acusado de "conspiração e atentado" contra o Marquês de Pombal e veio a falecer no Castelo de S. João da Foz.

Mas a Cadeia e o Pelourinho, que da antiga Justiça fazem memória, assinalam que se houve uma "Rua Direita" na Comarca de Vila Nova, que dos feitos nobres e carácter se reclama, não se pode livrar dos "dias negros" que a sinistra “rua do crime” cometeu.

domingo, 13 de setembro de 2020

EUROPOLITIQUE: "Alfândega de Vila Nova De Cerveira" - percursos e meandros da antiga Alfandega.

Introdução
A Alfândega de Vila Nova de Cerveira não pode dissociar-se do desenvolvimento dos “portos secos”, cuja base legislativa tem origem no modelo dos serviços alfandegários do Porto, das normas da Coroa, em Lisboa, e, da constituição do seu “livro oficial” de registo.

“Vila Nova, a duas léguas de Caminha”, encontra no estuário do Minho, a sua porta de entrada para o comércio marítimo, para a cobrança de taxas alfandegárias, em que a segurança e vigilância se estendia pelas margens deste rio, através dos “postos de guarda fiscal”. A sul de Vila Nova, O “Posto das Faias”, e, o “Posto da Mota”, com as suas guaritas, são símbolo desta fiscalização. A pesca, fonte de alimentação e riqueza, não escapava às suas taxas, quer senhoriais, quer eclesiásticas, das quais resulta, posteriormente, a “cédula de pescador. O último reduto desta riqueza piscícola surge com a “antiga praça ou mercado do peixe”, em Cerveira, símbolo máximo d’ “Art Nouveau”, com as suas grades em ferro forjado.

 - Século XII

Desde o início da formação da nacionalidade portuguesa, que na zona do Condado de Portucale, pelo ano de 1123, surgem as primeiras disputas entre a Coroa, a Mitra e o Cabido da Sé do Porto. Está em causa o direito de cobrança dos impostos pela intensa atividade comercial e marítima. O foral concedido a D. Hugo por D. Teresa, mãe de D. Afonso Henriques, desencadeou uma luta entre os “senhores leigos” e os “senhores eclesiásticos”, na disputa dos direitos de cobrança pelas mercadorias, na zona ribeirinha do Porto.

Decorrerão várias dezenas de anos, e, intervenções régias sobre o poder senhorial e o poder eclesiástico, na região do Porto, às quais não devem estar isentas outras e posteriores, em Caminha: quer por causa da Sé de Tui, quer por causa da  Sé de Braga, conforme certos relatos. Embora, a cidade do Porto seja pioneira no comércio e formação das alfândegas, por causa desta doação de D. Teresa, pouco a pouco, perderá o seu principal estatuto em relação a Lisboa, futura capital do comércio mundial. D. Afonso Henriques, além de conquistador, ancorava dois barcos, em frente do Mosteiro de Santa Maria de Oia, na Galiza, que mais tarde, perdeu. A passagem e estadia dos “Homens do Norte”, normandos ou vikings, nesta zona ribeirinha e marítima, deixou vastos conhecimentos sobre a construção naval, da qual eram exímios executantes.

- Século XIV

Alvitra-se que o “direito de imposto” sobre as mercadorias atingisse 10% do seu valor, ou seja, o chamado “dízimo”. Por isso, as disputas entre os “senhores laicos” (Coroa) e os “senhores eclesiásticos” (bispos) acerca do “direito de impostos” sobre as mercadorias continuavam, de tal forma que o rei D. Afonso IV, em 1325, mandou construir a existente e renovada “Casa do Infante” para sua própria alfândega. A partir desta data, os “impostos alfandegários” começam a reverter para os cofres da Coroa Portuguesa.

Aliás, a casa da “Alfândega Velha”, prenúncio de aventura e descoberta, foi o local de nascimento do Infante D. Henrique, no ano de 1394, que, mais tarde criou as suas alfândegas. Por tradição e natureza, a laboriosa cidade do Porto sempre foi uma urbe mercantil, de comerciantes e negócios. O edifício da “Alfândega Velha”, com as suas duas torres sobranceiras ao rio Douro, também albergava a Casa da Moeda, onde trabalhou Pero Vaz Caminha.

- Século XV

Em1410, à “Alfândega do Porto” são lhe concedidos “direitos e deveres” alfandegários, cujos regulamentos servirão de base legislativa para outros portos, inclusive o denominado “porto seco” de Vila Nova (Cerveira). O comércio marítimo é uma “fonte de receitas” das zonas citadinas e ribeirinhas que, pouco a pouco, se estende aos portos secundários, incluindo os do rio Minho, que se inserem nas Alfândegas do Reino. Ainda de forma rudimentar, mas sistemática, a extensão das alfândegas, como “fonte de receitas” prolonga-se pelas margens do rio Minho, e, seus locais habitacionais, como: Caminha, Valença, Monção e Vila Nova. O porto de Caminha tem um papel importante, quer a nível da sua periferia, quer internacionalmente. Convém salientar que a “Alfândega do Funchal” foi criada em 15 de março de 1477.

Juntamente com o transporte de mercadorias circulam pessoas entre as zonas mais populosas do País. As naus e caravelas asseguram o mundo dos negócios e das transações. O comércio de importação e exportação entre o Minho e a Galiza ganha grande fôlego com as trocas entre as várias zonas marítimas, sobretudo entre Baiona e Caminha. O pescado, os têxteis e a madeira da Galiza permutam-se pelo sal, vinhos e frutos secos de Portugal. Em 1456, os procuradores de Valença, Caminha e Vila Nova (Cerveira) apresentam um pedido conjunto, nas Cortes, para a constituição de alfândegas nas respetivas zonas ribeirinhas. Em 22 de abril de 1484, a Alfândega do Porto seguirá os ditames do novo Foral de Alfândegas de Lisboa, capital do comércio marítimo português.

- Século XVI

Em 1503, é criada, na cidade de Lisboa, a “Casa da Índia”, cujo objetivo era controlar o desembarque e venda de especiarias e mercadorias, bem como a navegação e o comércio externo, (que dura até 17 de setembro de 1833). É, no período do desenvolvimento do comércio com as Índias, que surge a figura do “despachante oficial”, ou seja, o homem responsável pelas mercadorias e pelos seus intervenientes, junto das autoridades alfandegárias. Caminha, terra de pescadores e barqueiros, torna-se mais próxima de Cerveira, graças um caminho empedrado, pelo ano de 1512. Alvitra-se, portanto, que o início da formação da sua alfândega surja a partir desta época.

Entre os anos de 1534 e 1540 surgem as primeiras alfândegas no Brasil, juntamente com as capitanias hereditárias. Os vários “Regimentos e Alvarás”, revelam variadas formas legislativas e cartas régias, durante os anos de 1521 e 1564. No ano de 1539, aparece o primeiro pedido expresso a D. João III, pelo corregedor de Valença, para a constituição definitiva de duas alfândegas: uma, em Valença; outra, a duas léguas de Vila Nova, ou seja, em Caminha. Também, no ano de 1544, os frades do Forte da Ínsua, em Caminha, ressurgem como “vigilantes” da entrada e saída de mercadorias, relatando que “entrou uma nau carregada de panos”. Por vezes, as caravelas estacionavam na foz do rio Minho, fazendo o transbordo para outras naus ou embarcações. Por vezes, a navegabilidade do rio Minho constituía um grave problema para o percurso das embarcações.

Todavia, no ano de 1559, a ocupação de Portugal pelas forças filipinas, originou uma grande quebra na fonte de receitas sobre as transações de mercadorias com a Espanha. Presume-se que os cerca de “60 postos aduaneiros” diminuíram as suas receitas, por causa desta política comercial, que gerou grande contestação e revolta. O impacto e falhanço desta política alfandegária implicou a introdução do famoso “Papel Selado”, como “fonte de receita” pública. Inicialmente detestada pela burguesia, mais tarde, assumida pelo povo, porque qualquer documento implicava o seu uso.

- Século XVII

Em 16 de maio de 1656, o "Conselho de Fazenda" ordena o alargamento da Alfândega do Porto, devido ao reduzido espaço para as suas mercadorias e transações. Durante este tempo de obras, os serviços alfandegários funcionaram nas dependências da Casa da Moeda. Juntamente com estas obras, a nível legislativo, reaparece o Regimento das Alfândegas dos “Portos Secos, Molhados e Vedados”, com data de 1668.

Nestes tempos circulam relatos sobre o assoreamento do rio Minho, dificultando a sua navegabilidade. Apesar destes percalços fluviais, os registos das atividades alfandegárias de Vila Nova são intensos.

- Século XVIII

Em 1 de Janeiro de 1769, institui-se o “livro oficial” da Alfândega de Vila Nova de Cerveira para o devido registo de “ordens, provimentos e provisões”.

«Os registos de provimento e ordens, autos de suspensão, termos de depósito dos direitos reais, registos de cartas e termos de avaliações» constituem as diversas tarefas que incubem a este serviço de fronteiras. Este “livro oficial”, encadernado em pergaminho, tem o seu «termo de abertura feito pelo Administrador-Geral da Alfândega de Lisboa e Feitor-Mor» do Reino, «para a escrituração das guias de finanças». No entanto, desde o ano de 1756, existe a “receita dos donativos 4%”, conforme o “Livro n.º 1, dos anos de 1756 a1759” (Arquivo da Torre do Tombo).

Aliás, a Praça de Lisboa estabelece um donativo de 4% sobre as taxas e impostos cobrados, segundo o Decreto de 29 de março de 1756. Acresce-se, ainda, as várias instruções para os “recebedores e escrivães”, conforme a Junta de Comércio, e, segundo os decretos reais de 14 de abril e de 2 de junho de 1756.

Portanto, é, em pleno século XVIII, que Vila Nova de Cerveira se confirma como “Porto Seco”, entre os seus concorrentes de Caminha e Valença, sem esquecer Tui. É relevante que durante 103 anos, ou seja, desde 1756 a 1859, religiosamente, as receitas dos donativos de 4% sejam registadas pela Junta da Alfândega de Vila Nova de Cerveira.

- Século XIX

Entre os anos de 1800 e 1830 dá-se o grande colapso do comércio externo português. Calcula-se, que a fonte de receitas da Coroa seja da ordem de 60% a 80%, que vinha totalmente do tráfego comercial, durante o Império. Em 7 de Setembro de 1822, perdeu-se o principal parceiro comercial – o Brasil (com a sua independência); e, com ele desapareceu 50% do comércio externo português. A taxa generalizada de 15% sobre todas as Alfândegas do Reino, imposta por D. Pedro IV, foi um certo fracasso.

A aplicação do termo «Porto Seco de Vila Nova de Cerveira» (segundo o Arquivo da Torre do Tombo) não condiz com a noção real do seu «porto fluvial e ribeirinho», ancorado na margem esquerda do rio Minho, cujo castelo lhe beija os pés. De forma genérica, a noção de “porto seco” aplica-se a locais distantes das margens de rios, lagoas, mar ou lagos. Como “Porto Seco” de Vila Nova de Cerveira, recaem sobre si, os “reais impostos” em que estão envolvidos o tesoureiro, o escrivão, o despachante, o fiador, o representante e a respetiva mercadoria ou produto, (cujo tempo não deve ultrapassar quatro meses), e, que expressa o «depósito dos direitos reais, registo de cartas e termos de avaliações» Aliás, em épocas anteriores, o Regimento das Alfândegas, segundo o decreto de 10 de Setembro de 1668, menciona três categorias: os «Portos Secos, Molhados e Vedados»

Em 1837 entra em vigor o Código das Alfândegas com as suas taxas e tarifas alfandegárias, que são aplicadas aos diversos produtos. A pauta aduaneira adapta-se às várias mercadorias, das quais se destaca o tabaco.

Em 25 de Setembro de 1859, por obra do arquiteto francês Jean François Colson, inicia-se a construção da nova alfândega do Porto. Inaugurada em 1869, o sumptuoso edifício, implantado na antiga praia de Miragaia, implicou 10 anos de construção. Em 1888, fica ligada por caminho de ferro – Ramal da Alfândega. Com um enorme cais, a sua plataforma de mercadorias procura responder ao tráfego fluvial e marítimo desta cidade, até ao desenvolvimento do porto de Leixões. A emblemática e moderna Alfândega, na zona ribeirinha do Porto, embora sem grande uso alfandegário, dará utilidade a novas funções culturais.

Em 13 de julho de 1884, inicia-se a construção do porto de Leixões, considerada a maior obra de engenharia deste século, em Portugal. Situado na foz do rio Leça, em Matosinhos, a sua inauguração acontece em 1892, tornando-se num moderno porto comercial, com a sua respetiva alfândega.

-  Século XX

As alfandegas ribeirinhas do rio Minho atingem a sua decadência por volta de 1920. Os novos serviços das finanças ocupam o seu lugar na receção de impostos.

Nos anos de 1990, e, dado o desenvolvimento do Porto de Leixões, a "Alfândega do Porto", na sua zona ribeirinha, por obra do arquiteto Eduardo Souto Moura, foi restaurado e requalificado para se afirmar como Centro de Congressos. Apresenta-se, também, como Museu de Transporte e Comunicações, sociedade privada, criada em fevereiro de 1992. As obras de restauro foram concluías em 1993.

A alfândega de Vila Nova de Cerveira foi uma "fonte de receitas", durante vários séculos, nesta zona raiana, cujo castelo alberga as mais diversas peripécias da sua história e memória, até ser relançada para a Rua dos Pescadores, junto ao seu cais.

quarta-feira, 9 de setembro de 2020

EUROPOLITIQUE: O Hospital de Vila Nova de Cerveira e o seu grande benfeitor José Manuel Lebrão, fundador da Pastelaria Colombo no Rio.

Graças ao benfeitor LEBRÃO





As primeiras referências ao Hospital de Vila Nova de Cerveira remontam ao século XV, sob a égide do rei D. Afonso V.
Efetivamente, é, através da doação do Abade de Mangoeiro, Álvaro Dias, que se referencia um hospital bastante carenciado nesta vila, cuja escritura de aceitação foi lavrada, em 07 de outubro de 1474, no Mosteiro das monjas de Santa Maria de Loivo, e cujos antecedentes de assistência hospitalar se reportam ao apoio prestado aos peregrinos ou romeiros de Santiago de Compostela.

A sua tradicional assistência prolongou-se pelos séculos seguintes, graças à Santa Casa da Misericórdia, cuja instituição sabiamente geriu os seus objetivos de prestação de serviços aos mais carenciados, embora a sua chefia fosse um lugar de destaque social, e a sua irmandade, um sinal de distinção, como atestam os estandartes e farricocos das suas carroças funerárias.

O ano de 1926 é o ano de viragem desta instituição hospitalar. Graças ao benemérito Manuel José Lebrão elaboram-se os cavoucos que darão origem à inauguração, em 1929, de um belo e grandioso hospital, em pedra granítica, cuja fachada reluz com as suas colunatas. Juntamente com o edifício, a Santa Casa de Misericórdia recebeu a avultada quantia de mil contos para a sua época. Nos tempos atuais, a gestão do hospital está a cargo da empresa privada do Grupo Luz, que se dedica às atividades médicas.

O homem das “sete fontes” , construídas na freguesia de Sopo, e que enriqueceu no Brasil, deixou em terras brasileiras, a mais que famosa Pastelaria Colombo. Se, o “freguês tem sempre razão”, (lema associado ao seu serviço), a arquitetura da “Belle Époque”, no Brasil, não tem nada mais relevante que a Pastelaria Colombo.

Aliás, se o Rio de Janeiro (“cidade maravilhosa, criada por Deus”) ousava rivalizar com Paris, nesses tempos áureos, o reduto mais ostensivo da “Belle Époque” é, sem dúvida, este baluarte da Pastelaria Colombo. As suas formas elegantes, os seus vitrais no teto, a sua exuberância decorativa e exótica, a utilização do vidro, madeira e cerâmica, contrastam com a rua sóbria, despida de cor e elegância, que a rodeia.

A Pastelaria Colombo, criada por José Manuel Lebrão e Joaquim Borges de Meireles, em 17 de setembro de 1894, foi renovada, nos anos de 1912 e 1918 segundo o estilo de “Art Nouveau”, através da importação de grandes espelhos belgas, emoldurados em frisos de jacarandá, e, iluminada com vidros de cristal. Em 1922, numa segunda fase, abriu-se uma rica claraboia, recheada de vitrais, que dá origem à constituição de um piso superior, com uma balaustrada no seu interior.

Se a rainha de Inglaterra por lá passou, não esqueça que a nata intelectual brasileira não esqueceu as suas pegadas, tais como: Olavo Bilac, Machado de Assis, Getúlio Vargas, Heitor Villa-Lobos, Juscelino Kubitschek e Chiquinho Gonzaga. Desde 2004, que o “Cantinho da Memória” da Pastelaria Colombo relata os mais nobres acontecimentos, da mesma forma que o “Facebook”, com o nome de José Manuel Lebrão, nos relembra os passos deste benfeitor de Vila Nova de Cerveira.  

quarta-feira, 2 de setembro de 2020

EUROPOLITIQUE: Historiografia da Quinta da Loureira - V.N.C.

 
A QUINTA DA LOUREIRA
 
Introdução:
 
A quinta ou solar da Loureira revela várias fases ou gerações, tempos ou épocas, na sua lenta e profícua edificação. Desde o século XVI até ao século XIX, sofre várias metamorfoses, que se desenvolvem, inicialmente, a partir das ameias de uma estrutura militar, (com o seu improvisado castelo de defesa), até à consagrada transformação de uma casa nobre, barroca e palaciana.

O desenvolvimento desta casa senhorial culmina, já, no início do século XIX, em que várias gerações interferem na sua imagem final. Várias famílias ilustram este solar com as suas gerações, tais como: a família Faria e Sousa (carreira militar), a família Ferraz Novaes (classe fidalga e nobre), a família Cadaval (origem galega e militar), a família Queiróz Ribeiro (intelectual e política) e, finamente, a família Sousa Coutinho (industrial e burguesa). 

É, sobretudo, no início do século XIX, que se consolida a “beleza esteticamente barroca” deste solar com o seu imponente portão e o seu brasão de armas. A casa do Seixo, ou, atual quinta do Mirante, foi, certamente, a antecâmara da construção deste belo edifício, que exibe na sua face exterior uma capela, em honra de Santa Maria Madalena. "Brasão de armas, portão e capela" juntam-se a um belo fontenário, cuja origem remete para o claustro do Convento de Sampaio, em  Loivo, Vila Nova de Cerveira. Sobretudo, três gerações enobrecem os pergaminhos das famílias desta casa, solar ou quinta: os primeiros através no ingresso na carreira militar e civil, os segundos pelo acesso à filiação na classe da nobreza, e, os terceiros pelo trabalho e empenho na indústria e burguesia. 

Portanto, durante três séculos, esta quinta agrícola teve, na produção de vinho e criação de gado, a sua principal fonte de riqueza. Devastadas as vinhas e perdido o grande armazém da quinta, erguem-se os campos na sua verde nudez, salpicados pelas brancas casas dos antigos servos e feitores. Presentemente, encontra-se aberta às atividades turísticas, nas quais se inserem as antigas casas de apoio à lavoura, nas zonas circundantes, das quais se recorda a casa do Pascoal, do Agostinho, do António (antigos caseiros), da Piscina, do Pote, das Batatas I, da Coelha, da Batatas II, e, finalmente da casa do "Mirante", antiga casa Seixo, que deu origem ao solar, ou, à quinta da Loureira. 
 
HISTORIOGRAFIA:
 
Prólogo 
 
Implantada em pleno centro da freguesia de Gondarém, a Quinta da Loureira é um expoente da arquitetura barroca, que engrandece, de forma eclética, o património arquitectónico desta localidade, ou, freguesia de Gondarém. O edifício granítico, de cal branca rebocado, em forma estrutural de “L”, constitui a casa residencial, que se prolonga, no muro do seu “portão e brasão de armas”, até à torre do seu altaneiro castelo, que domina a paisagem em direção à beira rio.
Quase ninguém fica insensível ao seu esplendor, quando obrigatoriamente, atravessa a curva da estrada local, que ladeia esta extensa propriedade, visivelmente exposta ao seu exterior, através do seu pequeno jardim, embelezado com um belo fontanário, cuja origem se deve ao Convento San Payo. Esconde-se, no seu interior, o recheio familiar, através de um pesado portal de ferro forjado, cuja abertura dá para o átrio de acesso à casa senhorial, onde se avista uma escadaria, em granito lavrado. 
A propriedade, dividida em quatro grandes parcelas, é um símbolo do latifúndio, numa zona típica de minifúndio, em que se ergue um mirante numa extremidade, em forma circular, apesar de apresentar sinais de ruína, ou, abandono. (Ainda que este miradoiro se confunda com a vizinha "casa do Mirante", que era a "Casa do Seixo"). As sucessivas imagens de fornos, adegas, espigueiros, aviários, pocilgas, juntas de bois, liteiras, parelhas de machos e matilha de cães simbolizam as diversas épocas, que atravessaram esta propriedade e sua exploração agrícola. Todavia, apesar das diversas vicissitudes temporais, a conservação deste património material e arquitectónico é fruto do trabalho e da riqueza, que várias gerações lhe consagraram.

Século XVII

Reza em  algumas publicações que «o Solar dos Cadavais, ou seja, a Casa da Loureira, esteve sempre nas mãos da mesma família que o construiu entre os finais do século XVI e início do século XVII até aos dias de hoje». (Cf. Jornal do "Diário do Minho", in Património, 22.02.2015). A atribuição desta data de construção e a filiação reclamada aos "Cadavais" não coincide com a historiografia, que nos apraz desenvolver, ainda que a sua antiguidade possa ser remetida para este século. (Aliás, o primeiro título de "cadaval", em terras portuguesas, foi conferido em 1648, na zona do Alentejo. A origem deste termo, em relação ao Solar da Loureira, advém da influência familiar dos ilustres galegos: cadavaes).

  
Século XVIII
 
O sargento-mor de Vila Nova de Cerveira aparece como senhor das "Casas do Seixo e da Loureira", sobretudo, a partir de 1740.
 
Em 1737, a quinta do Seixo pertencia à viúva Maria da Silva, que pretendia construir uma capela, em honra de São José, de cujo edifício resta a sua fachada. A capela inacabada, ainda hoje exibe o seu frontão e pórtico principal, como emblema de uma promessa não cumprida. Entre este pedido eclesiástico, (com o respetivo registo de papéis), e a aquisição da Casa do Seixo, pelo Sargento-Mor de Vila Nova de Cerveira, transcorre um quarto de século, ou seja, vinte e cinco anos. Durante o século XVIII, a freguesia de São Pedro de Gondarém dependia da Comarca de Valença, apesar disso, afigura-se que a estrutura militar do atual edifício da torre da Quinta da Loureira tivesse sido edificada entre os anos de 1740 a 1760, por influência deste sargento-mor.
 
Em 1762, José António de Faria e Sousa, Sargento -Mor de Vila Nova Cerveira, casou-se com D. Maria Teresa de Novaes Ferraz de Gouveia, na igreja de Remelhe, em Barcelos, exibindo o título de Senhor das Casas do Seixo e da Loureira, em Gondarém, Vila Nova de Cerveira. Certamente que a construção do pequeno castelo de estrutura militar que se ergue altaneiro em relação à Casa da Loureira, se deve a este Sargento que se tornou Capitão-Mor das milícias de Cerveira.
 
Em 1794, o filho do Senhor das “Casas do Seixo e da Loureira”, António de Sousa Ferraz de Novais de Almeida aparece como Provedor da Santa Casa de Misericórdia de Vila Nova de Cerveira, sendo filho de José António de Faria Sousa, Capitão-Mor de Vila Nova de Cerveira e de D. Maria Teresa de Novaes Ferraz de Gouveia, natural de Barcelos. Na senda da carreira do seu pai, em 1821, António de Sousa de Novais Ferraz de Almeida, torna-se Major de Milícias dos Arcos, exercendo funções militares. Todavia, a carreira militar carecia de laços nobres e pergaminhos distintos para a história da família.
 
  
Século XIX
 
Em 1824, como Major das milícias dos Arcos, António de Sousa de Novais Ferraz de Almeida pede a “Carta de Filiação” à nobreza, concedida pelo Rei D. João VI, em 22 de março, segundo relata José Leal Diogo (cf. Inventário da Heráldica Concelhia, Ed. V.N. C., 1981,29). Com esta autorização, constrói-se o brasão de armas e o seu imponente portão. Símbolo de várias gerações, o brasão da Quinta da Loureira, com ornatos “rocaille”, engloba várias armas de famílias nobres, tais como: Ferraz de Novais, Silveira e Sousa.

Em 1825, António de Sousa Ferraz de Novais de Almeida contrai matrimónio com D. Maria Jozefa Cadaval Correa, filha de José Maria Cadaval Correa e de D. Maria do Carmo Correa, senhores da Casa de Goyan, que foi inspetor e marechal de campo no exército espanhol, onde ingressou em 1800. Aliás, na sua monografia sobre “Portugal Antigo e Moderno”, Pinho Leal descreve esta quinta como “solar dos Cadavaes”, por causa da sua ligação a ilustres famílias galegas.

Em 1830, António de Sousa de Novais Ferraz de Almeida é eleito Provedor da Santa Casa de Misericórdia de Vila Nova de Cerveira.

Em 1860, nasce Gaspar de Queiróz Ribeiro de Almeida Vasconcelos, natural da Guarda, foragido em Espanha, que contraiu matrimónio com Maria Josefa de Sousa Cadaval Novais Ferraz Ribeiro de Faria. Insigne poeta e ilustre deputado, faleceu em 1928.

Em 1874, fazendo jus à sua descendência e aos "fidalgos oriundos da Galiza" surge como proprietário da Quinta da Loureira, Francisco de Sousa Cadaval, segundo atesta a descrição de Pinho Leal, que na sua monografia sobre Gondarém, a menciona como "Solar dos Cadavaes". (Cf. Leal, Pinho, "Portugal Antigo e Moderno" Cap.III, pg. 302, 1874).
 

Século XX
 
Em 1900, nasce D. Emília Carolina Cadaval Queiroz Ribeiro (de Sousa Coutinho), filha do poeta e deputado Queiróz Ribeiro, que mais tarde se casa com Delfim de Sousa Pinto Machado Coutinho. Desta união resultam vários filhos que compõem esta ilustre geração, modernamente, formada e emancipada, cuja alegria e jovialidade contagia a mocidade local. Por causa do seu falecimento, e, por causa da existência de filhos menores, em 1949, entra um "processo de inventário" no Tribunal Judicial de Caminha, segundo registos do Arquivo Distrital de Viana do Castelo. Quinta agrícola, com boa produção de milho, batatas e suas "40 pipas de vinho", salientava-se em boas colheitas, numa zona de minifúndio. Em Gondarém, da rua de Pepim até ao ancodouro do Cais de Ligo, estende-se, em direção à beira rio, como testemunho e memória, a Avenida Engenheiro Delfim de Sousa Coutinho.


Século XXI

Os atuais proprietários da Quinta da Loureira são Emília Carolina Martins Cadaval de Sousa Coutinho, na figura paterna do Dr. Joaquim Cadaval Queiroz Ribeiro de Sousa Coutinho, casado com D. Áurea Pereira Martins de Sousa Coutinho, que zelam, carinhosamente, pelo património arquitectónico deste "solar". Presentemente, as casas adicionais à Quinta da Loureira, abrem as suas portas ao turismo, nas suas zonas circundantes. (Vide, "Casas da Loureira").
 
 
 
Apêndice
 
Em 13.12.1869, nasce na freguesia de Santa Eulália, concelho de Seia, na cidade” fria, farta e forte” da Guarda, Gaspar de Queiroz Ribeiro de Almeida Vasconcelos - célebre poeta, talentoso tribuno, deputado e escritor. Deambulou por terras de Espanha por causa do Movimento Monárquico do Norte, sendo deputado da Assembleia Constituinte. Por causa das suas andanças por terras galegas, descobriu em terras de Gondarém, D. Maria Josefa de Sousa Cadaval Novais Ferraz Ribeiro Faria, com quem contraiu matrimónio, inserindo-se na quinta da Loureira, de quem deixou uma filha. Segundo outras fontes passou a sua infância em Ponte de Lima, morou na quinta da Boavista e morreu em Marco de Canavezes, em 17.02.1928.A ele se deve, a restauração do Concelho de Vila Nova de Cerveira em 12 de julho de 1895, apesar de algumas peripécias, que se concretizou definitivamente três anos após, ou seja, em 1898. Destaca-se a grande defesa pela introdução da “Cartilha Maternal” de João de Deus como método do ensino da língua portuguesa nas escolas primárias. 

Principais obras publicadas:

Tardes de Primavera - 1889
Cinzas - 1896
Pedras Falsas - 1903
Caminho do Céu - 1906
Folhas Mortas - 1916
Imitação de Cristo - 1925

quinta-feira, 27 de agosto de 2020

EUROPOLITIQUE: "Espreita-te o Atlântico" - "Capela imperfeita" do Espírito Santo em Vila Nova de Cerveira








  
Espreita-te…

o Atlântico.

aquele mar azul e distante.

Adorna-te com as suas águas tépidas, a foz do rio Minho.

As formas dos vales e montes

e suas ilhas, em cor radiante

despertam-te, a cada instante.



E, a luz, a brisa e o vento

de fronte, à porta/janela feita

deixam-te um cântico em pranto

de esboço de "capela imperfeita"

em honra do Espírito Santo.




Vê à tua frente o horizonte.

Que desponta em cada linha,

em cada margem, e sua ponte

deste portal, desta capelinha.

EUROPOLITIQUE: Recordando "Platero y Yo" ....Juan Ramón Jiménez

  Na minha tenra idade escutava os poemas de “ Platero y yo” , com uma avidez e candura própria da inocente e singela juventude, que era o ...