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domingo, 7 de junho de 2020

EUROPOLITIQUE: Recuerdo de "AGUAVIVA"






....Dos holofotes e da morte
Misturavam-se os poemas
dos ciprestes de “Platero e eu”
com os “poetas andaluzes”
que pelas ruas de Lisboa
deixam “Aguaviva” à toa
....dos holofotes e da morte


Era ali, naquela estreita rua 
Que se escondia o grupo da liberdade
...dos holofotes e da morte


Que o sangue das veias despertava
E Lisboa insana acordava
...dos holofotes e da morte


Pelas ruas e avenidas
Os cartazes da droga anunciavam
...dos holofotes e da morte

Mas desconheciam a outra sorte
...dos holofotes e da morte.

Desconheciam na bússola e no norte
...dos holofotes e da morte
O caminho, a via, a rota, e, a estrada.
...dos holofotes e da morte
As lutas armadas que levam a nada
...dos holofotes e da morte
Na selva, no mar, na guerra em dote.
...dos holofotes da morte.

sábado, 6 de junho de 2020

EUROPOLITIQUE: "Se encontrar o seu anti-eu, ou, o seu antiego não lhe aperte a mão"


A revolta interior pode virar-se contra nós, com a sua energia maléfica de tal modo que nos odiámos a nós próprios. Não vamos entrar pelos campos da psicologia, dessa energia negativa sobre nós próprios – masoquismo, ou, nessa força violenta sobre os outros - sadismo.

Por que motivo, eu fiz isto ou aquilo? Por que tomei esta ou aquela atitude? Eu, não desejava nem queria fazer isso. Aquilo é precisamente o que eu, não quero ser. Estas considerações e comiserações levantam-se, por vezes, dentro da nossa autoconsciência. 

Duplica-se em nós, esta forma de análise que nos revela um “anti-eu”, ou, “antiego” que nos incomoda interiormente, e, nós detestamos.  Sentimos repulsa, ódio, nojo, vergonha, comiseração por sentimentos que se nos revelaram de forma tão negativa para a nossa perceção individual.

«Se encontrar o seu anti-eu, não lhe aperte a mão» (1)

Não lhe aperte a mão por que é capaz de estoirar “num clarão de luz”. Não será fácil encontrar, em parte ou na sua totalidade, o seu antiego, ou, o seu anti-ego. E, se o encontrasse, desapareceria “num grande clarão de luz”. «Toda a partícula tem uma antipartícula, com a qual pode aniquilar-se». «Pode haver anti-mundos e anti-pessoas feito de antipartículas». (2)

Ora, se a natureza tem antipartículas, como forma de movimento, de rotação e de vida; a energia necessária para a sua pessoa processa-se nesta negatividade que o torna mais responsável para consigo mesmo. Por isso, não quero apertar o pescoço ao meu anti-ego, ou, ao meu anti-eu, porque ainda tenho oito minutos de luz desde que a vela do Sol se extinga.

(1)  e (2)    HAWKING, Stephen – Breve História do Tempo, pg. 85, Edições Gradiva, Lx.2011.

quinta-feira, 4 de junho de 2020

EUROPOLITIQUE: Pindérica e Garrida estava a Rapariga


“Pindérica e garrida” estava a rapariga - cogitava para consigo mesmo, o “Remexido”. Recentemente tinha chegada de terras algarvias, a sua vizinha de brincadeiras jovens de outros tempos. Vislumbrava-se nela a aparência de que se tinha misturado com “novos ares” de turistas que começavam a deambular os areais quentes daquela província do Sul. Pela forma de vestir, e, pelos ares da sua graça, deixara-se contaminar pelas modas do turismo que começava a bafejar os barrocais e as praias do Algarve. Os novos tempos e os novos costumes estrangeiros começavam a modificar o tom cinzento e pardacento que ainda marcavam aqueles tristes anos de isolamento com o mundo exterior. As roupas coloridas da sua amiga destoavam do tom desbotado e pardo, que as viúvas erguiam com mãos de angústia e lamento.


“Pindérica e garrida” estava a rapariga – martelava esta ideia na cabeça de “Remexido” que pressentia que alguma coisa remexia na sua recordação e memória de outrora. Se não era a velha amizade que estava em causa, nem qualquer mágoa que nele despertasse; era, porventura, um novo olhar que o interrogava, que o questionava com uma impaciência e dureza, que o desconsertava na sua juvenil timidez.


“Pindérica e garrida” estava a rapariga – ecoava, novamente, na cabeça de Remexido. Aliás, era um olhar que o lançava contra o espelho numa nova perspetiva, contra uma imagem que escondia outra na sua aparência. Uma imagem dupla de indigência e atraso que se ocultava na sua pertinência e desenvoltura. Uma nudez de algo latente que se queria devolver e tornar presente. Era um vazio de um futuro que se não conseguia capturar, nem se tinha a capacidade de intuir ou observar. Genericamente, perpassavam anos de transição, de isolamento e de fechamento em relação ao mundo exterior. Mas, na sua cândida inocência não se vislumbrava nenhuma chamada de sentido, ou, de orientação, que o tom das suas palavras despertava e apregoava.


"Pindérica e garrida" estava a rapariga, naquele dia. A crítica esmorecia face à recusa e falta de sentido na sua juvenil compreensão. “Remexido” remexia-se confuso e confundido naquilo que lhe era dito em soletrado. Qualquer sortilégio não lhe desvendava aquele obscuro mistério, vindo de uma província do Sul. Nem por sombras se entendia a negra cor que circundava pelo ar neste pequeno retângulo, que mantinha as pessoas taciturnas, e, conformadas na sua plácida e normal natureza. Os sinais de alerta tornavam-se escassos e longínquos para qualquer juvenil interpretação. A pacatez instalada não permitia confrontar os novos ventos, que longinquamente acenavam com novas formas de mudança. E, nesta incompreensão parece que as próprias sombras do obscurantismo se escondiam nos seus novelos que não se conseguiam decifrar. Presos à tradição, conservavam os seus atávicos regulamentos que lhe davam algum conforto e alento. Era um simples olhar que entrava dentro de si mesmo, e vendo-se despido e nu, se nutria limitado e pobre, mas procurando erguer alguma nobreza.


Não, não, ela não estava nada “pindérica, nem garrida”, a rapariga. Ela tinha outro olhar que fazia pensar. Inocentemente naquela idade, nada havia a mudar. Nem as forças juvenis chegavam para qualquer outro combate. Era simplesmente o gesto de comunicar que além das serranias existia um mar, uma terra para sonhar. Eu, na minha concha, na minha prisão celular, não entendia o chamamento do seu olhar. Não via, nem vislumbrava o seu despertar para acordar, e, ver um novo raiar. Não conseguia deixar-me embalar numa nova aurora. Não fugia porta fora, nem queria voar.


 Eu estava parado e marcado, hirto e tiritante no meu caminhar, e “pindérica e garrida” estava aquela rapariga.


segunda-feira, 1 de junho de 2020

EUROPOLITIQUE: A figura emblemática do "Remexido" de São Bartolomeu de Messines - Camilo Castelo Branco


Camilo Castelo Branco não deixa passar incólume esse "popular personagem" de São Bartolomeu de Messines, cujo nome é Remexido.


Tal como Zé do Telhado são duas figuras ímpares das suas descrições literárias sobre os usos e costumes, que marcaram a tradição popular, e, fazem parte do "imaginário" português do século passado. No Norte do País pontifica o "Zé do Telhado", no Sul do País campeia o "Remexido".


Zé do Telhado desnorteou-se da sua vida honesta, e, pretendia “dar aos pobres, o que roubava aos ricos”, numa espécie de justiça popular. Foi bandoleiro e morreu santo em Angola.


Remexido, capitão de "malta de prosélitos" consegue reunir quase mais de 200 homens, por causas políticas, e, torna-se chefe do "banditismo de navalhistas impenitentes", na pena de Camilo.  Esta imagem de bandoleiro, assaltante de estradas, homem sanguinário e facínora, está associada à sua filiação política de “miguelista”. Aliás, consta que era homem de posses, capitão de ordenanças, chefe militar, mas uma vez perdida a sua causa política, é obrigado a  capitular perante o duque da Terceira (forças liberais), tendo como refúgio uma gruta algarvia.


José Joaquim de Sousa Reis, nasceu em Estômbar, em 19 de Outubro de 1797, e morreu, em Faro, em 2 de Agosto de 1838, no cadafalso. Enamorou-se por uma linda algarvia, em São Bartolomeu de Messines, adquirindo o alcunha de “Remechido”, cuja rua atesta este nome, embora Camilo o trate por “Remexido”, e, salteador de estradas.



terça-feira, 26 de maio de 2020

EUROPOLITIQUE: DUAS ILHAS COM AMORES: A "ilha dos Amores" em Camilo Castelo Branco e a "ilha dos Amores" no rio Minho.


O "bosque de amieiros" formavam "a Ilha dos Amores" que Camilo Castelo Branco descreve em"Maria Moisés" nas "Novelas do Minho", na qual se escondia uma "rapariga, frágil e bonita", apaixonada por um fauno, causador da sua tragédia. Todavia, "emboscados num choupal da Ínsua", (não) "eram mais inocentes que os pássaros": o cadete e a loura de Santo Aleixo"

Esta pequena ilha surge no rio Douro, desafiando outra escondida no rio Minho, também ela chamada de "Ilha dos Amores", que segundo a lenda, um português e uma espanhola, que por desavença parental, nela se enamoraram.


Alfredo Roque Gameiro que nasceu em Minde, concelho de Porto de Mós, a 4 de Abril de 1864 e faleceu em Lisboa, a 5 de Agosto de 1935, dá-nos a plasticidade cromática mais singular desta ilha. O constrate de cores era evidente, antigamente. Hoje, predomina a monotonia de verde que a circunda. A mescla de árvores de folhas perenes e caducas fornecia a variedade cromática, que infelizmente desapareceu numa fábrica de madeira de Barcelos.

Os amieiros e os salgueiras (sincerais, poeticamente dito) predominam sobre as faias, os freixos, e, árvores demais!...

"Novelas do Minho", Camilo Castelo Branco, Novelas do Minho, págs. 48-51, Edições Expresso e Ed. Aletheia, Lx. 2016.



domingo, 24 de maio de 2020

EUROPOLITIQUE: O "TERRENO DA NORA" E A PARCELA DO ADVOGADO


“Que o diabo leva a burra e mais quem a carregue” - já que decidi vender o “terreno da nora” em que estava uma enorme e verde figueira, que a escondia dos raios de sol, que da ria se espraiavam até ao pequeno outeiro.  

As ruas, ainda em terra batida, deixavam entrever lá em baixo um verde escuro, que parecia um pequeno oásis, no descampado e seco monte de sobreiros e pinheiros. Era essa miragem que tinha atraído o jovem suíço, encantado pelo “terreno da nora”.

 O traçado da urbanização galgava tempo e espaço, já que em obras os dias perdidos são dinheiro deitado ao chão. Ainda não fizera a escritura, apesar de ter recebido uma pequena avença, pelo “terreno da nora”, cujo compromisso aguardava o Verão que tardava em chegar.

O compromisso da palavra dada tornava-se revogável face à urgência de capitalização, porque estamos em tempos, em que o tempo é dinheiro, embora o suíço estivesse na terra dos relógios. 

Embora, “os homens se conhecem pela palavra e os bois pelos cornos”, uma estocada ao suíço far-lhe-ia acordar que “o tempo é dinheiro”, e, que os compromissos não são para prolongar. Ou seja, à menor interpelação exibir-se-ia qualquer relação escrita contra palavra dita. 

De outro modo, à palavra dada que nada conferia, restava o argumento escrito que rege e manda em assuntos de registo de bens, em que a escritura é válida até à sepultura. Estamos na era da escrita e documento, cujo sacramento é do século anterior. 

As palavras voam, mas a escrita fica. E, palavra de advogado não é palavra de aldrabão. É ciência de escrivão.  


sexta-feira, 22 de maio de 2020

EUROPOLITIQUE: "O COVID 19" , em horas de melancolia, visto em Camilo Castelo Branco


Escrevia Camilo Castelo Branco, em “As Pessoas Melancólicas” (Edições Aletheia) sobre estes sinais que parecem manifestar-se, hoje:


«Horas e dias terríveis passam por nós como períodos negros da existência». (pág.144)


Sem antes relembrar em “Coração, Cabeça e Estômago”, (pág. 144) o seguinte: «se acontece uma febre que devora centenares de pessoas, os conselhos de saúde…» e, seguem-se alguns alertas adequados ao seu tempo.

 

Mas, o alvo mais certeiro de Camilo elucida-se nestas sentenças. «Cai-nos a fronte para o seio, onde o coração nos dói premido por mão de ferro. Não há lembrança feliz que possa estrelar-nos o caos da imaginação; não há raio de sol que faça abrir flor de esperança em nossa alma arada pelo desconforto».


«Cai-nos a fronte para o seio...». Realmente, parece que andamos cabisbaixos, sem o olhar alegre do outro, sem a palavra amiga que nos consola, sem o gesto que nos liberta. 


Até os raios da praia que nos espera são de desconforto para o espírito e para o corpo. 


E, no céu ou nas estrelas não reluz qualquer sonho que alimente a nossa imaginação. Estamos cercados e confinados, não por mão de ferro, mas por luva de alpaca, que parece que nos tira a nossa liberdade e que nos mata!...


Mas, no seu optimismo Camilo Castelo Branco, no seu artigo "as pessoas melancólicas", quer dar-nos um "antídoto contra a melancolia"  porque que é "a coisa que mais brutaliza a alma." 

Cf.Camilo Castelo Branco, "Coração, Cabeça e Estômago", Edições Expresso, Lisboa 2017.

EUROPOLITIQUE: Recordando "Platero y Yo" ....Juan Ramón Jiménez

  Na minha tenra idade escutava os poemas de “ Platero y yo” , com uma avidez e candura própria da inocente e singela juventude, que era o ...