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terça-feira, 2 de março de 2021

EUROPOLITIQUE: Pequenos lugares com história, nos seus "moinhos de água" e nas suas encostas


O “Beco do Regueiro”, junto ao lugar da Sobrosa, encaminha-se para o mais caudaloso ribeiro existente nesta localidade, ou seja, na freguesia de Gondarém.   As suas águas brotam no lugar altaneiro de Mangoeiro, e estendem-se até à suave planície do rio Minho, em cujo acidentado "curso de água", foram construídos, mais de uma dezena de moinhos, de variados feitios e formas de aproveitamento. Ao lugar do "Regueiro" associa-se uma família, com tradição.

Um dos últimos sobreviventes desta família, mais conhecido como “João do Regueiro”, tinha o nome do seu avô, João Pereira do Regueiro, falecido em 12 de setembro de 1879. A sua esposa, Ana Rosa da Silva, “moradora em Sobrosa” enviou e pediu um “inventário de menores por óbito” de seu marido. Cf. (Arq. Distrital de Viana do Castelo, 1879-01-01).

A história da criação dos “moinhos de água” circunscreve-se ao século X  que, conjuntamente, com a introdução de outros cereais, rejuvenesceram a população ativa, aumentando a sua população. A influência dos árabes, na introdução do arroz e outros cereais e frutos, teve a sua influência. Na Idade Média, os “moinhos de água” são uma peça chave na alimentação das suas gentes, já que o pão era, muitas vezes, a base essencial da sobrevivência.

Em 1858, surge um "Auto de Querela" contra José Pinto Taxeiro, morador na freguesia de Gondarém, Vila Nova de Cerveira, «por causa de ter em seu poder a chave que tinha furtado ao moinho da Pequena, uma gazua e um ferro com asa e respetivo cabo». Processo, vindo do Tribunal Judicial de Caminha, em 2 de Abril de 2009. Cf. (Arq. Distrital de Viana do Castelo).

Aliados aos “moinhos de água” estão os casais, ou, pequenos núcleos de pessoas, que são responsáveis pelo antigo povoamento, oriundo da Idade Média. Nos “casais” medievais estavam os “foreiros”, ou “caseiros”, com várias famílias, que se tornavam “cabeças de casal”, sendo responsáveis pelos impostos ou rendas, quer dos senhores feudais, quer dos senhores eclesiásticos.

A antiga edificação da “Casa do Regueiro” remete-nos para velhas e antigas construções, que remontam aos períodos da Idade Média; quer pela sua proximidade aos moinhos de água,  quer pelo seu lugar altaneiro. A casa, edificada a meio de uma encosta, dominava todo o acesso aos vários moinhos da redondeza, cujo uso, posse e propriedade era de origem comunitária, ou, de alguns senhores da Quinta da Loureira.

O apelido, cognome ou alcunha de “Regueiro” deve-se, em nossa opinião, ao grande e extenso ribeiro de água, que jorra desde o alto de Mangoeiro até esta última encosta, tendo no meio do seu curso, um “baldio”. Por isso, o antigo “Casal do Regueiro”, cujas origens se fundem na Idade Média, tinha um “Cabeça de Casal”, cujo nome se transporta como identificação do local. Assim, as leiras e os “moinhos de água”  que rodeavam este “Casal”, cujo ribeiro corre sem nome, misturou-se, irmãmente, com “Regueiro”.

A simplicidade deste lugar e o seu natural bucolismo, com as suas encostas verdejantes e os seus moinhos, por onde serpenteia, caprichosamente, este extenso ribeiro, remete-nos para uma obra meritória de conforto e apoio aos órfãos de Gondarém. Por lei de 15 de outubro de 1827 são criados os inventários obrigatórios, cuja norma diz o seguinte: - «creando os Juizes de Paz em cada Freguezia ou Capella Curada». Assim, em 1839, surge a criação deste livro, com o seguinte registo: «Juízo de Paz e Órfãos da Freguesia de Gondarém», que é maioritariamente constituído por processos de inventário de menores”.  Cf. (Arq. Distrital de Viana do Castelo o1.01.1839)

A sua criação advém desde D. Manuel I, revogados por Carta Constitucional de 1826 “que introduziu os tribunais ou julgados de paz”. Estes “tribunais ou julgados de paz”, visavam defender os menores, evitar conflitos e assegurar a paz social. Posteriormente, a sua função conciliatória ficou regulada pela Lei 78/2001, de 13 de julho.  Estes inventários orfanológicos podem ser consultados, sob licença, no Tribunal Judicial de Caminha, ou, de Vila Nova de Cerveira. Em 1828, Brás António Gonçalves Outeiro foi eleito “Provedor da Santa Casa de Misericórdia” de Vila Nova de Cerveira, cargo que exerceu durante dois anos. E, segundo reza o seguinte documento: «Foi juiz de paz e órfãos da freguesia de Gondarém, em 1839 Brás António Gonçalves Outeiro.  Cf. (Arq. Distrital de Viana do Castelo, 1839).

quarta-feira, 24 de fevereiro de 2021

EUROPOLITIQUE: Os estuques da “Casa do Souto”, ou, "Casa dos Bicos" e a sua garagem de coches.

 

 

Casa do Souto, ou, Casa dos Bicos  (séc. XIX) 

Em 1866, o jornal “Commercio do Porto” anunciava que «a estrada de Vianna a Valença por Caminha está aberta ao transito em toda a sua extensão». Presume-se que a antiga estrada nacional (E. N. n.º 13), cujo traçado diverge do percurso atual, nesta localidade, tenha chegado ao alto da Mota, por volta do ano de 1860. Em Gondarém, descendendo em direção ao lugar de São Sebastião, em plena curva da antiga estrada nacional, situa-se a “Casa do Souto”, ou, “Casa dos Bicos”.  A  construção deste edifício, remonta, em nossa opinião, ao ano de 1864, divergindo da data do “Diário do Minho” de 22.03.2015. É, com a chegada da estrada nacional a Gondarém, que se desenvolvem algumas novas construções, ao longo do seu percurso, das quais se desataca a “casa das janelas triangulares", ou, em "bico".


A “Casa dos Bicos”, ou do “Casa do Souto”, insere-se no movimento da arquitetura romântica, que atinge o seu esplendor entre os anos de 1825 a 1875, com portas e janelas altas (neste caso, triangulares), varandas com sacadas em ferro fundido, jardins e estatuetas, cujo edifício se resguarda através de muros com grades e portão de ferro forjado, em estilo “Arte Nova”. Fazia parte do património desta casa um edifício, ao lado, que perdeu a sua originalidade.

 

 O último bastião da recolha e “garage” de animais “de trote”, ou seja, de coches, liteiras, ou, carroças puxadas a cavalo foi adaptado a casas de habitação. Este espaço de terreno, com as suas cochias, tinha muros gradeados e um portão de ferro forjado, cujas instalações faziam parte da “Casa do Souto”. Esta edificação, presumivelmente, servia de apoio e lenitivo às comitivas de trens a cavalo e seus transeuntes, que viajassem na estrada nacional (E.N. n.º 13). Ao seu lado, no lugar de Agoeiros, dispunham de uma hospedaria, ou “tabernae” que pertenceu a D. Maria Joaquina dos Santos, aquando das obras do Caminho de Ferro. Infelizmente, a cocheira foi ocupada com casas de habitação, na sua parte superior, ainda que permanecesse intacta até aos anos oitenta, do Século XX.


Foram necessários mais trinta anos, para que o primeiro automóvel entrasse em Portugal. Em 11 de outubro de 1895, o conde Jorge D’Avillez compra o primeiro automóvel da marca francesa “Panhard & Levassor”, e com uma velocidade 15 km/ hora,  atropelou um burro na estrada, (com a devida indemnização). A antiga garagem, cocheira e cavalariça da “Casa do Souto” remonta, presumivelmente, aos anos de 1865, tendo sido um edifício emblemático nas redondezas, funcionando como reduto de uma era, que as máquinas e os automóveis iam desmoronar.


Os seus tetos de estuque revelam uma beleza e cuidadosa decoração, que se deve ao laborioso trabalho artístico de alguns artesãos, oriundos de Vilar de Mouros. Mestre Antonino é um símbolo destes artistas, que viveu e casou em Gondarém, no lugar de Agoeiros. Cal e gesso eram os ingredientes naturais, mas as cores com pó na massa (amarelo, azul, ou, óxido de ferro para o vermelho), revelam saberes no ofício do “estuque de ornato” e suas artes decorativas, cuja mestria se associa ao talento do Mestre Antonino.

Obs.

(1)  Reportagem do “Diário do Minho”, suplemento “Património”: “A Casa do Souto, ou dos Bicos”, de 22 de março de 2015.

(2) "Commercio do Porto”, 30 de setembro de 1866, cf. Arquivo Municipal “Sophia de Mello Breyner”, Câmara de V.N. de Gaia.

(3) Para consulta futura: “Dos caiadores aos estucadores e maquetistas vilarmourenses”, vários autores, Vilar de Mouros, Caminha, 2009.

(4) «A casa do Souto mandada fazer pelo dr. Teotónio e sua mulher D. Maria, ele o mais distinto médico de Lisboa dos fins do séc. XIX e princípios de XX, foi legada ao seu afilhado José Manuel que casou com uma longínqua prima minha Mimi Silva, irmã da escultora Amélia Carvalheira, os herdeiros filhos do José Manuel venderam-na nos finais dos anos 70 ao engenheiro Alberto Mesquita recentemente falecido». (Testemunho do Dr. Álvaro Guerreiro)

sexta-feira, 19 de fevereiro de 2021

EUROPOLITIQUE: O Chafariz de "Santiago" na Quinta do Outeiral - Boega Hotel V.N.C.

 

Chafariz de "Santiago" na Quinta do Outeiral - Boega Hotel

Por volta dos anos de 1955, subia-se diretamente do "lugar da Sobrosa" para o "lugar do Couto", quando foi encravada no seu dorso, uma "piscina de pedra", por  obra e iniciativa da família Almeida Braga, para gáudio e deleite de antigos presidentes do Brasil, que visitaram esta quinta. O chafariz do séc. XVI, que embeleza esta propriedade, enquadra-se nos tempos dos "Caminhos de Santiago", sinalizando através das suas marcas, a autêntica via do seu percurso, até aos confins de Finisterra. A nível arquitetónico, o seu pedestal, em forma de irregular lago, apresenta uma "concha lateral", como símbolo da confirmação do percurso para os peregrinos de Santiago. Vários autores referem que nesta localidade existiu um albergue, ou, uma  "hospedaria", até mesmo, um hospital,  para as comitivas senhoriais, ou, simplesmente peregrinos ou romeiros que demandavam Santiago de Compostela.


Se o antigo "caminho da Igreja", n.º 1 da paróquia, assinalado em antigos "anais", se deixou ocupar por uma "piscina de pedra", para bel prazer de turistas, presume-se que o belo exemplar deste "chafariz medieval" continua a ser abastecido por idêntico aqueduto em arco, embora em local diferente. O abastecimento de água implicou o emprazamento de terras a montante, desde a nascente  até ao aqueduto de águas, erguido sobre o antigo caminho de Santiago. A obra deve-se a mestres canteiros, com habilidade para trabalhar o granito, dos quais urge salientar a família "Lopes", que durante os séculos XVI e XVII,  introduziram estas obras de arte, pelo Noroeste Peninsular; quer em Portugal, quer na Galiza.


Enquadra-se, portanto, esta "obra de arte", em pleno século XVI, como antigo  testemunho do abastecimento de água aos peregrinos, em direção a Santiago de Compostela. Este exemplar de chafariz, sob o cinzel do grande "mestre de cantaria"  João Lopes-o-Velho (1480-1556), certamente que  precedeu o "Chafariz de Caminha", obra com a qual atingiu o seu expoente de mestria em cantaria, já que "outros tinham sido erguidos", segundo rezam as crónicas da época. Ainda que , o "Chafariz da Praça de Viana", seja da sua autoria,  o seu acabamento deve-se ao seu filho, João Lopes-o-Novo.


O chafariz apresenta uma taça circular com coruchéu, onde se destacam conchas na sua base inferior, e, assenta sobre uma elevada coluna de granito lavrado. A base ou tanque, em forma de jarro ornamentado, também exibe  uma concha. A  queda de água  deu origem ao desgaste  da taça com coruchéu, formando uma bica, por causa da erosão. Estes elementos arquitetónicos remetem, naturalmente, para os símbolos dos peregrinos de Santiago. A “Concha de Santiago” era o símbolo do peregrino, elemento identificador  do seu caminho, e, prova fiel da devoção ao Apóstolo; cujos relevos exteriores da própria concha convergem para o único ponto de encontro - Santiago. Tal como,  “todos os caminhos levam a Roma”, toda a nova sinalética aponta e conduz a único ponto - Santiago. Além disso, o simples elemento da laje de granito na sua base, em forma de concha, simboliza a fecundidade e fertilidade que está associada à água; e, ao seu renascimento. 

Os albergues dos Caminhos de Santiago serviam como casa de acolhimento das comitivas senhoriais, ou, simplesmente de apoio aos peregrinos, onde encontravam alívio e descanso para as longas e penosas caminhadas; quer a pé, quer a cavalo. Os chafarizes saciavam a sede, refrescavam o corpo, e, consolavam o espírito da devoção e peregrinação. «Para o investigador Carlos A. Brochado de Almeida, esta casa poderá ter sido originalmente o antigo albergue para os peregrinos do Caminho de Santiago, que se atribui ao Paço do Outeiral» (Cf. Diário do Minho, Supl. Património, 15 de fev. 2015). Na reportagem anterior, o "Diário do Minho" de 02 fev.2015, evoca os Caminhos de Santiago, tal como surgem referências de outros autores, dos quais se destaca o jornalista Alfredo Castro Guerreiro - "Monografias do Concelho de Vila Nova de Cerveira - Freguesia de Gondarém", Edição da Câmara de V.N.C. 

Todavia, em nossa opinião, quer pelas marcas de conchas, quer por referências alusivas aos caminhos do Apóstolo, a principal evidência radica-se no "Chafariz de Santiago". Além disso, com a elegância deste chafariz das conchas de Santiago, convém salientar na década de sessenta do séc. XX, a construção dos três portais de granito, que embelezam a Quinta da Boega ou Outeiral, cuja autoria se deve ao grande "mestre de cantaria", José Abreu de San Petri Gondarém.

A Concha de Santiago  
N.B.
Como relata este documento, outros chafarizes precederam a construção deste grandioso fontanário em Viana do Castelo: «A 12 de julho de 1553, em ata de reunião da Câmara, [os vereadores] acordaram chamar o pedreiro João Lopes, 'por ser o melhor oficial que agora há nesta terra e experimentado por ter feito outros muitos chafarizes e por saber trazer as águas de onde é necessário'; acordaram que fizesse um chafariz novo como fez o de Caminha, 'e melhor se melhor se puder fazer', tirasse todos os canos rotos e quebrados até à 'arca' existente no Campo de Valverde »


 




sexta-feira, 12 de fevereiro de 2021

EUROPOLITIQUE: Pequenos lugares com história: a "Fonte da Carranca" em San Petri Gondarém - V.N.C.

 

Fonte da Carranca no lugar do Couto - San Petri Gondarém

Numa encosta íngreme e decorada com uma “cara de pedra”, a «Fonte da Carranca”, arrebita para o lugar da «Coriscada», sem qualquer pudor ou vergonha, na sua natural exuberância. Nascente de água fértil, ladeiam esta “carranca”, duas singelas conchas esculpidas ao lado da sua “cara de pedra”, ligeiramente esbatidas, que fazem apelo aos “Caminhos de Santiago”; a cuja fonte, nenhum romeiro resistia, em pleno Verão, tanto, à frescura de tão precioso líquido, como, a este refrescante lugar. O uso da água, este “bem comum” de direito consagrado, que para os romanos tinha enorme valor, dos quais nos recordamos com as suas termas, esmoreceu durante parte da Idade Média. Somente, a partir do século XIV, em Portugal, se começa a valorizar estas nascentes de água, suas estruturas e chafarizes, tão importantes para a vida das pessoas, deixando de consumir a água dos ribeiros. Aliás, hábito e costume que perdurou até metade do século XX, em certos locais de San Petri Gondarém. A água canalizada era um “luxo”, ao qual nem todos tinham acesso; por isso, os "cântaros e as cantarinhas", como as suas "bilhas de água",  faziam as delícias das moçoilas que iam à fonte.

 

Desconhece-se, se Duarte de Armas e seu escudeiro, no seu “Livro das Fortalezas” (1509-1510) omitiu a referência às fontes de Santiago, ou, até, à simples «Fonte da Carranca”, nos seus relatos históricos para o rei D. Manuel I.  Parte deles, perderam-se na sua rápida viagem, através do Reino, e entre Caminha e Valença; ainda que, não esqueça de referenciar a fortaleza de Cerveira, e, elogiar os benefícios do fontanário valenciano ("fonte da vila"). Todavia, a singeleza desta “Fonte da Carranca”, de cuja história resta pouca memória, não se pode dissociar da casa senhorial que domina a colina do lugar do Couto, em que está inserida, já que os senhores medievais e clérigos detinham os direitos sobre as águas dos seus territórios, no entanto, aberta à passagem dos peregrinos.

 

No alto do morro do lugar do Couto predomina uma casa senhorial de estrutura granítica, com amplas janelas, que é um “ex-libris” de segurança. Não é qualquer tiro de canhão que derruba as grossas paredes de granito desta estrutura. Aliás, nenhuma parede de alvenaria, nas redondezas, rivaliza com a dupla fachada de pedras de granito que se erguem, quer no seu lado interno, quer no seu lado externo. Autêntica fortificação, “domus fortis”, ou, casa forte, tanto pode remeter para as construções medievais dos senhores do século XIII, fazendo jus a qualquer antigo “couto”, que perdura na sua toponímia, como também, a qualquer habitação de gente rica e abastada do século XVI.

 

Descendendo desta antiga casa senhorial, por uma estreita escadaria, encontra-se esta singela “bica de água” em granito lavrado, com a sua carranca, e, duas conchas esbatidas pela erosão, por onde jorra um contínuo fluxo deste precioso líquido, oriundo do encanamento de nascente de uma fraga, que, infelizmente, foi substituída por um tubo plástico. As nascentes de água e suas fontes deram origem à fixação dos seus habitantes e moradores. O conjunto de nascentes de água de Gondarém é vasto, mas nenhuma detém esta simbologia; (sem esquecer as antigas "tabuletas" de rega). A "cara de pedra", ou "carranca" simboliza a máscara. Na tradição viking, a carranca era utilizada, na proa dos seus barcos, como meio de afugentar os maus espíritos das águas dos rios. Deste modo, a "carranca" está associada às águas e suas fontes, e, ao poder oculto dos seus benefícios e sortilégios.



 

terça-feira, 9 de fevereiro de 2021

EUROPOLIQUE: Pequenos lugares com história, em São Pedro de Gondarém - V.N.C.

 

Pequeno fontanário  -  Capela de São Sebastião
Na confluência de dois pequenos ribeiros das águas do Monte Goios, cuja evidência se manifesta em invernos rigorosos e chuvosos, destaca-se o escondido lugar de Agoeiros, em Gondarém. Os fluxos e refluxos de água nascente e renascente, e, a sua sintomática hidrografia, deram origem ao homónimo Manuel Lourenço Agoeiros, casado com Luísa Fernandes, em 15 de agosto de 1746, em São Pedro de Gondarém, segundo o registo de casamentos desta paróquia, referente aos anos de 1721 a 1812 (Cf. Arq. Distrital de Braga). (1)


Alvitra-se, que das famílias “Lourenço”, de cujo embrião são oriundos alguns clérigos, surgiu este homem, encarregado de guardar o "precioso líquido" em dias estivais, ou, também de zelar pelo cultivo das suas hortas adjacentes, que deram origem ao negócio de uma “loja”, ou, à “taberna”, pertencente a Maria Joaquina dos Santos, natural de Seixas, casada com José Manuel Peres. Na condição de viúva, Maria Joaquina casa-se com o empreiteiro transmontano Manuel António Carvalho, em 1878. Desta geração surge Engrácia da Luz dos Santos que contrai matrimónio com José Rodrigues de Oliveira. Em 1895, nasce Mário da Luz dos Santos Oliveira, casado com a francesa Olga Marie Hess Taron (1899-1986). Da família Taron destaca-se o Engenheiro Mário Oliveira Taron e seu filho Tiago Taron, advogado, que criaram, recentemente,  a “ResidencialAlminha”, no lugar de Agoeiros, em plena antiga estrada nacional. Este título e as recordações envoltas nestes nichos, de devoção cristã e popular, fazem relembrar as “Alminhas do Pedroso”, cujos poemas são da autoria da poetisa Rosa Varela, falecida no século XX. Apesar das vicissitudes do tempo parece que esta “casa” pretende retornar aos velhos hábitos da antiga hospedaria.


Em 1860, com a chegada da estrada nacional (E.N. n.º 13), a “tabernae” de D. Maria Joaquina dos Santos, transformou-se numa “estalagem” , ou, hospedaria, dando apoio ao numeroso grupo de trabalhadores dos Caminhos de Ferro, na construção do túnel, em granito, no lugar  da Mota. “A água mata a sede, mas não mata as amarguras”.  Bem, ao lado, na Capela de São Sebastião, o santo da “resignação e do sofrimento”, ergue-se um pequeno fontanário, cujo "pipo" não remete para as alegrias de Baco, nem para qualquer caneco; mas, para uma simbologia secular, cujas lembranças pertencem aos pastores de “cajado na mão” e seus rebanhos, através do monte de Goios; sem esquecer a nostalgia dos ritos funerários dos romanos.


N.B.
(1) Mais tarde surge João Domingos Agoeiros, casado com Maria de Ajuda (até ao ano de 1867) tendo falecido, em 01.01. 1872. Seu filho António Domingues Agoeiros pede um "inventariado de menores" em 01.01.1873. (Arq. Distrital de Viana do Castelo).
(2) Eng. Mário Oliveira Taron; (1933-2016), filho do engenheiro Mário da Luz dos Santos Oliveira (criador das empresas "Electro Moderna" e "Electro Olivença", no Porto), e da francesa Olga Marie Hess Taron, descendente do alemão Joseph León Taron, e, da francesa Cathérine Hess.

sábado, 30 de janeiro de 2021

EUROPOLITIQUE: «Memórias do passado" de São Pedro de Gondarém

No final do século XIX, a maioria dos países europeus tinha alfabetizado os seus habitantes, enquanto que existiam 78,6% de analfabetos em Portugal. Com a expulsão dos jesuítas, em 1759, gerou-se um certo vazio geral na educação do Reino, apesar da criação de centenas de escolas por “Carta de Lei de 06.11.1772”. As invasões francesas e as suas tropas, que passaram pelas terras minhotas, afugentaram a Família Real para o Brasil (1807-1811), dando origem à luta pelo poder político, em Portugal, que tão bem transcreve Camilo Castelo Branco nas suas “Novelas do Minho”. Apesar de um certo anticlericalismo literário, as vocações religiosas floresceram nestas terras do rio Minho, e, de Braga, em que se quedam registadas 35.000 inquirições de "genere vita et moribus", nas quais se inscrevem os pedidos de "São Pedro de Gondarém".


São Pedro de Gondarém tornou-se uma coutada de vocações religiosas, ávidas do ensino, e, norteadas pelos ideais religiosos. Alvitra-se que existiu uma "escola de latim" na abastada "Casa Gouvim" da família Guerreiro, apoiando este movimento de vocações para o clero secular - paróquias, ou, para o clero regular - ordens religiosas.  É, após o concílio de Trento (1547-1563), que se dá uma autêntica rutura entre a “igreja medieval” e a “igreja dos tempos do Renascimento”, já bem perto do século XVII, de renovada literacia na Igreja.  Em 1571, Frei Bartolomeu dos Mártires criou o seminário de Braga. Os registos de genere" (candidatos ao sacerdócio) do "Arquivo Distrital de Braga" surgem desde o ano de 1616 até ao ano de 1911 (ano da criação do Registo Civil pela República, com os seus 75% de analfabetos). Neste tempo, no lugar do Calvário de Gondarém funcionava uma escola pública, (aliás, estas são fruto da Revolução Francesa).


“Dinheiro e recibos” faziam parte destes pedidos dirigidos ao Bispo, ou, à Mitra, cujo "processo de habilitação" era condição da prerrogativa de “prima tonsura”, além de outas concedidas pelo poder régio (isenção do serviço militar). Como marco desta geração de candidatos, que se enraízam nas terras de  São Pedro de Gondarém, de onde são naturais, elaborou-se esta cronologia. 

O processo de habilitação iniciava-se com a petição do habilitando dirigida ao Bispo da diocese de Braga, onde constava a filiação, a naturalidade dos pais, os nomes e naturalidade dos avós paternos e maternos, cuja lista deve a sua origem a São Pedro de Gondarém (1635 - 1911), segundo esta cronologia do “Arquivo Distrital de Braga”.

Século XVII

1653 – Francisco de Sá Ferraz (02.12.1653) – padre

1690 - Luís Sousa Silva (20.04.1690).

Século XVIII

1703 – Francisco Afonso (05.01.1703)

1708 – João da Silva Vale (27.01.1708)

1713 – Domingos Domingues Levado (20.10.1713)

1725 – João Alves (22.08.1725)

1730 – Domingos Mota (11.02.1730)

1732 - João Domingues da Mota (11.02.1732)

1732 - João Domingues Carneiro (18.07.1732

1732 – João Marcos (28.11.1732)

1733 – João Costa Rubio (22.04.1733)

1734 - João Lourenço (19.04.1734)

1735 – Manuel Barbosa Coelho (22.04.1735) – padre

1744 -  António Quaresma (01.01.1744) - padre e desembargador (Peniche).

1748 - João Francisco (26.03.1748)

1754 – Domingos Lourenço Feital (22.07.1754)

1755 – João António Lagos (03.03.1755).

1755 - João Manuel (15.02.1755)

1760 – João Lourenço Lobato (05.05.1760)

1762 – João Pereira (29.07.1762) – padre

1774 – João Alves (14.10.1774) - padre

1778 – António João (15.04.1774) – presbítero secular

1778 – Sebastião Luís Feital (19.06.1778) - padre

1778 – Pedro António da Cunha (25.08.1778)

1783 – Manuel João Lourenço Guerreiro (20.02.1783)

1783 – João Rodrigues Pereira (22.09.1783) – padre

1785 – João Alvares Moledo (12.09.1785)

1786 – Bernardo Fialho de Mendonça e Andrade (13.03.1786)  - padre

1786 - João Lourenço Feital (Minas Gerais) - Cónego da Sé Mariana -Br.

1786 - Sebastião Luís Feital

1787 – João Manuel Guerreiro (30.05.1787)

1790 – António João Outeiral (29.05.1790) – padre

1792 – João Manuel Araújo (22.08.1792)

Século XIX

1804 – Basílio António Ramalhosa (06.03.1804)

1809 – Bernardo José Guerreiro (22.02.1809)

1812  -  João Manuel de Sousa Guerreiro (06.03.1812)

1817 – José Benedito Barbosa Andrade (23.07.1817)

1819 – João Crisóstomo Guerreiro Amorim  Pereira (23.11.1819) (+05.10.1855).

1821 – Manuel Gonçalves Barroso (12.03.1821)

1822 – João Manuel Outeiro (01.06.1822)

1829 – João Pereira (22.01.1829)

1832 – Francisco Alves Linhares (23.03.1832)

1843 – José Martins Araújo (19.10.1843)

1877  -  Manuel Franco Pedra (10.01.1877) - Pároco em San Petri Gondarém (V.C.)

1899 - João Caetano Afonso Ribas  (o1.01.1899)- Pároco em San Petri Gondarém

1889 – Alfredo José Marins Guerreiro (15.01.1889)

1889 – Inocêncio Carmo Martins Guerreiro (28.02.1889)

1889 – Luís Maria Gonzaga Barbosa (11.03.1889)

1908 - José Teixeira de Andrade (01.04.1908) - Pároco em San Petri de Gondarém.


N.B.

«Processos necessários para a ordenação de párocos. Consistem na inquisição de testemunhas para comprovar a filiação, reputação, bom nome ou “limpeza de sangue” do requerente. Incluem os seguintes documentos: requerimento inicial, carta de comissão, inquirições de genere a testemunhas e declarações dos párocos. Estão incluídos nesta série processos de Justificação de Fraternidade que são requeridos quando há, na família, alguém ordenado e com inquirição de genere elaborada e concluída». (Arq. Distrital de Braga, 1616).

P.S.

Atualmente, a arquidiocese de Braga abrange 551 paróquias, com cerca de 850.000 habitantes; a diocese de Viana do Castelo possui 291 paróquias, com cerca de 250.000 habitantes. (Ou seja, a zona da ribeira Lima/ Minho, que da Galiza do Norte se afastou, tem 1/10 dos seus habitantes, ou seja, dos 2 698.718 galegos).

terça-feira, 26 de janeiro de 2021

EUROPOLITIQUE: A "Capela de SÃO TOMÉ" em Gondarém - V.N.C.

 



Em pleno século XVI, é «atribuído o título de Igreja de “São Pedro de Mangoeiro” (Gondarém)», conforme (Arq. Distrital de Braga, 08.01.1549). A referência mais correta, em nossa opinião, recai sobre a atual paróquia de Gondarém, neste caso, São Pedro de Gondarém. A consagração deste “título” encerra a obrigação de constituir um arquivo, ou, um “tombo”, ou seja, um “livro de registos” acerca dos acontecimentos mais solenes da paróquia, incluindo: batismos, casamentos, óbitos e testamentos.


(Portanto, desde o século XVI, que os registos de identificação dos cidadãos pertenciam à Igreja, até ao funcionamento do Registo Civil, a partir de 19 de fevereiro de 1911). Outra referência, reafirma que «em 1546, São Pedro de Mangoeiro, a atual Gondarém, encontrava-se inserida na Terra de Vila Nova de Cerveira e Comarca Eclesiástica de Valença, rendendo 70 mil réis» (Arq. Distrital de Viana do Castelo). Nesta época, a freguesia encontrava-se dividida entre duas igrejas e dois intervenientes: os “senhores eclesiásticos”, aos quais pertencia a capela de Mangoeiro, e, a outra “sem cura”, abadia/padroado, que dependia de um patrono ou “padroeiro" e dos seus “senhores leigos”, ou seja, São Pedro de Gondarém.

 

A antiguidade da igreja paroquial, como também da capela de Mangoeiro, remonta a épocas anteriores, em nossa opinião, ao século X. Os manuscritos referem que «em 1258, (com) o nome Mangoeiro é citada na lista das Igrejas de Entre Lima e Minho, que pertenciam ao bispado de Tui». Alvitra-se, portanto, que a constituição, desta ermida de Mangoeiro, remonte a séculos anteriores, com pertença assumida à diocese de Tui, e, posteriormente à Colegiada, ou, Cabido de Valença, sem menosprezar a influência do Convento de Oía, na Galiza.


Duas nascentes de água delimitam esta colina, em cujo centro surge a atual capela de São Tomé, em lugar altaneiro. A quinta da “Fonte Fria”, antiga casa de lavoura, afirma-se como um casal - “casal de Mangoeiro” - que pagava “honras”, ou “dízimos” ao Cabido de Valença, ainda, em pleno século XVIII, segundo esta. «sentença de emprazamento de três vidas do casal de Mangoeiro, sito na freguesia de Gondarém e foreiro ao Cabido de Valença a favor de João Domingues e sua mulher e mais consortes» (Arq. Distrital de Braga, 16.11.1768). Ainda que a noção de “casal”, em plena Idade Média, rondasse cerca de trinta pessoas, neste século significava um aglomerado de pessoas, às quais estava circunscrito o direito do foro e pagamento de taxas à Igreja. Diz-se que a freguesia de Gondarém surge "lá do alto" de Mangoeiro, desde os tempos dos “rebanhos e criação de gado”, escondendo-se dos romanos e dos bárbaros, após a época castreja. Ou seja, os primitivos habitantes transitam da pequena colina do "antigo castro" para um lugar mais altaneiro, o lugar de Mangoeiro.


Alvitra-se que a desaparecida "antiga igreja", «ecclesia  Mangoeiro»,  tivesse sido construída em madeira, já que, através dela se revela a existência manuscrita de um abade, e, de rendimentos associados, da qual não perduram vestígios arqueológicos.. «A Idade Média foi o mundo da madeira, que era nesse tempo o material universal de construção». (1) 


Em pleno século XV, faz-se referência ao que «diz respeito à existência de um hospital, já que em 21 de Fevereiro desse ano (1474), a pedido do concelho e homens da vila, D. Afonso V, autorizou por Provisão que o dito hospital “por ser muito pobre e falecido das coisas necessárias” pudesse aceitar uma doação que lhe desejava fazer o Abade de Mangoeiro (lugar da freguesia de Gondarém) Álvaro Dias». Três anos depois, «a escritura de tal aceitação foi lavrada então a 7 de outubro de 1477, no Mosteiro de Santa Maria de Loivo». (Cf. História da Misericórdia de V.N.C, fev. 2017).


A figura do benemérito Abade Mangoeiro, Álvaro Dias, torna-se uma personagem medieval desta localidade, quer pelo seu espírito de generosidade, quer pelo seu poder de influência junto das instâncias reais, cuja benevolência lhe advém de qualquer cargo apostólico, ou, de linhagens familiares. Todavia, o "orago e padroeiro" desta localidade que tem no apóstolo São Tomé a sua inscrição e vinculação, apesar de não surgir em nenhum manuscrito.  A "devoção popular" impôs-se através deste santo, São Tomé, que lhe consagra o dia da sua festividade, em 15 de agosto.


Assim: «já a caminho da Freguesia de Sopo, no lugar do Mangoeiro, encontramos uma bela e pequena capela, a Capela de São Tomé. Graças à sua localização, a partir deste local podemos vislumbrar uma grande área do Rio Minho e do seu estuário, bem como as Ilhas dos Amores e Boega». (Cf. : JF de Gondarém)

OBS.
(1) «A Idade Média foi o mundo da madeira que era nesse tempo, o material universal de construção. Mas, muitas vezes, era madeira de má qualidade; e, de qualquer modo, existia só em peças de pequenas dimensões e mal trabalhadas» LE GOFF, Jacques "A Civilização do Ocidente Medieval",  (original 1964),  pg. 251, Vol. I,  Ed. Estampa, 2.ª Ed., Lisboa, 1995.

(2) «Algumas abadessas eram autênticos senhores feudais, cujo poder era respeitado de modo igual ao dos outros senhores feudais; algumas usavam báculo, como o bispo; administravam muitas vastos territórios com aldeias, paróquias... (...) a vida de uma abadessa na época comporta todo um aspeto administrativo: as doações acumulam-se, permitindo aqui receber o dízimo sobre uma vinha, ali o direito a foros sobre fenos ou trigos, aqui usufruir duma granja e ali dum direito de pastagem na floresta...». PERNOUD, Régine "O Mito da Idade Média, pg. 95, Publicações. Europa-América, Lx. 1989.

(3) Em 1210, regista-se o rendimento em dinheiro, como título dos benefícios que o Bispado de Tui tinha, no Reino de Portugal, sobre a «Ecclesiam Sancti Petri de Mangoeiro ad septuaginta et quinque libras», ou seja, 75 libras. (Cf. Registos dos Benefícios (séc. XIII / XIV), cf. "História Religiosa" de Stéphane Boissellier.


(Vide) Diário do Minho: Suplemento/Património (01.06.2014) "Capela de São Tomé terá recebido a sede da paróquia de Gondarém ( "igreja matriz" de São Pedro). 

N.B. 

Na Galiza existe o seu hormônio galego “San Tomé de Mangoeiro”, com a sua igreja, no concelho de Toque, Província da Corunha.

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