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quarta-feira, 30 de dezembro de 2020

EUROPOLITIQUE: Sam Payo - O Santo que veio de um convento até ao "Bom Jesus" de Gondarém

 


Desde o século XVIII, que a estátua de Sam Payo tinha tido acolhimento na capela do  Bom Jesus de Gondarém, com "altar e digno reposteiro", tornando-se num santo de grande devoção, ocupando um lugar de padroeiro. A festa, que estava dedicada ao “Bom Jesus”, e, que tinha como "símbolo a cruz" (via crucis), perdeu lentamente o seu brilho e fulgor, por causa deste santo intrometido e adotivo, que, furtivamente tinha entrado na capela do Senhor. Paulatinamente e sem pedir licença, também, por causa da sua ousadia, que a devoção popular lhe devia, (de tal forma que não deixava ninguém indiferente ao seu olhar), este santo, rapidamente, iluminou o seu lugar. Santo festivaleiro, que misturava a oração e a romaria, só encontrava descanso em corações cheios de alegria. Daí, que a nível popular, a festividade tenha trocado de nome, por imposição e virtude deste santo, vindo das terras de Santiago, vestido de peregrino e romeiro. 


Os "tempos de peregrinação", que, outrora pertenceram a Santiago, pelos seus caminhos e atalhos, transpuseram-se para este pequeno embaixador de "Matamouros", que a devoção popular conservava, através deste santo na tradição que o tempo transformara, após a ruína, desleixo e abandono da sua casa, ou, convento, lá no alto daquele monte.


Este santo de "rezar e folgar", em algum sítio tinha de ter lugar. Os seus devotos já não podiam subir ao monte e celebrar aqueles bons tempos em que a sua festa tinha lugar. Por isso, albergaram-no nesta capela do "Bom Jesus", pouca habitada e de pouco uso. A festa do santo começou a brilhar, e a sua festividade atraía toda a vizinhança, quer deste lado ou do outro lado do rio Minho. Se «de Espanha, nem bom vento, nem bom casamento», Sam Payo deixava essas querelas para as dinastias, porque a sua  graça e alegria a todos irradia, quer portugueses, quer galegos, de noite e de dia. Ao invès, aviva-os na sua memória, que este santo fazia parte da sua história, que, por graça de franciscanos tinha vindo com eles, em tempos remotos e arcanos. 


A sua devoção de "santo e padroeiro de romarias" ultrapassara a severa penitência que o “caminho da cruz” impunha com o “Senhor Bom Jesus”. Os severos sermões e as duras ameaças de um Inferno para além desta vida, não se compadeciam com as agruras de cada dia. A vida "difícil e pobre" não suportava quem a cobre com o "fogo eterno", a quem já nesta terra tem as suas labaredas. Se, a vida, por vezes, era um inferno, ter outra vida, com "lume eterno", era demais, para estes pobres mortais. Por isso, por mais amor que se tivese ao Bom Jesus, procurava-se outra luz para o "caminho da cruz", ainda que fosse um pequeno luzeiro neste "santo festivaleiro". E, do seu anterior local de devoção, que também foi de alegre peregrinação, emoldurava-se o "monte sacro" do Bom Jesus com outro santo e outra cruz. Uma cruz mais popular, de "rezar e folgar", tornada em romaria, que irrompia, quer de noite, quer de dia. Recordava-se com remota ternura, os velhos tempos das caminhadas, quer a pé, quer em “carradas”, pelas fragas, pelo mato e pinhais, atravessando densos matagais, onde os lobos famintos faziam os seus arraiais. 


Um dia, o santo apareceu fora da igreja, ao vento e à chuva, fora do seu lugar, parecia um santo a tiritar. Um gélido nicho exterior, na branca parede da capela, deu-lhe um sítio para morar. Mas, o frio do Norte e a sua chuva da noite, moveu  o coração de um devoto do santo que sofreu por tal desgraça, sorte e desdita. Dorido na sua dor e cheio de fervor, este audaz morador colocou no santo um cobertor, de "palha e de pastor", temendo qualquer delator.  

N.B. Aos "tempos de ditadura", juntavam-se os "tempos de tonsura"

segunda-feira, 28 de dezembro de 2020

EUROPOLITIQUE: "O Bom Jesus" de Gondarém, ou , no lugar do Calvário: o seu santo adoptivo S. Paio.

Em 25 de Junho de 1758, segundo relato do arquivo da Diocese de Braga é concedido o «registo de provisão a favor dos moradores da freguesia de Gondarém, termo de Vila Nova de Cerveira, para erigirem a capela do Senhor Bom Jesus do Calvário e o seu Pároco poder benzer a dita capela». (Arq. Distrital de Braga, 26.10.1758)

Deste modo, emerge uma capela retangular, cuja torre sineira tem um campanário com os seus quatro sinos, construída em pedra granítica, com os seus cunhais salientes e rebocada a cal. No seu interior encontra-se o altar do «Bom Jesus», em talha “rocaille”. No seu exterior brilha um cruzeiro, com a imagem de um Cristo, relembrando a “via crucis”, ou, caminho da cruz. Portanto, a partir dos anos sessenta do século XVIII, ressurgem as obras, daquilo que, popularmente, se chama “Calvário”.

Em lugar altaneiro, e, na encosta de uma colina, encontra-se esta capela, cuja vista panorâmica abrange o verde vale, as ilhas da Boega e dos Amores, e o rio Minho. Em seu redor estende-se uma frondosa mata, repleta de carvalhos, pinheiros e oliveiras, emoldurada por uma bela fonte em “granito trabalhado”, cujo limite superior é feito pela “via montis”, ou, estrada da floresta.

Este templo, que mais parece uma pequena igreja, ergue-se por cima de um escadório, ladeado por quatro pequenas capelas. No seu prolongamento inferior estende-se uma simples e longa escadaria, até ao antigo Caminho de Santiago. Deste modo, emerge uma capela retangular, cuja torre sineira tem um campanário com os seus quatro sinos, construída em pedra granítica, com os seus cunhais salientes e rebocada a cal. No seu interior encontra-se o altar do «Bom Jesus», em talha “rocaille”. No seu exterior brilha um cruzeiro, com a imagem de um Cristo, relembrando a “via crucis”, ou, caminho da cruz. Portanto, a partir dos anos sessenta do século XVIII, ressurgem as obras, daquilo que, popularmente, se chama “Calvário”.

Desde o século XVIII, que o dia 2 de agosto estava reservado à grande romaria que animava este local, cujos ecos festivos atraíam toda a redondeza. Associava-se a esta festividade, o culto a um santo popular, cuja origem se deve ao mesmo nome que tinha o vizinho convento franciscano de Sampaio. Por ironia do destino, a estátua de S. Paio foi colocada num nicho exterior da capela, cujo deslocamento não foi do agrado popular, e, tal desdita fez esmorecer a sua romaria.

                         
A consagração de uma colina como “monte sacro”, neste caso, dedicado ao “Bom Jesus”, insere-se na tradição católica a partir do século XVI, que deve a sua influência a São Carlos Borromeu, apologista da Contra Reforma, instituindo-se como local purificador, e, de romaria. Desconhece-se o papel de alguma confraria, muitas vezes, associada a Santa Ana, com capela nesta localidade.

                                 


A amplitude do “Calvário”, ou, do “Bom Jesus” de Gondarém revela que as intenções dos seus fundadores prosseguiam uma grandiosidade que se quedou bastante limitada, embora com espaço livre para a sua realização. O local de ímpar beleza natural congrega, naturalmente, à contemplação e à oração, em memória daqueles que tenham alguma crença.


N.B.

«No início do século XVIII, o convento de São Paio do Monte foi alvo do interesse de uma família abastada da freguesia de Covas, Vila Nova de Cerveira, em cujo concelho usufruíram de grande influência e importância. Embora os direitos de propriedade não sejam muito explícitos nesta ordem religiosa, dado os seus votos de pobreza, a sua aquisição é realizada por Manuel Carlos de Bacelar, ou, Manoel Carlos de Bacelar Malheiro (1705/1758), considerado terceiro administrador da abastada Casa Carboal, na freguesia de Covas, e, com o título de fidalgo escudeiro da Casa Real, em 1737». (Conventos da Vila de V.N.C. by M.F.)

Ora, o pedido dos moradores de Gondarém acontece no ano do falecimento de Manoel Carlos de Bacelar Malheiro, ou seja, em 1758. Será, que o "Bom Jesus" do Monte tinha como intenção "asilar ou albergar" Sam Payo?


domingo, 20 de dezembro de 2020

EUROPOLITIQUE: O Jovem Demóstenes das águas do rio "Mínius"

E, do mais profundo mundo soava: ....
«Senatori Romani...Senatori Romani..."

 

E vós, Tágides minhas, pois criado

Tendes em mi um novo engenho ardente

Se sempre, em verso humilde, celebrado

Foi de mi vosso rio alegremente  .......(Camões, Canto 1, Estrofe 4)


 

Remoía-se o poeta em convulsões líricas, cujas musas indecifráveis sopravam no seu espírito atribulado. Não era a pretensão do estro de Camões, que na sua gloriosa epopeia, evocava as suas Tágides, nem eram as mais recentes candidatas a este estatuto - as musas Miníades - que pretendiam instalar-se em renovada força inspiradora deste rio, cujo batismo romano era de "Mínius". Estas mais recentes musas eram escravas de Baco, a quem os Lusitanos também deviam alguma filiação; e, desta tribo também se afastava o jovem Demóstenes, já que pertencia aos “galaicos”. Mas, a cartografia de uma localidade nem sempre coincide necessariamente com a geografia visível, em que as águas do rio Minho tinham devorado três inocentes crianças, por causa do feitiço e do encanto da sua bela “ilha dos Amores”. Por isso, o trio das musas Miníades não podiam implorar a clemência do seu deus com o rapto destas três inocentes criaturas, que as águas lhes ofereceram sem qualquer tributo, e, em forma de angélica oferenda. Neste momento, o trio das inocentes criaturas ascendia,  pela voz do poeta, agora, transformado em tribuno, a uma operação maior que a sua cartografia representava, elevando-se à categoria de uma menção discursiva, somente, auditada pela Cúria Romana.


Esta operação de desmontagem através do tempo e da história, pretendia ultrapassar a relação de espaço geográfico e visível, (ainda que, não longe da sua localidade, se avistasse uma ponte de origem romana), para se incrustar nas fendas imaginárias da sua projeção que a retórica convocatória pressupõe como desígnio reivindicativo de um passado ainda presente. Para além de convocar a assembleia dos distintos tribunos romanos, pretendia-se chamar e reclamar a atenção de um mapa, em que o seu lugar habitual gire em torno de notável mundividência. No alto das suas verdes margens ecoava a mais pura língua latina na sua origem. 

«Senatori Romani...  // Se..na..to..ri...  Ro..ma..ni...»

Esta paisagem que vemos e admiramos, bucolicamente bela na sua exuberante natureza, encobre imprevisíveis eclipses históricos, que a romanização deixou como peugada da sua influência militar e jurídica. Não nos bastou receber a fonte do direito e a técnica da sua engenharia como herança, mas também, o cunho e registo deste rio romano, cujo nome senão é no seu sentido de menoridade, ou, “mínimo”, foi nomeado “mínius”, ou seja, Minho. Caudaloso nos seus invernos, e, temível na força das suas águas somente se deixavam atravessar em suas águas mínimas. Dos mais célebres romanos, que atravessaram as suas águas, ergue-se Decimus Junius Brutus, (180-113 -A.C) cujo nome ficou associado às suas façanhas, como o “Gallaecus”, após duras batalhas com os galaicos. Ainda, hoje, as vias romanas são testemunho das suas campanhas. Mais tarde, Caius Julius Caesar (100-44 a.C.) diria destes “galaicos” que «há nos confins da Ibéria um povo que nem se governa nem se deixa governar». Este orgulho da sua independência teve a sua mestria em Viriato que, por três vezes, derrotou os romanos. Mas ao Império Romano nada escapava e o Noroeste Peninsular tornou-se na mais extrema província romana – a Gallaecia.

 

A “Gallaecia” era a última extremidade do Império Romano, a província do Noroeste Peninsular, onde foi assinalado um promontório como “finis terra”, indicando que o fim do mundo acabava neste plano planisfério. Associado ao cabo de “fim de terra” surgia a fantasmagoria do “fim do mundo” com os seus monstros, as suas bestas negras e os seus mostrengos, (que, mais tarde, também emergiam nos relatos dos escritores árabes, acerca dos perigos deste mar). Ora, no ano de 136 (A.C.), chegando às águas tranquilas e sonolentas do rio do “esquecimento”, ou seja, o rio Lethes (da morte), as tropas romanas, temerosas e assustadas com os fantasmas destes monstros, estancaram aterrorizadas e perplexas, plenas de receios e medos. E, temendo esquecer a sua identidade e pátria com a ousadia de atravessar o rio Lethes, desafiaram o seu chefe a ser o pioneiro desta façanha, que foi obrigado a chamá-los pelos seus nomes, tendo erguido o seu estandarte romano, na outra margem, como símbolo da sua audácia. Mas, os medos e temores surgiram, de igual modo, na aproximação às águas do rio Minho. Somente, após o sono refeito, e, após o acampamento no lugar da Gandra (Valença do Minho), refizeram o seu caminho militar por terras acima, até à futura cidade de Lugo. 


A sua ousadia oratória não recaía naquela paixão de quem o tratava por “patrício”. Nem se atribuía a uma simples afinidade local, mas, por retomada cultura latina, reivindicava alguma suposta descendência das famílias romanas, cujos fundadores de Roma, tinham o direito de participar na Cúria. Apesar de “homem livre”, e, longe da escravidão, ascendia às ilustres clãs romanas, onde o seu  Senado Romano se compunha de um venerado “conselho de anciões”, cuja argúcia e talento, somente podia ser despertada pela voz deste tribuno.

 

Relembrava-se que os autênticos “galaicos” residiram na região da foz do rio Minho, e, que os seus castros, apesar de estarem no cume das montanhas, se distinguiam dos montanheiros “galaicos lucenses” e dos vaqueiros “galaicos brácaros”, cujos povoados se dispersavam em amontoados de tipo “castella”. Nas terras dos autênticos galaicos escondiam-se os verdadeiros monstros que se transformavam em autênticos fantasmas, ou, figuras míticas, aterrorizando as tropas romanas. Por isso, desta longínqua província do Império Romano, soltava-se o mais lancinante grito que jamais tinha ecoado no Noroeste Peninsular.

«Senatori Romani…senatori romani…»

Este digno introito, dirigido aos senadores de Roma, não tinha nada de profético, se não tivesse sido proclamado por Tito Lívio: «vai e anuncia aos Romanos que a vontade dos Deuses é que a minha Roma se torne capital do mundo. Que eles se tornem proficientes na arte militar e passem para os seus filhos que nenhum poder na terra pode resistir às armas romanas» (Cf. Titus Livio, “ab urbe condita”. Liber 1.16).

 

Todavia, a locução de “senatori romani” se não era o retorno de alguma clemência perante a cúria senatorial, tão do agrado da distinta assembleia romana, que dos seus elogios gravitava na sua clemência, tornava-se, agora, uma forma de anátema ou infâmia, que destemperava, no aval judicativo, os mais distintos e credíveis tribunos.

 

Tinha chegado a hora de convocar todos os deuses romanos, todas as forças ditas divindades católicas e apostólicas, todos os “delfos” perdidos pelos vândalos, que através da história, marcaram a terra perdida desta longínqua província romana. Através da língua da “Cidade Eterna” e da nova língua do poeta do Lusíades, ressuscitavam-se dois impérios tão distintos que imbricavam na jurisdição romana do poder, mas a cuja jurisdição a Roma competia. Nem a autoridade papal, nem o sacrossanto império franco, destronavam a língua dos poetas bucólicos romanos, que emergiam como murmúrios nas serenas águas do rio, quiçá, desse rio do esquecimento. A sua natureza poética ressurgia dentro de uma força abissal, que aos antigos mostrengos marítimos fazia relembrar. E, na profundeza oratória arrastava-se pelos ares, num impulso, a palavra do jovem orador. Como movimento de um moinho de vento rodopiava na sua língua romana:

«Senatori romani…senatori romani…»” 

Ouvi, senadores romanos, onde está essa “Espanha cravada de metais, tais como: chumbo, ferro, cobre prata e ouro”, dizíeis, vós, na vossa língua: «Mettalis plumbi, ferri, aeris, argenti, auri, tota ferme Hispania scatet.».

Ouvi, senadores: onde está esse rio, onde corria ouro e prata, que as vossas moedas faziam luzir?

Ouvi, senadores: onde estão os vossos barcos, já que as legiões romanas deixaram vazio o leito deste rio?

Onde está o rasto e percurso da “via per loca marítima”, cuja ponte jaz detrás desta minha montanha?

Onde estão as vossas quintas romanas que se embelezavam com as duas ilhas do meu rio?

«Senatori…romani…senatori…»




segunda-feira, 30 de novembro de 2020

EUROPOLITIQUE: As novas catacumbas do saber, na ansiedade destas renovadas livrarias...


Nos velhos tempos da inquisição ditatorial, procuravam-se os livros de Herbert Marcuse que estavam escondidos por trás dos livros, ditos normais, vendáveis e nacionais. Era, a técnica do livreiro, eficaz e rápida, para a sua compra e deleite da obra estrangeira, de cujo esconderijo se inaugurava uma fuga ao "index" político.
Quase, como obra de leitura obrigatória - "O Homem Unidimensional" - de Herbert Marcuse despontava, na língua francesa, da Livraria Bertrand do Chiado, em Lisboa,  até à sua conferência em "primeira pessoa" na "Université de Nanterre", em Paris, onde discursava com um inglês, repleto de  sotaque  alemão. 
Presentemente não existe "imprimatur", ainda que por debaixo das paredes de um convento se abrigue esta linda livraria.
A sua imagem é uma grata recordação dos tempos, em que na ânsia de novas incursões reflexivas, se revigoravam os pensamentos.

"Alfarrábios, calhamaços e catrapassos" fazem relembrar os antigos "scriptoriae" dos copistas, em que os monges pacientemente copiavam os "livros de horas". E, neste tempo, que nem horas tem, devora-se na fugacidade, aquilo que pertence à cidade!...

Mas na livraria "FERIN" até pode entrar para "saber como vai estar o tempo". O tempo que não tem horas!...

 


domingo, 29 de novembro de 2020

EUROPOLITIQUE: Sentido e significado de cidadania.


O "jovem Demóstenes" (outrora, chamado "boca d'oiro") não treinava a sua "maviosa voz" com os seixos das praias da Grécia, que endureciam e fortaleciam a sua garganta, mas, o mais recente tribuno, do alto do seu espigueiro familiar, em terras minhotas, deixava fluir pelos ecos do outeiral, a célebre proclamação introdutória dos mais famosos discursos latinos : «Senatori romani...  Senatori romani...».

Se não era o Cícero, em primeira pessoa e na sua bela língua latina, com as suas declinações afinadas, era, porventura, o mais veemente tribuno peninsular, que de ousada chama acesa e ventricular, invectivava  os sonolentos senadores romanos, para a mais elaborada sentença discursiva que se desprendia, por todos os tempos pelos vales do Rio Minho.

Noutros tempos, o chamado "rio das areias douradas", por onde se escoava o oiro e a prata, até à cidade eterna de Roma, reclamava que os "senadores romanos" não esquecessem o tributo que estas terras lhe concederam, como legítima parcela do seu império. Era digno e justo recordar que as antigas alianças permitiram aos romanos entesourar os seus cofres com as moedas que espalharam pelo seu império, ao mesmo tempo que estabeleceram as suas vias terestres e marítimas para chegar a estes confins da terra plana. 

"Finis terra", era o último cabo marítimo do Noroeste Peninsular que se erguia na Galiza do Norte, que o "delfim orador" do «Senatori Romani...»reclamava como marca e fronteira do império romano. Mas nas suas costas, corria o rio das "areias douradas", de cuja memória evocavam as lições do seu mestre ou decano, que , através de um sistemático cumprimento pessoal, se debatia com a saudação de "patrício" - "olá, patrício"!... 

Inicialmente, este cumprimento, quase soava a "moeda falsa", de cuja identidade se desconfiava da sua sinceridade. Mas, a «história de um pilar da democracia", por Lourenço Pereira Coutinho, alertou-nos para esta questão da "cidadania".  

«Em Roma, os direitos de cidadania estavam reservados originalmente aos descendentes da cidade, os patrícios. A partir de finais do século V a.C., estenderam-se aos plebeus e depois, com o império, foram sucessivamente alargados aos povos conquistados. Finalmente, no século III d.C., o imperador Caracala assinou um édito que reconheceu a cidadania romana a todos os habitantes livres do império» (Revista Expresso de 27.11.2020).

«...a cidadania social ou, o reconhecimento do direito universal à saúde, à educação e à proteção contra a exclusão».

Por ironia do destino, o eco da voz de "Senatori Romani..." deambulou por terras gaulesas, deixando um rastro de solidão (por exclusão, desta  sua reclamação e própria entoação de "Esta ditosa, Pátria amada"!...). 



quarta-feira, 25 de novembro de 2020

EUROPOLITIQUE: Por uma hermenêutica da heteronímia em Fernando Pessoa

 

 

Regina Olsen está para Sóren Kierkeggard (filósofo dinamarquês), como Ofélia está para Pessoa (poeta português).

Ambos deixaram os seus amores para se dedicaram “de corpo e alma” à produção das suas obras: um, na filosofia, outro, na poesia, ainda que a literatura faça parte dos dois. Mas, ambos são prisioneiros desta catarse operada pelo filtro da heteronímia.

F. Pessoa constrói o seu primeiro heterónimo, quando ele tinha um ano. Não satisfeito com esta precocidade, logo surge outro heterónimo com a idade dos seus três anos. (O processo comunicativo de F. Pessoa parece que procura fugir ao "Conceito de Angústia", que tanto caracteriza Kierkegaard, e que foi publicado, precisamente,  no mesmo ano, em que se inventou o telégrafo). Um indagando o "conceito", e fugindo à selva brasileira; o, outro "encharcando-se" e mergulhando na via poética.

Portanto, antes dos seus três anos de idade, e, antes da manifestação do complexo de Édipo estabelece-se o processo criativo do Poeta. Poder-se-ia dizer que num retorno à sua infância estatuem-se três figuras da sua personalidade que intensamente dialogam entre si, neste processo inicial.

O primeiro é Alberto Caeiro, simples, sereno e  ligado à natureza através da manifestação opulenta da força do inconsciente; o outro, é Álvaro de Campos, engenheiro de profissão, simboliza a razão, a civilização e o progresso, onde a matemática e a contenção que o próprio F. Pessoa, tanto, desdenhava, mas que “durou mais tempo que o próprio” (pg.32)

Eu nunca guardei rebanhos,

Mas é como se os guardasse.

Minha alma é como um pastor,

Conhece o vento e o sol

E anda pela mão das Estacões

A seguir e a olhar.

Toda a paz da Natureza sem gente

Vem sentar-se a meu lado.

Esta trilogia que nasce e se afirma até aos três anos de idade do poeta  é, talvez,  um esboço, procurado através da infância: o nascimento do “eu”, do inconsciente e do superego, ou seja, as três estruturas defendidas pela psicanálise. Mas, o facto de F. Pessoa ter perdido o pai com a idade de 5 anos não parece reunir, sumariamente, as condições necessárias à rejeição do processo analítico do chamado “complexo de Édipo”, tão típico da psicanálise. Parece que o processo de identificação com a figura paternal foi operado, na sua identificação com na masculinidade, e, foi realizado, pelo menos, dentro da sua temporalidade, quer dizer, dentro do seu tempo normal de desenvolvimento.

No entanto, a fixação da data de 1889, como ano do nascimento de Alberto Caeiro, um dos seus primeiros pseudónimos, quando ele tinha somente um ano de idade, remete para um desejo de retorno ou regresso à infância. Aliás, desde a infância ressurgia dentro de si a construção de personagens, segundo afirma o Poeta. Mas, este possível retorno à infância redobra-se com o nascimento de um segundo pseudónimo: Álvaro de Campos.

Ora, este segundo pseudónimo acontece em 15 de outubro de 1891, quando Pessoa atinge os três anos de idade. (Sintomática inscrustação edipiana!...) Embora se situe a nível de uma vinculação do desejo na sua heteronomia, ele incrusta-se numa fase crítica do desenvolvimento da sua personalidade.

Ora, entre os 3 e 5 anos de idade do Poeta, situa-se, normalmente, o seu processo de identificação, formação e assimilação do papel e da figura do masculino ou do feminino. Dado que F. Pessoa nasceu, em 13 de junho de 1888, e, em 13 de julho 1893, faleceu o seu pai, o processo de masculinidade estaria resolvido, ou, completo. Mas, ao remeter para a sua fase de infância dois destes pseudónimos, na sua  idade mais crítica de  desenvolvimento infantil, será plausível aceitar o desdém,que ele sente pela “sexualidade, própria ou alheia”?

«Poucos especialistas seriam capazes de sintetizar tão bem a originalidade da contribuição freudiana à psicologia, e, por extensão, à crítica literária: a descoberta do inconsciente (que Pessoa chama de “subconsciente”), a importância da sexualidade em todas as manifestações humanas e, o que mais interessa a nós, críticos literários, a explicitação dos fenômenos de “translação”, isto é, de metaforização. Sobre a existência do inconsciente, o poeta diz que já tinha chegado, pessoalmente, àquela conclusão. Sobre o segundo tópico, diz que tinha feito “menos observações, dado o pouco que sempre me interessou a sexualidade, própria ou alheia”» (Cf. João Gaspar Simões).

Embora, a crítica à psicanalise seja legítima, como processo totalitário de explicação de todos os sintomas, a teoria da libido, como "energia perversa e polimórfica", é extremamente rica, interessante e estruturante no processo criativo. Esta polarização e plasticidade da libido envolve-se na sua heteronímia, não de forma estrutural, mas, assumidamente, de forma inconsciente que o próprio Poeta procura negar. "Ninguém é observador e observado ao mesmo tempo", por isso, a denegação está implícita ao próprio processo psicanalítico, e, também ao processo criativo. 

Se, Adolfo Casais Monteiro critica este “freudismo” de J. Gaspar Simões, é através de um processo de recalcamento quer do inconsciente, quer da energia da libido que nasce toda a energia para o processo criativo. Deste modo, a natureza nasce com Alberto Caeiro, carecendo de um tampão para o comando desta força incontrolável, que é a força da libido, que surge e aparece em Álvaro de Campos.

 (Ambos, os primeiros heterónimos são  A. C., ou seja, totalmente inseridos na força da natureza)

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terça-feira, 24 de novembro de 2020

EUROPOLITIQUE: Um fingimento que é dor sentida em que o "poeta é um fingidor" - Fernando Pessoa.

 

O poeta é um fingidor

Finge tão completamente

Que chega a fingir que é dor

A dor que deveras sente.

 

E os que lêem o que escreve

Na dor lida sentem bem

Não as duas que ele teve,

Mas só a que eles não têm.

 

E assim nas calhas de roda

Gira, a entreter a razão

Esse comboio de corda

Que se chama o coração.     (1 - 4 - 1931)


«Cada uma das suas quadras representa um conceito» (pg. 51), ou seja, (a conclusão de um hermético silogismo: “o poeta é um fingidor), aliás, como faz referência João Gaspar, e bem, “o poeta não finge”.

Efetivamente, o poeta sofre e sofre demais, que o diga o "agrilhoado" Fernando Pessoa, que parece um Prometeu, roubando aos deuses algum segredo.

«Não basta a etimologia da palavra máscara, para me iludir como pessoa. Como, a sua própria sonoridade não fosse objeto de comunicação. E, no teatro da vida não sofresse esta metamorfose que me angustia». O poeta sofre de tal forma que procura iludir que não há sofrimento.

Não é, por acaso, que F. Pessoa chama o poema de “Autopsicografia”. Psicólogo da sua própria pessoa, ou, máscara, que se afirma como fingidor. Embora, alguém diga: «por isso é legítimo, e simultaneamente errado, afirmar que esta poesia é autobiográfica. Seria mais seguro dizer que reflete e recompõe muita materia autobiográfica» (1)

Exala das suas entranhas uma angústia existencial, que somente o fingimento revela como dor incarnada. Todavia, o poeta é também um ator, que utlizando uma máscara, esconde o seu interior.

Esta minha dor, totalmente minha, pessoal, e, intransmissível aproxima-se daquela dor filosófica: “ this is my pain” de Ludwig Wittgenstein nas suas “Investigações Filosóficas”. O poeta diz: «não as duas que ele teve”, aquela que é comunicada e a outra que é intransmissível; ou seja, aquela que é visível, e a outra que permanece “invisível”.

Objetivamente, o poeta tenta “comunicar esta dor, mas queda-se como fingidor, já que não consegue "relançar no vazio" uma experiência de dor, que os outros nunca tiveram ou não têm.

«Em conclusão "Autopsicografia" encerra, em verdade o pensamento justificativo daquilo a que temos de chamar o «caminho alquímico», através do qual Fernando Pessoa comunica como Absoluto» (pg. 53). Apesar do conteúdo notável da hermenêutica literária de João Gaspar Simões, não relançamos o Absoluto como "porta de saída" do seu poema.

Recentrámos, o poeta, neste jogo do tempo e do mundo, em que o “motor do coração”, como máquina das sensações e dos sentimentos, se afirma através do seu movimento, e, deste modo se desvincula da razão.

Em vez de transcendência, gira-se um imanentismo, tipicamente pessoal e "pessoano " Eu sou um poeta, diria Pessoa, “eu sou um fingidor”, que carrega em si a dor.

É pelo movimento da sua poesia, pelas épocas vindouras que o tempo arrasta que o apreço da sua obra se deve concluir. No centro da dor e do fingimento permanece o coração no seu movimento.

«Os que lêem o escrito/escritor», não sou eu “o que escreve»?

(1) Poesia Ortonónima - Fernando Pessoa, obra essencial por Richard Zenith, ( in prefácio , o drama de ser "eu") pg. 5, Aletheia Editore,  Pub. Expresso, Lisboa  2015

 N.B. (pg. 51 e 53) - SIMÕES, João Gaspar "Fernando PESSOA" - ensaio interpretativo da sua Vida e Obra - Ed. Texto Editores  e Edições Expresso, Lisboa 2011.

EUROPOLITIQUE: Recordando "Platero y Yo" ....Juan Ramón Jiménez

  Na minha tenra idade escutava os poemas de “ Platero y yo” , com uma avidez e candura própria da inocente e singela juventude, que era o ...