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quarta-feira, 28 de outubro de 2020

EUROPOLITIQUE: Por terras e meandros dos rios e florestas de Moçambique (De um jovem sonhador a Mia Couro))


“Eu sou, simplesmente, um contador de histórias”, diria, Mia Couto.

A narração de histórias é uma atividade do escritor moçambicano que de forma natural e implícita, ou seja, de uma forma muito intimamente ligada a si, exprime, na terceira pessoa ou como seu intermediário, as descrições de um tecido rural e social, em que habilmente se move, através da incarnação narrativa nos seus processos culturais.

O animalismo, a magia do feitiço e suas senhas de incorporação expressam-se através de um canal de transmissão, que se torna meio e mensagem em crenças, sortilégios, ou, processos de identificação dos seus encantos naturais, reforçando o seu conteúdo narrativo.

As suas narrativas culturais encontram a sua força em “seres sobrenaturais ou animalistas” que têm mais poder e conhecimento que os simples mortais. É, através desta "memória externa", ou seja, das suas palavras e da sua escrita, que se desvendam, anunciam ou publicitam "estados mentais primórdios", cujo enredo se nutre de histórias e da sua identificação, numa riqueza rural e social, que se une intimamente com a natureza.

À falta de grandes mitos ou crenças religiosas, desenvolvem-se processos de convicções que nas suas histórias tentam induzir e envolver certos percursos individuais ou coletivos, cuja senda visa satisfazer as diversas ansiedades humanas.

Contrariamente ao processo de escrita de Mia Couto, mas tocado neste fervor moçambicano, que aos “macondes” bafeja na sua veia artística, reaparece a faceta de um jovem que gloriosamente se afirma como "artista".

Extremamente descomprometido com a realidade social ou política divagava através das suas narrativas num projeto individual indefinido, cuja afirmação se soltava alegremente nesta exaltação: “eu sou um artista”.

E, assim, todo o seu ser se inclinava para uma mente de pensamento simbólico, ainda que isento de qualquer forma de representação pictórica, e, se reduzisse simplesmente à expressão de um desenho ou tatuagem, que marcasse de forma efémera qualquer corpo. Mas, a expressão isolada dessa demonstração incorria na ânsia e no desejo de se assumir definitivamente como "artista". A sua rebeldia abria-se como uma senda inovadora de um indefinido percurso à procura de uma forma e de um modo de expressão. Oxalá, o seu caminho se abra como processo de identificação criativa. E, como afirma António Damásio:

«O eu rebelde depende da capacidade do cérebro de comunicar estados mentais, em especial estados de sentimento, através do gesto do corpo e das mãos, bem como da voz, sob a forma de tons musicais e de linguagem verbal». (Cf. António Damásio,”O Livro da Consciência”, pg. 355, Ed. Circulo de Leitores, Lx.2010).

terça-feira, 27 de outubro de 2020

EUROPOLITIQUE: Contra golpe emocional - pontapé na pedreira

 


A dependência de drogas: pressão da homeostase

 1)  «Ao longo de um dia normal acabamos por deparar com frustrações, ansiedades e dificuldades que desequilibram a homeostase e que consequentemente nos fazem sentir mal, talvez angustiados, desencorajados ou tristes».

2) «O estado homeostático desequilibrado é representado a nível neural como uma paisagem corporal obstruída e problemática».

3)«Um dos efeitos dessas substâncias (ou, drogas) é a recuperação rápida, e, é claro, efémera, do equilíbrio perdido».

4)«Após determinadas doses de certas drogas, o cérebro representa um organismo a funcionar de modo mais satisfatório».

 Conclusão:

5)«Como o fazem? Julgo que (as drogas ou as substâncias ) alterem a imagem sentida que o cérebro estará a formar do corpo». (Cf. António Damásio)

Obs: "O professor de ginástica, (em vez de educação física), corria com o aluno na floresta, desferindo fortes pontapés contra as rochas da mata". (Oxalá a serra de Sintra permaneça intata!...)


Obs: Cf. e consultar António Damásio, "O Livro da Consciência" - Construção do Cérebro Consciente", Pg. 346, Ed. Circulo de Leitores, Lx 2010. 

segunda-feira, 26 de outubro de 2020

EUROPOLITIQUE: Revisitando José Eduardo AGUALUSA: "Os vivos e os outros"

«Pousado na cabeça de Luís de Camões, o corvo observa a pracinha. Aquele é o seu território». (pg. 99)

No pequeno território que me faz lembrar Marraquexe; e, onde, Agualusa diz que “Portugal é grande”, revejo dois ou três corvos, deambulando por uma nesga de terra que lhes escapa ao seu espaço. Na verde frescura destes pinhais marítimos do Alentejo, mais concretamente, na costa vicentina, esventra-se com novas construções um território que às ditas aves pertencia. Os corvos não pedem licença à natureza, nem esconjuram com hissopos as feridas da mãe natureza. Grasnando, somente reclamam pelo seu território. Não exibem sinais de sabedoria, mas deixam um sonoro e rouco grito de lamento. Não partilho totalmente da crença de Odín - supremo deus dos vikings - que me enviaria dois corvos pelo mundo para ser informado sobre a ilha de Moçambique e sobre os dois anos da estadia de Camões, sobrevivendo graças aos seus amigos. Como afirma Agualusa, mais à frente no seu texto, «o corvo não tem conhecimentos históricos», nem é bafejado pela memória, que aos homens pertence. O corvo reserva para si este instinto de propriedade que a natureza lhe concede, e acena aos homens aquilo que lhe pertence. Com a sua sabedoria grasna no mistério dos deuses.
Negra e trágica como as penas do seu esvoaçar,
paira a incerteza no ar.
Mas firme elegante no seu andar,
reluz como brilho ao luar.  
E, é, neste espaço poético, que se estende junto ao mar, onde os poemas de Camões vão naufragar, que a pena e o sofrimento, nos prelos nos fazem sonhar!...

E, para estas recordações do poeta e dos poemas : «hoje são muitos os moçambicanos que ostentam com orgulho o patronímico do poeta».(pg.100)


AGUALUSA, José Eduardo "Os vivos e os outros",  (pgs.99/100) Editora Quetzal (1.ª Ed.), Lisboa 2020.

quinta-feira, 8 de outubro de 2020

EUROPOLITIQUE. «Se a Espanha tivesse Ronaldo, ganhava o jogo».

                             

Titulava um jornal espanhol este pequeno “slogan”  - «se a Espanha tivesse Ronaldo, ganhava o jogo» - para um “jogo amigável”, que fez sofrer qualquer luso, durante os trinta minutos iniciais da partida.

Se, a “pose de bola” foi de 64% dos 90 minutos para os espanhóis, o seu "ranking" só vem confirmar a "supremacia e lição de jogo" de "nuestro hermanos", cuja evidência caminhava para a indecência, para a angústia, repleta de dor e sofrimento. Para nossa salvação, melhor dito, "consolação" ficaram aqueles dois "obuses" (terminologia hispânica) que esbarraram nos limites das muralhas de Alvalade, porque não se tratava de qualquer guerra de estrelas.

O famoso “tic-tac”, ou, o “sistema em carrossel”, (que tem em Messi o seu expoente máximo com os seus dribles e fintas) demonstra que “quem tem a bola” tem de ter sempre disponível dois ou três comparsas para poder passá-la. Era uma delícia observar que os jogadores espanhóis desempenhavam cabalmente esta tarefa, (e, se tivessem o maestro de Barcelona seria o caos). Qualidade que está muito longe da mestria portuguesa, habituado aos "misséis e aos tiros de bala". 

Além disso, a “receção de bola” está condicionada à sábia “ocupação de espaço”. Saber jogar no “espaço visível e no espaço imaginário” é tarefa dos autênticos “condutores de bola ou de jogo” quando sabem delinear os respetivos passos que precisam de efectuar.

Observa-se que esta carência de “saber ocupar os espaços” se evidencia na seleção portuguesa, acompanhada do devido movimento nos seus ritmos e sequências. Aliás, evidência que não falha ao espírito cartesiano francês, a nível do futebol. "Saber jogar" não falta aos franceses.

Sem “hábito de treinador de bancada”, nem qualquer doença de “tiffosi” ou projeção de “hooliganismo” vaticina-se que uma certa “sagesse” lusa não se deixe intimidar pela metodologia francesa.

sexta-feira, 2 de outubro de 2020

Historiografia de António José da Rocha e Hollywood

 


            Hollywood  West and António José Rocha

- Período colonial espanhol 

No ano de 1815, com 25 anos de idade, António José Rocha rumou aos USA. O grupo deste jovem era constituído por dez pessoas, de cujo rasto não resta memória, exceto deste homem de Santiago de Sopo, concelho de Vila Nova de Cerveira.

Somente, mais tarde, após treze anos da sua chegada, em 1828, o seu nome aparece associado ao “Rancho La Brea”, em Porciúncula - terra partilhada por índios, mexicanos e espanhóis, na costa do Pacífico. Após uma década de esforços e trabalhos consegue, conjuntamente, com Nemisio Domingue, a concessão desta extensa propriedade, com a área de 4439 acres, ou seja, 1796 hectares.

 “Belo Rio”, foi o nome inicial deste povoado, que desponta para a história, em 1769, pelo batismo do padre franciscano Crespi. Aliás, a fundação da Alta Califórnia deve-se à expedição de Gaspar Portelà (1760-1770), que garantiu a legitimidade territorial para a coroa espanhola, pelo menos, até ao ano de 1821 (Independência do México). Portanto, António José da Rocha, esteve meia dúzia de anos debaixo do domínio espanhol, usufruindo de certas regalias destes colonos (por ex. isenção de impostos).

 Em 1781, viviam nesta localidade 44 pessoas, distribuídas por 14 famílias, quando adquire este nome pomposo, de origem e referência franciscana, atribuído por Felipe Neve: “EL Pueblo de Nuestra Señora la Reina los Ângeles del Rio Porciúncula”.

Em 1784, este povoado, com uma área de 1600Km2, foi totalmente destruído por qualquer invasão de índios, ou, terramoto, do qual não há registo. O número de indígenas, nesta região, era bastante numeroso.  Mas, novamente, no ano do nascimento de António José da Rocha, em 1790, já residiam 141 pessoas.

 

   - Período mexicano 

Volvidos trinta anos, em 1820, esta localidade torna-se numa grande comunidade civil da Califórnia. com os seus 650 residentes. No ano seguinte, o México declara a sua independência, em 1821. E, no ano de 1822 foi construída a primeira e única igreja católica da localidade. Ora, sete anos antes desta data, tinha chegado o jovem português a este povoado, que facilmente se integra nesta comunidade, e, na sua religião.

Em 1828, surge o primeiro pedido da concessão do “Rancho La Brea”, em Porciúncula, após 13 anos da sua entrada em terras da Califórnia. “Porciúncula” significa uma pequena parcela de terra, muito pequena, que faz alusão a uma dádiva de terreno, obtida por S. Francisco de Assis, para a construção de uma capela com o seu oratório. Contrariamente a este exíguo “palmo de terra”, ressurge a concessão do extenso terreno por António José da Rocha, que se torna num grande latifundiário e fazendeiro, através do seu “Rancho La Brea”. Presume-se que a área desta extensa propriedade abrangia 4439 acres, ou seja, 1796 hectares, rondando os 18 km2. Consta que, em 8 de abril de 1828, o “Rancho la Brea” foi concedido a António José Rocha, e, a Nemisio Dominguez pelo representante do governo mexicano, através de um documento dirigido ao alcaide desta cidade, José António Carillo. Todavia, em janeiro de 1828, já tinha sido enviada uma petição ao governador da Alta Califórnia, Jose Maria Echeandria. Presume-se que o pedido de concessão desta extensa propriedade visava salvaguardar os seus bens da expropriação, já que uma lei de 20 de dezembro de 1827 do governo mexicano, determinava a expulsão de todos os espanhóis, com menos de sessenta anos.

A “presumível licença” de concessão sobre a propriedade estava condicionada ao livre acesso dos seus habitantes aos poços de petróleo, que brotavam em pez ou alcatrão, de onde surge o nome “La Brea”. Desconhece-se o valor e forma de pagamento do dízimo ou impostos menores, sobre a colheita de cereais, ou, criação de gado, que rondariam os 5%, e, se revertiam para o governador ou município. Desconhece-se as suas sanções e as formas como estas obrigações eram cumpridas.

Nestes tempos, a lei de terras era um tanto obscura, embora, na sua generalidade, fosse pertença do estado mexicano; e, o sentido de propriedade estava dependente da sua concessão ou exploração. Nesta altura, o único detentor do “Rancho La Brea” era António José Rocha, após a compra ao seu anterior sócio. Por isso, para renovação da concessão deste rancho pede-se um novo título de propriedade, que foi confirmado pelo governador mexicano Juan B. Alvarado, no ano de 1840. Ao fim de 35 anos da sua chegada à Califórnia, António José Rocha torna-se no único senhor do “Rancho La Brea”. Presume-se que, na ausência de conflito de interesses, durante mais de vinte anos, os compromissos e as obrigações desta propriedade foram cumpridos. Entretanto, surge a guerra entre USA e o México (1846-1848), em que este país perde 40% do seu território, com a promessa de perdão de dívidas e 13 milhões dólares de indemnização da parte americana.


    

       - Período americano - USA

A passagem de terras da jurisdição mexicana para o domínio americano não foi pacífica. Por isso, alvitra-se que nos acordos posteriores, em 1853, o governo mexicano intercede a favor da extensa propriedade de António José da Rocha, tendo em conta o “Tratado de Gudalupe-Hidalgo de 1848”. Todavia os meandros, bastante sinuosos, na luta pela sua posse do “Rancho La Brea” são bastante atribulados, dispendiosos, e, muito pouco, claros. Em 4 de abril de 1850, Porciúncula torna-se cidade americana, e, a Califórnia o 31.º estado dos USA.

A “lei de terras de 1851”, segundo este tratado. entre ambos os países, previa que os compromissos fossem honrados e que as concessões fossem mantidas.  A concessão do “Rancho La Brea”, até ao ano de 1951, perfazia 33 anos de exploração, período em que não se registou qualquer anomalia na sua relação com o ajuntamento, ou, governador mexicano. Por isso, em 1852, conjuntamente, pai e filho, José Jorge da Rocha, casado com Josefa Merced de Jordan apelaram para uma confirmação da concessão de propriedade junto da “Comissão de Terras Públicas”. Inicialmente foi aceite, mas passados oito anos foi rejeitada, ou seja, no ano de1860. Nestes anos, a Califórnia começa a ser invadida por trabalhadores chineses e garimpeiros.

A partir de 1860, surgem os conflitos com as autoridades judiciais americanas, ainda que a concessão de propriedade estivesse concedida a António José Rocha durante 42 anos, quer sob dmínio mexicano ou americano. Face à sua litigância judicial parece que a propriedade começa a estar penhorada, em dois terços da sua área, por volta de 1860. Presume-se que, à volta de 1000 hectares, sejam penhorados a favor do seu advogado Henry Hancock. Em 1865, graças ao empenho deste advogado começa a ser reconhecida, provisoriamente, como propriedade privada.

Em 24 de janeiro de 1867, morre António José Rocha, na casa de sua filha, Concepción Higuerra. (publicação - necrologia do jornal "Los Angeles Times"). Deixou viúva Josefa Alvarado, de origem hispânica, de quem teve três filhos: José António, José Jorge e Conceição. Natural da freguesia de Sampaio de Sopo, concelho de Vila Nova de Cerveira, nasceu a 18 de Janeiro de 1790, sendo  filho de Félix Carlos Rocha e Maria José Lima. Homem dos sete ofícios, muito elogiado na sua comunidade, bom carácter, o seu maior negócio foi a ferraria, (A sua casa, primeira estrutura local de habitação, foi considerada património da cidade em 1958, e, de interesse cultural e histórico em 1963). Outro português, famoso na Califórnia, foi João Rodrigues Cabrilho, que ao serviço da coroa espanhola desembarcou na baía de San Diego, em 1542.

Em 1870, com dez anos de contencioso, as despesas judiciais foram de tal ordem, que o advogado Henry Hancock desembolsou 20.000 dólares, como forma de pagamento, de certas contribuições, ditas mexicanas. Hancock montou escritório nesta região, em 1847, e, ao fim de três anos tinha comprado um rancho.

Em 11 de novembro de 1872, uma parcela do “Rancho La Brea” transita definitivamente para José António Rocha, assessor do major da cidade de Porciúncula. Convém recordar que havia constantes batalhas sobre quem era o dono da terra, que no caso da família Rocha, se tornavam anormais.

Finalmente, em 1873, após grandes somas de dinheiro em despesas judiciais, reaparece um novo veredito judicial em que é dada a concessão de propriedade, a título definitivo. Da extensa propriedade ficou uma pequena parcela para a família Rocha, passados 55 anos, desde o seu primeiro pedido de concessão. A problemática de legalização de terras envolveu outros fazendeiros que reclamando as suas terras, ficaram sem dinheiro por causa dos exorbitantes custos judiciais. Convém recordar que havia constantes batalhas sobrem quem era o dono da terra. Desde então, são famosos os “escritórios de advogados” nos USA. 

          -  La Brea Ranch  and  "La Brea Tar Pits"

O “Rancho la Brea”, com o seu famoso “La Brea Tar Pits” foi sempre objeto de inveja e disputa dada a riqueza que escondia. Além da extensão da propriedade e dos seus recursos agrícolas, escondia petróleo e ouro no seu subsolo. A sua extensão correspondia a18 km2, que abrangia 1.798 hectares de área, os tais apregoados 4444,4 acres. Num desenho, mais aproximado da sua quadratura, teria um comprimento de 5 km por 4,5 km de largura. Nesta propriedade surgiu a primeira estrutura familiar desta região, ou, a casa de António José Rocha. Os seus barracões de alfaias agrícolas tornaram-se” famosos” pelos primeiros estúdios do “cinema mudo”, em 1909. Mas, a inveja e avidez dos seus recursos naturais desalojou os seus legítimos proprietários, negando-lhes a sua posse. Se, a terra aos “índios” pertencia, quem a desbravou merecia um maior reconforto na sua fruição. Um dos seus filhos, José António Rocha II, assessor de comarca, conseguiu assegurar 100 acres da antiga propriedade familiar, ou, seja 88,75 hectares do “Rancho La Brea”, segundo certas referências

Deste modo, as artimanhas da burocracia e do direito fizeram com que os seus proprietários se remetessem às limitadas regras da sua humilhante reclamação, com gastos exorbitantes. Na nossa análise, três fatores contribuíram para este desfecho. O primeiro, era a ausência do direito de propriedade privada, conjuntamente com as taxas ou impostos a pagar. O segundo, era a falta de legislação definida sobre o conceito de propriedade e os respetivos mecanismos jurídicos para fazer valer qualquer lei sobre a sua posse. O terceiro, era a instabilidade política que pairava sobre o território na Califórnia. Sob controlo militar, nos poderes (legislativo, judicial e executivo) reinava uma certa confusão na sua aplicação por causa das regras mexicanas e americanas. Neste litígio sobre o sucesso do título de concessão de terras perante a Suprema Corte, o ex-senador dos Estados Unidos, Cornelius Cole recebeu uma décima parte da propriedade, ou seja, perto de 500 acres, ou seja, 180 hectares.

Em 1887, através do registo de uma propriedade, H. J. Whitley dá-lhe o nome de Hollywood. Henry Hancock, advogado e agrimensor, rapidamente, solucionou o problema das dividas pagas sobre o” Rancho La Brea”, quando encontrou uma rica mina de ouro. Graças aos seus negócios e ganhos  fez várias ofertas à cidade, onde estão incluídos os “poços de alcatrão de La Brea”, que são um “marco natural nacional”  Mas, a empresa de petróleo “La Brea Oil Company” tornou Madame Id Hancock Ross a mulher mais rica da Califórnia, segundo o jornal "Los Angeles Times" 

J . J. Warner, no seu "Livro de Memórias", trata-o como amigo "el portuguese": «Da Rocha era um empresário que sabia como cultivar amizades, um indivíduo gentil, disponível para ajudar". Os nitratos de prata revelavam-se em esplêndidas imagens, graças à luminosidade da Califórnia, nos seus contrastes de sombra e luz, aos quais se juntam as terras de Antônio José da Rocha, na epopeia do "cinema mudo". «Esta cidade tem o nome que merece. Vive-se uma vida azul, uma vida suspensa, uma vida clara e pura. O céu fica próximo da terra. Hollywood é o entroncamento das mil e uma noites». (cf. António Ferro, "Hollywood, Capital das Imagens, Ed. Portugal/Brasil, 1931). Mas, a história de Hollywood West ficará sempre ligada a António José Rocha, da freguesia de Sampaio de Sopo, concelho de Vila Nova de Cerveira.

       

      

 


sábado, 3/10, 22:28

Boa noite Sr,

Obrigado pelo trabalho apresentado sobre o Sopoense Antóno José Rocha.

Cumprimentos,
Luís Araújo



freguesia de sopo






domingo, 27 de setembro de 2020

EUROPOLITIQUE: Vila Nova de Cerveira: «Terra de encantos e encontros com Hollywood».

Em 1815, o “La Brea Ranch” (O “Rancho La Brea”) começa a ganhar contornos de grande latifúndio, graças à obra de um jovem agricultor, cujo nome é António José da Rocha. Deste modo, torna-se num dos três grandes latifundiários de Porciúncula, que J. J. Warner trata como o seu amigo  - “el portuguese”. Nascido, a 18 de janeiro de 1790, filho de Félix Carlos Rocha e Maria José Lima, natural da freguesia de Santiago de Sopo, concelho de Vila Nova de Cerveira, emigrou para os USA, onde a casa, construída no seu “rancho”, perdura habitável, apesar dos seus 150 anos. (Por coincidência homónima e local, existe um médico militar, nato em 13 de julho de 1861, cujos pais tem nomes diferentes do filho). Na antiga Porciúncula, melhor dito, em Hollyhood, existe uma placa de bronze, no canto de uma parede, que assinala a pertença aos “Da Rocha”, cujo restauro foi efetuado por um dos seus descendentes, em 1979. A casa, considerada património da cidade (1958), afirma-se como de interesse cultural e histórico (1963), e, também, como um “ex libris” da indústria cinematográfica.

 Longe estavam de imaginar, aquelas duas jovens da terra do tio Sam, que o solo de Santiago de Sopo, apesar dos seus pés de dança, tinha sido a origem de um pioneiro de Hollywood. Por acaso, foi por terras de New Jersey, (de onde elas tinham origem), e, por New York, que foram dados os primeiros passos na arte do cinema. Mas, nada se compara ao esplendor de Hollywood, terra mítica do cinema, que naquele tempo, nem nome tinha, reduzida simplesmente, ao pequeno povoado de “Pueblo de Nuestra Señora Reina de Los Angeles do Rio de Porciúncula.

E, longe se estava de imaginar que na “historiografia do cinema português” figurassem as “primeiras divas” e o promissor “galã” do “cinema mudo” dos anos trinta do século XX, com origem lusa, tais como: Luísa Fazenda, Teresa do Carmo, D. Antónia Lozano Guedes Infante, com o nome artístico de Hélène D’Algy, e, seu irmão António Lozano Guedes Infante, conhecido como Tony D’Algy.

Mas, longe estamos, todos nós, que uma simples cabana de uma quinta decadente desse origem ao início do mais esplendoroso cinema, que o mundo conheceu, mais de cem anos passados, após o nascimento de António José da Rocha. Pelo ano de 1909, as modestas instalações agrícolas, alugadas por 75 dólares, deram origem à montagem dos primeiros estúdios de “cinema mudo”, nos seus antigos terrenos.sé Jorge e Conceição. Natural da freguesia de Sampaio de Sopo, concelho de Vila Nova de Cerveira, nasceu a 18 de Janeiro de 1790, sendo  filho de Félix Carlos Rocha e Maria José Lima. Homem dos sete ofícios, muito elogiado na sua comunidade, bom carácter, o seu maior negócio foi a ferraria, (A sua casa, primeira estrutura local de habitação, foi considerada património da cidade em 1958, e, de interesse cultural e histórico em 1963). Nesta altura, o seu proprietário, hábil negociador com índios e vizinhos, já não estava vivo, e, morreu em 24 de janeiro de 1867, com 77 com anos de idade (cf. "Los Angeles Times"). Mas, desde o ano de 1865, que o título de propriedade, com cem hectares tinha sido pedido por José António Rocha II, tendo transitado definitivamente em 11 de novembro de 1872. Após a chegada dos primeiros cineastas, a propriedade foi dividida e vendida em parcelas, várias vezes, e, anexada à cidade pelos anos de 1915.

Longe de imaginar estaria António José da Rocha que teria de conferenciar com os “homens de pele vermelha”, os índios das tribos cherikees e cahuenga. Certamente que, apesar de jovem e como hábil agricultor, o néctar de Baco favoreceu esta concórdia em amigáveis “cachimbos de paz”. Desde o porto de Vigo até às costas do Pacífico, foi nesta região que construiu a sua casa de madeira e adobe, cuja memória se ergue como um dos símbolos de Hollyhood. Todavia, em 1821, a Califórnia estava anexada ao México. O "Rancho La Brea" foi concedido pelo governo mexicano, em 1828, segundo reza um documento do alcaide Jose Antonio Camillo. Entretanto surge a guerra entre os USA e o México, em que este país perde 40% do seu território. Com os acordos de 1853, o governo mexicano intercede em favor da propriedade de António José da Rocha, com a idade de 63 anos. É, a partir de 1870, já, em tempos de Rocha II, que esta zona agrícola se torna florescente, ainda que no “La Brea Ranch” houvesse um lago negro, que brotava da terra, com sinais de petróleo. Em 1886, é graças à resposta de um chinês, “transportador de madeira” - “holly/hood” – que H.J. Whitley batiza este local, tornando-se o “Pai de Hollyhood”. «Esta cidade tem o nome que merece. Vive-se uma vida azul, uma vida suspensa, uma vida clara e pura. O céu fica próximo da terra. Hollyhood é o entroncamento das mil e uma noites». (Cf. António Ferro, "Hollywoodd, Capital das Imagens", Ed. Portugal/Brasil, Lisboa, 1931).

N.B. Os nossos agradecimentos ao jornalista Mário Augusto pelo artigo, que serviu de documento-base deste texto, publicado. na "Revista Expresso", n.º 2.500, de 26 setembro de 2020". 

Obs.(1): «Ele era um homem piedoso, muito querido da comunidade, um homem muito diligente e um dos cidadãos mais respeitáveis e estimados no povoado de Los Angeles, boa pessoa desde o meu primeiro contato com ele em 1831, até ao momento de sua morte» J.J. Warner, in "Livro de Memórias" e continua: «Da Rocha era um empresário que sabia como cultivar amizades, um indivíduo gentil, disponível para ajudar».

Obs (2) «A casa seria posteriormente cedida para acolher a primeira Câmara Municipal de Los Angeles, servindo também como primeira esquadra da polícia». (Cf. Mário Augusto, Revista do Jornal Expresso, Lisboa 2020). 

Obs.(3) O rancho La Brea foi concedido pelo Gov. Echeandia, em 1828, António José da Rocha, um português, que chegou à costa no navio britânico Columbia, em 1815. (J.M. GUINN , “History of the Cahuenga Valley and the Rancho La Brea, pg. 80, California).

Obs (4) (...). Baseou o seu pedido numa concessão feita por Carillo, presidente do ajuntamento, ou, da câmara municipal de Los Angeles, de8 de abril de 1828, de acordo com uma petição feita, por si, em janeiro de 1828. A concessão era de uma "liga quadrada", ou, 4444,4 acres, e, o título foi emitido para que (…)..(SEAMAN, Josephine Florence “A Brief History of Rancho La Brea” in Uniiversity California, 1914).

Obs.(5) A guerra pela independência do México acontece entre  16.09.1810 e 27.0.1821. O seu reconhecimento formal e oficial somente acontece, em 1836, pela Espanha.

Obs.(6)  Em 2016, estimava-se que residiam 1.375.288 cidadãos portugueses e luso-descendentes, nos USA. A imigração portuguesa iniciou-se no século XIX. «O primeiro emigrante documentado é, contudo, António José Rocha. Tripulante de uma escuna inglesa que navega para o Norte, desertou, em 1815, no porto de Monterey…». (Pinho, Helder, “Portugueses na Califórnia", pg.24, Editorial Notícias, Lisboa, 1978)

Obs.(7) Referência ao Da rocha por Amy Wilentz , "La Woman", Los Angeles Times, 20.08.2006.

Obs.(8) "El Portuguese": Don Antonio  Rocha California's first portuguese sailor by David E. Bertão and Eduardo M.Dias, California History, Vol.66 , n.º 3 (sept.1987)  - University of California Press.

Obs.(9) "The Azores to California - The Azorean Portuguese of California", by Robert L.Santos.   

Obs. (10) Tony D'Algy, nome artístico de António Eduardo Lozano Guedes.,nasceu em Luanda. em 1897, e, morreu aos 80 anos, em Lisboa. Surge "comediante e vizinho rico" de António Silva, no “O Leão da Estrela” de Arthur Duarte (1947). Antes, Tony D'Algy esteve em Hollywood, como artista e galâ de cinema. Sua irmã, D. Antónia Lozano Guedes Infante, era famosa e mais conhecida, com Hélène D'Algy, tendo participado em 12 filmes, contracenando com Valentino. A sua última entrevista foi concedida em 1991, em Espanha. O primeiro filme registado deste ator foi um "drama mudo", em Hollyhood  (1924), “ The Rejected Woman”, que tinha Bela Lugosi, como protagonista. E no mesmo ano, D'Algy, num papel secundário, contracenou com Rodolfo Valentino em “Monsieur Beaucaire”. Interpretando personagens secundárias, tipo galã ou “amante latino”, Tony D'Algy foi dirigido por realizadores como William Wellman e John Stahl. O percurso do ator continuou depois pelo cinema francês, italiano e espanhol.


EUROPOLITIQUE: Recordando "Platero y Yo" ....Juan Ramón Jiménez

  Na minha tenra idade escutava os poemas de “ Platero y yo” , com uma avidez e candura própria da inocente e singela juventude, que era o ...