Seguidores

quarta-feira, 15 de julho de 2020

"Convento de Valboa" - o terceiro da lista dos conventos dos Viscondes de Cerveira


Nos séculos V e VI, Bracara Augusta foi um lugar central da cristandade do Noroeste Peninsular. A “Sedis Bracarensis” era a capital provincial civil e sede metropolitana, impondo-se no Noroeste Peninsular, sem qualquer concorrência da diocese de Toledo. Dela emergiram dois grandes bispos que criaram as suas casas religiosas: o convento de Dume, no século VI, por obra de São Martinho, e o de São Salvador de Montélios, no século VII, por iniciativa de São Frutuoso. Estes conventos foram o início da difusão e propagação dos monges medievais e agrícolas, que se dedicavam ao “trabalho e oração” (ore et labora), através dos condados de Límia e Toronho.



Remonta aos anos de 1258, a sinalização desta povoação de São João de Campos, tendo como origem um “pequeno couto” dependente de seus patronos ou padroeiros, senhores leigos ou eclesiásticos, cuja notoriedade se forja com a fundação de um convento de origem feminina. O “couto per padroes” significa um território privilegiado, muitas vezes, ligado a um mosteiro, cuja entrada estava sob licença do seu mordomo, neste caso, da sua abadessa. Implicava, também, uma separação entre o religioso e o temporal, entre o convento e os casais; por isso, tinha o sentido de marco ou padrão.  A referência documental das Inquirições de 1258 assinala este povoado como um “couto feudal”, que dá origem a um convento de freiras noviças ou seculares.


Em plena Idade Média, a “Granja da Silva” é um vasto património que alberga conventos, propriedades e torres, nos quais se menciona o "Convento de Valboa". Se, a sua origem advém de D. Paio Guterres da Silva (1070-1130), é, através desta rica família, e, de Paio Guterres de Froião, que se faz referência aos rendimentos dos bens e propriedades, que transitam para o Mosteiro de Oía, quando este senhor decide ser monge.


Desde então, o património da “Granja da Silva” é disputado tanto pela diocese de Tui, como pelo Mosteiro de Oía; tanto pelos senhores eclesiásticos, como pelos senhores leigos; tanto pelos Viscondes de Cerveira como pelos Marqueses de Límia; mas, apesar de todos os conflitos, o Convento de Valboa é senhorio de abadessas. São mulheres, as monjas, que dirigem as suas rendas, os seus foros, os seus direitos, os seus tributos; que elevam as suas preces e orações; e, que sustentam os seus abades, (que chegam a ser dois na paróquia).


É, em pleno verde vale de campos à beira rio, que se encontra implantado um antigo convento feminino, cujo nome se perpetua como Valboa, em terra de São João de Campos, e, dos Viscondes de Vila Nova de Cerveira. Dos seus vestígios arqueológicos resta somente uma capela, associada a Santa Luzia, que pretende assinalar a existência deste convento. A sua edificação presume-se que remonte ao século X, ou, ao ano de 1136, cujos laivos das suas origens podem ancorar-se na difusão dos “mosteiros bracarenses”, tanto masculinos como femininos. Simples casa de religiosas, refúgio de "pecadoras penitentes", ou, de "damas reclusas", a sua emergência dá lugar ao convento de Valboa. 



Ainda que a Coreografia Portuguesa apresente como seu patrono, D. Paio Guterres da Silva (1170-1129); já, em 1248, surge como sua abadessa D. Urraca Soeiro; e, somente, em 1258, a igreja de São João de Campos aparece referenciada na diocese de Tui.


Igreja e convento dividem os seus abades e a sua influência, embora os bens e rendimentos da comunidade religiosa fossem determinantes neste impasse, que se mantém até 1757. O século XII constitui um marco na afirmação deste convento de origem feminina, com abadessas perpétuas, das quais se destaca Inês Barbosa, já no ano de 1444. No século XV, dá-se a decadência deste convento, por falta de recursos próprios, mais precisamente em 1455, com a renúncia da sua abadessa. Apesar da falta de recursos, as suas abadessas trienais continuam na sua gerência, e, somente, no século XVI, as suas propriedades são integradas no Mosteiro de Santa Ana de Viana do Castelo. «Em 1582, por provisão do arcebispo D. Diogo de Sousa, e acordo do Papa Clemente VII foi anexado à comunidade beneditina de Santa Ana de Viana do  Castelo»




segunda-feira, 13 de julho de 2020

EUROPOLITIQUE: A “Bagoada” ou a caverna da Ali Babá?





Nos anos sessenta do século XX, ainda deambulavam lobos pelas serranias da Pena. As raposas já faziam parte da tradição no assalto das capoeiras, mas, os javalis tornavam- se raros nos campos de milho. Se algum potro encimava o alto do monte, os veados já não desciam à beira-rio. E, nas terras do veado, que se tornara vila recordavam-se os tempos dos seus três conventos medievais: São Paio, Valboa e Santa Marinha.

«O lobo olhou-me, em cima da fraga. O seu olhar fixou-se em mim. Parei. A distância não era grande. Não hesitei frente ao seu olhar. Fiquei em pé, estudando a reação do animal. O lobo deu meia-volta e deixou-me plantado, inerte no solo. Sozinho, o meu desafio e a minha tarefa de visitar o Convento São Paio ficou a meio do seu destino». 

Noutros tempos, existiam pedaços de território que escapavam à legislação régia ou eclesiástica. Estes aglomerados populacionais eram o refúgio de alguns  “foras de lei”, que tinham sido ladrões ou salteadores de estrada, que estiveram doentes ou foram alienados, e, se escondiam por trás de cerros com os seus fraguedos. Os cerros de montanha funcionavam como abrigo e refúgio, por isso eram zonas do território isoladas e distantes da comunidade, onde se escondiam estas pessoas fugidas da sociedade, ou, até da escravidão. Quase seminómadas, além do cultivo das suas pequenas parcelas de hortas, dedicavam-se ao pastoreio de rebanhos de ovelhas e cabras. Com a sua coragem desafiavam os lobos e outros animais. Não pagavam taxas, nem dízimos, e, deste modo, gozavam de certa autonomia de liberdade, já que, muitas vezes, se mantinham escondidos, como alienados ou desquitados da sociedade. A sua arte e engenho desenvolvia-se nas tarefas de pastoreio, muitas vezes, “sem eira nem beira”. Estes locais fechados e escondidos, que abrigavam simples pastores, com o tempo, inseriram-se nas sociedades ao redor, construindo as suas capelas, num processo de identificação com as suas comunidades.



Este recondito lugar da “Bagoada" da freguesia de Loivo, no sopé do monte de Pena, situa-se entre os seus dois conventos: convento de São Paio e convento de Santa Marinha, para não dizer um terceiro, já que em Campos existia o convento de Valboa, fazendo parte da comarca de Via Nova de Cerveira. Ou seja, o centro administrativo e militar de Cerveira, os ditos conventos, e, as zonas do vale e  quintas adjacentes junto ao rio, com os seus “honrados lavradores” e exímios pescadores, deixavam à deriva uma zona, cujo território propício,era, não só, para lobos e raposas, ou, até javalis e veados; mas também, para aqueles ousados pastores com as suas cabras e ovelhas. Se era refúgio de “navalhistas impenitentes”, ou,  “madalenas arrependidas”, que das fragas tiravam a sua coragem de vida, persistem algumas incógnitas. No entanto, nestes cerros de montanha viviam os proscritos e amaldiçoados da sociedade, onde se acotovelava uma pinha de cabanas de colmo, de encosto aos cabeços das fragas.

terça-feira, 7 de julho de 2020

Convento de Santa Marinha na freguesia de Loivo - V.N.C.







Canta-se pelo poema de Rosa Varela
E pelas “Alminhas do Pedroso”,
E, sem qualquer “Harpa da Tumba”
Que, no teu caminho, nunca esqueças
Esta” terra de lobos” e abadessas.


Remonta aos anos de 1258, a sinalização desta povoação, tendo como origem um “pequeno couto” dependente de seus patronos ou padroeiros, senhores leigos ou eclesiásticos, cuja notoriedade se forja com a fundação de um convento de origem feminina. O “couto per padroes” significa um território privilegiado, muitas vezes, ligado a um mosteiro, cuja entrada estava sob licença do seu mordomo, neste caso, da sua abadessa. Implicava, também, uma separação entre o religioso e o temporal, entre o convento e os casais; por isso, tinha o sentido de marco ou padrão.  A referência documental das Inquirições de 1258 assinala este povoado como um “couto feudal”, que dá origem a um convento de freiras noviças ou seculares, no lugar do Pedroso. Portanto, é desde o século XIII que, através do consagrado Caminho de Santiago, se abriam as portas aos seus peregrinos, cujos cuidados estavam dependentes destas freiras, além do trabalho agrícola que se desenvolvia neste local. Também, desde o ano de 1320 que o Catálogo das Igrejas do Bispado de Tui faz referência ao Mosteiro de “Sancte Marine de Lovho” (Santa Marinha de Loivo), cujas taxas ascendiam às 200 libras.


Como, nestes tempos a riqueza vinha da natureza, certamente que o dito convento tinha rendimentos para pagar essas taxas. Sob a tutela da abadessa do convento de Santa Marinha foi lavrada uma generosa doação de Álvaro Dias, abade de Mangoeiro, a favor de um hospital em Cerveira, no ano de 1444. Todavia, o convento de Santa Marinha, ou, simplesmente, a “casa de religiosas” beneditinas, foi anexado ao mosteiro de Santa Ana de Viana do Castelo, em 2 de outubro de 1529, após a renúncia da sua abadessa D. Francisca da Nóvoa, com o beneplácito do Papa Clemente VII, e, confirmação do rei D. João III, em 1530. A partir do século XVI, “a vigararia” de Loivo foi ocupada por António Enes, e, retificada posteriormente, segundo cópia do Censual de D. Frei Baltasar Limpo, com data de 1580. Portanto, a jurisdição de vigário implicava uma dependência ou a subordinação a alguém, tal como, anteriormente estava o exercício de poder da abadessa.


O século XVIII marca definitivamente a transição da paróquia de Santa Marinha de Loivo. O lento desaparecimento do seu mosteiro dá origem à construção da igreja atual da paróquia, cuja torre sineira já foi acabada no século XIX. A construção da igreja paroquial é um marco histórico, não só para a freguesia e seus habitantes (pela sua arquitetura), como também para o contributo dado pela família Costa Pereira na continuidade da fé religiosa. Dela rebentam os lídimos defensores ou arautos da sua fé, através da geração de padres que a ela se associam. Sem os brasões de armas da Quinta da Torre ou da Quinta do Vale, esta família burguesa que nada deve à fidalguia, tornou-se o baluarte da fé católica. É de 1802, a Carta de Recomendação, indicando que o Padre Manuel da Costa prestará serviços religiosos à freguesia de São Pedro de Gondarém, pelo tempo de quatro meses. Esta Carta tem a sua origem na comarca de Valença, para recomendação na Igreja e Abadia de Gondarém. O último rebento desta família foi Evaristo José da Costa Pereira, que em 1945, foi presidente da Santa Casa de Misericórdia de Vila Nova de Cerveira, e dedicou-se ao Hospital de Cerveira. Já, em 1915, seu pai, Luís Maria da Costa Pereira (1875/1951) tinha exercido idênticas funções, residente na “Casa da Aldeia”. Família abastada, religiosa convicta, nada devia à nobreza, e, grande parte da sua fortuna e bens tiveram a sua origem em terras do Brasil.

Canta-se pelo poema de Rosa Varela
E pelas “Alminhas do Pedroso”,
E, sem qualquer “Harpa da Tumba”
Que, no teu caminho, nunca esqueças
Esta” terra de lobos” e abadessas.

Rosa Varela, poetisa e prosadora, natural de Ganfei, faleceu em Loivo em 26.09.1968.

Fontes:
Arquivo Distrital de Braga
Arquivo da Freguesia de Santa Marinha de Loivo
Arquivo da Santa Casa de Misericórdia de Cerveira
Jornal Cerveira Nova

segunda-feira, 6 de julho de 2020

EUROPOLITIQUE: "Por terras de lobos e abadessas" - Do convento de São Paio às abadessas de Santa Marinha na freguesia de Loivo - V.N.C



"Terra de lobos e abadessas", a freguesia de Loivo, com os seus dois conventos de São Paio e de Santa Marinha exerceu, com devoção e prestígio, um papel assinalável na religiosidade da Idade Média. De igual modo, Santa Marinha e Santo Ovídio são dois lugares interligados em Vila Nova de Gaia, com esta dedicação. Muito ligada à sua tradição, faz parte desta freguesia de Loivo a devoção Santa Marinha. Aliás, como acontece com a nova cidade ligada ao Porto, na sua toponímia. A devoção a Santa Marinha não é caso único no Norte, e, no resto do País, já que na Galiza, nada menos de 108 paróquias, reclamam a sua proteção. Padroeira, ou, orago desta freguesia de Loivo, somente a sinalética ferroviária assinalava o apeadeiro de Santa Marinha, como ponto de referência da sua existência, longe da medieval "terra de lobos e abadessas". Esta paragem ferroviária contrasta, no tempo, com o movimento e a devoção, que esta santa suscitou na fundação de um convento, em sua memória.

Todavia persiste um dilema acerca da devoção a Santa Marinha. Se, era a santa que “rapou os cabelos e se vestiu de homem” para entrar num convento, cujo nome sonante era Marinho, (era mulher e morreu homem); ou, se era aquela Marinha que pertencendo aos "deuses romanos se tornou santa". A primeira, oriunda do Líbano, viveu no século V, sendo chamada de Santa Marina ou Santa Marina de Bitínia. A segunda, nasceu em Baiona, na Galiza, no ano de 119, filha de um governador romano, de nome Lucio Castelio Severo. A história atribulada desta jovem começa desde o berço até à sua idade adulta. Ameaçada de ser lançada no rio Minho foi salva pela mão protetora da sua aia, que encontrou uma família para seu acolhimento. Batizada por Santo Ovídio, bispo de Braga, abraçou o cristianismo de tal forma que nunca voltou para o paganismo, apesar das ameaças de seu pai. Foi mártir, mas em pleno século II, quando a Galiza procurava resistir ao império romano, o qual já tinha conquistado a Lusitânia, com a celebração da Pax Julia, no ano de 48 A.C.

Longe estávamos de qualquer “Jardim de Delícias”, ou “hortus deliciarum” que uma freira escrevera como apanágio de sabedoria temporal e espiritual, por volta do século XII. E, longe estamos da influência e prestígio das abadessas do convento de Santa Marinha. Se determinada tradição oral aponta para o sítio de Pedroso, onde teria existido uma pequena torre, sem qualquer vestígio evidente, somente nos resta aguardar por desconhecida pedra encaixada, em alguma casa edificada. Augura-se que a fundação de um convento de freiras é bastante anterior ao século XV. Possivelmente, remonta ao século XII, ainda que a única referência da sua existência, surja somente em 1477. Se, do convento de freiras não temos vestígios da sua arqueologia, acerca da sua importância, prestígio e poder, existem vários testemunhos escritos.

O convento de Santa Marinha de Loivo, ou, simplesmente, a “casa de religiosas" beneditinas foi anexado ao mosteiro de Santa Ana de Viana do Castelo, em 2 de outubro de 1529, após a renúncia da sua abadessa D. Francisca da Nóvoa, com o beneplácito do Papa Clemente VII, e, confirmação do rei D. João III, em 1530. Outra referência, datada de 1546, relata a sua anexação de modo definitivo ao convento de Santa Ana de Viana Castelo: («in perpetuum» – ou seja, “para sempre”). O facto mais relevante da sua importância acontece anteriormente. Em 7 de outubro de 1477, no Mosteiro de Santa Maria de Loivo, foi lavrada a escritura da doação feita pelo Abade de Mangoeiro a Cerveira, tendo sido autorizada, por D. Afonso V, em 21 de Fevereiro de 1474. Deste modo, Álvaro Dias doou uma quantia razoável para o carenciado hospital de Cerveira, que prestava cuidados aos peregrinos de Santiago. Augura-se, que a sua abadessa fosse Inês Barbosa, que governou este convento, desde 1444.
Deste modo, o convento de Santa Marinha de Loivo faz jus ao poder de certas abadessas. «Algumas abadessas eram autenticos senhores feudais, cujo poder era respeitado de modo igual ao dos outros senhores; algumas usavam báculo, como o bispo; administravam muitas vezes territórios com aldeias, paróquias...» 
(Pernoud, Régine, "O Mito da Idade Média", 2.ª Ed. pág. 95, Pub. Europa América, 1989).





sexta-feira, 3 de julho de 2020

EUROPOLITIQUE: O primeito cativeiro de Fernão Mendes Pinto nos areais de Melides


«Treze vezes cativo, dezassete vezes vendido», (a conta não bate certo), somente Fernão Mendes Pinto pode ombrear nestas façanhas que remontam à história dos nossos Descobrimentos.

Um dia, conversava com um amigo e com saudades de Melides, acerca da audácia dos portugueses no capítulo na navegação. Amante do deus Baco, a sua tese era demasiado simples. Foi graças aos "pipos de vinho e aguardente" (de medronho ou vinícola) que os portugueses realizaram os descobrimentos. O poder do néctar, que “Baco celebra, e, Dionísios canta”, inebriava com tanta força os ardorosos nautas contra as tempestades, que nem Camões com a sua força poética entusiasmava esses navegantes.

Este meu amigo que me falava de Melides, sendo ele do Norte do País, rivaliza nas suas histórias e peripécias, como este senhor de Montemor-o-Velho, cujo nome é Pinto.

Fernão Mendes Pinto, ex-egresso feito jesuíta, que deste poder não escapa por causa dos seus escritos, somente conseguiu publicá-los em 1614, trinta anos após a sua morte.

“O homem que, (na literatura), não tem preço”, e cuja obra desmitifica qualquer critério de verdade, engalanou-se com o título de Fernão Mendes “Minto”.

O seu primeiro cativeiro tem como pano de fundo, os areais de Melides. Se, de Troia a Sines, são 65 quilómetros de areal não deixa de ser natural que a nudez invadisse Mendes Pinto, já que o corsário francês, que lhe levou a roupa, após roubo e açoite, não encontrou qualquer viking; ou, não pagando o bilhete na caravela que o trouxe da Figueira da Foz até Setúbal, quis a fortuna que o seu desterro fosse o areal de Melides. Se encontrou algum honrado lavrador, ou, algum próspero pescador que o protegeu, é mera conjetura deste aventureiro, soldado, mendigo, pirata, cortesão ou embaixador, melhor dito, escritor. 

Nesses longínquos tempos, o vinho branco de Melides não tinha um concorrente que, em vez, da “aguardente de medronho” esvaziava “meio litro da vinícola”, por dia. Mas, o caminho da aventura guiou esse jovem Fernão, que com menos de dezoito anos foi preso, e, por volta de março de 1537 até aos anos de 1557 , ou seja, em vinte anos, escreveu a “Peregrinação”. Mas, o “Mar Amarelo” foi sempre aquele espelho do delicioso néctar de cuja cor somente existia em MELIDES.



N.B. "Fernão, mentes? - Minto!". No entanto, através da história comparada, chegou-se à conclusão de que muitos dos relatos eram verdadeiros e corretos

quarta-feira, 24 de junho de 2020

EUROPOLITIQUE: As três históricas pontes de Santo Tirso: em madeira, metálica,e, de betão armado, sem a do século X de São Rosendo


«A torrente do rio rugia quebrada pelo triângulo dos pegões» (1) A ponte de madeira assentava-se sobre pedras, ou, pegões. Era a ponte inicial de Santo Tirso, na descrição de Camilo Castelo Branco. Esta ponte do século XIX foi substituída, no século seguinte, por uma ponte metálica. Somente, no final do século XX, deu origem a uma ponte de betão armado.

Há muitos anos que grandes plátanos embelezam a sua rua principal, com as suas frondosas copas, em que quase se esconde o Mosteiro de Santo Tirso. Por tradição e costume, a mesma paisagem continua ao longo dos anos. O rio, os campos de um lado do mosteiro; os plátanos e a estrada do outro lado, em que se conjuga a cidade e o campo. No centro, o coração dos frades ergue-se em oração pelo passado e futuro.


Ora, em relação ao passado emerge uma figura fundadora de conventos e mestres da oração, cujo nome dá por D. Rosendo.

Este senhor eclesiástico deve a sua origem a Santo Tirso. A palavra senhor inscreve-se no sentido laico, em que a sua designação se associa ao poder militar. O Bispo era clérigo e ao mesmo tempo militar; ou seja, chefe espiritual e temporal, porque o combate da fé lhe estava implícito.


Três personagens emergem, nesta época, tendo como palco Santiago de Compostela: D. Rosendo, Sisnando e Viking Gunderedo (o terror de Compostela).


Sisnando ” mais militar que bispo” estava em “retiro religioso”, segundo fontes galegas, quando as forças de viking Gunderedo desembarcaram em “Vacariae”, corria o ano de 968.

A rivalidade entre Sisnando e Rosendo não seria alheia a Gunderedo, já que os vikings eram exímios em colher informações, antes de qualquer incursão. Gunderedo, hábil diplomata, com escola de vida no Reino dos Francos, estava ansioso pela hora de pôr à prova os “dotes guerreiros” do impetuoso Bispo-militar Sisnando, que hábil e forçosamente tinha posto de lado por favores  régios e políticos, o seu rival religioso – D. Rosendo. 


Este “mais bispo que militar”, por força do seu opositor, dedicou-se à vida religiosa e à construção de um mosteiro, sem deixar um anátema sobre Sisnando: “quem com o ferro fere, com a espada morre”. Descrente de qualquer maldição, o Bispo-militar não resistiu às forças guerreiras de Viking Gunderedo.



(1) Camilo Castelo Branco, “A Brasileira de Prazins”, pág. 35, Edições Expresso, Lx. 2016.

domingo, 21 de junho de 2020

EUROPOLITIQUE: "Para lá dos Pirenéus, aquilo é África" - Mistérios de Lisboa-l (Camilo Castelo Branco)






No princípio do seu livro “Mistérios de Lisboa – I”, Camilo Castelo Branco, que nunca saiu do País, deixa um “olhar do outro”, ou, uma perspetiva daqueles que nos veem de fora, que, após duas gerações continuará como sendo uma marca ou estigma de uma geração de portugueses. É, já, nos anos sessenta, com a emigração portuguesa, a rebentar pelas costuras, que a cidade de Paris atingirá um milhão de descendentes lusos.

“Para lá dos Pirenéus, aquilo é África” – slogan repetido por várias classes gaulesas, evocando-se, por vezes, a tese de Max Weber, entre a capacidade de criação riqueza pelos protestantes e pelos católicos.

Estes preconceitos de atraso material e cultural estendiam-se até às terras germânicas, em que predominava a visão de Portugal, como país atrasado, digamos, do “terceiro mundo”, na época dos anos de setenta.
Esta imagem de inferioridade cultural é rebatida por Camilo, quando, escreve, precisamente, sobre a sua capital.

«Enganei-me. É que não conhecia Lisboa, ou não era capaz de calcular a potência da imaginação de um homem. Cuidei que os horizontes do mundo fantástico se fechavam nos Pirenéus e que não podia ser-se peninsular e romancista, que não podia ser-se romancista sem ter nascido Cooper ou Sue. Nunca me contristei desta persuasão».

As bidonvilles de Paris não são as quintas de Camilo. Nem a “a potência da imaginação” bafejou muitos homens. Mas, Camilo antecipa-se nesta perceção social, apesar da sua  recusa sistemática nas ideias gaulesas e da influência de certo galicismo.

N.B.  Camilo Castelo Branco morreu um ano após a inauguração da célebre Torre de Paris, na Exposição Universal de 1889, construída por Gustave Eiffel.

EUROPOLITIQUE: Recordando "Platero y Yo" ....Juan Ramón Jiménez

  Na minha tenra idade escutava os poemas de “ Platero y yo” , com uma avidez e candura própria da inocente e singela juventude, que era o ...