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sexta-feira, 15 de janeiro de 2010

Portugal-Angola - A RTP de Cabinda

Finalmente, a “sacrossanta” instituição da RTP decidiu-se noticiar a vitória dos “Palancas Negras”.


Aliás, esta instituição de cariz nacional e internacional deveria ter em conta os milhões de telespectadores, sistematicamente, mantidos alheios ao CAN 2010.

Aqueles que têm o privilégio de assistir no canal “Eurospot”, reconhecem, também, as dificuldades dos seus parceiros africanos, privados de tão salutar informação.

Efectivamente, as imagens transmitidas revelam uma qualidade de nível superior, embora, a nossa opinião possa ser posta em causa.

Se trinta técnicos angolanos estagiaram em França para a preparação deste evento, não podemos esquecer o contributo técnico dos trabalhadores da RTP.

Ora aqui, é que encontrámos a questão.

Costuma-se dizer que uma imagem vale mais que mil palavras, e só, por isso, bastam, por acaso, os últimos eventos de Cabinda.

Que o trabalho técnico da RTP seja simplesmente “carne para canhão”, é a questão se levanta.

Quer dizer, quando a RTP tem uma ocasião única de se projectar no mundo da lusofonia, resolve “tapar o sol com uma peneira”.

Se a imprensa estrangeira, com olhos de ver, se volta para um acontecimento desportivo de alcance mundial, o pequeno rectângulo resolve “fechar as balizas”.

A nossa modéstia, ainda, revela a pequenez do Estado salarazista, e, ainda não se impregnou e convenceu de um país aberto, e, em sintonia com o mundo, apesar de ter um representante oficial em Angola.

Bem haja, a imprensa escrita que começa a despontar para a realidade desportiva e política de Angola, caso exemplar do jornal “Público” de 15 de Janeiro de 2010.

quarta-feira, 13 de janeiro de 2010

Gunderedo: Portugal-Angola -Cabinda

Gunderedo: Portugal-Angola -Cabinda

Portugal-Angola -Cabinda




O artigo de Jean-Philppe Rémy, publicado no jornal “Le Monde”, (12.01.10) reflecte uma visão totalmente cartesiana, e, de um demarcado etnocentrismo francês.


« Parce qu'il est l'une des principales zones de production de pétrole du golfe de Guinée, le Cabinda, confetti gorgé d'hydrocarbures de l'Angola, a gagné le surnom de "Koweït africain". Triste Koweït, sans tours ni infrastructures, habituellement sans visiteurs, où sont venus se faire tuer des accompagnateurs des footballeurs de l'équipe nationale togolaise ».

As raízes históricas de Cabinda não se podem confundir com as razões hegemónicas do Iraque e do seu antigo chefe.

A imprensa portuguesa mantêm-se alheia, efectivamente, aos reais problemas desta província angolana, desvinculando-se de compromissos que deveriam honrar a antiga presença lusa e o legado português. Aliás, o CAN 2010 em Angola não desperta grande interesse na imprensa escrita ou televisa.

Os meios diplomáticos transpiram de suor face à dita sensibilidade angolana. Mas os recentes acontecimentos em Cabinda não terão nada a ver com um certa ingenuidade angolana?

Os meios empresariais desenvolvem parcerias, tipicamente, económicas, demarcando-se de qualquer atitude que possa comprometer os seus interesses.

O intercâmbio e interacção da sociedade civil é quase inexistente, dadas as contingências da evolução sócio-política de Angola.

Em suma: a lusofonia deixa-se ultrapassar pela francofonia e pelo imperialismo inglês.

Os laços históricos e afectivos com Angola não devem permitir que os portugueses estejam só e unicamente num país de imigração.

Por isso, não basta o jeito português de adaptação à realidade africana. Urge que as relações com Angola cimentem um conjunto de valores associados, que transcendam a visão linear e geométrica de origem francesa ou anglo-saxónica.

A salutar contribuição e intercâmbio de culturas deve suscitar parcerias nos novos ideais, pelos quais Angola se quer orientar.

Cabinda não deve ser vista como qualquer “Koweit africano”

sábado, 9 de janeiro de 2010

Portugal-Angola: Os ideais de Olímpia





Numa visita à cidade grega de Olímpia, a guia turística alertava-nos que durante a realização dos jogos, até as guerras paravam, e, os guerreiros preparavam-se para as provas.
A condenação francesa do atentado contra a selecção do Togo merece toda a nossa contribuição e consideração.
Apesar de 70% de petróleo de Cabinda servir a Nação Angolana nada justifica "ataques hediondos", contra a flor do género humano, ou seja, o desporto.
Nada se justifica e enobrece qualquer "ética militar", se alguma razão lhe assiste, que se faça um mero aproveitamento político desta acção. Ainda que determinadas instituições e empresas pudessem sufragar certas ansiedades e reivindicações deste pequeno território angolano.
Cabinda, reconhecida desde 1885, pela conferência de Berlim, faz parte intrínseca da grande Nação Angolana, embora a sua população esteja um pouco sôfrega, com 40% de pessoas indigentes.
O privilégio e honra do CAN-2010 deve erguer-se bem alto com os "ideais de Olímpia", apesar do abandono da selecção do Togo.
"Audaces fortuna iuvat"

quinta-feira, 7 de janeiro de 2010

Viking Gunderedo

Viking Gunderedo








GÉNESE E FEITOS DE VIKING GUNDEREDO



Ainda que as nossas fontes sejam omissas relativamente à origem de Viking Gunderedo, cuja repercussão histórica reluz somente nos célebres ataques à cidade de Compostela, por volta dos anos de 970, e, à toponímia de uma localidade do rio Minho que o preserva em sua memória; apesar de todas estas circunstâncias, delineámos um projecto de reconstrução, que através de uma rota de navegação determina o ressurgimento de um contingente de forças guerreiras, cuja liderança revela a emergência deste personagem, assaz contraditório e relevante.

Viking Gunderedo, fazendo jus à sua toponímia, emerge como figura histórica, que embora a sua génese e genealogia se perca nos meandros obscuros das invasões vikings ao Noroeste Peninsular, impõe-se pela sua ousadia nos históricos ataques à Galiza do Norte, segundo relata, esporadicamente, o “Crónicón Iriense”, ou melhor dizendo, a “História Compostelana”.

Aliás, será por causa da sua toponímia, talvez a única via inicial de acesso à investigação deste personagem, que delineámos um percurso repleto de intrincáveis relações históricas e sociais, cujos nebulosos contornos nos deixaram, por vezes, ansiosos. Todavia, humildemente, seguimos a orientação de quem ousou lançar-se em tarefas similares.

«Os nomes das localidades são, sem dúvida, o que reflecte melhor a evolução histórica e social de uma população. Portanto, eles são particularmente preciosos, e, o seu estudo é de um interesse considerável. Nos países célticos, os topónimos de origem nórdica ilustram perfeitamente a chegada dos Escandinavos, eles permitem limitar as zonas e a intensidade da sua implantação, definir as suas relações com a população local. É evidente que os dados variam, sobremaneira, de um país para outro, à imagem daquilo que encontrámos no domínio linguístico» (1)

Contrariamente a um grande número de aldeias que na Grã-Bretanha, tal como ao redor do rio Sena, em França, se designam por um substantivo composto, cujo primeiro termo é um nome de homem de origem escandinávia, a região do Norte da Galiza esconjura esta tradição, afastando-se de ecos e repercussões, de cujos feitos se colocaram nos antípodas das suas memórias ou recordações. Aliás, esta contradição em relação à Galiza meridional, onde perdura como marco histórico Viking Gunderedo, repercute lutas e alianças que historicamente ainda permanecem numa certa obscuridade.

A toponímia relança-nos para a eponímia: e, o epónimo reflecte um personagem real ou lendário, entre os Gregos, de quem uma cidade adoptava o seu nome, tal como Gondarém o fez de Gunderedo.

De igual modo, ao traçamos um percurso inicial de Viking Gunderedo que se situa entre a lenda e o real, entre o mito e a história, entre certa aparência ou a realidade, sustentado dentro de uma análise cronológica de cronistas, cujas referências são vagas e difusas. Porém, antes do possível percurso de Viking Gunderedo, gizemos uma breve antinomia entre a expansão viking e o mundo católico do Noroeste Peninsular, e, também do Norte da Europa.

«Estes eram os “pagãos do Norte”, cujas incursões, desencadeadas bruscamente cerca do ano 800, durante perto século e meio, faziam gemer o Ocidente. Melhor do que os vigias que, então, no litoral, ao perscrutarem com os olhos o alto-mar, estremeciam à ideia de descobrirem as proas dos barcos inimigos, ou do que os monges, ocupados nos seus scriptoria com a anotação das pilhagens, podemos hoje restituir às investidas o seu pano de fundo histórico».

Posteriormente estas antinomias entre mundo católico, ou seja, o antigo Reino Galaico-Suevo, cujas comarcas detinham vários mosteiros e conventos, fundados por São Frutuoso, na célebre “Via XIX”, estrada romana entre Braga e Lugo, e, o confronto com o mundo viking terá as suas colisões.



A consolidação do Ducado da Normandia, bastião emergente da futura história viking, possivelmente oculta o labor e eficiência de um contingente de forças anónimas, conduzido por Viking Gunderedo. Os relatos históricos são escassos, nesta conturbada época histórica, sobretudo quando se trata da expansão viking no Ocidente. A história do Ducado da Normandia constitui-se à margem do Reino dos Francos, encomendada a eclesiásticos que são vítimas do seu domínio e opressão, o que dizer da esporádica historiografia galega, inculta e desmoralizada, pelos instáveis governos locais , e, com a ameaça árabe sobre os seus ombros.

Numa cimeira entre Normandos e Francos, em Jeufosse, prepara-se um acordo de paz que o rei Lotário (Reino dos Francos) acaba por concluir entre Junho ou Julho de 965. O rei Lotário reconhece a autoridade de Ricardo I, como Duque da Normandia, território francês, sob domínio viking por longos anos, cessando, deste modo, as contínuos ataques aos débeis limites francos.

O Ducado da Normandia constituído e reconhecido pelos reis francos, em 911, e dirigido pelo primeiro Duque de nome Rolão, sofrera uma série de ataques dirigidos por forças francas, segundo relata o cónego Dudon de Saint Quentin. Face a estas ameaças, consta-se que Ricardo I pediu reforços ao rei da Dinamarca, e, que este lhe enviou uma frota de guerreiros. Todavia alvitra-se que seria meramente um grupo de vikings que estariam de passagem por esta região. Pouco se sabe deste cronista eclesiástico, antes do ano de 968. ainda que tivesse sido encarregado por Ricardo I de escrever a história do Ducado da Normandia, por volta do ano de 994, cuja crónica se intitula “acerca dos costumes e actos dos primeiros duques da Normandia”.

Uma vez restabelecida a paz naquela região, ou seja, no Ducado da Normandia, que perduraria pelos trinta anos de governação de Ricardo I, às forças que quisessem estabelecer-se no território concedeu-se-lhes esta opção, sendo-lhes distribuídas terras, com a incubência de se converterem ao cristianismo; e, àquelas que desejassem deixar a Normandia ser-lhes-iam facultado a sua saída. Ora, acontece que estas forças retomaram o mar recarregados de víveres, sendo acompanhados por homens de Cotentin, região do Ducado da Normandia, que lhes serviram de pilotos até Espanha, onde nos conduzirá esta expedição – se se dá crédito aos escritos de Dudon, como adverte o historiador francês Jean Renaud.

A interpretação de outro antigo historiador francês, com tradição de orientalista, Lévi Provençal, converge nesta coincidência, dado que a presença destas forças, estacionadas na Normandia, causavam embaraço à autoridade de Ricardo I (942-996), terceiro Duque da Normandia, de forma que resolveu dar-lhes a possibilidade de uma saída airosa dos seus territórios. A atitude em providenciar-lhes pilotos e víveres, denota um grau de reconhecimento e vassalagem digna de feitos meritórios de alguma recompensa.







Mais recentemente, o historiador galego, Manuel Velasco, de Catoira partilha idêntica opinião afirmando que estas forças “procedentes de Normandia, donde habían ayudado al rey Ricardo Sin Miedo a luchar contra los franceses
O contingente de forças guerreiras que acompanhavam Viking Gunderedo deveria ser de certa importância. Não só, pelo número mencionado nas mais controversas fontes galegas, como também nas primordiais portucalenses, quiçá 8.000 homens, como também pelo papel de apoio militar, já referenciado, a Ricardo I, que teve sérios problemas de defesa dos seus territórios, com os Francos, que estas forças resolveram com facilidade. Aliás, foi graças ao contingente de Viking Gunderedo, que Ricardo I pacificou e governou esta zona viking durante trinta anos de paz e prosperidade social. O Ducado da Normandia tornar-se-á na alavanca do esplendor da história viking e na conquista do mundo anglo-saxónico.


Porventura, será pura especulação de uma ficção hermenêutica, atribuir estes feitos a Viking Gunderedo, já que as fontes históricas não são claras, nem evidentes, todavia, o acompanhamento por pilotos de Cotentin, região da Normandia, denota que Ricardo I nutria grande estima e reconhecimento por estes valorosos guerreiros. A contingência ou obrigatoriedade de se converterem ao cristianismo remete para o subterfúgio de que Viking Gundaeredo usufruía de um real poder sobre o seu forte contingente, assaz numeroso, que voluntariamente o seguiu até às costas galegas, e, que as suas ambições vislumbravam a conquista de novos territórios, como, de facto, se vieram a confirmar-se.

Os relatos históricos árabes tratam Gunderedo como rei. (“Navegarón bajo el mando de su rey Gunderedo”). Tradicionalmente, qualquer viking que liderasse um grupo audaz por mar a dentro, sói dizer-se, era tratado por “king”. Todavia as provas dadas na Normandia por estas forças, a forte organização deste contingente, como posteriormente se veio a demonstrar nos ataques à Galiza, e, sobretudo a Santiago de Compostela, revelam uma condução firme de Viking Gunderedo, que o tornam num líder visionário e de um verdadeiro chefe político.

As referências cronológicas atestam que uma vez alcançada a paz com os Francos, entre Junho e Julho de 965, este contingente de forças vikings, encetou uma nova expedição que ocorreria durante a Primavera, como era habitual entre os vikings de encetarem as suas viagens marítimas, o que aconteceria pelo ano de 966, como referenciam fontes árabes.

A chegada de Viking Gunderedo às costas galegas aconteceu, muito provavelmente neste ano de 966, ainda que os ecos das suas façanhas remontam “desde os alvores desse 968” nas fontes portucalenses e se “espalharam por terras portuguesas”.

Um facto histórico neste ano de 966, tem significativa importância no desenrolar da história galaico-portucalense. Sancho I, o Gordo, “que tentava submeter uma Galiza cada vez mais independente, foi envenenado em 966 pelo dux Gonzalo que comandava a Galiza meridional” , como refere Adeline Ruquoi, na sua obra “História Medieval da Península Ibérica.”





(1) Renaud , Jean – “Vikings et Celtes”, pp. 219 , Éditions Ouest-France, Rennes, 1992.

quarta-feira, 6 de janeiro de 2010

Episódios de Viking Gunderedo. 7

A Crise no Reino da Galiza (Cap.II).


A Morte Trágica de Sancho



A trágica morte do rei Sancho II (956-966), marca, de forma indelével, a divergência entre a Galiza do Norte e a Galiza do Sul, ou seja, a crescente afirmação e autonomia do Condado portucalense.

Cabe aos autênticos historiadores demonstrar aquilo que desenvolvemos como a tese mais aceitável, já que os nossos intentos rodopiam numa epopeia considerada ultra-periférica, que se afasta dos cânones de uma autêntica investigação histórica.

O reino da Galiza enraíza-se no antigo reino dos suevos que ocuparam o Noroeste peninsular pelo ano de 409, e, que durante duzentos anos permaneceram nesta região, sendo absorvidos pelos visigodos, quando estes se converteram ao catolicismo, sob a influência do seu soberano mais famoso Leovigildo (568-585). A influência dos visigodos sobre o reino dos suevos, conquistado em 585, durou pouco tempo, pois em 711, os árabes ocupam a Península Ibérica.

Todavia, o reino da Galiza oscilava entre a sua legítima ambição de independência, e, o poder exercido pelos reis de Leão. As tensões e rivalidades entre os senhores galegos e os defensores de Leão eram constantes, não obstante, convém salientar que as capitais do reino dos suevos se situaram na Galiza do Sul, e, repartiram-se pelo Porto, Braga e Tui.

A morte de Sancho I envolve duas teses que permanecem enigmáticas acerca deste problema ou acontecimento.


Certas fontes portuguesas relatam que este acontecimento terá ocorrido em terras portucalenses, aquando de uma visita de Sancho I, rei de Leão, a Coimbra, que dá origem a uma crise de governação nos territórios galegos, ainda que o poder régio dependesse do apoio dos nobres e senhores que governavam as cidades e vilas, de quem a eleição deste monarca tinha estado sujeita, por duas vezes. Aliás, a visita de Sancho I a Coimbra teria como objectivo, não só exigir os direitos de vassalagem de Conçalo Mendes (Conde de Portugal, desde o ano de 950), mas também estabelecer acordos de tréguas com forças árabes, como, por várias vezes, aconteceu durante o seu reinado.


Outra versão, de origem galega, relata que após uma revolta do Conde Gonzalo Sanchez, o rei Sancho I teve de intervir para sufocar esta rebelião, estabelecendo um acordo com este conde. Após este apaziguamento, o conde Gonzalez oferece ao rei umas maças envenenadas, que são a causa da sua morte. Ora, segundo a versão galega, este encontro teve lugar em Santiago de Compostela, após o qual o rei Sancho I dirigiu-se para um “Castelo do Minho”, onde veio a falecer. Os seus restos mortais foram transladados para a Igreja de São Salvador, na cidade Leão, onde jazia o seu pai e irmão.

Os traços da viagem de Sancho I, quer seja de Coimbra para Santiago de Compostela, quer seja desta cidade para a região do rio Minho permanecem num certo mistério. Tal como num certo enigma permanece a causa da morte de Sancho I, já que o seu falecimento por causa das “maçãs envenenadas” se deve, provavelmente, a uma forma camuflada de qualquer cilada ou emboscada, perpetrada por forças vikings.  Aliás, numa certa tradição viking evoca-se a morte ou a queda de alguém, através do recurso simbólico de comer “uma maçã envenenada”, como sinónimo de que foi atingido por uma seta viking, desferida por qualquer archeiro. Se, por outro lado, a morte de Sancho I, acontece nas proximidades de um “Castelo do Minho”, poucas dúvidas restam, que este monarca foi alvo de algum ataque viking.


Portanto, seja por acção directa do Conde Gonzalo Sanchez, da Galiza do Norte, seja por acção indirecta de Gonçalo Mendes, de Coimbra, ou, mais provavelmente, por uma emboscada ou cilada viking, os acontecimentos posteriores serão marcantes das divergências entre o futuro condado portucalense e uma Galiza, cada vez, mais dependente e aprisionada do poder de Leão.

Geralmente, o rei medieval não usufrui dos privilégios concedidos ao rei monarca, nem detém os atributos de um poder soberano: ou seja, não dispõe de um poder legislativo que abarque a totalidade do seu reino, numa sociedade dominada pelos costumes locais. Além disso, não recebia impostos sobre a totalidade do seu reino, nem conseguia, facilmente, formar um exército de âmbito nacional.

O rei medieval é um senhor entre outros senhores, que não escapava à ambição e ao poder de outros magnatas. E, tal como os demais senhores administrava o seu território, fazia justiça segundo os usos e costumes, defendia os seus súbditos, e, recebia os foros pagos pelos seus vassalos, maioritariamente, em produtos agrícolas, ou, doação de animais.

Na corte de Leão, por vezes, o rei era tratado como imperador, suserano dos suseranos, ou, rei dos reis, já que marcado pela santa unção, se torna no árbitro dos conflitos políticos e religiosos, ao mesmo tempo que assume a defesa do reino, e, por isso, tem o poder de exigir auxílio militar aos outros senhores.

Os laços pessoais, de homem para homem, eram muito importantes. Os compromissos de fidelidade vinculavam os homens entre si, ou, entre o vassalo e o seu senhor. Quase toda a sociedade se estruturava em laços pessoais, estratificando-se em classes, famílias, ou, liderança pessoal. Deste modo, os laços pessoais originam alianças, constantemente renováveis, para que qualquer contrato perdure, já que o menor incidente dava origem à renovação desse contrato.

Normalmente, as guerras e os combates medievais resultavam desta complexa teia de intrigas, cuja trama complexa advinha de compromissos pessoais, selados civil ou religiosamente, cujas normas derivavam dos costumes e tradições sociais e religiosas das comunidades.

Por duas vezes, Sancho I foi eleito rei, manobrando o seu poder entre os diversos poderes da nobreza, fazendo alianças com os seus inimigos – os árabes, e, curando-se da sua obesidade por um médico muçulmano.

A emergente aristocracia da Galiza do Sul origina a constituição de poderosas famílias, unidas por laços de parentesco e solidariedade, que, rapidamente, reivindicam uma autonomia crescente sobre os seus territórios. A proclamação do condado de Portucale, por Vímara Peres, em 868, e, a década do reinado de Ramiro II, entre 920 e 930 contribuíram para a consolidação de um território que, pouco a pouco, procurava emancipar-se da tutela, não só do poder régio de Leão, como também da influência dos magnatas da Galiza do Norte.

Além disso, a rivalidade entre esta pretensa nobreza, repleta de infanções, ou, candidatos a nobres, contra a nobreza da Galiza do Norte, mais favorável ao poder de Leão, ou, às pretensões da diocese de Compostela, originará clivagens que perdurarão imersas em contínuas disputas.

O rei medieval tornava-se refém deste jogo de poderes entre os grandes senhores, cujo poder económico e militar, por vezes, lhe era superior. Portanto, tanto o reinado de Sancho I, como a sua morte, estão implicados nesta trama de intrigas e jogos palacianos.







A ameaça árabe



O enigmático episódio da morte de Sancho I revela as constantes negociações a que este monarca estava submetido, tanto com o poder das forças árabes, como também com os acordos e direitos de vassalagem, celebrados com os senhores e magnatas da Galiza.

A aristocracia galega caracterizava-se pelo comando da terra, que detinha por linhagem ou herança, ou, algumas vezes, que possuía em nome do rei, pela gestão da honra familiar e defesa de classe, e, pelo poder militar, económico e judiciário, que exercia sobre os seus vassalos. Os vassalos prestavam homenagem aos seus senhores, a quem juravam fidelidade, em troco de protecção. Além disso, os senhores gozavam do direito de fazer guerra privada: ou seja, o direito de um grupo, ou, homem de se vingar de uma ofensa sofrida, e, de obter uma reparação, ou, simplesmente um duelo.

De igual modo, a igreja se organizava pela construção de mosteiros fortificados, que funcionavam como castelos e vilas, à semelhança dos magnatas galegos, em que a intromissão do poder religioso e civil se misturava conforme as circunstâncias. Por outro lado, os mosteiros elegem-se como autênticos centros de saber religioso, social, e, agrícola, onde se estabelecem relações estreitas com as populações. Além de locais de oração, tornam-se em escolas de instrução do cultivo da terra, cujo exemplo é dado pelos próprios monges.

A sociedade medieval é essencialmente agrícola e rural, apegada à terra, de cujo sustento vivia; e, permanentemente, confinada ao seu território.

Perante esta sociedade hermeticamente fechada sobre si mesma pairava o “terror sarraceno”, como se dizia naquela época.

O império de Al Andaluz dominava, quase por completo a Península Ibérica, restando somente, ao Norte da Península, vários reinos de débil afirmação, como seja o reino de Leão ou Navarra. Além disso, dentro do reino de Leão, a emancipação da Galiza tornava-se num acontecimento constante, reivindicando a sua autonomia, afirmando-se como reino, governado pelos seus reis. É justo e digno falar de um reino da Galiza, dentro de uma lógica, em que o autêntico rei de Leão usufruía, por vezes, do título de imperador, cuja suserania implicava o consentimento de outros soberanos.

O territórios que faziam fronteira com o Andaluz, viviam, permanentemente, na iminência de guerras e combates, sucedendo-lhes ataques e roubos, conluios de pactos e asilos de frágil consistência, sendo o papel desempenhado pelos senhores de Coimbra e Viseu, de extrema importância, já que estavam continuamente dependentes destas ofensivas árabes, e, cujos domínios se estendiam, quer ao rio Mondego, quer ao rio Douro, obrigando-se a acordos estratégicos de fraca duração, que implicavam a cobrança de tributos e impostos.

Todavia, este contínuo confronto fortalecia, cada vez mais, um sentimento de autonomia, em que a figura de Gonçalo Mendes emerge. Os laços sociais e políticos entre a regiões do Porto e Coimbra adquirem novos vínculos, a que se juntam as ambições dos prelados de Braga.

A morte de Sancho I simboliza o corte umbilical com uma Galiza do Norte, mergulhada numa certa penumbra política, embora se renove em certos aspectos culturais e religiosos.

Como relatam alguns historiadores, mais regionalistas ou nacionalistas, o reino da Galiza sofre um período de Interregno, entre os anos de 967-980, sendo regido por uma assembleia de bispos e nobres. As divisões políticas entre uma Galiza mais pró-compostela, e, uma Galiza mais meridional, ainda não são muito acentuadas, mas, pouco a pouco emergem rivalidades entre os vários senhores portucalenses e galegos. A morte do rei Sancho I, quase em nada afectou esta relação de poderes, alias, pelo contrário fortaleceu ainda mais as suas ânsias de independência e desenvolvimento, cuja população dependia, portanto, da acção militar dos comites e dos senhores eclesiásticos, do que da incipiente centralização régia.



O Jovem Rei Ramiro



Após a morte de Sancho I, os conflitos políticos entre Leão e Galiza originam clivagens de governação, que dão origem à constituição de uma assembleia de nobre e bispos, no Noroeste Peninsular, que se encontra disposta a gerir os assuntos do seu reino.

Os magnatas e senhores galegos invocam e colocam em causa a linhagem de Ramiro, além de que não estão dispostos a aceitar a menoridade de um rei, cujo governo dependia da tutela e interferência nos negócios políticos de sua tia, a abadessa Elvira Ramirez. A mãe de Ramiro, Teresa Ansurez, tornara-se monja, após a morte de seu esposo, Sancho I.

As ambições de governação de Elvira Ramirez tornaram-na, efectivamente, uma rainha, assumindo os destinos do reino de Leão, e, celebrando tratados com as forças árabes, para que os seus territórios permanecem livres das suas investidas e saques. O jovem rei, somente, com a idade de onze anos viria a ser considerado soberano.

Entretanto, o reino da Galiza, dependente de uma assembleia de nobres e bispos, gozava de uma autonomia bastante forte, preocupado com os assuntos religiosos de Compostela, de olhos postos na permanência de um invasor, cujos intentos se mantinham ocultos, mas cuja estadia ecoava pelos mais diversos territórios.

Tal como no Sul de Espanha, após o colapso do reino visigótico (batalha de Gaudalete, em 711), e que permitiu a sua conquista pelos árabes, as lutas pelo poder entre facções nobiliárquicas, ou, entre nobres e senhores perduram nos territórios da Galiza do Norte e da Galiza Meridional. De forma que o poder régio era pouco consistente, dependendo do apoio destes nobres.

À falta de um real centralismo monárquico, o poder dos nobres galegos e portucalenses afirmava-se como o verdadeiro baluarte na defesa dos ideais e da cultura católica, no plano administrativo, militar e judiciário.

É de salientar que esta débil e pretensa historiografia retracta a chamada «periferia» do mundo medieval, o Noroeste Peninsular, cuja triangulação rodopia no poder emergente dos senhores portucalenses, no domínio influente dos senhores da Galiza do Norte e na dependência insubmissa ao poder régio de Leão, tendo como referência e paradigma as forças europeias: o império romano do Oriente – Constantinopla, o domínio e a civilização muçulmana – Al Andaluz, e, a influência papal de Roma sobre o Reino dos Francos e da Saxónia.

A crise de governação nos territórios da Galiza, que perdura durante treze anos, temporiza-se com a ainda mais periférica acção militar e guerreira de Viking Gunderedo sobre as costas marítimas galegas.

Um novo “terror” pairava sobre as indefesas costas galegas.

Embora considerado por algumas “fontes”, como o último ataque normando, esta invasão sob o comando de Viking Gunderedo é, sem dúvida, a mais terrível, extensa e consolidada, sendo considerada por diversas fontes, como a grande invasão, alguma vez, realizada sobre a Galiza.

Desde já, registamos uma versão árabe, que atribui, hipoteticamente a terceira invasão da Galiza, considerada como tal, como sendo o “último ataque normando”, na pessoa de Viking Gunderedo, o que não corresponde totalmente aos factos, como posteriormente, procuraremos explicitar.

“Un último ataque normando a España se menciona el año, durante el reinado del califa Hakam II (961-976): aunque la “Primera Crónica” en el capítulo 726 dice que esto ocurrió el año en que murió su padre, el gran Abdurrehamãn III, lo que fechará cinco años antes y bajo el reinado de Ramiro III de Léon” (1)

Nesta época, a regente do reino de Leão, a abadessa Elvira Ramirez, acaba de celebrar um tratado de paz, Al-Hakam II, precisamente no reinado deste califa de Córdoba tem lugar a famosa expedição de Viking Gunderedo.


A hegemonia de Compostela



Por volta do ano de 813, a descoberta do túmulo de São Tiago, nos arredores de Iria Flavia, originou uma reviravolta no domínio do poder religioso, cujo apogeu reverteu na nova constelação religiosa, ou seja, Compostela, e na decadência do papel exercido pela “arquidiocese primaz” de Braga, interlocutora directa do poder papal.

A origem do túmulo do famoso apóstolo São Tiago, está encoberta num nebuloso mistério. Serão, realmente, os restos mortais do apóstolo, que se encontram no seu santuário? Como chegaram as suas ossadas, ou, o seu corpo, do Oriente até às terras galegas? Existirão outras circunstâncias de ordem histórica ou geopolítica que determinaram esta descoberta?

Efectivamente, o apóstolo São Tiago foi decapitado no tempo de Herodes Agripa, sendo os seus restos mortais, recolhidos pelos seus discípulos, e, introduzidos num barco, tendo sido conduzidos até à Galiza, segundo consta a lenda.

Segundo idêntica narração, a descoberta do seu túmulo deve-se ao eremita Pelayo, que avistou uns misteriosos relâmpagos, [de cuja etimologia advém Compostela, ou seja, da forma latina “Campo de Estrellas”], e, a cujas notícias não resistiu “Teodomiro”, bispo de Iria Flavia, a quem se atribui esta proeza.

Ora, os reinos católicos do Norte de Espanha debatiam-se com a ameaça eminente das forças árabes, a que não eram alheias as expedições vikings.

A invasão de Tárique, em 711, a famosa incursão árabe na Península Ibérica, originou a queda da Espanha visigótica e da sua monarquia, subsistindo os territórios do Norte da Península. Na noite de 27 para 28 de Abril de 711, Tárique, Governador de Tânger, desembarcou em Espanha com cerca de sete mil homens, tendo a sua favor as constantes lutas de poder entre várias facções nobiliárquicas. O ano de 711 assinala o fim do domínio visigótico na Península Ibérica, praticamente, após a morte do rei Witiza, em 709. Por volta do ano de 714, as forças árabes fazem as primeiras incursões nos territórios da Galiza Meridional. Ainda que, a Galiza estivesse sob domínio dos Suevos, que conjuntamente com os visigóticos ocupavam as duas antigas províncias romanas: “Gallaecia” e “Lusitaniae”.

Todavia, os cristãos do Noroeste Peninsular, sobretudo a província da Gallaecia, tentavam resistir às suas investidas, recusando pagar qualquer tributo aos invasores, ao mesmo tempo que tentavam criar uma monarquia de tipo visigótico. Nos anos de 722 a 737, Pelágio torna-se o primeiro chefe das Astúrias, no reino Oviedo-Leão, embora em certa cronologia galega se estabeleça como rei Paio (718-737), sucedendo-lhe o seu filho Fabila, neto de Fabila de Tuy, entre 737-739, coroando esta tentativa monárquica em Afonso I - O Católico – (739-757), que recupera os territórios galegos até às margens do rio Douro.

O domínio árabe no Sul da Península era de certa fragilidade demográfica, já que somente 1 a 2% da população total pertencia ao contingente dos conquistadores, o que não impediu de construir uma civilização de grande influência cultural e militar. Por isso, desferiram esporádicas incursões que , de tempos a tempos, causavam grande terror nos territórios do Nordeste Peninsular. Por outro lado, os cristãos do Norte fortaleceram-se com as sucessivas vagas de emigrantes provenientes dos territórios ocupados pelos muçulmanos, ao mesmo tempo que estabeleciam armistícios e alianças esporádicas com os árabes, coroando com uma “embaixada régia da Galiza”, em 965.

No entanto, raros eram os períodos de paz, devido à constante ameaça árabe, no Noroeste Peninsular, às lutas constantes entre os senhores da Galiza, e à iminente expansão viking.

A descoberta do túmulo de São Tiago criou uma dinâmica religiosa, que nos anos de 830 permitiu ao arcebispo Gelmires afirmar-se, não só, como chefe religioso, como também, chefe político. O clero e os nobres da Galiza do Norte encontraram uma razão colectiva de ser, um ideal histórico, cujo centro gravita no túmulo do apóstolo Santiago. A principal razão do seu poder advinha de uma matriz religiosa que insuflava os ânimos nos combates de intensa bravura contra as forças árabes.

Santiago torna-se no centro da cristandade do Norte de Espanha, tal como um formidável luzeiro que ilumina os corações dos cristãos, enchendo de esperança e coragem na luta contra os muçulmanos.

Santiago torna-se no autêntico símbolo religioso do combate contra os árabes, elegendo-se e invocando-se como o “Matamouros”.

“Mouro” é sobretudo, o “ infiel”, o traidor, o bárbaro, o pérfido, o inimigo da Cristandade, uma categoria humana que é radicalmente desvalorizada, e, que urge combater.

Aliás, uma certa tradição cristã generaliza que os homens do frio teriam corpos brancos e cabelos ruivos, de rosto pálido e fraco entendimento, em que a ausência de governo, leis ou qualquer tipo de organização, associada à falta de saber e ciência determinava que estes povos - os “vikings” eram os “gentios”, que urge afugentar.





Braga e Compostela



A rivalidade entre estas duas dioceses, Braga e Santiago de Compostela, prolongar-se-á por tempo incerto, até que novos horizontes despontem no seu futuro.

Rapidamente, Santiago de Compostela torna-se no centro espiritual da Galiza, procurando, através do seu poder eclesiástico, uma independência política em relação ao governo régio do reino de Leão.

“Braca Augusta”, centro nevrálgico das antigas vias romanas, antiga capital do reino suevo, desempenhou um papel relevante na cristandade da Idade Média, cuja influência religiosa se desenvolvia pelos territórios da Galiza do Norte. Segundo o célebre “Itinerário Antonino” são citadas cinco vias romanas:, (via XVI, XVII, XVIII, XIX e XX), além da existência de uma outra. A via XIX, ligava Braga a Lugo; e, a via XX, em direcção a Barcelos, cujo traçado se torna discutível é a famosa via XX “per loca maritima”, literalmente traduzido “através de locais marítimos”, que tanto demarcava o rio Minho, como as costas e rias galegas, com um sentido mais comercial.

Os condados de Límia (província de Orense) e Toronho (territórios de Vigo até La Guarda) floresceram sob o impacto evangelizador da acção dos bispos de Braga, e estiveram, várias vezes, dependentes da sua jurisdição eclesiástica.

É graças à acção evangelizadora de S. Martinho de Dume que o povo suevo se converte definitivamente ao catolicismo. No ano de 572, o Concilio II de Braga, aprova oficialmente a diocese de Tui, cuja jurisdição abarca os territórios compreendidos, desde as costas atlânticas até às suas montanhas interiores, e desde a ria de Vigo até ao rio Lima, cuja demarcação remota ao “Paroquial Suevo” (ca.572). Actualmente, esta zona geográfica está dependente da província de Pontevedra, e, cuja parcela mais setentrional, noutros tempos correspondia ao Condado de Toronho, tão do agrado de D. Afonso Henriques, que ao perdê-lo, por duas vezes, deixou um pequena frota de quatro a seis barcos, em Santa Maria de Ola. Em 915, a diocese de Tui foi restaurada por Ordonho II, recebeu vários foros do “Príncipe Português”, mas foi associada à hegemónica diocese de Conpostela, em 1024.

A convivência social, e, os vínculos religiosos e parentais superavam as demarcações políticas e territoriais. Estas regiões constituíam, poderíamos dizer, um autêntico xadrez de recuos e avanços de influência eclesiástica, a cuja estratégia se associaram, posteriormente, interesses políticos, ingloriosos para as pretensões de Portugal. Somente, em 1514, os territórios entre o rio Minho e o rio Lima, retornam à jurisdição eclesiástica de Braga, graças à colegiada de Valença, cuja origem remonta ao ano de 1381.

Tanto o condado de Toronho, dependente da diocese de Tui, como o condado de Límia, cuja extensão se estendia do rio Lima até Orense formaram parte das ambições políticas dos senhores portucalenses, cujos limites dependeram da acção evangelizadora dos eminentes bispos de Braga: S. Martinho de Dume e Frutuoso.

Nos anos finais do século X, aquando da chegada da expedição de Viking Gunderedo, os territórios do norte do rio Lima e Minho, dependiam, portanto, da jurisdição eclesiástica de Tui, e, por consequência da hegemonia crescente de Compostela.

As ambições eclesiásticas de Compostela chegaram ao ponto de exigir uma paridade com a igreja de Roma, já que era a digna detentora de um apóstolo. Por isso, as suas disputas eclesiásticas junto do Papado implicavam um reconhecimento da sua hegemonia, que não tinha qualquer rival.

No século X, a antiga metrópole eclesiástica de Toledo estava debaixo do jugo muçulmano, de forma que a ambição e exigência dos seus direitos eclesiásticos de Compostela se estendiam à cidade de Mérida, antiga diocese dos lusitanos.

«A administração territorial visigótica foi decalcada da que existia desde o início do século IV; tanto o poder civil como o eclesiástico conservaram a divisão em seis províncias com as suas capitais, governadas conjuntamente por rector provinciae, por vezes chamado iudex, e um bispo metropolitano. A Bética com Sevilha e Córdova, a Cartaginense sob a autoridade de Toledo, a Lusitânia com Mérida, a Galiza com Braga, a Tarraconense administrada por Tarragona, e a Septimânia a partir de Narbona foram , por sua vez, divididas em circunscrições mais reduzidas e cuja importância foi aumentando, os territoria». (2)

A antiga capital espiritual da Galiza, Braga, estava reduzida a um papel totalmente secundário, encontrava-se subordinada aos imperativos de Compostela, a cujas disputas eclesiásticas, a estadia e permanência de Viking Gunderedo não devia estar alheia. De facto, os prelados de Braga nunca lutaram com armas contra Santiago, contrariamente aos bispos e militares desta diocese, como pretendem afirmar certos autores, mas, certamente desenvolveu os mais subterrâneos acordos diplomáticos pela sua emancipação.

Além dos concílios de Braga, cujo número foi superado por Toledo, dois grandes personagens surgem neste antigo apogeu barcarense: Martinho de Braga, e, São Frutuoso.

Desde século VI, a influência de Martinho de Braga (originário da Panónia, nascido entre os anos de 518-525 a 579), estendeu-se aos territórios a Norte da Galiza.

Frutuoso de Braga, escreveu a “Regula Monachorum” e a “Regula Communis”, difundiu os ideais monásticos, através da construção de, pelo menos, doze mosteiros, na Galiza. Nestes ideais, destaca-se a dimensão ascética do trabalho, o espírito comunitário que prevalecia sobre o impulso individual, e, a pecuária que se constitui como uma actividade económica de relevância, típica do Noroeste Peninsular.

Martinho de Braga, através do mosteiro de Dume, introduziu, no Noroeste Peninsular, um monaquismo inspirado no ascetismo e eremitismo orientais, cuja influência cultural se prolongava através das antigas vias romanas, definindo circunscrições religiosas, e, cuja organização eclesiástica atinge a sua coroação no célebre “Parochiale Suevorum”.

Os bispados e regiões hispânicas mantinham a estrutura dos antigos administradores romanos, ainda que os vestígios dessa romanização sejam mais visíveis na Galiza Meridional. Através do “Parochiale Suevorum” estabelecem-se as circunscrições religiosas, conjuntamente com uma rede de “habitas”, ou , pequenos aglomerados populacionais, que recobriam o percurso das antigas vias, cuja notável organização se deve à influência de São Martinho de Dume e futuro bispo de Braga. Por volta do ano 585, o rei Leovigildo põe fim a século e meio de existência do Reino dos Suevos, de quem Martinho de Braga tinha sido evangelizador.

No século VII, o bispo de Braga (656-665), São Frutuoso, detentor de uma excepcional biblioteca particular, fundou numerosas comunidades religiosas, que difundiu através de toda a Galiza, às quais deu uma ordem religiosa, que o seu sucessor Valério de Bierzo ainda mais reforçou. São Frutuoso difundiu através destas comunidades um saber religioso, económico e agrário, que muito contribui para a cultura e cristianização destes povos, criando mosteiros rurais, cujos vestígios se diluíram com o tempo.

O declínio do poder e influência religiosa da arquidiocese de Braga, reacendeu com a notável emergência no centro religioso e político de Santiago de Compostela, cujo resplendor perdurará por alguns séculos, e, cujas ânsias políticas de independência em relação ao poder de Leão-Castela terminará por acção dos Reis Católicos, em 1486: a Galiza perdeu o estatuto e título de Reino.

Retemperando as suas forças políticas no santuário de Compostela, a Galiza, como reino, esteve sempre dependente do poder régio da região de Leão, e a sua autonomia balançava na força exercida pelo Reino de Leão. No ano de 966, com a morte do rei Sancho II, os senhores da Galiza do Norte encontraram razões suficientes, para mais uma vez, afirmarem a sua autonomia. Invocando razões de falta de linhagem de nobreza, constituem-se numa assembleia de bispos e nobres, cuja época se situa entre 967-980, por coincidência, período em que Viking Gunderedo relança os seus ataques aos territórios do Norte da Galiza.

O eixo político entre a região de Coimbra e a zona de Leão sofre uma crise de instável governação e autoridade, enquanto que o eixo estratégico de Santiago de Compostela e as forças vikings, estacionadas na Galiza Meridional, se envolvem em ferozes combates pelo domínio e poder dos seus territórios.

(1) Irving, T.B. "Celtas, Magos o Normandos en la Primera Crónica General", pp. 470 - Universidade de Tennessee, Knoxville. Conforme publicação do Instituto Cervantes.
(2) Rucquoi, Adeline, “História Medieval da Península Ibérica”, pp. 53, Editorial Estampa, Lisboa

domingo, 3 de janeiro de 2010

Portugal-Angola .12 - Hospital do Vouga




Impávido e sereno assistia à demonstração, numa pequena sala da Sorbonne, do colonialismo português, realizada por um núcleo de resistentes angolanos.

O pequeno filme projectava-se no écran, acompanhado de uma certa elite angolana, que verdadeiramente desconheço.

Todavia, as imagens eram realmente repelentes.

Estas imagens misturam-se com outras imagens de salutar parceria.

Para além das parcerias económicas, financeiras, políticas, penso que existem outras de cariz humanitário que mereceriam um acompanhamento mais intenso.

Recordo aquelas imagens do Hospital do Vouga, da sua equipa médica, e das suas enfermeiras caridosas.

Será que um dia o seu funcionamento irá atingir a repercussão humanitária que, outrora, detinha?

EUROPOLITIQUE: Recordando "Platero y Yo" ....Juan Ramón Jiménez

  Na minha tenra idade escutava os poemas de “ Platero y yo” , com uma avidez e candura própria da inocente e singela juventude, que era o ...