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sexta-feira, 12 de março de 2021

EUROPOLITIQUE. À procura de um rio, cujo nome é "Minius", "Minos", ou, Minho


 

«A embarcação balança acossada pela ondulação, que bate de estibordo.  -As águas estão lamacentas - comento. O capitão parece ofendido com o meu comentário. E declara, sobranceiro: - Estão assim por causa do ouro. – Faço de conta que não há surpresa dentro de mim e o marinheiro volta a atacar:  – Lá mais acima, junto à nascente, estas águas estão carregadinhas de ouro. – Solta as duas mãos do leme e confessa: - Um dia destes, largo o mar e vou garimpar para lá, onde a água nasce da cor do sol.» Mia COUTO, “O Mapeador de Ausências” pg.198, Editorial Caminho, Lisboa, 2020.

 

À procura de "Minius"  (Minos), ou, do Minho.

Nos seus caudais invernais, as águas barrentas do rio denunciavam aos romanos a subtil mineração, que não demoraram a explorar.  Acampada nas suas margens, a legião romana não encontrara a identificação deste caudaloso rio, que se espraiava naquele vale e planície, face a um pequeno castrejo, na outra margem. Dos fenícios nada restava de memorial, ou de qualquer antigo entreposto; mas, segundo testemunho de um prisioneiro, foi o antigo herói grego Tude, que deu origem àquele pequeno castrejo, na margem direita do rio, com o seu cais  comercial; (mais tarde, conhecido como Tuy). Aqui, o rio encontrara a “paz e calma” na planície, em frente do “Castellum Tude”, após muitas quedas e sobressaltos das suas correntes de água nas apertadas encostas de granito, que comprimiam o seu livre curso de água. As gotas de água brilhavam nas pedras de granito, sustendo no ar a água cristalina que, no seu remanso, os tons de prata espelhavam a sombra do seu arvoredo. Uma fonte de água na encosta da margem direita saciava a sede de alguns soldados romanos, agora esquecidos do rio “Lethes”; enquanto outros preparavam as suas refeições. Do alto da colina observava-se o pequeno “Castellum Tude” que, brevemente, seria alvo de um ataque, por parte das poderosas forças romanas.

Corria o ano de 137 A.C., quando esta pequena legião romana assentava arraiais junto à fonte de água desta colina, da qual se avistava o “Castellum Tude”. O centurião Decimus Julius Brutus tinha acordado e não sabia onde estava. (1) O acampamento das suas tropas estava calmo e sereno, após breve escaramuça, antes da chegada à margem deste rio. Mas a serenidade das suas tropas contrastava com o turbilhão de ideias, na qual navegava a sua mente.

O andamento da sua campanha militar, e, da  pequena “legião romana” continuava firme sobre o seu comando; apesar do incidente de revolta nas margens do rio “Lethes”. O cargo de pretor, ou, general da pequena “legião romana” estava associado ao seu atributo de tribuno militar, pelo qual o dever do uso e propriedade do “logos” lhe competia, sendo-lhe implícita a retórica, e a tarefa da comunicação da palavra escrita; e, consequentemente, a atribuição de nomes e registo de locais com a adequada toponímia.  Antes da atribuição de qualquer nomenclatura sondava os locais ou personagens, dignos de alguma consideração; como ficara demonstrado pelo registo do grego Tude, ou, Tyde, que deu origem a Tui. Nesta tarefa, por vezes, fazia correr dois ou três homens a cavalo pelas montanhas ou vales, na procura de nomes, terras e suas gentes. As suas deliberações e apropriações de locais tinham de ser fundamentadas para evitar dúvidas ou confusões, e, finalmente confirmadas por escrito. Assim, o escriba encarregava-se de passar para a posteridade a atribuição dos nomes de rios, montanhas ou locais, dignos de um histórico registo.

Se, o rio “Lethes” corria em linha perpendicular para o mar, verificava-se que as águas deste rio seguiam numa linha diagonal, mais oblíqua. Além disso, a terra avistada confundia-se com uma ilha, já que os cursos das águas do rio cursavam em linha paralela ao mar. Ao ouvir falar de um grego instalado na sua margem esquerda, reavivou-se na memória do centurião a saudosa ilha de Creta. Mas, no turbilhão de ideias que inundavam o seu espírito, resguardou-se das antigas lendas gregas, para se fixar num personagem  - o rei Minos, da cidade de Cnossos. Na confusão das palavras que surgiam ao seu espírito, pediu ao escriba que o libertasse daquilo labirinto. em que estava encerrado. para encontrar um nome, uma âncora que pudesse aprisionar as águas daquele rio. Já que não constava nenhum nome sobre aquele rio; e, se Roma lhe pedisse alguma informação do local, onde tinha pernoitado com as suas tropas, nem o rio Lethes, com o seu batismo de rio do “esquecimento” o salvaria do escárnio, típico dos senadores romanos, se não encontrasse um digno “topo”.

A lembrança do rio Lethes, esse rio que da “morte” ou “esquecimento” o livrara, graças à sua coragem e ousadia de centurião, não lhe dava qualquer inspiração, para acalentar alguma inovação ao léxico latino. Ainda que não precisasse das artes da retórica daqueles brilhantes tribunos romanos para convencer os seus soldados a marchar, até à margem deste caudaloso rio. Mas, as águas deste rio careciam de uma identidade, que não fizesse obscurecer a sua campanha militar. 

De novo, encontrou outro curso de águas, cuja força e dinamismo, enchia de orgulho a sua cavalgada. Pressentia que este novo e belo rio não invejava o “espelho” do rio Lethes, cujo encanto e calmaria tinha adormecido e encantado as suas tropas, mas suspirava por um batismo, para que deixasse de ser um rio selvagem, e, sem nome. Sem dúvida, que o Império Romano sentir-se-ia orgulhoso de acrescentar novas terras e novos nomes, ao ilustre panegírico que o léxico latino encerra. A saudação ao centurião romano, por terras do “além Roma”, seria acompanhada com o atributo de novos topónimos que a sua campanha militar enobrecia  perante a  ilustre “Cidade Eterna”.

Estas águas precisam de um nome?

Sem dúvida, que a “Cidade Eterna” sentir-se-ia orgulhosa de introduzir na sua língua latina mais um topónimo, que engrandecesse os seus territórios e a extensão do Império Romano. As guerras e as batalhas tinham o condão de erguer os seus heróis, mas as terras conquistadas deviam ser assinaladas no seu devido território com a sua genuína  identidade, ou seja, a sua marca, e, o seu próprio nome. Todavia, a complexidade da natureza, dos seixos e areias, peixes e algas, arbustos e árvores, pássaros e animais misturavam-se com as pequenas ilhas e a diversidade de línguas encontradas, cuja profusa amálgama, sem qualquer sinalização gráfica, remetiam continuamente para as cenas do Labirinto de Creta. Mas este labirinto era a prisão, onde o rei Minos, pediu ao mestre e arquiteto Dédalo, para encurralar o lendário Minotauro. De forma que carecia de igual  força e poder para encarcerar estas rebeldes águas numa devida apropriação de identificação. Nomear seria chamar à razão, apropriar-se, tomar posse; no entanto, a perplexidade do nome e seu enigma permanecia constante na sua mente.

Estas águas não podem entrar no mar sem ter um nome?

Cada vez mais encurralado estava o cônsul romano, que não encontrava forma de batizar o rio, nem o seu escriba ousava desvendar um nome para gravar na cera da sua tabuleta.  Não cabia ao escriba qualquer estilo, nem fazia parte do seu estilete, desafiar com inovações, quem por direito, devia nomear e imprimir no léxico romano, as devidas determinações e adequada topografias, que aos lugares lhes pertencem. Perante tantas hesitações, quer do cônsul romano, quer do seu escriba, não havia forma em selar um nome àquele rio, e àquelas águas; cujo caudal se afastava de Finisterra, e daquele mar sem fim. Por vezes, até, as brumas das águas escondiam os seus possíveis avanços e soluções, para tal tarefa. Tornava-se imperativo, e, urgente; portanto, urgia ancorar aquelas águas, dando-lhes uma legítima identidade. A confusão que reinava no espírito do cônsul romano era do tamanho daquele labirinto da antiga Grécia, onde estava aprisionado o Minotauro. Na impossibilidade de prender aquele personagem mitológico de “corpo humano” e “cabeça de touro”, cujo nome é Minotauro, (já que ele fazia parte da história de Creta), o cônsul romano deteve-se naquele que detinha o poder de nomear e aprisionar, identificar e circunscrever, ou seja, o rei Minos. Esta palavra não saía da sua cabeça, e repetia-se constantemente no seu espírito: Minos, Minos, e só, Minos…

Apesar da constante sonoridade da palavra “Minos”, o cônsul romano ficou sobressaltado por idêntico nome, utilizado numa obra de Platão, que serve de introdução ao seu livro sobre as “Leis”.  Todavia, como chefe militar e conhecedor da retórica, não pretendia entrar pelo caminho da discussão filosófica: «Em Creta, devido a uma das leis estabelecidas por Minos, as pessoas não bebem juntas até à embriaguez. E, de facto, é claro que o que ele aceitou como excelente foi estabelecido como uma prática aceite [320b] também para os seus cidadãos. Para Minos, aquele que não aceita uma coisa, mas faz algo diferente do que aceitou, é uma pessoa desonesta» (Platão, Minos). Finalmente, a sua convicção como militar encaminhava-se para as noções de poder e autoridade, que radicavam, única e exclusivamente, nesse personagem de Creta, cujo nome era  Minos. Minos era o símbolo da  força e do dinamismo que dobraria as rebeldes correntes de água deste rio. Portanto, tinha chegado à conclusão final de que devia quedar-se em “Minius”  com a sua etimologia, ou seja, Minho, cuja cartografia abrangeria os “minhotos”. (Minho's river)

Cf:«As Leis começam onde o Minos acaba: O Minos acaba com o louvor das leis de Minos, o rei de Creta, filho e pupilo de Zeus, e as leis começam com o exame dessas mesmas leis» Cf. STRAUSS, Leo, The City and man, Chicago, University of Chicago Press, 1978, p. 62.

“Platão e Minos” por JOSÉ COLEN* in “O Minos no Corpo Platónico".  Filosofia - Revista da    Faculdade de Letras da Universidade do Porto, 31 (2014) 7-25

    (1)  Decimus Julius Brutus, eleito cônsul em 138 A.C. considerado o “Galaico”, pelas suas vitórias contra os Brácaros e os Galaicos, nos anos de 137 (A.C.). Bom orador e versado em literatura grega e latina; em 136 (A.C.), celebra as suas conquistas, em Roma. Seu neto “Brutus”, no ataque a Júlio César ficou famoso, pela frase: “Tu quoque filli mi”(Também tu, meu filho!...).


 (2)) Segundo a lenda, o monstro "Minotauro", filho da esposa do rei Minos e de um lindo e                  encantador touro, é simplesmente "parte homem" e "parte touro", segundo o escritor  Ovídio


(3) Rio Lethes, ou rio do Condado de Límia, mais tarde, “Rio Lima, que desagua perpendicularmente no Oceano Atlântico, na cidade de Viana do Castelo, antiga Vínea.


         

domingo, 7 de março de 2021

EUROPOLITIQUE: À procura de um retângulo perdido em alto mar - (Opinião/Jornal Expresso / 05.03.2021)


A seguir ao verde Hexágono da França, surge aquilo a que os gregos chamaram de Ibéria, em cujo Noroeste Peninsular se instalou Tude, que originou Tui; e, posteriormente, vieram os Romanos, que na totalidade geográfica deste retângulo, lhe atribuíram o nome de Hispânia. O mais assimilado do Império Romano recebeu o nome de “Galaico”, por ter conquistado a Galiza. A Galiza do Norte e a Galiza do Sul são muito distintas, embora estranhamente parecidas. A identidade da primeira surge graças ao poder eclesial de Bracara Augusta; e, o declínio da segunda acontece por causa do “luzeiro” de Santiago. 

Mas, entre as duas margens da Galiza, surge um novo impulso, vindo do mar, uma espécie de "concha normanda" que trouxe consigo as saudades do bacalhau e os laivos de anúncio de uma independência. Os conservadores de Santiago foram resistindo, mas perderam o seu fulgor, quando outros se tornaram em “Matamouros”.  Mas, os árabes continuaram como “homens azuis” neste grande retângulo ibérico, enquanto que no seu menor, se escondiam os vikings, como "magos ou feiticeiros dos mares". Por isso, as técnicas dos seus navios originaram escolas, e inovaram as lusas embarcações: as naus dos Descobrimentos.

A  criação de outro retângulo, numa geografia similar à da Ibéria, desprendeu-se como um “bloco de gelo” do seu iceberg”, ou da sua jangada. E, o destino de um boco de gelo é nadar e andar pelo mar. Assim fizeram aqueles que se lançaram ao mar, ao "caminho das Índias", e do Brasil. E, se somos tão geométricos, não devemos à nossa propensão escolar para a matemática, mas às várias tentativas de construção de geringonças que nos permitiram descobrir o mundo, sem esquecer os traços retilíneos dos campos vikings. O retângulo assemelha-se ao feitio de um barco, no qual fomos enjeitados e projetados, ou, melhor dito, ao navio, em que navegamos. Por vezes, à deriva, "sem rumo nem aprumo", de quem “não sabe, nem se deixa governar”, e, tudo isto, por causa das ondas deste atlântico mar.   Com fronteiras retangulares gastamos grandes receitas na nossa defesa geográfica, mantendo a nossa verticalidade e defendendo a nossa esquadria; e, daqui para o mar. Uma frota naval que era muito cobiçada, quer pela nação vizinha, quer pelos negociantes europeus, sobretudo, holandeses e ingleses. Estes estavam sempre ávidos de controlar os nossos caminhos, o seu comércio e suas riquezas.

Claro que, o nosso pequeno território sempre desafiou a unidade geográfica espanhola, basta dizer que o rio “Lethes”, o rio do esquecimento, o rio de alguns lusitanos, atraiçoou-lhes a memória na distinção entre Galiza do Norte e Galiza do Sul, já que são tão idênticas e divergentes. E, são tão divergentes que somente a sua autonomia, virada para o mar, se inscreve nesta identidade futura, que deixou para trás, a outra parte. E, de fama da descoberta, tão nobre, e, por vezes, tão obscura, que Magalhães aparece à frente do Gama, em feitos de marinheiros, na língua de estrangeiros. O mar dos Açores não é de condores, mas reluz com nossas cores. As aves de rapina estiveram sempre nas costas dos portugueses, porque para tanta riqueza não faltavam fregueses. O retângulo esticava-se e fugia de Espanha. Já não era “jangada de pedra”, tornara-se “jangada da Madeira”. E, para fugir às garras da Coroa Espanhola teve de fazer alianças com a Inglaterra, que lhe implantou no seu dorso, os contrabandistas de Gibraltar.

«Por isso, inúmeros historiadores do país vizinho, sobretudo a partir do nacionalismo moderno, dedicaram-se a teorizar que Portugal era uma construção política contranatura, artificialmente mantida pela Inglaterra, como um Gibraltar imenso, cuja existência privou a Espanha da grandeza que lhe era devida no palco do mundo, uma grandeza muito empalidecida desde há 200 anos». (Pinto, Sérgio Sousa, Jornal Expresso, 05.03.2021)

Claro que, esta “cartografia de rebeldes” procurava desvincular-se da sua fraternal etnia, mas vieram logo em nosso encalço os Colombos, levando o tabaco de Cuba e da Virgínia, e suas especiarias. No reino de Castelo ergue-se “D. Quixote e Sancho”, como símbolo universal do idealismo e do materialismo que, como um todo, representa a humanidade inteira. No reino de Portugal de “d’aqui e d’além mar”, em sentido particular e rudimentar, através dos Lusíadas, procura-se aquilo que nos faz sonhar!...

sexta-feira, 5 de março de 2021

EUROPOLITIQUE: Os contrabandistas de Gondarém, no século XIX.

 

No livro n. º160 da “Receita Geral da Alfândega de Vila Nova de Cerveira de (1854/1855), não constam “os prejuízos e as agressões” que os filhos do abastado lavrador  Francisco Lourenço Guerreiro (José e João),  João Barreira e filho, José do Rego e José Pedreira de Gondarém, coadjuvados por António Nova, da freguesia de Sopo, desferiram sobre os Guardas do “Contrato do Tabaco”. As “ameaças e agressões” não ficaram impunes, já que os contrabandistas foram parar com os costados no “mocho” da Justiça, no Tribunal Municipal de Caminha, corria o ano de 1855. Desconhece-se o teor da condenação. Mas os cincos jovens, acompanhados de duas figuras paternais, que agrediram os “Fardados”, não escaparam à respetiva punição, segundo reza o “Auto de Querela” dos “Guardas do Contrato do Tabaco e da Alfandega de Vila Nova de Cerveira”.  Cf.  (Arq. Distrital de Viana do Castelo, 01.01.1855).

 

Se a fama acompanha Gondarém, como “terra de contrabandistas”, por causa do poema de Pedro Homem de Melo, a “cartografia de rebeldes” remete-nos para este conflito entre jovens e “Fardados” do século anterior.  Onde há raia, existe contrabando, e Gondarém não é exceção à regra. Portanto, se esta enraizada tradição remonta a séculos anteriores, nela se inscreve esta “geografia de rebeldes”. Além disso, na descrição poética, parece que o autor do poema quer “vir morrer” a Gondarém, fazendo uma apologia do “espírito de contrabandista”.  E, se a garganta não o acompanha no seu estro, quis o destino que o fado se soltasse pela voz indelével de Amália Rodrigues: “Vim morrer a Gondarém, terra de contrabandistas”.


A esta “cartografia de rebeldes”, poeticamente definida, vinculam-se dois “Postos de Guarda Fiscal” que assinalam uma atividade clandestina e constante, digna e merecedora de patrulha.  Assim, na linha da fronteira, sobre as águas do rio Minho, estava de atalaia o “Posto de 1.ª linha”, no lugar da Mota; e, na sua retaguarda, permanecia o “Posto de 2.ª linha”, na E. N. º 13, no lugar das Faias, cujas funções eram de “stop” de viaturas, de verificação de carga, e captura de contrabandistas.  Assim, à “geografia de rebeldes” associa-se o “espírito de grupo”, porque “ser contrabandista” não é um ato isolado, mas consiste numa atividade de vários intervenientes. Todavia, estas construções pertencem aos anos iniciais do século XX, e traduzem a efervescente atividade do contrabando nestas terras.

 

No século XVII, o Reino de Portugal era o principal produtor de tabaco; e, desde o ano de 1630 detinha o monopólio desta mercadoria. As embarcações vindas do estado da Baía, no Brasil, chegavam com os seus livros de registo, enviados para a Junta da Administração do Tabaco. O controlo desta mercadoria era feito pelas alfândegas e seus guardas. Ao monopólio juntava-se o imposto, cujo elevado lucro, rondava os 20% das receitas para o Reino. As várias alfandegas, por onde circulava o tabaco, tornaram-se no epicentro desta luta entre comerciantes e funcionários das alfandegas, guardas e contrabandistas.  O “Auto de Querela” insere-se neste conflito entre os “guardas do Contrato do Tabaco” e o grupo de jovens, provavelmente “contrabandistas”, em que as desavenças eram constantes. Aliás, a conivência e convivência entre contrabandistas e alfandegários, ou, funcionários portuários e contratadores era quase um pratica normal; (mas a perda e independência do Brasil, em 1822, arrasou quase metade do comércio do Reino).

 

Em 1 de Janeiro de 1769, institui-se o “Livro Oficial” da Alfândega de Vila Nova de Cerveira, para o registo de “ordens, provimentos e provisões”, que durante 103 anos, religiosamente, regista as receitas deste “Porto Seco”. Em 1837, entra em vigor o “Código das Alfandegas”, com as suas taxas e tarifas alfandegárias, em cuja pauta aduaneira se destaca o tabaco. Em pleno século XVIII, o trafico de mercadorias de “todo o género” era bastante intenso nas alfandegas do rio Minho, de forma que os “conflitos de interesse” se sucediam, sobretudo, com o comércio do tabaco. Este negócio envolvia o “estanco” (loja/armazém da alfandega), que detinha o tabaco, e, os negociantes, com o seu séquito de oficiais e criados. O contratador de tabaco tinha os seus homens; mas, a seu lado, estavam os “contrabandistas". Em 1862, aparece um "Auto de Querela contra Incertos", movido pelo Ministério Público, por causa de "arrombamento e condução de barco de pesca, até à Alfândega da Vila”, cuja embarcação pertencia a Bartolomeu José Lagos, de Gondarém. Cf. (Arq. Distrital de Viana do Castelo, 01.01.1862)).  


Em 1844, surge a “Companhia Nacional de Tabacos”, cuja indústria tabaqueira ilustra os técnicos portugueses, e torna-se na principal indústria nacional. No entanto, no início do século XIX, através do “Rochedo de Gibraltar” começa a surgir o “contrabando de tabaco”, sob o comando de alguns ingleses, após o infeliz Tratado de Methuen, (1703/1836), que tanto condicionou a indústria portuguesa. O tabaco era uma mercadoria muito rentável e desejada, que envolvia grande traficância ou tráfico; e, por isso, originava a fuga de receitas. Como mercadoria de “lucro fácil”, a produção e comercialização do tabaco incorre facilmente em disputas, delitos, crimes e contendas. Por causa do seu monopólio, (quer em Portugal, Espanha e França), a divulgação do tabaco na Europa, como produto de consumo generalizado, tornava-se numa extraordinária fonte de receitas, sujeita à sua legislação. Em 1885, aparece um "auto de querela" contra José Maria Miranda, casado, morador,  na freguesia de Gondarém, Vila Nova de Cerveira,  por causa de "contrabando de tabaco" (processo incorporado no Tribunal Judicial de Caminha, em 02.04.2009). Cf. (Arq. Distrital de Viana do Castelo 01.01.1885).


A “tipologia do contrabando” encerra várias versões e variadas justificações: desde a sua atividade, como forma de sobrevivência até, à exibição e ostentação de dinheiro e de luxo. Algumas vezes, o contrabando, apesar de ser um “comércio ilegal” era tolerado e consentido pelas autoridades, como forma de “ganha pão” das pessoas pobres, já que o sustento das famílias estava em causa. Esta conivência abrangia, tanto os necessitados, como os “Fardados”, quando se tratava de “bens essenciais”. Quando o “comércio ilegal” englobava outro tipo de mercadoria e visava o enriquecimento e o lucro, a sua condenação tornava-se mais premente. Neste tipo de contrabando instalava-se o suborno e a corrupção. A transação de metais e seus derivados, máquinas, tabaco, perfumes ou bens de luxo, ajustavam-se aos “códigos de honra”, aos “ajustes de conta” e a um vocábulo particular. A “linguagem dos contrabandistas” entrava nas artimanhas das palavras.

 

Os poderosos carros “Ford” e “Mercury”, reforçados na sua traseira com molas suplementares, estabilizavam, horizontalmente, em frente das operações “stop”, sem deixar qualquer suspeita de mercadoria, escondida nas bagageiras: ou seja, o contrabando. Nos anos sessenta do Século XX, em Gondarém, emergem três destacadas figuras nas "artes" do contrabando. Os "mestres contrabandistas" exibiam sinais de fortuna, enquanto que os "aprendizes de contrabandistas" limitavam-se ao transporte da carga de mercadoria, pela qual eram bem pagos. Por vezes, a fome atacava os "fardos de bacalhau", de forma que a água do rio aliviava em algumas gramas o peso da carga. A tarefa principal era não deixar cair a carga, perante os gritos ou assobios dos "Fardados". Era, pouco frequente, ouvir algum tiro sobre os pneus de alguma viatura, porque na vistoria da papelada escapava sempre alguma gorjeta, cujo rumor se evidenciava em “luxuosas motos”, que alguns “Fardados” gostavam de exibir. A relativa calmaria do “Posto de 2.ª linha”, que a “E-N.º 13” assinalava, estava longe da intolerância e violência que despontava da margem direita do rio. Por vezes, arriscava-se a vida; e, as “balas mortais” sibilaram sobre o corpo de um jovem, de cuja triste memória, uma trémula vela acesa iluminava a outra margem, em meados do Século XX. 

 

Em 21 de setembro de 1992 extinguia-se a “Guarda Fiscal” que antecedera o “Corpo de Guarda Barreiras” do Reino de Portugal. Com o fim desta “força especializada” na “fiscalização aduaneira e fronteiriça” desapareceu, também, um dos mais destemidos contrabandistas de Gondarém, que tinha florescido de alguns desaparecidos, ou, desafortunados. Já, dentro da tipologia do “contrabando da “pesada”, em que os “camiões de tabaco” desafiavam as estradas portuguesas, somente um “especialista”, na arte e engenho do contrabando, defendia que a entrada de divisas no País, justificava “per se” esta atividade, tal era a sua ideologia. Qualquer filosofia hegeliana desafinava com este tipo de linguagem, cuja domínio e apropriação linguística carecia de dois anos na sua aprendizagem. As ramificações deste tipo de contrabando estendiam-se às costas galegas, já que na «década de 80 do século passado, 1/3 do tabaco ilegal que entrava na Europa era movimentado pela Galiza» (1)

Obs: 
(1) CARRETERO, Nacho , obra intitulada "Farinha" (edições desassossego).
(2) Gunderedo: "A Alfandega de Vila Nova de Cerveira",  editado em 13.09.2020 
(3) Pedro Homem de Melo (música de Alain Oulman, por Amália Rodrigues, 1969 (?) .

Vim morrer a Gondarém
Pátria de contrabandistas
A farda dos bandoleiros
Não consinto que ma vistas

Numa banda, a Espanha morta / Noutra, Portugal sombrio
Entre ambos, galopa um rio / Que não pára à minha porta


E grito, grito: acudi-me / Ganhei dor, busquei prazer
E sinto que vou morrer / Na própria pátria do crime

Por mor de aprender o vira / Fui traído, mas por fim
Sei hoje, que era a mentira / Que então chamava por mim

Nada haverá que me acoite / Meu amor, meu inimigo
E aceito das mãos da noite / A memória por castigo


terça-feira, 2 de março de 2021

EUROPOLITIQUE: Pequenos lugares com história, nos seus "moinhos de água" e nas suas encostas


O “Beco do Regueiro”, junto ao lugar da Sobrosa, encaminha-se para o mais caudaloso ribeiro existente nesta localidade, ou seja, na freguesia de Gondarém.   As suas águas brotam no lugar altaneiro de Mangoeiro, e estendem-se até à suave planície do rio Minho, em cujo acidentado "curso de água", foram construídos, mais de uma dezena de moinhos, de variados feitios e formas de aproveitamento. Ao lugar do "Regueiro" associa-se uma família, com tradição.

Um dos últimos sobreviventes desta família, mais conhecido como “João do Regueiro”, tinha o nome do seu avô, João Pereira do Regueiro, falecido em 12 de setembro de 1879. A sua esposa, Ana Rosa da Silva, “moradora em Sobrosa” enviou e pediu um “inventário de menores por óbito” de seu marido. Cf. (Arq. Distrital de Viana do Castelo, 1879-01-01).

A história da criação dos “moinhos de água” circunscreve-se ao século X  que, conjuntamente, com a introdução de outros cereais, rejuvenesceram a população ativa, aumentando a sua população. A influência dos árabes, na introdução do arroz e outros cereais e frutos, teve a sua influência. Na Idade Média, os “moinhos de água” são uma peça chave na alimentação das suas gentes, já que o pão era, muitas vezes, a base essencial da sobrevivência.

Em 1858, surge um "Auto de Querela" contra José Pinto Taxeiro, morador na freguesia de Gondarém, Vila Nova de Cerveira, «por causa de ter em seu poder a chave que tinha furtado ao moinho da Pequena, uma gazua e um ferro com asa e respetivo cabo». Processo, vindo do Tribunal Judicial de Caminha, em 2 de Abril de 2009. Cf. (Arq. Distrital de Viana do Castelo).

Aliados aos “moinhos de água” estão os casais, ou, pequenos núcleos de pessoas, que são responsáveis pelo antigo povoamento, oriundo da Idade Média. Nos “casais” medievais estavam os “foreiros”, ou “caseiros”, com várias famílias, que se tornavam “cabeças de casal”, sendo responsáveis pelos impostos ou rendas, quer dos senhores feudais, quer dos senhores eclesiásticos.

A antiga edificação da “Casa do Regueiro” remete-nos para velhas e antigas construções, que remontam aos períodos da Idade Média; quer pela sua proximidade aos moinhos de água,  quer pelo seu lugar altaneiro. A casa, edificada a meio de uma encosta, dominava todo o acesso aos vários moinhos da redondeza, cujo uso, posse e propriedade era de origem comunitária, ou, de alguns senhores da Quinta da Loureira.

O apelido, cognome ou alcunha de “Regueiro” deve-se, em nossa opinião, ao grande e extenso ribeiro de água, que jorra desde o alto de Mangoeiro até esta última encosta, tendo no meio do seu curso, um “baldio”. Por isso, o antigo “Casal do Regueiro”, cujas origens se fundem na Idade Média, tinha um “Cabeça de Casal”, cujo nome se transporta como identificação do local. Assim, as leiras e os “moinhos de água”  que rodeavam este “Casal”, cujo ribeiro corre sem nome, misturou-se, irmãmente, com “Regueiro”.

A simplicidade deste lugar e o seu natural bucolismo, com as suas encostas verdejantes e os seus moinhos, por onde serpenteia, caprichosamente, este extenso ribeiro, remete-nos para uma obra meritória de conforto e apoio aos órfãos de Gondarém. Por lei de 15 de outubro de 1827 são criados os inventários obrigatórios, cuja norma diz o seguinte: - «creando os Juizes de Paz em cada Freguezia ou Capella Curada». Assim, em 1839, surge a criação deste livro, com o seguinte registo: «Juízo de Paz e Órfãos da Freguesia de Gondarém», que é maioritariamente constituído por processos de inventário de menores”.  Cf. (Arq. Distrital de Viana do Castelo o1.01.1839)

A sua criação advém desde D. Manuel I, revogados por Carta Constitucional de 1826 “que introduziu os tribunais ou julgados de paz”. Estes “tribunais ou julgados de paz”, visavam defender os menores, evitar conflitos e assegurar a paz social. Posteriormente, a sua função conciliatória ficou regulada pela Lei 78/2001, de 13 de julho.  Estes inventários orfanológicos podem ser consultados, sob licença, no Tribunal Judicial de Caminha, ou, de Vila Nova de Cerveira. Em 1828, Brás António Gonçalves Outeiro foi eleito “Provedor da Santa Casa de Misericórdia” de Vila Nova de Cerveira, cargo que exerceu durante dois anos. E, segundo reza o seguinte documento: «Foi juiz de paz e órfãos da freguesia de Gondarém, em 1839 Brás António Gonçalves Outeiro.  Cf. (Arq. Distrital de Viana do Castelo, 1839).

quarta-feira, 24 de fevereiro de 2021

EUROPOLITIQUE: Os estuques da “Casa do Souto”, ou, "Casa dos Bicos" e a sua garagem de coches.

 

 

Casa do Souto, ou, Casa dos Bicos  (séc. XIX) 

Em 1866, o jornal “Commercio do Porto” anunciava que «a estrada de Vianna a Valença por Caminha está aberta ao transito em toda a sua extensão». Presume-se que a antiga estrada nacional (E. N. n.º 13), cujo traçado diverge do percurso atual, nesta localidade, tenha chegado ao alto da Mota, por volta do ano de 1860. Em Gondarém, descendendo em direção ao lugar de São Sebastião, em plena curva da antiga estrada nacional, situa-se a “Casa do Souto”, ou, “Casa dos Bicos”.  A  construção deste edifício, remonta, em nossa opinião, ao ano de 1864, divergindo da data do “Diário do Minho” de 22.03.2015. É, com a chegada da estrada nacional a Gondarém, que se desenvolvem algumas novas construções, ao longo do seu percurso, das quais se desataca a “casa das janelas triangulares", ou, em "bico".


A “Casa dos Bicos”, ou do “Casa do Souto”, insere-se no movimento da arquitetura romântica, que atinge o seu esplendor entre os anos de 1825 a 1875, com portas e janelas altas (neste caso, triangulares), varandas com sacadas em ferro fundido, jardins e estatuetas, cujo edifício se resguarda através de muros com grades e portão de ferro forjado, em estilo “Arte Nova”. Fazia parte do património desta casa um edifício, ao lado, que perdeu a sua originalidade.

 

 O último bastião da recolha e “garage” de animais “de trote”, ou seja, de coches, liteiras, ou, carroças puxadas a cavalo foi adaptado a casas de habitação. Este espaço de terreno, com as suas cochias, tinha muros gradeados e um portão de ferro forjado, cujas instalações faziam parte da “Casa do Souto”. Esta edificação, presumivelmente, servia de apoio e lenitivo às comitivas de trens a cavalo e seus transeuntes, que viajassem na estrada nacional (E.N. n.º 13). Ao seu lado, no lugar de Agoeiros, dispunham de uma hospedaria, ou “tabernae” que pertenceu a D. Maria Joaquina dos Santos, aquando das obras do Caminho de Ferro. Infelizmente, a cocheira foi ocupada com casas de habitação, na sua parte superior, ainda que permanecesse intacta até aos anos oitenta, do Século XX.


Foram necessários mais trinta anos, para que o primeiro automóvel entrasse em Portugal. Em 11 de outubro de 1895, o conde Jorge D’Avillez compra o primeiro automóvel da marca francesa “Panhard & Levassor”, e com uma velocidade 15 km/ hora,  atropelou um burro na estrada, (com a devida indemnização). A antiga garagem, cocheira e cavalariça da “Casa do Souto” remonta, presumivelmente, aos anos de 1865, tendo sido um edifício emblemático nas redondezas, funcionando como reduto de uma era, que as máquinas e os automóveis iam desmoronar.


Os seus tetos de estuque revelam uma beleza e cuidadosa decoração, que se deve ao laborioso trabalho artístico de alguns artesãos, oriundos de Vilar de Mouros. Mestre Antonino é um símbolo destes artistas, que viveu e casou em Gondarém, no lugar de Agoeiros. Cal e gesso eram os ingredientes naturais, mas as cores com pó na massa (amarelo, azul, ou, óxido de ferro para o vermelho), revelam saberes no ofício do “estuque de ornato” e suas artes decorativas, cuja mestria se associa ao talento do Mestre Antonino.

Obs.

(1)  Reportagem do “Diário do Minho”, suplemento “Património”: “A Casa do Souto, ou dos Bicos”, de 22 de março de 2015.

(2) "Commercio do Porto”, 30 de setembro de 1866, cf. Arquivo Municipal “Sophia de Mello Breyner”, Câmara de V.N. de Gaia.

(3) Para consulta futura: “Dos caiadores aos estucadores e maquetistas vilarmourenses”, vários autores, Vilar de Mouros, Caminha, 2009.

(4) «A casa do Souto mandada fazer pelo dr. Teotónio e sua mulher D. Maria, ele o mais distinto médico de Lisboa dos fins do séc. XIX e princípios de XX, foi legada ao seu afilhado José Manuel que casou com uma longínqua prima minha Mimi Silva, irmã da escultora Amélia Carvalheira, os herdeiros filhos do José Manuel venderam-na nos finais dos anos 70 ao engenheiro Alberto Mesquita recentemente falecido». (Testemunho do Dr. Álvaro Guerreiro)

sexta-feira, 19 de fevereiro de 2021

EUROPOLITIQUE: O Chafariz de "Santiago" na Quinta do Outeiral - Boega Hotel V.N.C.

 

Chafariz de "Santiago" na Quinta do Outeiral - Boega Hotel

Por volta dos anos de 1955, subia-se diretamente do "lugar da Sobrosa" para o "lugar do Couto", quando foi encravada no seu dorso, uma "piscina de pedra", por  obra e iniciativa da família Almeida Braga, para gáudio e deleite de antigos presidentes do Brasil, que visitaram esta quinta. O chafariz do séc. XVI, que embeleza esta propriedade, enquadra-se nos tempos dos "Caminhos de Santiago", sinalizando através das suas marcas, a autêntica via do seu percurso, até aos confins de Finisterra. A nível arquitetónico, o seu pedestal, em forma de irregular lago, apresenta uma "concha lateral", como símbolo da confirmação do percurso para os peregrinos de Santiago. Vários autores referem que nesta localidade existiu um albergue, ou, uma  "hospedaria", até mesmo, um hospital,  para as comitivas senhoriais, ou, simplesmente peregrinos ou romeiros que demandavam Santiago de Compostela.


Se o antigo "caminho da Igreja", n.º 1 da paróquia, assinalado em antigos "anais", se deixou ocupar por uma "piscina de pedra", para bel prazer de turistas, presume-se que o belo exemplar deste "chafariz medieval" continua a ser abastecido por idêntico aqueduto em arco, embora em local diferente. O abastecimento de água implicou o emprazamento de terras a montante, desde a nascente  até ao aqueduto de águas, erguido sobre o antigo caminho de Santiago. A obra deve-se a mestres canteiros, com habilidade para trabalhar o granito, dos quais urge salientar a família "Lopes", que durante os séculos XVI e XVII,  introduziram estas obras de arte, pelo Noroeste Peninsular; quer em Portugal, quer na Galiza.


Enquadra-se, portanto, esta "obra de arte", em pleno século XVI, como antigo  testemunho do abastecimento de água aos peregrinos, em direção a Santiago de Compostela. Este exemplar de chafariz, sob o cinzel do grande "mestre de cantaria"  João Lopes-o-Velho (1480-1556), certamente que  precedeu o "Chafariz de Caminha", obra com a qual atingiu o seu expoente de mestria em cantaria, já que "outros tinham sido erguidos", segundo rezam as crónicas da época. Ainda que , o "Chafariz da Praça de Viana", seja da sua autoria,  o seu acabamento deve-se ao seu filho, João Lopes-o-Novo.


O chafariz apresenta uma taça circular com coruchéu, onde se destacam conchas na sua base inferior, e, assenta sobre uma elevada coluna de granito lavrado. A base ou tanque, em forma de jarro ornamentado, também exibe  uma concha. A  queda de água  deu origem ao desgaste  da taça com coruchéu, formando uma bica, por causa da erosão. Estes elementos arquitetónicos remetem, naturalmente, para os símbolos dos peregrinos de Santiago. A “Concha de Santiago” era o símbolo do peregrino, elemento identificador  do seu caminho, e, prova fiel da devoção ao Apóstolo; cujos relevos exteriores da própria concha convergem para o único ponto de encontro - Santiago. Tal como,  “todos os caminhos levam a Roma”, toda a nova sinalética aponta e conduz a único ponto - Santiago. Além disso, o simples elemento da laje de granito na sua base, em forma de concha, simboliza a fecundidade e fertilidade que está associada à água; e, ao seu renascimento. 

Os albergues dos Caminhos de Santiago serviam como casa de acolhimento das comitivas senhoriais, ou, simplesmente de apoio aos peregrinos, onde encontravam alívio e descanso para as longas e penosas caminhadas; quer a pé, quer a cavalo. Os chafarizes saciavam a sede, refrescavam o corpo, e, consolavam o espírito da devoção e peregrinação. «Para o investigador Carlos A. Brochado de Almeida, esta casa poderá ter sido originalmente o antigo albergue para os peregrinos do Caminho de Santiago, que se atribui ao Paço do Outeiral» (Cf. Diário do Minho, Supl. Património, 15 de fev. 2015). Na reportagem anterior, o "Diário do Minho" de 02 fev.2015, evoca os Caminhos de Santiago, tal como surgem referências de outros autores, dos quais se destaca o jornalista Alfredo Castro Guerreiro - "Monografias do Concelho de Vila Nova de Cerveira - Freguesia de Gondarém", Edição da Câmara de V.N.C. 

Todavia, em nossa opinião, quer pelas marcas de conchas, quer por referências alusivas aos caminhos do Apóstolo, a principal evidência radica-se no "Chafariz de Santiago". Além disso, com a elegância deste chafariz das conchas de Santiago, convém salientar na década de sessenta do séc. XX, a construção dos três portais de granito, que embelezam a Quinta da Boega ou Outeiral, cuja autoria se deve ao grande "mestre de cantaria", José Abreu de San Petri Gondarém.

A Concha de Santiago  
N.B.
Como relata este documento, outros chafarizes precederam a construção deste grandioso fontanário em Viana do Castelo: «A 12 de julho de 1553, em ata de reunião da Câmara, [os vereadores] acordaram chamar o pedreiro João Lopes, 'por ser o melhor oficial que agora há nesta terra e experimentado por ter feito outros muitos chafarizes e por saber trazer as águas de onde é necessário'; acordaram que fizesse um chafariz novo como fez o de Caminha, 'e melhor se melhor se puder fazer', tirasse todos os canos rotos e quebrados até à 'arca' existente no Campo de Valverde »


 




sexta-feira, 12 de fevereiro de 2021

EUROPOLITIQUE: Pequenos lugares com história: a "Fonte da Carranca" em San Petri Gondarém - V.N.C.

 

Fonte da Carranca no lugar do Couto - San Petri Gondarém

Numa encosta íngreme e decorada com uma “cara de pedra”, a «Fonte da Carranca”, arrebita para o lugar da «Coriscada», sem qualquer pudor ou vergonha, na sua natural exuberância. Nascente de água fértil, ladeiam esta “carranca”, duas singelas conchas esculpidas ao lado da sua “cara de pedra”, ligeiramente esbatidas, que fazem apelo aos “Caminhos de Santiago”; a cuja fonte, nenhum romeiro resistia, em pleno Verão, tanto, à frescura de tão precioso líquido, como, a este refrescante lugar. O uso da água, este “bem comum” de direito consagrado, que para os romanos tinha enorme valor, dos quais nos recordamos com as suas termas, esmoreceu durante parte da Idade Média. Somente, a partir do século XIV, em Portugal, se começa a valorizar estas nascentes de água, suas estruturas e chafarizes, tão importantes para a vida das pessoas, deixando de consumir a água dos ribeiros. Aliás, hábito e costume que perdurou até metade do século XX, em certos locais de San Petri Gondarém. A água canalizada era um “luxo”, ao qual nem todos tinham acesso; por isso, os "cântaros e as cantarinhas", como as suas "bilhas de água",  faziam as delícias das moçoilas que iam à fonte.

 

Desconhece-se, se Duarte de Armas e seu escudeiro, no seu “Livro das Fortalezas” (1509-1510) omitiu a referência às fontes de Santiago, ou, até, à simples «Fonte da Carranca”, nos seus relatos históricos para o rei D. Manuel I.  Parte deles, perderam-se na sua rápida viagem, através do Reino, e entre Caminha e Valença; ainda que, não esqueça de referenciar a fortaleza de Cerveira, e, elogiar os benefícios do fontanário valenciano ("fonte da vila"). Todavia, a singeleza desta “Fonte da Carranca”, de cuja história resta pouca memória, não se pode dissociar da casa senhorial que domina a colina do lugar do Couto, em que está inserida, já que os senhores medievais e clérigos detinham os direitos sobre as águas dos seus territórios, no entanto, aberta à passagem dos peregrinos.

 

No alto do morro do lugar do Couto predomina uma casa senhorial de estrutura granítica, com amplas janelas, que é um “ex-libris” de segurança. Não é qualquer tiro de canhão que derruba as grossas paredes de granito desta estrutura. Aliás, nenhuma parede de alvenaria, nas redondezas, rivaliza com a dupla fachada de pedras de granito que se erguem, quer no seu lado interno, quer no seu lado externo. Autêntica fortificação, “domus fortis”, ou, casa forte, tanto pode remeter para as construções medievais dos senhores do século XIII, fazendo jus a qualquer antigo “couto”, que perdura na sua toponímia, como também, a qualquer habitação de gente rica e abastada do século XVI.

 

Descendendo desta antiga casa senhorial, por uma estreita escadaria, encontra-se esta singela “bica de água” em granito lavrado, com a sua carranca, e, duas conchas esbatidas pela erosão, por onde jorra um contínuo fluxo deste precioso líquido, oriundo do encanamento de nascente de uma fraga, que, infelizmente, foi substituída por um tubo plástico. As nascentes de água e suas fontes deram origem à fixação dos seus habitantes e moradores. O conjunto de nascentes de água de Gondarém é vasto, mas nenhuma detém esta simbologia; (sem esquecer as antigas "tabuletas" de rega). A "cara de pedra", ou "carranca" simboliza a máscara. Na tradição viking, a carranca era utilizada, na proa dos seus barcos, como meio de afugentar os maus espíritos das águas dos rios. Deste modo, a "carranca" está associada às águas e suas fontes, e, ao poder oculto dos seus benefícios e sortilégios.



 

EUROPOLITIQUE: Recordando "Platero y Yo" ....Juan Ramón Jiménez

  Na minha tenra idade escutava os poemas de “ Platero y yo” , com uma avidez e candura própria da inocente e singela juventude, que era o ...