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sexta-feira, 12 de fevereiro de 2021

EUROPOLITIQUE: Pequenos lugares com história: a "Fonte da Carranca" em San Petri Gondarém - V.N.C.

 

Fonte da Carranca no lugar do Couto - San Petri Gondarém

Numa encosta íngreme e decorada com uma “cara de pedra”, a «Fonte da Carranca”, arrebita para o lugar da «Coriscada», sem qualquer pudor ou vergonha, na sua natural exuberância. Nascente de água fértil, ladeiam esta “carranca”, duas singelas conchas esculpidas ao lado da sua “cara de pedra”, ligeiramente esbatidas, que fazem apelo aos “Caminhos de Santiago”; a cuja fonte, nenhum romeiro resistia, em pleno Verão, tanto, à frescura de tão precioso líquido, como, a este refrescante lugar. O uso da água, este “bem comum” de direito consagrado, que para os romanos tinha enorme valor, dos quais nos recordamos com as suas termas, esmoreceu durante parte da Idade Média. Somente, a partir do século XIV, em Portugal, se começa a valorizar estas nascentes de água, suas estruturas e chafarizes, tão importantes para a vida das pessoas, deixando de consumir a água dos ribeiros. Aliás, hábito e costume que perdurou até metade do século XX, em certos locais de San Petri Gondarém. A água canalizada era um “luxo”, ao qual nem todos tinham acesso; por isso, os "cântaros e as cantarinhas", como as suas "bilhas de água",  faziam as delícias das moçoilas que iam à fonte.

 

Desconhece-se, se Duarte de Armas e seu escudeiro, no seu “Livro das Fortalezas” (1509-1510) omitiu a referência às fontes de Santiago, ou, até, à simples «Fonte da Carranca”, nos seus relatos históricos para o rei D. Manuel I.  Parte deles, perderam-se na sua rápida viagem, através do Reino, e entre Caminha e Valença; ainda que, não esqueça de referenciar a fortaleza de Cerveira, e, elogiar os benefícios do fontanário valenciano ("fonte da vila"). Todavia, a singeleza desta “Fonte da Carranca”, de cuja história resta pouca memória, não se pode dissociar da casa senhorial que domina a colina do lugar do Couto, em que está inserida, já que os senhores medievais e clérigos detinham os direitos sobre as águas dos seus territórios, no entanto, aberta à passagem dos peregrinos.

 

No alto do morro do lugar do Couto predomina uma casa senhorial de estrutura granítica, com amplas janelas, que é um “ex-libris” de segurança. Não é qualquer tiro de canhão que derruba as grossas paredes de granito desta estrutura. Aliás, nenhuma parede de alvenaria, nas redondezas, rivaliza com a dupla fachada de pedras de granito que se erguem, quer no seu lado interno, quer no seu lado externo. Autêntica fortificação, “domus fortis”, ou, casa forte, tanto pode remeter para as construções medievais dos senhores do século XIII, fazendo jus a qualquer antigo “couto”, que perdura na sua toponímia, como também, a qualquer habitação de gente rica e abastada do século XVI.

 

Descendendo desta antiga casa senhorial, por uma estreita escadaria, encontra-se esta singela “bica de água” em granito lavrado, com a sua carranca, e, duas conchas esbatidas pela erosão, por onde jorra um contínuo fluxo deste precioso líquido, oriundo do encanamento de nascente de uma fraga, que, infelizmente, foi substituída por um tubo plástico. As nascentes de água e suas fontes deram origem à fixação dos seus habitantes e moradores. O conjunto de nascentes de água de Gondarém é vasto, mas nenhuma detém esta simbologia; (sem esquecer as antigas "tabuletas" de rega). A "cara de pedra", ou "carranca" simboliza a máscara. Na tradição viking, a carranca era utilizada, na proa dos seus barcos, como meio de afugentar os maus espíritos das águas dos rios. Deste modo, a "carranca" está associada às águas e suas fontes, e, ao poder oculto dos seus benefícios e sortilégios.



 

terça-feira, 9 de fevereiro de 2021

EUROPOLIQUE: Pequenos lugares com história, em São Pedro de Gondarém - V.N.C.

 

Pequeno fontanário  -  Capela de São Sebastião
Na confluência de dois pequenos ribeiros das águas do Monte Goios, cuja evidência se manifesta em invernos rigorosos e chuvosos, destaca-se o escondido lugar de Agoeiros, em Gondarém. Os fluxos e refluxos de água nascente e renascente, e, a sua sintomática hidrografia, deram origem ao homónimo Manuel Lourenço Agoeiros, casado com Luísa Fernandes, em 15 de agosto de 1746, em São Pedro de Gondarém, segundo o registo de casamentos desta paróquia, referente aos anos de 1721 a 1812 (Cf. Arq. Distrital de Braga). (1)


Alvitra-se, que das famílias “Lourenço”, de cujo embrião são oriundos alguns clérigos, surgiu este homem, encarregado de guardar o "precioso líquido" em dias estivais, ou, também de zelar pelo cultivo das suas hortas adjacentes, que deram origem ao negócio de uma “loja”, ou, à “taberna”, pertencente a Maria Joaquina dos Santos, natural de Seixas, casada com José Manuel Peres. Na condição de viúva, Maria Joaquina casa-se com o empreiteiro transmontano Manuel António Carvalho, em 1878. Desta geração surge Engrácia da Luz dos Santos que contrai matrimónio com José Rodrigues de Oliveira. Em 1895, nasce Mário da Luz dos Santos Oliveira, casado com a francesa Olga Marie Hess Taron (1899-1986). Da família Taron destaca-se o Engenheiro Mário Oliveira Taron e seu filho Tiago Taron, advogado, que criaram, recentemente,  a “ResidencialAlminha”, no lugar de Agoeiros, em plena antiga estrada nacional. Este título e as recordações envoltas nestes nichos, de devoção cristã e popular, fazem relembrar as “Alminhas do Pedroso”, cujos poemas são da autoria da poetisa Rosa Varela, falecida no século XX. Apesar das vicissitudes do tempo parece que esta “casa” pretende retornar aos velhos hábitos da antiga hospedaria.


Em 1860, com a chegada da estrada nacional (E.N. n.º 13), a “tabernae” de D. Maria Joaquina dos Santos, transformou-se numa “estalagem” , ou, hospedaria, dando apoio ao numeroso grupo de trabalhadores dos Caminhos de Ferro, na construção do túnel, em granito, no lugar  da Mota. “A água mata a sede, mas não mata as amarguras”.  Bem, ao lado, na Capela de São Sebastião, o santo da “resignação e do sofrimento”, ergue-se um pequeno fontanário, cujo "pipo" não remete para as alegrias de Baco, nem para qualquer caneco; mas, para uma simbologia secular, cujas lembranças pertencem aos pastores de “cajado na mão” e seus rebanhos, através do monte de Goios; sem esquecer a nostalgia dos ritos funerários dos romanos.


N.B.
(1) Mais tarde surge João Domingos Agoeiros, casado com Maria de Ajuda (até ao ano de 1867) tendo falecido, em 01.01. 1872. Seu filho António Domingues Agoeiros pede um "inventariado de menores" em 01.01.1873. (Arq. Distrital de Viana do Castelo).
(2) Eng. Mário Oliveira Taron; (1933-2016), filho do engenheiro Mário da Luz dos Santos Oliveira (criador das empresas "Electro Moderna" e "Electro Olivença", no Porto), e da francesa Olga Marie Hess Taron, descendente do alemão Joseph León Taron, e, da francesa Cathérine Hess.

sábado, 30 de janeiro de 2021

EUROPOLITIQUE: «Memórias do passado" de São Pedro de Gondarém

No final do século XIX, a maioria dos países europeus tinha alfabetizado os seus habitantes, enquanto que existiam 78,6% de analfabetos em Portugal. Com a expulsão dos jesuítas, em 1759, gerou-se um certo vazio geral na educação do Reino, apesar da criação de centenas de escolas por “Carta de Lei de 06.11.1772”. As invasões francesas e as suas tropas, que passaram pelas terras minhotas, afugentaram a Família Real para o Brasil (1807-1811), dando origem à luta pelo poder político, em Portugal, que tão bem transcreve Camilo Castelo Branco nas suas “Novelas do Minho”. Apesar de um certo anticlericalismo literário, as vocações religiosas floresceram nestas terras do rio Minho, e, de Braga, em que se quedam registadas 35.000 inquirições de "genere vita et moribus", nas quais se inscrevem os pedidos de "São Pedro de Gondarém".


São Pedro de Gondarém tornou-se uma coutada de vocações religiosas, ávidas do ensino, e, norteadas pelos ideais religiosos. Alvitra-se que existiu uma "escola de latim" na abastada "Casa Gouvim" da família Guerreiro, apoiando este movimento de vocações para o clero secular - paróquias, ou, para o clero regular - ordens religiosas.  É, após o concílio de Trento (1547-1563), que se dá uma autêntica rutura entre a “igreja medieval” e a “igreja dos tempos do Renascimento”, já bem perto do século XVII, de renovada literacia na Igreja.  Em 1571, Frei Bartolomeu dos Mártires criou o seminário de Braga. Os registos de genere" (candidatos ao sacerdócio) do "Arquivo Distrital de Braga" surgem desde o ano de 1616 até ao ano de 1911 (ano da criação do Registo Civil pela República, com os seus 75% de analfabetos). Neste tempo, no lugar do Calvário de Gondarém funcionava uma escola pública, (aliás, estas são fruto da Revolução Francesa).


“Dinheiro e recibos” faziam parte destes pedidos dirigidos ao Bispo, ou, à Mitra, cujo "processo de habilitação" era condição da prerrogativa de “prima tonsura”, além de outas concedidas pelo poder régio (isenção do serviço militar). Como marco desta geração de candidatos, que se enraízam nas terras de  São Pedro de Gondarém, de onde são naturais, elaborou-se esta cronologia. 

O processo de habilitação iniciava-se com a petição do habilitando dirigida ao Bispo da diocese de Braga, onde constava a filiação, a naturalidade dos pais, os nomes e naturalidade dos avós paternos e maternos, cuja lista deve a sua origem a São Pedro de Gondarém (1635 - 1911), segundo esta cronologia do “Arquivo Distrital de Braga”.

Século XVII

1653 – Francisco de Sá Ferraz (02.12.1653) – padre

1690 - Luís Sousa Silva (20.04.1690).

Século XVIII

1703 – Francisco Afonso (05.01.1703)

1708 – João da Silva Vale (27.01.1708)

1713 – Domingos Domingues Levado (20.10.1713)

1725 – João Alves (22.08.1725)

1730 – Domingos Mota (11.02.1730)

1732 - João Domingues da Mota (11.02.1732)

1732 - João Domingues Carneiro (18.07.1732

1732 – João Marcos (28.11.1732)

1733 – João Costa Rubio (22.04.1733)

1734 - João Lourenço (19.04.1734)

1735 – Manuel Barbosa Coelho (22.04.1735) – padre

1744 -  António Quaresma (01.01.1744) - padre e desembargador (Peniche).

1748 - João Francisco (26.03.1748)

1754 – Domingos Lourenço Feital (22.07.1754)

1755 – João António Lagos (03.03.1755).

1755 - João Manuel (15.02.1755)

1760 – João Lourenço Lobato (05.05.1760)

1762 – João Pereira (29.07.1762) – padre

1774 – João Alves (14.10.1774) - padre

1778 – António João (15.04.1774) – presbítero secular

1778 – Sebastião Luís Feital (19.06.1778) - padre

1778 – Pedro António da Cunha (25.08.1778)

1783 – Manuel João Lourenço Guerreiro (20.02.1783)

1783 – João Rodrigues Pereira (22.09.1783) – padre

1785 – João Alvares Moledo (12.09.1785)

1786 – Bernardo Fialho de Mendonça e Andrade (13.03.1786)  - padre

1786 - João Lourenço Feital (Minas Gerais) - Cónego da Sé Mariana -Br.

1786 - Sebastião Luís Feital

1787 – João Manuel Guerreiro (30.05.1787)

1790 – António João Outeiral (29.05.1790) – padre

1792 – João Manuel Araújo (22.08.1792)

Século XIX

1804 – Basílio António Ramalhosa (06.03.1804)

1809 – Bernardo José Guerreiro (22.02.1809)

1812  -  João Manuel de Sousa Guerreiro (06.03.1812)

1817 – José Benedito Barbosa Andrade (23.07.1817)

1819 – João Crisóstomo Guerreiro Amorim  Pereira (23.11.1819) (+05.10.1855).

1821 – Manuel Gonçalves Barroso (12.03.1821)

1822 – João Manuel Outeiro (01.06.1822)

1829 – João Pereira (22.01.1829)

1832 – Francisco Alves Linhares (23.03.1832)

1843 – José Martins Araújo (19.10.1843)

1877  -  Manuel Franco Pedra (10.01.1877) - Pároco em San Petri Gondarém (V.C.)

1899 - João Caetano Afonso Ribas  (o1.01.1899)- Pároco em San Petri Gondarém

1889 – Alfredo José Marins Guerreiro (15.01.1889)

1889 – Inocêncio Carmo Martins Guerreiro (28.02.1889)

1889 – Luís Maria Gonzaga Barbosa (11.03.1889)

1908 - José Teixeira de Andrade (01.04.1908) - Pároco em San Petri de Gondarém.


N.B.

«Processos necessários para a ordenação de párocos. Consistem na inquisição de testemunhas para comprovar a filiação, reputação, bom nome ou “limpeza de sangue” do requerente. Incluem os seguintes documentos: requerimento inicial, carta de comissão, inquirições de genere a testemunhas e declarações dos párocos. Estão incluídos nesta série processos de Justificação de Fraternidade que são requeridos quando há, na família, alguém ordenado e com inquirição de genere elaborada e concluída». (Arq. Distrital de Braga, 1616).

P.S.

Atualmente, a arquidiocese de Braga abrange 551 paróquias, com cerca de 850.000 habitantes; a diocese de Viana do Castelo possui 291 paróquias, com cerca de 250.000 habitantes. (Ou seja, a zona da ribeira Lima/ Minho, que da Galiza do Norte se afastou, tem 1/10 dos seus habitantes, ou seja, dos 2 698.718 galegos).

terça-feira, 26 de janeiro de 2021

EUROPOLITIQUE: A "Capela de SÃO TOMÉ" em Gondarém - V.N.C.

 



Em pleno século XVI, é «atribuído o título de Igreja de “São Pedro de Mangoeiro” (Gondarém)», conforme (Arq. Distrital de Braga, 08.01.1549). A referência mais correta, em nossa opinião, recai sobre a atual paróquia de Gondarém, neste caso, São Pedro de Gondarém. A consagração deste “título” encerra a obrigação de constituir um arquivo, ou, um “tombo”, ou seja, um “livro de registos” acerca dos acontecimentos mais solenes da paróquia, incluindo: batismos, casamentos, óbitos e testamentos.


(Portanto, desde o século XVI, que os registos de identificação dos cidadãos pertenciam à Igreja, até ao funcionamento do Registo Civil, a partir de 19 de fevereiro de 1911). Outra referência, reafirma que «em 1546, São Pedro de Mangoeiro, a atual Gondarém, encontrava-se inserida na Terra de Vila Nova de Cerveira e Comarca Eclesiástica de Valença, rendendo 70 mil réis» (Arq. Distrital de Viana do Castelo). Nesta época, a freguesia encontrava-se dividida entre duas igrejas e dois intervenientes: os “senhores eclesiásticos”, aos quais pertencia a capela de Mangoeiro, e, a outra “sem cura”, abadia/padroado, que dependia de um patrono ou “padroeiro" e dos seus “senhores leigos”, ou seja, São Pedro de Gondarém.

 

A antiguidade da igreja paroquial, como também da capela de Mangoeiro, remonta a épocas anteriores, em nossa opinião, ao século X. Os manuscritos referem que «em 1258, (com) o nome Mangoeiro é citada na lista das Igrejas de Entre Lima e Minho, que pertenciam ao bispado de Tui». Alvitra-se, portanto, que a constituição, desta ermida de Mangoeiro, remonte a séculos anteriores, com pertença assumida à diocese de Tui, e, posteriormente à Colegiada, ou, Cabido de Valença, sem menosprezar a influência do Convento de Oía, na Galiza.


Duas nascentes de água delimitam esta colina, em cujo centro surge a atual capela de São Tomé, em lugar altaneiro. A quinta da “Fonte Fria”, antiga casa de lavoura, afirma-se como um casal - “casal de Mangoeiro” - que pagava “honras”, ou “dízimos” ao Cabido de Valença, ainda, em pleno século XVIII, segundo esta. «sentença de emprazamento de três vidas do casal de Mangoeiro, sito na freguesia de Gondarém e foreiro ao Cabido de Valença a favor de João Domingues e sua mulher e mais consortes» (Arq. Distrital de Braga, 16.11.1768). Ainda que a noção de “casal”, em plena Idade Média, rondasse cerca de trinta pessoas, neste século significava um aglomerado de pessoas, às quais estava circunscrito o direito do foro e pagamento de taxas à Igreja. Diz-se que a freguesia de Gondarém surge "lá do alto" de Mangoeiro, desde os tempos dos “rebanhos e criação de gado”, escondendo-se dos romanos e dos bárbaros, após a época castreja. Ou seja, os primitivos habitantes transitam da pequena colina do "antigo castro" para um lugar mais altaneiro, o lugar de Mangoeiro.


Alvitra-se que a desaparecida "antiga igreja", «ecclesia  Mangoeiro»,  tivesse sido construída em madeira, já que, através dela se revela a existência manuscrita de um abade, e, de rendimentos associados, da qual não perduram vestígios arqueológicos.. «A Idade Média foi o mundo da madeira, que era nesse tempo o material universal de construção». (1) 


Em pleno século XV, faz-se referência ao que «diz respeito à existência de um hospital, já que em 21 de Fevereiro desse ano (1474), a pedido do concelho e homens da vila, D. Afonso V, autorizou por Provisão que o dito hospital “por ser muito pobre e falecido das coisas necessárias” pudesse aceitar uma doação que lhe desejava fazer o Abade de Mangoeiro (lugar da freguesia de Gondarém) Álvaro Dias». Três anos depois, «a escritura de tal aceitação foi lavrada então a 7 de outubro de 1477, no Mosteiro de Santa Maria de Loivo». (Cf. História da Misericórdia de V.N.C, fev. 2017).


A figura do benemérito Abade Mangoeiro, Álvaro Dias, torna-se uma personagem medieval desta localidade, quer pelo seu espírito de generosidade, quer pelo seu poder de influência junto das instâncias reais, cuja benevolência lhe advém de qualquer cargo apostólico, ou, de linhagens familiares. Todavia, o "orago e padroeiro" desta localidade que tem no apóstolo São Tomé a sua inscrição e vinculação, apesar de não surgir em nenhum manuscrito.  A "devoção popular" impôs-se através deste santo, São Tomé, que lhe consagra o dia da sua festividade, em 15 de agosto.


Assim: «já a caminho da Freguesia de Sopo, no lugar do Mangoeiro, encontramos uma bela e pequena capela, a Capela de São Tomé. Graças à sua localização, a partir deste local podemos vislumbrar uma grande área do Rio Minho e do seu estuário, bem como as Ilhas dos Amores e Boega». (Cf. : JF de Gondarém)

OBS.
(1) «A Idade Média foi o mundo da madeira que era nesse tempo, o material universal de construção. Mas, muitas vezes, era madeira de má qualidade; e, de qualquer modo, existia só em peças de pequenas dimensões e mal trabalhadas» LE GOFF, Jacques "A Civilização do Ocidente Medieval",  (original 1964),  pg. 251, Vol. I,  Ed. Estampa, 2.ª Ed., Lisboa, 1995.

(2) «Algumas abadessas eram autênticos senhores feudais, cujo poder era respeitado de modo igual ao dos outros senhores feudais; algumas usavam báculo, como o bispo; administravam muitas vastos territórios com aldeias, paróquias... (...) a vida de uma abadessa na época comporta todo um aspeto administrativo: as doações acumulam-se, permitindo aqui receber o dízimo sobre uma vinha, ali o direito a foros sobre fenos ou trigos, aqui usufruir duma granja e ali dum direito de pastagem na floresta...». PERNOUD, Régine "O Mito da Idade Média, pg. 95, Publicações. Europa-América, Lx. 1989.

(3) Em 1210, regista-se o rendimento em dinheiro, como título dos benefícios que o Bispado de Tui tinha, no Reino de Portugal, sobre a «Ecclesiam Sancti Petri de Mangoeiro ad septuaginta et quinque libras», ou seja, 75 libras. (Cf. Registos dos Benefícios (séc. XIII / XIV), cf. "História Religiosa" de Stéphane Boissellier.


(Vide) Diário do Minho: Suplemento/Património (01.06.2014) "Capela de São Tomé terá recebido a sede da paróquia de Gondarém ( "igreja matriz" de São Pedro). 

N.B. 

Na Galiza existe o seu hormônio galego “San Tomé de Mangoeiro”, com a sua igreja, no concelho de Toque, Província da Corunha.

sábado, 23 de janeiro de 2021

Europolitique: O "Padroado" da Igreja e Abadia de São Pedro de Gondarém

 


Igreja paroquial de Gondarém - V.N.C.

Em 1580, como relata o Arquivo Distrital de Viana do Castelo, “São Pedro de Mangoeiro” encontra-se “partido em duas partes, a sem cura (que) é do Arcebispo e a com cura de padroeiros leigos”, referindo-se às duas igrejas existentes neste território. Pouco a pouco, “São Pedro de Gondarém” começa a adquirir a sua identidade e independência, apesar da sua anterior constituição, ou seja, em 1258  ao (bispado de Tui), e em 1320, segundo o censo de D. Dinis. O antigo lugar do “Passal”, junto à Igreja, remete para uma antiga abadia, que caracterizava este padroado, que na extensão dos seus terrenos se juntava aos “Caminhos de Santiago”, onde se albergavam graciosamente as comitivas reais.

Durante vários séculos, a igreja ou abadia, melhor dizendo, este “Padroado”, incluía várias casas (por exemplo: casa senhorial, casa de lavoura e dos caseiros), e diversos terrenos, que estavam dependentes dos “senhores leigos” e dos “senhores eclesiásticos”. No transitar do século X, presume-se que surguissem os senhores detentores destes  territórios, que administram em colaboração com a coroa: as ditas “honras”. (Mais tarde surgem os padroados, por intervenção de D.João III, a partir do ano de 1532).

Em relação ao “Padroado” de Gondarém presume-se, que metade dos seus rendimentos eram distribuídos, equitativamente, quer pela Igreja (“senhores eclesiásticos”: padre, abades, notários apostólicos), quer pelos “senhores leigos” (Cerveira, Pereira e outros), apesar dos seus conflitos e litígios sobre a fundação e sobre os direitos de propriedade. Os “senhores leigos, que se constituíam como fundadores do Padroado usufruíam do direito de "fazer justiça", de aceitação e apresentação do seu padre perante o bispo, em que transitavam “rendas, títulos e benefícios”

Certos historiadores defendem que na Idade Média, a instituição mais rica da Europa era a Igreja Católica, detentora de 2/3 das terras. Desde Dona Teresa que muitas doações eram feitas a igrejas, abadias, conventos e mosteiros. Todavia os “negócios” entre os “senhores eclesiásticos”, por vezes, “bispos de espada na mão”, e, os “senhores leigos”, nobres e fidalgos da Corte, mantiveram um equilíbrio, cujo caso exemplar reverte neste padroado. Os seus pergaminhos davam origem à constituição de “títulos”, ou, “benefícios” que engrandeciam os seus detentores ou personagens.  As contendas davam origens a sentenças cíveis, ou, episcopais, quer a favor dos “senhores leigos”, quer na sua afirmação de titularidade eclesiástica, caso do “notário apostólico”, em 1603. Por isso, exemplificam-se algumas dessas situações:

 

Os títulos do Padroado:

 Em.1603, o “notário apostólico”, Pero Guimarães  Pereira, morador na freguesia de Gondarém, decide construir a Capela de São Sebastião. (Arq. Distrital de Braga, 12.08.1603).

Em.1661, pedido de «título da abadia de São Pedro de Gondarém, da comarca de Valença, a favor do Reverendo Bento Maciel de Araújo, clérigo de missa, natural de Sa…(Sapardos)., comarca de Valença. (Arq. Distrital de Braga, 22-12.1661)

Em 1738, pedido de «registo do título paroquial igreja e abadia de São Pedro de Gondarém, a favor do Padre Sebastião Pita de Castro, da vila de Caminha, comarca de Valença». (Arq. Distrital de Braga, 10.12. 1738).

Em 1745, pedido de «título e mandado de capienda possessione da paroquia igreja de São Pedro de Gondarém, a favor do Reverendo João Lobo Barreto, sacerdote da vila de Caminha. (Arq. Distrital de Barga, 14.07.1745

Em 1780, pedido de «título da Igreja Abadia sem cura de São Pedro de Gondarém a favor do Reverendo Manuel José Leite Pereira, desembargador na Relação desta Corte». (Arq. Distrital de Braga, 27.10.1780)

Em 1803, pedido de «título da Igreja de São Pedro de Gondarém a favor do Reverendo António Pedro Pacheco» (Arq. Distrital de Braga, 29.11.1803).

Em 1823, pedido de «título da paroquial igreja abadia de São Pedro de Gondarém da comarca de Valença, a favor do Reverendo José Maria Pacheco, da freguesia de Santa Eulalia de Barrosas, Lousada. (Arq. Distrital de Braga, 01.09.1823

Em  1839  é constituído o «Juízo de Paz e Órfãos da Freguesia de Gondarém (Vila Nova de Cerveira). Cf. (Arq. Distrital de Viana do Castelo, 01.01.1939).

Em 1911, na separação da Igreja/Estado é elaborado o "arrolamento dos bens culturais situados na freguezia de Gondarém, concelho de Vila Nova de Cerveira, constado de: Igreja Paroquial de Gondarém, Capela do Santuário do Calvário, Capela de São Tomé e São Sebastião», pelo Ministério da Justiça e dos Cultos»   (Arq. Nacional Torre do Tombo, 18.07.1911, Liv. 92, fl.142-156). Cf. (Arq. Distrital de Viana do Castelo)

Em 1928, Retificação do arrolamento anterior, em que se faz referência a uma casa ao lado do Calvário, que: «está arrendada para a escola da freguezia de ensino oficial e rende anualmente dezasseis escudos». (Arq. Nacional da Torre do Tombo, 15.03.1928)

 Os benefícios do Padroado

 Em 1716, pedido de «título do benefício simples sem cura de São Pedro de Gondarém, comarca de Valença, a favor do Reverendo Reitor Luís Alves de Figueiredo, Bispo hispalense e nosso Coadjutor» (Arq. Distrital de Braga, 16.09.1716)

Em.1751, «título de benefício simples da Abadia sem cura de São Pedro de Gondarém da Comarca de Valença, a favor do Reverendo Padre António Pedro Pacheco». (Arq. Distrital de Braga, 02.03.1751)

Em 1766, «registo de carta de capelão de um benefício simples na igreja de São Pedro de Gondarém, a favor do Padre João Alves, da dita freguesia, pelo tempo de um ano» (Arq. Distrital de Braga. 11.03.1766).

 Sentenças sobre o Padroado

Em 1648, Francisco Pereira da Silva (terceiro morgado da Casa de Bertiandos) moveu um processo cível contra o “Padroado” de São Pedro de Gondarém, “readquirindo” o título de “padroeiro”, por afinidades familiares. (Esta reivindicação não deve estar isenta do papel exercido pelo “notário apostólico” Pero de Guimarães Pereira, que erigiu a capela de São Sebastião, em 1603). (Arq. Distrital de Braga, 01.04.1648)

Em 1768, «sentença de emprazamento de três vidas do casal de Mangoeiro, sito na freguesia de São Pedro de Gondarém e foreiro ao Cabido de Valença, a favor de João Domingues e sua mulher e mais consortes» (Arq. Distrital de Braga, 16.11.1768).

Em 1783, «sentença apostólica e título de provisão de um benefício simples sito na igreja abadia de São Pedro de Gondarém, a favor do ilustríssimo Dom José de Almeida, cidade de Lisboa. (Arq. Distrital de Braga, 10.05.1783)                                                                                                                               

 Foreiros do Padroado

Aparecem, somente, três registos de foreiros, com a mesma data:

Em 1790, «prazo do meio Casal de Cima, sito na freguesia de São Pedro de Gondarém, Comarca de Valença, foreiro a mesma igreja, a favor de Benta Lourença, viúva de João Domingues, do lugar de Lagos, da mesma freguesia.  (Arq. Distrital de Braga, 04.05.1790)

Em 1790, «prazo do assento da Igreja de São Pedro de Gondarém, Comarca de Valença, foreiro a mesma Igreja, a favor de José Fernandes e sua mulher Maria Lourença, do lugar das Castanheiras, da mesma freguesia» (Arq. Distrital de Braga, 12.05.1790)

Em 1790. «prazo do casal do Assento da Igreja de São Pedro de Gondarém, Comarca de Valença, foreiro a mesma Igreja, a favor de Maria Lourenço, viúva de João Domingues Novo, do lugar do Ramilo, da mesma freguesia (Arq. Distrital de Braga, 13.05.1790).

  Pecadilhos do Padroado

Em 1611, surge uma «provisão de dispensação de Gonçalo do Vale, filho de presbítero et soluta, da freguesia de São Pedro de Gondarém, Comarca de Valença (Arq. Distrital de Braga, 1611-12-04). 

Em 1762, surge um «registo de provisão a favor de Maria Pereira, estalajadeira, do Campo da Vinha, para poder obrigar e demandar o Padre João Pereira, de Gondarém, comarca de Valença nesta Corte, perante o Vigário Geral. (Arq. Distrital de Braga, 29.07. 1762, São João do Souto, Braga).

Em 1783, surge uma «licença a favor do Padre Rodrigues Pereira, da freguesia de Gondarém para poder ter em sua companhia António, seu filho (Arq. Distrital de Braga, 22.09.1783).

Em 1820, "Autos de Querela" contra o abade da freguesia de Gondarém, António Pedro Pacheco, e  João Crisóstomo Guerreiro de Amorim Pereira, "Cónego da Sé", "por ter injuriado o autor (da queixa), declarando, em público, que se encontrava excomungado". Cf. (Arq. Nacional da Torre do Tombo).

Em 1839, "auto de querela contra os padres Sebastião Pereira Leite e António Pereira Leite, moradores em Gondarém, "por ofensas corporais, com ferimento", contra o padre frei José da Conceição, filho de Maria Lourença, de Gondarém, Vila Nova de Cerveira. (Processo incorporado no Tribunal Judicial de Caminha, em 2009). Cf. (Arq. Distrital de Viana do Castelo).  

Em 1839, "auto de querela" por causa de João Pereira, egresso da extinta Ordem da Congregação do Oratório do Porto, morador na freguesia de Gondarém do concelho de Caminha; incorporado no Arquivo do Tribunal de Caminha, em 04 de julho de 2006. Cf. (Arq. Distrital de Viana do Castelo, em 17.05.2012) 

Em 1877, "denúncia epistolar" por causa de «Carta enviada dos Arcos de Valdevez pelo padre João Sobrinho a Clara Malheiro, cuja resposta foi dada pelo padre João Manuel Barbosa, enviada de Gondarém, e, com data de 29 de Janeiro. Cf. (Arq. Distrital de Viana do Castelo, 30.03.1877)

Em 1880, um "Auto de Querela" de "abuso das funções religiosas ao ter publicamente negado dar a comunhão à queixosa, Rosa Gomes, casada e moradora na freguesia de Gondarém; "auto de querela" movido pela própria e pelo ministério público contra o Padre Manuel Franco Pedra. Cf. (Arq. Distrital de Viana do Castelo, 01.01.1880.)


Em 1882, surge uma queixa de «falsificação de registo de batismo do filho de Maria José Soares e João António, "auto de querela" movido pela queixosa e pelo Ministério Público, contra o Padre Manuel Franco Pedra. Cf. (Arq. Distrital de Viana do Castelo, 01.01.1882) 


P.S.

Renovada em 1945, a Igreja Paroquial de Gondarém, adquire o estatuto de “personalidade jurídica” através da «Corporação Fabriqueira de São Pedro de Gondarém em Vila Nova de Cerveira”, em 16 de março de 1957, conforme acordo entre a Santa Sé e a República Portuguesa, e segundo o art.º 450 (Cód. Ad. de 1940). Por obra e iniciativa do Padre Américo de Sousa, são construídos os dois edifícios sociais adjacentes: "Centro Social" e "Casa das Mães"), (Cf. Arquivo "DDA" – Ministério de Administração Interna.).

a) Em 26 de abril de 1945, inicia-se a "Reparação e Ampliação da Igreja Matriz de Gondarém", a cargo da "Comissão Fabriqueira de Gondarém". Cf. (Arq. Distrital. de Viana do Castelo).

b) Em 6 de dezembro de 1951, inicia-se a "Construção do Edifício para a Sopa dos Pobres", sob direção do arquiteto Francisco Augusto Baptista, a cargo da "Comissão Fabriqueira de Gondarém". Cf. (Arq. Distrital. de Viana do Castelo).

c) Em 28 de agosto de 1956, inicia-se a "Construção do Centro de Formação Familiar de Gondarém", da autoria do arquiteto Francisco Augusto Baptista, a cargo da "Comissão Fabriqueira de Gondarém. Cf. (Arq. Distrital. de Viana do Castelo). 

d) Em 12 de janeiro de 1957, procede-se à "Reparação de Casas de Pobres e Construção de Casas do Património dos Pobres em Gondarém", segundo projeto do arquiteto Francisco Augusto Baptista, a cargo da Comissão Fabriqueira de Gondarém. Cf.(Arq. Distrital de Viana Do Castelo).

e) Em 22 de novembro de 1973, é criado o "Lar para Pessoas Idosas de Gondarém" pelo "Centro de Assistência Paroquial de S .Pedro de Gondarém. Cf. (Arq. Distrital de Viana do Castelo). 

f) Em 6 de agosto de 1981, por obra e iniciativa do Padre Abílio da Costa Oliveira, foi criada a instituição do “Centro Social e Paroquial de Gondarém em Vila Nova de Cerveira”,; equivalente a  (I. P. S. S.). (Cf. Arquivo DDA – Ministério da Administração Interna).

Adenda: «Quando, no século XIII, se dá um "benefício" - o rendimento duma terra - a um cura ou a um prelado qualquer, trata-se de assegurar a sua vida material, pois a terra é então a única fonte de riqueza». (Pernoud Régine, "o Mito da Idade Média",  Éd. du Seuil , Paris ,1977;  Ed. Pub. Europa/América, 2.ª, pg. 119, Lisboa, 1989).

Obs: Em 1988, surge a referência  da  «Associação dos Escuteiros de Portugal - Grupo 144 - Gondarém (Vila Nova de Cerveira), referente ao plano de atividades e a um pedido de subsídio»». (Arq. Nacional da Torre do Tombo, 05.03.1988).

 


segunda-feira, 18 de janeiro de 2021

EUROPOLITIQUE: "São Sebastião" e o seu "Notário Apostólico" - Gondarém - V.N.C.

Em 1603, Pero de Guimarães Pereira, exercendo o ofício de “notário apostólico”, decide contruir uma Capela em honra de S. Sebastião, na sua igreja, ou, abadia, melhor dizendo, “padroado” de São Pedro de Gondarém. Após designação episcopal, a sua função consistia em documentar os assuntos eclesiásticos, relativos ao património imóvel, tais como: terras ou casas, escrituras de arrendamento, foros de igrejas anexas, rendas, doações, prazos de vida, dízimos ou testamentos.

Já que, a terra era a principal fonte de riqueza na Idade Média, a Igreja afirmava-se como a instituição mais rica, quer na Europa, quer no Noroeste Peninsular, usufruindo de um conjunto de rendas dos seus domínios e terras, embora, por vezes, dependente da vontade dos “senhores leigos”, em que transitavam "títulos e benefícios", aos quais estava sujeito este padroado. Os padroados foram criados por intervenção de D. João III, a partir de 1532.

Em 1648, o “Padroado” da Igreja de São Pedro de Gondarém perde uma sentença a favor do fidalgo Francisco Pereira da Silva, (terceiro "morgado" da casa de Bertiandos), na Comarca de Valença, que se torna o seu padroeiro. (Por afinidades familiares, desde 1540, estabelecem-se ligações entre as terras da quinta da Boega e a casa de Bertiandos). O padroado consistia numa espécie de fundação familiar, que tinha o direito de apresentar o abade ou pároco ao bispo episcopal, cobrar dízimos e aplicar as rendas segundo a vontade do seu fundador (Cf. Arq. Distrital de Braga, 01.04.1648).

São Pedro de Gondarém permaneceu, com a designação de “igreja e abadia sem cura”, até ao século XIX, apesar dos seus padres, abades, ou, párocos; e, das várias escrituras de “foreiros”. Presume-se que a atual igreja de Gondarém derive da extensão, ou, prolongamento das terras dos antigos “senhores leigos” da Quinta do Lima, ou, da Boega.

Como “senhor eclesiástico”, eleito “notário apostólico", Pero Guimarães Pereira quis assinalar o seu “direito e múnus” apostólico, através da construção da Capela de São Sebastião. Seja, por simples reivindicação de autonomia eclesiástica, ou seja, por mero desejo de afirmação pessoal, eis que nasce a obra, ou, capela. Junto de uma nascente de água, e, face a um frondoso vale, ergue-se a dita capela, cuja construção de granito assinala o limite das águas do rio Minho, que antigamente atingem o seu sopé. No fundo do Monte de Góios, no encalço dos caminhos de Santiago, e, em frente da ilha dos Amores reaparece esta capela devido aos «papeis pertencentes a ermida da São Sebastião, sito na freguesia de São Pedro de Gondarém, a qual erigiu Pero de Guimarães Pereira, morador na dita freguesia», (Arq. Distrital de Braga, 24.02.1603).

Nesta ermida ou capela de granito e cal caiada, com a sua pequena torre sineira, e, o seu limitado adro, celebra-se a festa em honra de São Sebastião, no dia de 24 de maio, graças ao “notário apostólico”, Pero de Guimarães Pereira, morador desta freguesia de Gondarém, "senhor" da “respetiva provisão”. (Cf. Arq. Distrital de Braga, em 12.08.1603).

domingo, 17 de janeiro de 2021

Europolitique: A “Escola de latim” na Casa de Gouvim - Gondarém (V:N:C:)


Caminho de Santiago na Casa de Gouvim em Gondarém

“Seduziu e engravidou, o Abade..." não era qualquer título ou capítulo das "novelas" de  Camilo Castelo Branco, mas um fato concreto de uma querela na "Comarca do Tribunal de Caminha" que decorria contra um eclesiástico das redondezas, nos tempos em que se preparavam os noviços, ou, os candidatos para as funções eclesiásticas, (junto aos caminhos de Santiago), para as quais era imprescindível a língua latina.

Se, Camilo Castelo Branco, nas suas “Novelas do Minho”, se deleita na descrição destes candidatos da Igreja a uma “barriga farta”, numa “aldeia com recursos”; assim como , assinala o ensino desta língua latina por ilustres mestres, em casas abastadas de ricos lavradores, para a qual nem todos tinham aptidão, a casa de Gouvim, pertencente à família "Guerreiro", exercia uma função benemérita neste múnus.

Por volta do início do século XIX, um morador de S. Pedro de Gondarém candidata-se a “capelão”, cuja origem se deve a uma  abastada casa de lavoura em São Pedro de Gondarém, no lugar de Gouvim, que, juntamente com "Linhares" surge em algumas referências dos "Caminhos de Santiago".

Assim reza, o texto: «requerimento do padre Manuel João Lourenço Guerreiro, morador na freguesia de São Pedro de Gondarém, solicitando a confirmação da sua nomeação como capelão, efectuado pelo abade, o D. Prior-mor de Avis» (Arquivo Torre do Tombo, 1811). Antes deste pedido surge um "processo necessário para a ordenação de pároco", com o nome deste clérigo, ainda com data do século anterior. (Cf. Arq. Distrital de Braga em 02.20.1783). 

Ainda que apareça pedido idêntico para João Manuel Guerreiro, (Cf. reza o Arq. Distrital de Braga, em 30.05.1787); e, também, para Bernardo José Guerreiro, em 22.02.1809, (Cf. Arq. Distrital de Braga).

Mais tarde, em 1819, surge outro pedido de confirmação para possível ordenação em padre, com o nome de João Crisóstomo Guerreiro Amorim, (Cf. Arq. Distrital de Braga, em 23.11.1819). Rezam os "autos de visita ao oratório do Padre João Crisóstomo Guerreiro de Amorim, assistente na freguesia de São Pedro de Gondarém, em casas de seu irmão, João Manuel Guerreiro de Amorim Pereira, desembargador da Suplicação, que ele obteve breve apostólico, para ter oratório particular, tanto no Patriarcado de Lisboa, como neste Arcebispado, cuja graça estendeu também ao suplicante, como se vê no despacho junto». (Cf. Arq. Distrital de Braga, 23.11.1819).

Ora, todos estes eclesiásticos, presume-se que pertenciam à família Guerreiro, sendo os proprietários da Casa Gouvim, casa farta, e, de lavoura. Além de padres na família, com funções privadas ou públicas, como abades ou párocos, exerciam funções de secretariado, como acontece numa visita de trabalho nas freguesias de Braga, no ano de 1758, (Cf. Arq. Distrital de Braga, 1795). O "alforge" destas vocações suscitou o ensino da língua latina para candidatos a funções na Igreja Católica. Alfredo José Martins Guerreiro (15.01.1889) e Inocêncio Carmo Martins Guerreiro (28.02.1889) surgem como candidatos a funções religiosas, conforme o Arq. Distrital de Braga (1889).

Implantada numa encosta do Monte de Góios, e, paralela aos Caminhos de Santiago, a quinta do Gouvim floresceu pela sua riqueza material e espiritual, até finais do século XVIII. Nessa época, já não existia o “chamado baixo clero” da Idade Média, rude e inculto; nem tinham nascido os seminários diocesanos do século XIX, como relata Camilo Castelo Branco. De forma que, à semelhança dos velhos tempos medievais, os discípulos aprendiam na “casa dos mestres”, quer dizer, faziam parte integral da família. Esta tradição manteve-se na memória de muitos patrícios, que ainda nos anos sessenta do século XX, diziam que Gondarém tinha tido oito padres. Deste autêntico “alforge” clerical saíram genuínas vocações para esplendor da Igreja Católica.

É graças, a esta pequena escola de latim, que nascem os vários candidatos às profissões religiosas. Mas, remonta ao ano de 1524, a origem desta casa, que após a sua consolidação como casa agrícola, reuniu uma geração familiar suficientemente abastada e religiosa, para instaurar e prolongar o seu múnus pedagógico do ensino do latim, já que esta função estava reservada aos mosteiros e conventos.

Somente, em 1563, através do Concílio de Trento surge a recomendação da criação de seminários em cada diocese. Ainda que, desde o ano de 1215, pelo Concílio de Latrão IV se ditasse a obrigação da "missa dominical, da confissão e comunhão anual" («mandamentos da igreja»); do mesmo modo, que cada catedral tivesse o seu mestre de ensino religioso. É, em 1288, que D. Dinis pede autorização papal para erguer a Universidade de Coimbra. E, desde 1498, por decisão da Corte, todos os fidalgos portugueses tinham obrigação de ensinar os seus filhos a "ler e escrever", em suas casas. A carência de mestres públicos e de meios para pagar a sua função originou que pessoas mais dedicadas e preocupadas com o ensino do latim exercessem este múnus. Por isso, durante quase dois séculos a família Guerreiro foi uma escola de latim, neste lugar de Gouvim.

Na vizinha freguesia de Santa Marinha de Loivo, também desponta a família "Costa" com a sua "geração de padres",  que, por vezes, rendem serviços religiosos a São Pedro de Gondarém, como é o caso de Padre Manuel António da Costa, em 11.08.1802, (e, outros);  (Cf. Arq. Distrital de Braga).

Mas, antes da primeira escola pública no lugar do Calvário”, cuja origem é do século XIX, e da central escola do "Estado Novo", a freguesia de Gondarém beneficiou desta obra particular e exemplar e destes mestres, durante quase dois séculos, e, que coabitaram na Quinta do Gouvim.

N.B. As pessoas citadas foram objeto de "Inquirições de género":

«Processos necessários para a ordenação dos párocos. Consistem na inquirição de testemunhas para comprovar a filiação, reputação, bom nome ou "limpeza de sangue" do requerente. Incluem os seguintes documentos: requerimento inicial, carta de comissão, inquirições de genere a testemunhas e declarações dos párocos. Estão incluídos nesta série processos de Justificação de Fraternidade que são requeridos quando há, na família, alguém ordenado e com inquirição de genere elaborada e concluída». (Arquivo Distrital de Braga)

1783 - Manuel João Lourenço Guerreiro

1787 - João Manuel Guerreiro

1809 – Bernardo José Guerreiro 

1819 - João Crisóstomo Guerreiro Amorim

1889 – Inocêncio Carmo Martins Guerreiro

1889 – Alfredo José Martins Guerreiro





EUROPOLITIQUE: Recordando "Platero y Yo" ....Juan Ramón Jiménez

  Na minha tenra idade escutava os poemas de “ Platero y yo” , com uma avidez e candura própria da inocente e singela juventude, que era o ...