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quinta-feira, 23 de julho de 2020

Convento San Payo (Resenha histórica do....) de Loivo - V.N.C. e seu escultor José Rodrigues



- Século XIII 

Uma pequena e singela ermida, em plena encosta do monte da Pena, favoreceu a construção de um convento dedicado ao santo “milagreiro” San Payo. Os alvores deste convento apontam para a construção de uma pequena ermida, dentro do espírito franciscano. Ora, os “frades menores”, apesar da sua primeira e “má impressão dos seus andrajos”, chegaram a Portugal entre os anos de 1214 a 1217. A recente Ordem dos Frades Menores foi criada por São Francisco de Assis, em 1209, sob bênção do Papa Inocêncio III. Após cinco anos da fundação desta ordem religiosa, já, os seus seguidores rumavam em direção a Santiago de Compostela, de cuja romagem de penitência e oração, se presume, que nasceu este simples “ermitério ou oratório”, erguido nas serranias do monte da Pena. Nas fraldas da serra, numa área mais fresca e húmida do monte da Pena, protegida dos ventos do Norte, onde uma fonte nascia, ergueram-se as simples “casas de pedra e colmo” que deram origem ao futuro convento de San Payo. Aos Frades Menores associavam-se, por vezes, comunidades femininas, e neles se agrupavam leigos que pretendiam seguir o espírito de São Francisco.


- Século XIV  

Segundo certos relatos históricos, consta-se que foi Frei Gonçalo Marinho quem fundou o Convento San Paio, por volta de 1392, num local de difícil acesso, cuja balaustrada paisagista se encena com a sua bela panorâmica sobre o rio Minho. Mas, é graças ao Papa Bonifácio IX, que, em 6 de abril de 1392, se autoriza que as humildes “casas religiosas” possam ter refeitório, oratório, torre sineira e outras divisões necessárias à digna condição humana, em lugares honestos e decentes, para elevação espiritual. Além disso, o “Grande Cisma do Ocidente”, ocorrido pelos anos de 1378, contribui para a obra destes frades oriundos da Galiza, já  que a Espanha se liga ao Papa D’Avignon, e, Portugal permanece ligado a Roma, (embora este convento de San Payo se insira na renovação do espírito franciscano, e, se mantenha na dependência da organização religiosa da Província de Santiago, por obra dos frades renovadores). 
«O movimento observante em Portugal, fundado em 1392, por frei Gonçalo Marinho, Frei Diogo Árias e Frei Pedro Dias contava com cinco eremitérios: Santa Maria de Mosteiró (Valença), São Francisco do Monte (Viana do Castelo), São Paio de Cerveira (Vila Nova de Cerveira) e São Clemente das Penhas (Leça da Palmeira). (Cf. Junta de freguesia de Leça da Palmeira)».
O isolamento e a solidão colidem neste local, e, isto acontece, não só, no convento de San Payo; como também, no convento da Ínsua, em Caminha, (onde um simples poço de água doce é condição suficiente para se erguer um ermitério). Lugar de meditação e oração, o isolamento e o silêncio rodeiam estes conventos, onde se respira e aspira o ar divino, por todos os lados e por todos os poros. Sem dúvida, que o século XIV é um marco histórico deste convento. Ainda que, o seu começo se deva aos religiosos provenientes da Galiza, cujo entusiasmo deriva da romagem e dos Caminhos de Santiago, dos quais resulta a sua filiação, não quer dizer que outros penitentes não tenham criado o seu oratório, anteriormente. Por isso, este é quarto convento construído, em Portugal, num conjunto dos cinco iniciais, com quintais e cerca à volta do seu território, que, neste caso, pode resultar de algum antigo ermitério. Na coordenação das respetivas ordens religiosas, inicialmente, este convento está associado à Província de Santiago e à diocese de Tui.


 - Século XV

Neste século, o alastramento dos conventos é enorme, apesar de uma certa decadência do espírito religioso, não só, na Igreja; como também, nas ordens religiosas, cuja origem advém  dos finais do século XIV. Por isso, acontece a divisão entre “frades claustrais” e “frades observantes” (aqueles que defendem o retorno aos ideais de origem: pobreza e penitência), originando que estes obtivessem uma total autonomia, por ordem do Papa Eugénio IV, em 1446. Esta crise teve consequências no Convento de San Payo, já que os “Frades Observantes” deixaram este convento, em 1460, integrando-se, pouco a pouco, nas estruturas religiosas portuguesas da ordem franciscana.


- Século XVI

As casas religiosas, apesar da sua autonomia e relativa independência, tinham uma entidade superior que as orientavam, cuja figura era o seu provincial nas ordens católicas. Por isso, no ano de 1517, os monges da Ordem dos Frades Menores Conventuais, por ordem do Papa Leão X, estavam inseridos na “Província de Portugal dos Claustrais ou Conventuais”, com as suas vinte e sete casas religiosas, nas quais se incluía o Convento de San Payo, cuja sede era o “Convento de S. Francisco" no Porto, que congregava, somente, as casas religiosas do Norte do País. É, também, em 1517, que surge a categoria da Ordem dos Frades Menores Conventuais.


 - Século XVII

A igreja que faz parte do conjunto edificado, nas paredes laterais deste convento, presume-se que foi construída no século XVII, para acolher os muitos devotos que San Payo atraía. Embora, se augure que o seu início comece a partir de 1568, ou seja, em pelo século XVI. Mas, já desde o século XIV, que uma “feira franca” anual animava este local de devoção, cuja autorização se deve ao rei D. Dinis. Com a criação da igreja, sobretudo, a partir dos anos de 1568, o convento e sua igreja foi governado por vários vigários, tornando-se numa vigariaria. Posteriormente voltou para comando dos seus 12 frades desta comunidade religiosa, que tomam conta da sua autonomia, em 1623. Tanto no Convento de San Payo, como no Convento da Ínsua, em Caminha, o número de frades era sempre reduzido, ou seja, da ordem de uma dezena.



 - Século XVIII

No início do século XVIII, o convento de São Paio do Monte foi alvo do interesse de uma família abastada da freguesia de Covas, Vila Nova de Cerveira, em cujo concelho granjeiam grande importância. Embora os direitos de propriedade não sejam muito explícitos nesta ordem religiosa, a sua aquisição é realizada por Manuel Carlos de Bacelar, ou, Manoel Carlos de Bacelar Malheiro (1705/1758), considerado terceiro administrador da abastada Casa Carboal, na freguesia de Covas, e, com o título de fidalgo escudeiro da Casa Real, em 1737. Aliás, surge como superintendente do concelho de Vila Nova de Cerveira. Seu pai, já tinha sido governador da Praça de Vila Nova de Cerveira, e constituído em morgado, em 1691, a sua propriedade de Covas.



 - Século XIX

O convento de San Payo começa a entrar em ruínas, em 1834, com alegada apropriação particular, cuja venda acontece no século seguinte. (Cf. N.B.) Em 30 de maio de 1834, surge o decreto que extingue as Ordens Religiosas em Portugal. Todavia, o seu território é alvo de exploração agrícola, quer na criação de gado, quer na colheita de cereais, apesar de qualquer incêndio ocorrido. Desconhecem-se os documentos do seu cartório, os registos da sua vida monástica, já que o desleixo e abandono começam a ganhar garras para o seu lento desmoramento. 

- Século XX

Em 1974, o escultor José Rodrigues descobre este Convento, cercado de silvas e mato, encobrindo os seus muros e recheio. Antes dos anos setenta, o belo fontanário que embelezava o claustro do convento tinha sido vendido para a Quinta da Loureira, em Gondarém, que jaz em frente da sua capela. Graças à atividade de algum caseiro, até aos anos de sessenta e cinco deste século, ainda se exploravam os seus terrenos, e, o convento era visitável. Rezam, certos relatos populares, que o convento foi vendido por duzentos contos de réis. Durante os anos oitenta, sob direção do arquiteto Viana de Lima foi efetuada a renovação do convento, graças ao impulso e investimento pessoal do escultor José Rodrigues. 


 - Século XXI


Museu de Arte.

Aberto ao público, funciona como museu de exposição das obras de arte do insigne escultor José Rodrigues (1936/2016), fundador da Bienal de Arte de Vila Nova de Cerveira e da Corporativa Árvore no Porto. Além disso, com as suas "oito suites" funciona como pousada de hospedagem.

Fontes:
Arquivo Distrital de Braga
Revista Visão de 14/09/2017
Arquivo da Freguesia de Loivo
Arquivo Municipal de Cerveira.

N.B.
 «Durante o período de abandono muito se mutilou e desviou do antigo espaço conventual. Os merlões e as estátuas de pedra que representam S. João Evangelista e S. Paulo (?) foram levados para a igreja paroquial de Candemil. A imagem de S. Francisco estigmatizado, recolheu à igreja matriz da vila, para a igreja de Loivo foram as imagens de S. Francisco e Santo António em tamanho natural e para o Santuário do Bom Jesus de Gondarém, um S. Paio de boa qualidade estética». O emblemático fontanário, de pedra de granito, foi trasladado, em carro de bois pelo senhor Barbosa Guerreiro do lugar do Viso, para o exterior da Quinta da Loureira, onde se encontra de forma visível e gradeado, na freguesia de Gondarém.

quarta-feira, 15 de julho de 2020

"Convento de Valboa" - o terceiro da lista dos conventos dos Viscondes de Cerveira


Nos séculos V e VI, Bracara Augusta foi um lugar central da cristandade do Noroeste Peninsular. A “Sedis Bracarensis” era a capital provincial civil e sede metropolitana, impondo-se no Noroeste Peninsular, sem qualquer concorrência da diocese de Toledo. Dela emergiram dois grandes bispos que criaram as suas casas religiosas: o convento de Dume, no século VI, por obra de São Martinho, e o de São Salvador de Montélios, no século VII, por iniciativa de São Frutuoso. Estes conventos foram o início da difusão e propagação dos monges medievais e agrícolas, que se dedicavam ao “trabalho e oração” (ore et labora), através dos condados de Límia e Toronho.



Remonta aos anos de 1258, a sinalização desta povoação de São João de Campos, tendo como origem um “pequeno couto” dependente de seus patronos ou padroeiros, senhores leigos ou eclesiásticos, cuja notoriedade se forja com a fundação de um convento de origem feminina. O “couto per padroes” significa um território privilegiado, muitas vezes, ligado a um mosteiro, cuja entrada estava sob licença do seu mordomo, neste caso, da sua abadessa. Implicava, também, uma separação entre o religioso e o temporal, entre o convento e os casais; por isso, tinha o sentido de marco ou padrão.  A referência documental das Inquirições de 1258 assinala este povoado como um “couto feudal”, que dá origem a um convento de freiras noviças ou seculares.


Em plena Idade Média, a “Granja da Silva” é um vasto património que alberga conventos, propriedades e torres, nos quais se menciona o "Convento de Valboa". Se, a sua origem advém de D. Paio Guterres da Silva (1070-1130), é, através desta rica família, e, de Paio Guterres de Froião, que se faz referência aos rendimentos dos bens e propriedades, que transitam para o Mosteiro de Oía, quando este senhor decide ser monge.


Desde então, o património da “Granja da Silva” é disputado tanto pela diocese de Tui, como pelo Mosteiro de Oía; tanto pelos senhores eclesiásticos, como pelos senhores leigos; tanto pelos Viscondes de Cerveira como pelos Marqueses de Límia; mas, apesar de todos os conflitos, o Convento de Valboa é senhorio de abadessas. São mulheres, as monjas, que dirigem as suas rendas, os seus foros, os seus direitos, os seus tributos; que elevam as suas preces e orações; e, que sustentam os seus abades, (que chegam a ser dois na paróquia).


É, em pleno verde vale de campos à beira rio, que se encontra implantado um antigo convento feminino, cujo nome se perpetua como Valboa, em terra de São João de Campos, e, dos Viscondes de Vila Nova de Cerveira. Dos seus vestígios arqueológicos resta somente uma capela, associada a Santa Luzia, que pretende assinalar a existência deste convento. A sua edificação presume-se que remonte ao século X, ou, ao ano de 1136, cujos laivos das suas origens podem ancorar-se na difusão dos “mosteiros bracarenses”, tanto masculinos como femininos. Simples casa de religiosas, refúgio de "pecadoras penitentes", ou, de "damas reclusas", a sua emergência dá lugar ao convento de Valboa. 



Ainda que a Coreografia Portuguesa apresente como seu patrono, D. Paio Guterres da Silva (1170-1129); já, em 1248, surge como sua abadessa D. Urraca Soeiro; e, somente, em 1258, a igreja de São João de Campos aparece referenciada na diocese de Tui.


Igreja e convento dividem os seus abades e a sua influência, embora os bens e rendimentos da comunidade religiosa fossem determinantes neste impasse, que se mantém até 1757. O século XII constitui um marco na afirmação deste convento de origem feminina, com abadessas perpétuas, das quais se destaca Inês Barbosa, já no ano de 1444. No século XV, dá-se a decadência deste convento, por falta de recursos próprios, mais precisamente em 1455, com a renúncia da sua abadessa. Apesar da falta de recursos, as suas abadessas trienais continuam na sua gerência, e, somente, no século XVI, as suas propriedades são integradas no Mosteiro de Santa Ana de Viana do Castelo. «Em 1582, por provisão do arcebispo D. Diogo de Sousa, e acordo do Papa Clemente VII foi anexado à comunidade beneditina de Santa Ana de Viana do  Castelo»




segunda-feira, 13 de julho de 2020

EUROPOLITIQUE: A “Bagoada” ou a caverna da Ali Babá?





Nos anos sessenta do século XX, ainda deambulavam lobos pelas serranias da Pena. As raposas já faziam parte da tradição no assalto das capoeiras, mas, os javalis tornavam- se raros nos campos de milho. Se algum potro encimava o alto do monte, os veados já não desciam à beira-rio. E, nas terras do veado, que se tornara vila recordavam-se os tempos dos seus três conventos medievais: São Paio, Valboa e Santa Marinha.

«O lobo olhou-me, em cima da fraga. O seu olhar fixou-se em mim. Parei. A distância não era grande. Não hesitei frente ao seu olhar. Fiquei em pé, estudando a reação do animal. O lobo deu meia-volta e deixou-me plantado, inerte no solo. Sozinho, o meu desafio e a minha tarefa de visitar o Convento São Paio ficou a meio do seu destino». 

Noutros tempos, existiam pedaços de território que escapavam à legislação régia ou eclesiástica. Estes aglomerados populacionais eram o refúgio de alguns  “foras de lei”, que tinham sido ladrões ou salteadores de estrada, que estiveram doentes ou foram alienados, e, se escondiam por trás de cerros com os seus fraguedos. Os cerros de montanha funcionavam como abrigo e refúgio, por isso eram zonas do território isoladas e distantes da comunidade, onde se escondiam estas pessoas fugidas da sociedade, ou, até da escravidão. Quase seminómadas, além do cultivo das suas pequenas parcelas de hortas, dedicavam-se ao pastoreio de rebanhos de ovelhas e cabras. Com a sua coragem desafiavam os lobos e outros animais. Não pagavam taxas, nem dízimos, e, deste modo, gozavam de certa autonomia de liberdade, já que, muitas vezes, se mantinham escondidos, como alienados ou desquitados da sociedade. A sua arte e engenho desenvolvia-se nas tarefas de pastoreio, muitas vezes, “sem eira nem beira”. Estes locais fechados e escondidos, que abrigavam simples pastores, com o tempo, inseriram-se nas sociedades ao redor, construindo as suas capelas, num processo de identificação com as suas comunidades.



Este recondito lugar da “Bagoada" da freguesia de Loivo, no sopé do monte de Pena, situa-se entre os seus dois conventos: convento de São Paio e convento de Santa Marinha, para não dizer um terceiro, já que em Campos existia o convento de Valboa, fazendo parte da comarca de Via Nova de Cerveira. Ou seja, o centro administrativo e militar de Cerveira, os ditos conventos, e, as zonas do vale e  quintas adjacentes junto ao rio, com os seus “honrados lavradores” e exímios pescadores, deixavam à deriva uma zona, cujo território propício,era, não só, para lobos e raposas, ou, até javalis e veados; mas também, para aqueles ousados pastores com as suas cabras e ovelhas. Se era refúgio de “navalhistas impenitentes”, ou,  “madalenas arrependidas”, que das fragas tiravam a sua coragem de vida, persistem algumas incógnitas. No entanto, nestes cerros de montanha viviam os proscritos e amaldiçoados da sociedade, onde se acotovelava uma pinha de cabanas de colmo, de encosto aos cabeços das fragas.

terça-feira, 7 de julho de 2020

Convento de Santa Marinha na freguesia de Loivo - V.N.C.







Canta-se pelo poema de Rosa Varela
E pelas “Alminhas do Pedroso”,
E, sem qualquer “Harpa da Tumba”
Que, no teu caminho, nunca esqueças
Esta” terra de lobos” e abadessas.


Remonta aos anos de 1258, a sinalização desta povoação, tendo como origem um “pequeno couto” dependente de seus patronos ou padroeiros, senhores leigos ou eclesiásticos, cuja notoriedade se forja com a fundação de um convento de origem feminina. O “couto per padroes” significa um território privilegiado, muitas vezes, ligado a um mosteiro, cuja entrada estava sob licença do seu mordomo, neste caso, da sua abadessa. Implicava, também, uma separação entre o religioso e o temporal, entre o convento e os casais; por isso, tinha o sentido de marco ou padrão.  A referência documental das Inquirições de 1258 assinala este povoado como um “couto feudal”, que dá origem a um convento de freiras noviças ou seculares, no lugar do Pedroso. Portanto, é desde o século XIII que, através do consagrado Caminho de Santiago, se abriam as portas aos seus peregrinos, cujos cuidados estavam dependentes destas freiras, além do trabalho agrícola que se desenvolvia neste local. Também, desde o ano de 1320 que o Catálogo das Igrejas do Bispado de Tui faz referência ao Mosteiro de “Sancte Marine de Lovho” (Santa Marinha de Loivo), cujas taxas ascendiam às 200 libras.


Como, nestes tempos a riqueza vinha da natureza, certamente que o dito convento tinha rendimentos para pagar essas taxas. Sob a tutela da abadessa do convento de Santa Marinha foi lavrada uma generosa doação de Álvaro Dias, abade de Mangoeiro, a favor de um hospital em Cerveira, no ano de 1444. Todavia, o convento de Santa Marinha, ou, simplesmente, a “casa de religiosas” beneditinas, foi anexado ao mosteiro de Santa Ana de Viana do Castelo, em 2 de outubro de 1529, após a renúncia da sua abadessa D. Francisca da Nóvoa, com o beneplácito do Papa Clemente VII, e, confirmação do rei D. João III, em 1530. A partir do século XVI, “a vigararia” de Loivo foi ocupada por António Enes, e, retificada posteriormente, segundo cópia do Censual de D. Frei Baltasar Limpo, com data de 1580. Portanto, a jurisdição de vigário implicava uma dependência ou a subordinação a alguém, tal como, anteriormente estava o exercício de poder da abadessa.


O século XVIII marca definitivamente a transição da paróquia de Santa Marinha de Loivo. O lento desaparecimento do seu mosteiro dá origem à construção da igreja atual da paróquia, cuja torre sineira já foi acabada no século XIX. A construção da igreja paroquial é um marco histórico, não só para a freguesia e seus habitantes (pela sua arquitetura), como também para o contributo dado pela família Costa Pereira na continuidade da fé religiosa. Dela rebentam os lídimos defensores ou arautos da sua fé, através da geração de padres que a ela se associam. Sem os brasões de armas da Quinta da Torre ou da Quinta do Vale, esta família burguesa que nada deve à fidalguia, tornou-se o baluarte da fé católica. É de 1802, a Carta de Recomendação, indicando que o Padre Manuel da Costa prestará serviços religiosos à freguesia de São Pedro de Gondarém, pelo tempo de quatro meses. Esta Carta tem a sua origem na comarca de Valença, para recomendação na Igreja e Abadia de Gondarém. O último rebento desta família foi Evaristo José da Costa Pereira, que em 1945, foi presidente da Santa Casa de Misericórdia de Vila Nova de Cerveira, e dedicou-se ao Hospital de Cerveira. Já, em 1915, seu pai, Luís Maria da Costa Pereira (1875/1951) tinha exercido idênticas funções, residente na “Casa da Aldeia”. Família abastada, religiosa convicta, nada devia à nobreza, e, grande parte da sua fortuna e bens tiveram a sua origem em terras do Brasil.

Canta-se pelo poema de Rosa Varela
E pelas “Alminhas do Pedroso”,
E, sem qualquer “Harpa da Tumba”
Que, no teu caminho, nunca esqueças
Esta” terra de lobos” e abadessas.

Rosa Varela, poetisa e prosadora, natural de Ganfei, faleceu em Loivo em 26.09.1968.

Fontes:
Arquivo Distrital de Braga
Arquivo da Freguesia de Santa Marinha de Loivo
Arquivo da Santa Casa de Misericórdia de Cerveira
Jornal Cerveira Nova

segunda-feira, 6 de julho de 2020

EUROPOLITIQUE: "Por terras de lobos e abadessas" - Do convento de São Paio às abadessas de Santa Marinha na freguesia de Loivo - V.N.C



"Terra de lobos e abadessas", a freguesia de Loivo, com os seus dois conventos de São Paio e de Santa Marinha exerceu, com devoção e prestígio, um papel assinalável na religiosidade da Idade Média. De igual modo, Santa Marinha e Santo Ovídio são dois lugares interligados em Vila Nova de Gaia, com esta dedicação. Muito ligada à sua tradição, faz parte desta freguesia de Loivo a devoção Santa Marinha. Aliás, como acontece com a nova cidade ligada ao Porto, na sua toponímia. A devoção a Santa Marinha não é caso único no Norte, e, no resto do País, já que na Galiza, nada menos de 108 paróquias, reclamam a sua proteção. Padroeira, ou, orago desta freguesia de Loivo, somente a sinalética ferroviária assinalava o apeadeiro de Santa Marinha, como ponto de referência da sua existência, longe da medieval "terra de lobos e abadessas". Esta paragem ferroviária contrasta, no tempo, com o movimento e a devoção, que esta santa suscitou na fundação de um convento, em sua memória.

Todavia persiste um dilema acerca da devoção a Santa Marinha. Se, era a santa que “rapou os cabelos e se vestiu de homem” para entrar num convento, cujo nome sonante era Marinho, (era mulher e morreu homem); ou, se era aquela Marinha que pertencendo aos "deuses romanos se tornou santa". A primeira, oriunda do Líbano, viveu no século V, sendo chamada de Santa Marina ou Santa Marina de Bitínia. A segunda, nasceu em Baiona, na Galiza, no ano de 119, filha de um governador romano, de nome Lucio Castelio Severo. A história atribulada desta jovem começa desde o berço até à sua idade adulta. Ameaçada de ser lançada no rio Minho foi salva pela mão protetora da sua aia, que encontrou uma família para seu acolhimento. Batizada por Santo Ovídio, bispo de Braga, abraçou o cristianismo de tal forma que nunca voltou para o paganismo, apesar das ameaças de seu pai. Foi mártir, mas em pleno século II, quando a Galiza procurava resistir ao império romano, o qual já tinha conquistado a Lusitânia, com a celebração da Pax Julia, no ano de 48 A.C.

Longe estávamos de qualquer “Jardim de Delícias”, ou “hortus deliciarum” que uma freira escrevera como apanágio de sabedoria temporal e espiritual, por volta do século XII. E, longe estamos da influência e prestígio das abadessas do convento de Santa Marinha. Se determinada tradição oral aponta para o sítio de Pedroso, onde teria existido uma pequena torre, sem qualquer vestígio evidente, somente nos resta aguardar por desconhecida pedra encaixada, em alguma casa edificada. Augura-se que a fundação de um convento de freiras é bastante anterior ao século XV. Possivelmente, remonta ao século XII, ainda que a única referência da sua existência, surja somente em 1477. Se, do convento de freiras não temos vestígios da sua arqueologia, acerca da sua importância, prestígio e poder, existem vários testemunhos escritos.

O convento de Santa Marinha de Loivo, ou, simplesmente, a “casa de religiosas" beneditinas foi anexado ao mosteiro de Santa Ana de Viana do Castelo, em 2 de outubro de 1529, após a renúncia da sua abadessa D. Francisca da Nóvoa, com o beneplácito do Papa Clemente VII, e, confirmação do rei D. João III, em 1530. Outra referência, datada de 1546, relata a sua anexação de modo definitivo ao convento de Santa Ana de Viana Castelo: («in perpetuum» – ou seja, “para sempre”). O facto mais relevante da sua importância acontece anteriormente. Em 7 de outubro de 1477, no Mosteiro de Santa Maria de Loivo, foi lavrada a escritura da doação feita pelo Abade de Mangoeiro a Cerveira, tendo sido autorizada, por D. Afonso V, em 21 de Fevereiro de 1474. Deste modo, Álvaro Dias doou uma quantia razoável para o carenciado hospital de Cerveira, que prestava cuidados aos peregrinos de Santiago. Augura-se, que a sua abadessa fosse Inês Barbosa, que governou este convento, desde 1444.
Deste modo, o convento de Santa Marinha de Loivo faz jus ao poder de certas abadessas. «Algumas abadessas eram autenticos senhores feudais, cujo poder era respeitado de modo igual ao dos outros senhores; algumas usavam báculo, como o bispo; administravam muitas vezes territórios com aldeias, paróquias...» 
(Pernoud, Régine, "O Mito da Idade Média", 2.ª Ed. pág. 95, Pub. Europa América, 1989).





sexta-feira, 3 de julho de 2020

EUROPOLITIQUE: O primeito cativeiro de Fernão Mendes Pinto nos areais de Melides


«Treze vezes cativo, dezassete vezes vendido», (a conta não bate certo), somente Fernão Mendes Pinto pode ombrear nestas façanhas que remontam à história dos nossos Descobrimentos.

Um dia, conversava com um amigo e com saudades de Melides, acerca da audácia dos portugueses no capítulo na navegação. Amante do deus Baco, a sua tese era demasiado simples. Foi graças aos "pipos de vinho e aguardente" (de medronho ou vinícola) que os portugueses realizaram os descobrimentos. O poder do néctar, que “Baco celebra, e, Dionísios canta”, inebriava com tanta força os ardorosos nautas contra as tempestades, que nem Camões com a sua força poética entusiasmava esses navegantes.

Este meu amigo que me falava de Melides, sendo ele do Norte do País, rivaliza nas suas histórias e peripécias, como este senhor de Montemor-o-Velho, cujo nome é Pinto.

Fernão Mendes Pinto, ex-egresso feito jesuíta, que deste poder não escapa por causa dos seus escritos, somente conseguiu publicá-los em 1614, trinta anos após a sua morte.

“O homem que, (na literatura), não tem preço”, e cuja obra desmitifica qualquer critério de verdade, engalanou-se com o título de Fernão Mendes “Minto”.

O seu primeiro cativeiro tem como pano de fundo, os areais de Melides. Se, de Troia a Sines, são 65 quilómetros de areal não deixa de ser natural que a nudez invadisse Mendes Pinto, já que o corsário francês, que lhe levou a roupa, após roubo e açoite, não encontrou qualquer viking; ou, não pagando o bilhete na caravela que o trouxe da Figueira da Foz até Setúbal, quis a fortuna que o seu desterro fosse o areal de Melides. Se encontrou algum honrado lavrador, ou, algum próspero pescador que o protegeu, é mera conjetura deste aventureiro, soldado, mendigo, pirata, cortesão ou embaixador, melhor dito, escritor. 

Nesses longínquos tempos, o vinho branco de Melides não tinha um concorrente que, em vez, da “aguardente de medronho” esvaziava “meio litro da vinícola”, por dia. Mas, o caminho da aventura guiou esse jovem Fernão, que com menos de dezoito anos foi preso, e, por volta de março de 1537 até aos anos de 1557 , ou seja, em vinte anos, escreveu a “Peregrinação”. Mas, o “Mar Amarelo” foi sempre aquele espelho do delicioso néctar de cuja cor somente existia em MELIDES.



N.B. "Fernão, mentes? - Minto!". No entanto, através da história comparada, chegou-se à conclusão de que muitos dos relatos eram verdadeiros e corretos

quarta-feira, 24 de junho de 2020

EUROPOLITIQUE: As três históricas pontes de Santo Tirso: em madeira, metálica,e, de betão armado, sem a do século X de São Rosendo


«A torrente do rio rugia quebrada pelo triângulo dos pegões» (1) A ponte de madeira assentava-se sobre pedras, ou, pegões. Era a ponte inicial de Santo Tirso, na descrição de Camilo Castelo Branco. Esta ponte do século XIX foi substituída, no século seguinte, por uma ponte metálica. Somente, no final do século XX, deu origem a uma ponte de betão armado.

Há muitos anos que grandes plátanos embelezam a sua rua principal, com as suas frondosas copas, em que quase se esconde o Mosteiro de Santo Tirso. Por tradição e costume, a mesma paisagem continua ao longo dos anos. O rio, os campos de um lado do mosteiro; os plátanos e a estrada do outro lado, em que se conjuga a cidade e o campo. No centro, o coração dos frades ergue-se em oração pelo passado e futuro.


Ora, em relação ao passado emerge uma figura fundadora de conventos e mestres da oração, cujo nome dá por D. Rosendo.

Este senhor eclesiástico deve a sua origem a Santo Tirso. A palavra senhor inscreve-se no sentido laico, em que a sua designação se associa ao poder militar. O Bispo era clérigo e ao mesmo tempo militar; ou seja, chefe espiritual e temporal, porque o combate da fé lhe estava implícito.


Três personagens emergem, nesta época, tendo como palco Santiago de Compostela: D. Rosendo, Sisnando e Viking Gunderedo (o terror de Compostela).


Sisnando ” mais militar que bispo” estava em “retiro religioso”, segundo fontes galegas, quando as forças de viking Gunderedo desembarcaram em “Vacariae”, corria o ano de 968.

A rivalidade entre Sisnando e Rosendo não seria alheia a Gunderedo, já que os vikings eram exímios em colher informações, antes de qualquer incursão. Gunderedo, hábil diplomata, com escola de vida no Reino dos Francos, estava ansioso pela hora de pôr à prova os “dotes guerreiros” do impetuoso Bispo-militar Sisnando, que hábil e forçosamente tinha posto de lado por favores  régios e políticos, o seu rival religioso – D. Rosendo. 


Este “mais bispo que militar”, por força do seu opositor, dedicou-se à vida religiosa e à construção de um mosteiro, sem deixar um anátema sobre Sisnando: “quem com o ferro fere, com a espada morre”. Descrente de qualquer maldição, o Bispo-militar não resistiu às forças guerreiras de Viking Gunderedo.



(1) Camilo Castelo Branco, “A Brasileira de Prazins”, pág. 35, Edições Expresso, Lx. 2016.

EUROPOLITIQUE: Recordando "Platero y Yo" ....Juan Ramón Jiménez

  Na minha tenra idade escutava os poemas de “ Platero y yo” , com uma avidez e candura própria da inocente e singela juventude, que era o ...