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segunda-feira, 2 de dezembro de 2019

EUROPOLITIQUE: As façanhas do Conde Avillez num rali a 15 quilometros à hora (De Cacilhas a Santiago do Cacém em três dias)


O Mestre de Cantaria José Abreu

A grande asneira

do burro

foi dar um coice no ar.

Bateu com a cabeça nos ferros

do luso automóvel Panhard.

De Cacilhas a Palmela, 

no primeiro dia de andar,

asno morreu

com grande pena e azar.

Os ecos de tal façanha

correm vales e montes além,

por culpa de um conde,  

que, ao terceiro dia,

descansou

em Santiago do Cacém.

Comprou o primeiro carro

desta terra 

dita lusitana.

E, para a história do coice

estreia-se, por aqui, um Rolls Royce,

e uma carta de condução,

pioneira de uma nação.


A história do conde e deste jumento

requerem real e salutar documento.




 

sábado, 30 de novembro de 2019

EUROPOLITIQUE: O primeiro automóvel em Portugal e os "carrros de luxo (de 1 unidade aos 5 milhões)


Atropelou um burro a 15 quilómetros à hora, o primeiro carro que entrou pelas rudimentares estradas de Portugal, em direção a Santiago do Cacém, conduzido por D. Jorge d’Avillez , corria o ano de 1895, aos 11 de Outubro.
A “besta negra” tinha custado a módica quantia de 3.500 francos,demorou três dias a chegar à encosta do castelo, e a sua marca era “Panhard & Levassor”, de origem francesa.
Eram as primeiras viaturas a serem comercializadas, ainda sem a quinta roda, ou seja, o guiador ou “adorável volante”.
Portanto, em Portugal, 5 anos antes do fim do século XIX, a grandiosa época da industrialização atingia o seu apogeu com o lançamento de um artefacto, instrumento ou “brinquedo” que mais deliciou todo o século XX – o automóvel.
Meio de transporte, meio de lazer, a sua exibição sempre foi apanágio de riqueza, bem-estar ou trabalho.
Portanto, nesta pioneira caminhada, desde a alfândega de Lisboa até à verde encosta do altaneiro castelo de Santiago do Cacém, a fumegante viatura teve um mecânico de serviço e José Benedito Hidalgo Vilhena na companhia do quarto conde dos Avillez, que se tornaria figura emblemática da primeira carta de condução.
Ora, se o conde Avillez deu aproximadamente 115.000 euros pelo seu primeiro carro, nada menos de 28.354 “marcas de luxo” povoam o território português nas suas brilhantes insígnias da indústria automóvel, como: Porsche, Jaguar, Ferrari, Maserati, Aston Martin e Bentley, segundo relata o Jornal Expresso de 30.11.2019. E, nada menos de 5 milhões de veículos formam a frota total portuguesa, que compra num ano, aquilo que o Brasil compra num mês.
Mas, o primeiro Rolls Royce, sem mortalmente atropelar um burro em Palmela, e sem demorar três dias desde Cacilhas, entrou também no concelho de Santiago do Cacém. Portanto, dois carros e uma "carta de condução" preenchem esta trilogia automobilística que engrandece esta localidade, que dizem deixou fugir o projecto de uma "fábrica da Ford".


Portanto, no espaço de 100 anos, Portugal passou de uma unidade para 5 milhões de unidades de automóveis, que carecem ainda de um condutor ou guiador. E, a média de um normal e bom “carro de luxo” aproxima-se da quantia do famoso conde D’Avillez.










terça-feira, 26 de novembro de 2019

EUROCENTRISMO: "Rasgar as vestes" ao entrar na Capital

  • A visão romântica de uma África paradisíaca, de ordem e progresso, repleta de modernidade, em que reinava uma suposta harmonia entre brancos e africanos, perdurou durante anos na mentalidade discursiva de alguns portugueses, que foram obrigados a deixar aqueles territórios.

Tornava-se difícil confrontar duas perspetivas opostas e divergentes: a europeia e a africana. Uma que defendia a aproximação à Europa, (quando se apercebia que o regime estava apodrecido); e, a outra que “chorava de saudade” por um paraíso perdido, repleto de sol e bem-estar.

Aqueles que, apesar do sofrimento, foram embalados pela “canção é uma arma” não compreendiam estas divergências ou paradoxos. Aliás, quase um obstáculo epistemológico emergia desta perceção africana, cujo porvir seria o caos e a destruição, para não dizer, o inferno.

A estrada n.º 1 de Moçambique demonstrava, através das suas ruínas, aquilo que tinha sido um entreposto comercial, intercâmbio de comércio local, plantado em plena natureza do seu percurso, para não dizer, mato. À desolação visual do entreposto juntava-se a companhia de uma “teenager” que chegando à sua capital cobriu-se com uma roupa de segunda, (gasta e utilizada), já que a primeira a tornava demasiado vistosa para ser exibida em Maputo.


No tempo da “antiga senhora” não se podia entrar descalço na vila, já que se pagava imposto, de onde eram oriundos muitos desses portugueses emigrados. Mas, entrar na capital de um país, sem ser notada e disfarçada nas suas vestimentas, vindo de uma pequena vila de Moçambique para a sua capital, era sinal de que "se não te desnudas", deves vestir mal.   

domingo, 24 de novembro de 2019

EUROPOLITIQUE: A gravilha dos pequenos seixos e sua harmonia



A gravilha sonora ecoava sob os passos nas terras de Vila Morena. Relembrava-se o poder da marcha firme sobre os pequenos seixos, em que a gravilha se tornara canção da madrugada. E, o balanço do andamento dos passos entoava “Grândola, vila morena, terra de fraternidade”.  

                         A prece era pequena, a igreja -  também:


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 “A canção é uma arma"

É palavra que desarma...

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“A canção é uma arma”

De quem luta e clama

Por um ideal que chama

O amor que se incarna.

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“A canção é uma arma”.

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Obs. McLuhan chegava a Paris e lamentava-se da pequenez da viatura, ao mesmo tempo que anunciava que: "a mensagem é o meio". Por isso, aqui fica um testemunho da mensagem de outras mensagens.

sexta-feira, 22 de novembro de 2019

EUROCENTRISMO: A palavra, a escrita e o discurso (crítica)

«Um Deus que se quer único escreve ou manda que se escreva. A palavra de Deus passou a estar no livro». "O Universo num grão de areia", Mia Couto, pg. 186.


 “A palavra mata, o espírito vivifica” – esta alusão profética vem demonstrar que o Grande Mestre J. C. não escreveu, mas ensinou. Tal, como o grande filósofo Sócrates, que não imprimiu nenhum livro, no seu ofício de parteira, exerceu a função de procurar a verdade, talvez, através do conceito e da palavra. Sendo a Bíblia, o livro mais vendido do mundo, não quer dizer que a palavra do único Deus se deva unicamente à escrita. A escrita é um complemento da palavra que ecoa no coração do homem crente. Crente e na fé de um espírito atuante que imprime uma força que a palavra inscreve através do seu contato. O livro é uma inspiração para o sopro que desperta através da palavra, e essa palavra poderá ser escrita. A palavra, no sentido hebraico, tem o poder de criar algo em nós. Ela não é termo ou conceito, ela é metáfora, imagem, referência, ou seja, elemento criativo e criação de um momento de ligação com o seu representante. (Um representante, cujo nome não se pode mencionar). Porque esta palavra inicial está ligada à vida. A desnaturalização da palavra acontece no mundo grego, na conceção dualista de Platão. Nos primórdios da civilização grega, a palavra é força que domina e arrasta os seus súbditos, os seus homens, deuses e bacantes. Todavia o conceito é o elemento que une e separa ao mesmo tempo. Ex: “Eu sou italiano” – separo-me dos outros homens e animais, mas faço parte deste grupo de cidadãos, tendo os seus direitos e deveres.

domingo, 17 de novembro de 2019

EUROPOLITIQUE: Breve comentário sobre a justiça, através de Mia Couto


«O sentido da justiça é uma janela que cedo se abre para a construção da nossa relação com os outros». (1)

E, os “outros” começam com a nossa infância, nessa fase de construção lógica, que se atinge por volta dos sete anos. O reconhecimento que o nosso “ego” se relaciona com outros “egos” desenvolve-se anteriormente, (numa fase resolvida por volta por cinco anos), em que o processo de identificação atinge a sua maturidade (masculina ou feminina, assumida psicologicamente). A perceção do outro como entidade diferente, mas semelhante a nós, eleva-nos à categoria de pessoa. Ao assumirmos o nosso corpo exprimimos a nossa existência. Olhámos e vemos que existem outros corpos com a mesma dignidade que a nossa. O corpo não é um simples objeto, mas um sujeito de dignidade e identificação.

Por isso, «a justiça é o primeiro momento do encontro com o sentimento social». (2)

 Este elemento básico da justiça implica o respeito pelo outro, a identificação da sua existência, e, origina que se criem as bases da luta contra a violência própria ou alheia. Os limites básicos interiores e exteriores interiorizam-se como meta que está traçada conscientemente. Uma linha vermelha extrapola-se como ação comportamental que nos permite a identificação com o outro. Todavia, este processo não é simples intuição. É assimilação de regras de satisfação de convivência que socialmente se interiorizam e expressamos como norma social. Ontologicamente as noções de bem e mal, de certo e errado, são fruto da nossa educação.


N.B. Couto, Mia, “O Universo Num Grão de Areia” pg. 135, Ed. Caminho, Lx. 2019.

quinta-feira, 7 de novembro de 2019

EUROPOLITIQUE: O "Terrorista Elegante" nascimento e acção na escrita de Mia Couto e José Eduardo Agualusa (N.B. Segundo a "Livraria Cultura" - considerado "Crítica "- no Brasil)


Objetivo: procura-se angolano assimilado, que fala com os pássaros, “mestre em  espíritos, domador de demónios e dragões”, cuja base de treino se situa nos “scriptoria” do rio Umbeluzi; e, que se tornou um “terrorista elegante”, depois de sair da Síria, e atuar  nos palcos e nas ruas das terras do Ocidente, espalhando o terror dos seus feitiços.
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Saímos numa canoa de vela triangular, em direção à foz do rio Umbeluzi, na baía de Maputo. Deixamos o exíguo cais desta baía, que se encontra encastrado num edifício ministerial, que dizem que foi construído por presos chineses. Mais à frente, e, em plena e tranquila enseada, reluz a mais recente joia de Maputo, a ponte de Katembe, que do reino dos “tembes” faz parte da sua história.
A ponte suspensa, grandiosa obra chinesa, que se não é dádiva e resgate do seu investimento, ou, qualquer consórcio afim da China, alimenta-se como fruto de um outro consórcio de bancos de Moçambique, para orgulho nacional. A baía do Espírito Santo tem quatro rios: Matola, Infulene, Umbeluzi e Tembe, esquecido fica o rio de Maputo, junto ao mar. Mas, Katembe, diariamente, enamora-se com a sua luzidia ponte, que de noite acena com as suas duas torres ou pilares, assinalando aos visitantes, que nas suas imensas praias estão extensos areais.
Se, a economia do estado moçambicano ronda o “produto interno alentejano”, segundo certas análises pouco credíveis, da mesma forma se sublinha que outros “indígenas” tenham dificuldades em construir um cais marítimo, em Sines. Todavia, qualquer leigo em economia dirá que a grandiosidade desta imponente ponte, cujo custo ronda os 700 milhões de dólares, é um brilharete para gáudio de Maputo, digno cartão de visitas da sua geométrica capital. 
As longas ruas, “a régua e esquadro”, de Maputo não configuram as curvas e meandros da sua baía, que se espraia por terra e mar, e, calmamente se serpenteiam pelas águas quentes do Índico. Mas, na sua imensidão navega uma pequena noz, com a sua branca vela triangular, perdida e acariciada pelos ventos e marés de tranquila bonomia, ruma em direcção à base de treino do "Terrorista Elegante".

A "canoa de vela erguida" navega em direção ao estuário do rio Umbeluzi, ao fundo da baía de Maputo, esquecendo-se destas maravilhas diplomáticas chinesas, para ancorar na estreita e apertada curva do bairro “Belo Horizonte”, avistando o “famoso alpendre”, cujo negro colmo cobre o seu teto e abafa a alvura da casa, rodeada de suaves tons de verde-escuro. Os verdes bambus e muros impedem qualquer passagem para o seu interior. Se não é um fortim, é uma forte em cujas ameias se avista a doce curvatura do rio Umbeluzi.
O rio corre em suaves meandros. É, lá que queremos encontrar o “Terrorista Elegante”, que dois célebres escritores ocultaram numa caverna, gruta, ou, mansão; durante quinze dias. Enclausurados no silêncio da escrita encontraram a solidão necessária para tão explosiva violência. Manipularam as suas mãos, que em vez de quatro mãos são duas, que sendo dois autores é só um terceiro – ou seja, talvez, um terrorista - e, que dizendo ser um único autor foram dois escritores, ao mesmo tempo.
Tal duplicidade de ação e profissão, embora faça lembrar o “Homem Duplicado” de Saramago, implica que não aconteça algum trocadilho que transforme o T. E. (Terrorista Elegante) em E.T. (Extra Terrestre), vindo da selva africana, e fugindo da sua territorialidade. Já que foi lá, naquele fatídico lugar, que nasceu o terrível “Terrorista Elegante”, cujo local de nascimento teve como parto duas parteiras de quatro mãos. 
Para logro público dizem que ele é angolano, que fala com os pássaros, gosta de gravatas e coisas caras, sobretudo, mulheres, mas não passa de um inocente charlatão. Até à Síria viajou, comeu e copulou, e seu passaporte corre risco de morte. Morte ao Ocidente. Morte aos pagãos, cristãos ou ateus. Pois Alá está do lado de cá, dos bons e perfeitos, pois ele é grande; e não a América. Da riqueza nasce a ganância, cuja mãe virtuosa é Africa, e, Angola faz parte. O Ocidente que se cure da sua própria doença, porque quem manda é o salvífico Oriente. O estado de terror alia-se ao terror de Estado, mas exibir em palco esta tragédia é fazer comédia com os americanos. Que venha um rambo para desbaratar esta triste figura de “terrorista elegante” da sua paranóia. Por isso, talvez, não convenha espalhar esta história cómica na angústia e tragédia da humanidade.

Subitamente dos meandros do rio Umbeluzi, que serpenteiam Belo Horizonte, uma chuva de aves e pássaros abeiram-se da canoa e dizem: “vade retro satana”, porque este peixe, não é para a tua cana. 

A nuvem espalhou-se pelas encostas e suas ilhas verdes evocando os rápidos e velozes "raids" dos "Homens do Norte" que ainda persistem e perduram nos estuários dos rios e no assalto aos conventos, enquanto no coro dos copistas medievais ecoa em oração: “Livrai-nos, Senhor, do terror...” – gritam monges. Ao mesmo tempo, esconjuram os invasores dos seus escritórios (scriptoria), esses vândalos que invadem os nossos territórios - "Livrai-nos..."

«Livrai-nos, Senhor, do terror destes autores»

«Livrai-nos, Senhor, do pecado da sua escrita»
«Livrai-nos, Senhor, da escrita pedante e do “terrorista elegante”».

EUROPOLITIQUE: Recordando "Platero y Yo" ....Juan Ramón Jiménez

  Na minha tenra idade escutava os poemas de “ Platero y yo” , com uma avidez e candura própria da inocente e singela juventude, que era o ...